O Brasil em Nick Cave

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Nick & Viv.

No início de 1993 fui até a Santa Efigênia, em São Paulo, buscar uns equipamentos para a emissora de TV em que trabalhava. Estava com meu chefe Ginel Flores. Andando por ali, parei num camelô que vendia CDs e encontrei o “Henry´s Dream”, do Nick Cave – que eu não conhecia, só tinha ouvido falar. O camelô abriu um sorriso e disse:

– Eu tinha uma loja na Galeria do Rock e esse cara não sai de lá, ele mora aqui na Vila Mariana. Ele não fala português e o pessoal lá zoa ele, chama ele de Chitãozinho.

O apelido era por causa do cabelo do músico, parecido com o do sertanejo, repicado em cima e com mullets gigantes.

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– Nick Cave mora em Sampa?

Foi quando fiquei sabendo.

Levei o CD, que é um dos meus preferidos dele até hoje. Depois comprei tudo, li o que pude sobre ele, e fiquei atento.

Em meados de 1989 era impossível ficar incólume a Chitãozinho e Xororó. A dupla estava em todos os programas de TV, tocava incessantemente no rádio, podia ser vista em outdoors de propaganda de seus shows e, para quem vinha do exterior, parecia representar uma unanimidade nacional. Foi quando Nick Cave chegou ao país para morar com Viviane Carneiro, que tinha conhecido um ano antes, quando os Bad Seeds vieram tocar aqui. Ela estava grávida e Nick se desintoxicando de heroína – acharam que viver no Brasil seria bom para o processo. O jornalista Pedro Alexandre Sanches diz que o casal morou na Vila Madalena, mas um cara, numa fila de cinema em SP, me disse que foi vizinho de Nick em Vila Mariana, corroborando o camelô.

Era dezembro de 2000 e eu estava em SP visitando um amigo com minha filha Isabelle, então com oito anos. Fomos ver Fuga das Galinhas em um cinema de rua, não me lembro qual, tínhamos entrado em uma loja de discos antes, eu tinha comprado alguns, e na fila dos ingressos, tirei o “The Boatman´s Call” da sacolinha para dar uma olhada. Um cara, mais ou menos da minha idade, com um garoto de uns dez anos, olhou para o disco por cima dos meus ombros e disse:

– Fui vizinho dele, fomos pais mais ou menos na mesma época, vivíamos conversando sobre paternidade e tal…

Infelizmente, a fila andou rápido e não pude falar mais com o sujeito. Me lembro só de ele ter dito que Nick ficava muito em casa e gostava de entrar em igrejas para ver os cultos, às vezes Viviane ia junto, achava que era evangélica. “Meio doida, mas evangélica”.

Aparentemente, a rotina de Nick era discreta, alternando idas à Galeria do Rock, a pé, parando em botecos no caminho, onde apreciava os salgados e cervejas Antarctica – quando foi assaltado duas ou três vezes (não guarda ressentimentos); em casa escrevendo e cuidando do filho, Luke; e, eventualmente, indo a casas noturnas, como o Espaço Retrô.

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Nick usou alguns desses lugares que conheceu, assim como prostitutas, travestis e gente da noite paulistana no videoclipe de “Do You Love Me”, rodado aqui.

Ele gravou “The Good Son” no Cardan Studios, em São Paulo, em 1989, o disco foi lançado no ano seguinte. A faixa de abertura é “Foi na Cruz”, assim mesmo, em português, com trechos do clássico cristão de mesmo nome, de Luiz de Carvalho, gravado em 1958, no primeiro disco gospel brasileiro, muito tocada em cultos da Assembléia de Deus. Ouça:

“The Good Son” tem outras canções de inspiração “tradicional” ou folclórica. Há tempos Nick vinha reescrevendo coisas assim. “The Good Son”, a canção, por exemplo, é baseada num spiritual chamado “Another Man Gone Done” e “The Witness Song” tem base num gospel chamado “Who Will be a Witness”. No período que Nick passou no Brasil, ele escreveu muito material desse tipo, que seria gravado em discos seguintes. Por exemplo, “When I First Came to Town”, de “Henry´s Dream”, é decalcado da canção tradicional “Kathy Cruel”; “Stagger Lee”, “Henry Lee” e “Crown Jane”, de “Murder Ballads” são quase versões literais de canções tradicionais. Esse disco tem uma cover de Bob Dylan e algumas pessoas entendem que o disco anterior de Nick, “Let Love In”, foi quase todo inspirado em canções de Dylan – tese na qual acredito.

O fato é que Nick fez uma versão para “Fio de Cabelo”, de Chitãozinho & Xororó. Ele gostou da ideia da canção e a reescreveu, dando o nome de “Black Hair”, gravada no disco “The Boatman´s Call”.

“The Boatman´s Call” é um disco com muita homenagem, reescrita e chupação. Por exemplo, fã de Leonard Cohen e de Lou Reed”, Nick começa “There is a Kingdom” com a frase “Just like a bird” emulando Cohen em “Bird on the Wire” e com uma melodia simplesmente chupada de “Perfect Day”, de Reed. Interessante que Nick diz que esse disco o remete a Viviane Carneiro tanto quanto a PJ Harvey, com quem ele teve um namoro e de quem levou um PNB.

Muita gente acha que o disco seguinte, “No More Shall We Part”, é uma espécie de continuação de “The Boatman´s Call”, mas, na verdade, o disco marca uma guinada e aponta para uma nova fase da carreira de Nick, com letras mais elaboradas, distância das canções tradicionais, autenticidade, originalidade. “No More…” é o décimo-primeiro disco de Nick, gravado quatro anos depois do anterior.

Depois tudo ficou ainda mais interessante. images

Voltando um pouco, Nick ficou por aqui entre fins de 1989 e 1993, voltando duas ou três vezes e, depois, levando Viviane e o filho Luke para Londres. Separaram-se, Viviane é psicoterapeuta lá e Luke é casado com uma jornalista esportiva.

Em 1994, Nick deu uma entrevista para a Hypno Mag onde não falou exatamente bem do país. Deve ser por isso que demorou quase 30 anos para voltar.

Mesmo que as coisas não tenham mudado muito por aqui.

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Nick & Luke.

UPDATE: doc interessante com imagens de Nick em SP, indicado nos comentários por César 🙂

 

 

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50 anos da morte de RFK – vem um filme por aí

Em 5 de janeiro de 1968, Aristóteles Onassis telefonou para o jornalista Peter Evans oferecendo um contrato para que ele escrevesse a sua história. Ganhar uma boa grana para contar a vida do milionário mais famoso do mundo, uma história recheada de intrigas, sexo e política era tudo o que um escritor podia querer. Assim, Evans teve acesso ao universo de Onassis, acompanhando com atenção, inclusive, o casamento dele com Jacqueline Kennedy dia 20 de janeiro do mesmo ano. Mas Onassis cancelou o projeto, só retomando o contato com Evans em 1974. Era outra figura: o casamento com Jackie tinha acabado (ele chegara à conclusão que ela tinha dado um golpe), seu filho tinha morrido num estranho acidente de avião (podia ter sido uma sabotagem), sua ex-mulher tinha se matado (ou sido morta pelo marido, seu ex-cunhado), sua filha vivia em um estado de depressão, os negócios andavam mal e ele sofria de uma doença autoimune, miastenia grave, e mal conseguia falar. Ele estava também paranoico, falando em conspirações, e Evans fez algumas entrevistas complicadas com o milionário até que ele morresse meses depois.

“Ari: The Life and Times of Aristotle Socrates Onassis” saiu em 1986 e consolidou o mito do “grego dourado”. Foi vendido para a TV, virou minissérie premiada, com Raul Julia fazendo Ari, e Evans ficou rico.

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Porém, em 1988, o advogado grego Yannis Georgakis, amigo e conselheiro de Onassis durante toda a vida, disse a Evans que o livro era bom, mas que “faltava a história real”. O escritor devia se ater às circunstâncias do casamento entre Ari e Jackie e também sobre a morte de Bobby Kennedy. Não seria, porém, Georgakis quem iria contar os meandros da história, o escritor devia pesquisar. Evans podia deixar isso pra lá, já estava com a vida ganha, mas decidiu bater um papo com Christina, a filha. Eles almoçaram, ela estava infeliz, como sempre, disse que não tinha lido a biografia do pai pois tinha medo do que podia descobrir. Evans disse que gostaria que ela lesse, pois estava pensando em escrever mais sobre ele, talvez escrever até mesmo a biografia dela.

Cinco meses depois, ela ligou dizendo que tinha lido e queria discutir o livro com ele. Eles almoçaram em Paris, mas ela não parecia muito bem. Entre outras coisas, confessou que tinha acabado de refazer seu testamento – pelo oitava vez. Sua filha, Athina, estava com quatro anos, ela amava seu marido – que, ela sabia, a traia -, e disse que o pai, quando odiava, “não poupava ninguém”. Marcaram um café para o dia seguinte e, depois de fazer Evans jurar sigilo sobre o que ela ia contar, finalmente ofereceu o ponto de partida sobre o que estava faltando na biografia do pai: Onassis pagou a um terrorista palestino, Mahmoud Hamshari, uma taxa de proteção para sua empresa, a Olympic Airways, para que não ocorressem atentados terroristas em seus aviões – e, mais tarde, Onassis descobriu que parte desse dinheiro foi usado para financiar o assassinato de Robert Kennedy.

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Como a morte de Robert abriu caminho para que Onassis se casasse com Jackie – um casamento que Bobby tinha jurado que só aconteceria por cima de seu cadáver – podia ser que Onassis não “tivesse descoberto” o financiamento, mas sim tivesse deliberadamente financiado a morte de Bobby.

Estupefato, Evans disse que ia investigar e que não publicaria nada sem o consentimento de Christina. Três semanas depois, Christina foi encontrada morta em sua banheira em Buenos Aires. Aparente suicídio. Ela já tinha tentado antes. Mas como seu corpo fora retirado da banheira e colocado na cama, mudando a cena da morte, não podiam determinar com clareza. A polícia, os médicos, a imprensa, tudo virou uma confusão na suíte do Tortugas Country Club onde estava hospedada. Depois de examinarem o corpo, os médicos legistas queriam fazer uma autópsia, que foi negada, impedindo que se soubesse de fato do que ela morrera.

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Chocado, Evans começou um cauteloso levantamento de dados. Quase cinco anos depois, falou novamente com o velho Georgakis que disse que Robert Kennedy era um problema não resolvido há tempos para Onassis e que, sim, o amigo podia ter financiado o assassinato.

A conclusão da pesquisa de Evans está em “Nêmesis – Onassis, Jackie O. e o Triângulo Amoroso que derrubou os Kennedy” (Intrínseca), que está sendo adaptado para o cinema – e bem que o Scorsese podia estar à frente desse projeto.

O fato é que todos sabem quem matou JFK, mas ninguém se lembra do assassino de Bobby. O palestino Sirhan Bishara Sirhan trabalhava na cozinha do Ambassador Hotel de Los Angeles e não tinha ligações com organizações terroristas – na verdade, era considerado um jovem calmo, solícito e amável. A comitiva de Kennedy estava circulando pelo hall, Kennedy estava falando com alguns funcionários do hotel, quando Sirhan caminhou lentamente até ele, sacou um revolver calibre .22 e descarregou a arma. Bobby tinha dispensado os seguranças naquele dia pois o local era apertado e havia muitos ativistas pela paz na Califórnia – não queria parecer amendrontado ou inseguro. Depois dos disparos, Sirhan ficou calmo e parecia não saber o que estava acontecendo. Quem estava no staff de Bobby e ajudou a segurar o assassino foi o jornalista George Plimpton. Outras cinco pessoas foram atingidas pelos disparos. A cantora e tia de George Clooney, Rosemary Clooney, também estava lá com Bobby e quase foi atingida.

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Sirhan é preso.

Aos policiais, Sirhan disse que não sabia o que tinha feito. Não se lembrava. Continua com essa versão até hoje: ele está preso em Corcoran, na Califórnia, onde estava Charles Manson. Cumpre perpétua, depois que foi cancelada sua execução. Um dos motivos do cancelamento foi a convicção plena de Sirhan de que não tinha cometido o crime que todos viram ele cometer. Recentemente, foi negado seu 15º pedido de liberdade e a história se complica neste caso de 50 anos com um segundo atirador colocado na cena do crime. Mas isso é outra história.

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Sirhan hoje, alegando não se lembrar do crime.

Onassis odiava RFK desde muito antes da intenção de casamento com Jackie. Quando era procurador-geral, RFK praticamente banira Onassis dos EUA. RFK também tinha tretado com outros amigos de Ari, perseguia Jimmy Hoffa, presidente do sindicato dos caminhoneiros que também mandava no sindicato dos estivadores, com quem Onassis tinha negócios que ajudavam na movimentação de cargas de seus navios. Mas foi um caso prosaico que fez com que Ari mirasse toda sua raiva no irmão do presidente.

Spyros Skouras foi o grego que inventou Hollywood, um nome esquecido hoje. Em 1935 ele arquitetou a fusão da Fox com a Twentieth Century para criar uma das empresas mais famosas do mundo. Em 1962, com 73 anos, Skouras estava com dois filmes problemáticos em andamento.

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“Cleópatra” entrava em seu 33º mês de produção e já tinha consumido 30 milhões de dólares – cerca de 435 milhões em dinheiro de hoje. Skouras e o estúdio estavam à beira de um colapso, quando o grego recebe um telefonema do procurador-geral RFK pedindo para que Skouras fizesse preparativos no set de “Cleópatra”, em Roma, para receber a visita de seis amigos dele. E ainda exigia que os amigos fossem entretidos no almoço por Elizabeth Taylor. Skouras mandou RFK se foder e o irmão do presidente jurou que o grego ia desejar nunca ter vindo para os EUA.

O outro filme com problemas era “Something´s Got to Give”, estrelado por Marilyn Monroe que não aparecia nas filmagens e estava tendo um caso com os dois Kennedys.

Possivelmente, Skouras estava enciumado também, não era apenas a questão do filme: o grego não apenas tinha sido amante de Marilyn, mas também a tinha descoberto e sugerido a mudança de nome de Norma Jean para Marilyn Monroe. Ambos mantinham uma relação meio incestuosa; ela o tratava por Papa e ela a tratava por “filha maravilhosa”.

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Filhinha e papai

Não bastasse isso, Marylin foi convidada para cantar na festa de aniversário de 45 anos do presidente, mas dependia da liberação do estúdio. Skouras não permitiu – tinha um filme a ser feito e ele não gostava dos Kennedy. Mesmo sem a liberação, um helicóptero pousou na Fox na tarde de quinta-feira, 17 de maio, com o ator Peter Lawford, marido da irmã dos Kennedy, e praticamente sequestrou Marilyn para o evento de aniversário – deixando Skouras completamente puto.

Skouras era muito amigo de Onassis. E o amigo era solidário ao seu sentimento de vingança.

Surge então uma jovem maluquinha na história. Lee Radziwill tinha acabado de se casar com um príncipe, Stanislas Radziwill, da Ucrânia – ou algo assim. Era seu segundo casamento e conheceu Onassis de quem, rapidamente se tornou amante. Onassis também era amante de Maria Callas na ocasião. Lee também era amante de John Kennedy. E, ah, era irmã de Jacqueline Kennedy. Sim: John comia a cunhada – e fazia tempo.

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Jackie & Lee

Jackie vivia sua quarta gravidez, tida como arriscada, ela já perdera um bebê, e estava magoada com o marido, com Marilyn cantando no aniversário dele e não aguentou quando JFK foi convidado para uma viagem à Europa e chamou a cunhada para acompanha-lo. O convite foi um pouco para tirar Lee das garras de Onassis, mas também porque JFK queria levar uma marmita. Foi quando Bobby ligou para o grego exigindo que ele parasse de se encontrar com Lee. Onassis respondeu: “Bobby, você e Jack trepam com sua rainha do cinema, eu vou trepar com a minha princesa”.

Pouco tempo depois, Marilyn estava morta. Hoje já se sabe que Bobby e Lawford estiveram com a atriz na casa dela na tarde de 4 de agosto, saíram possivelmente antes das 18h, e ela foi “encontrada morta” muito mais tarde, mas essa é outra história.

Acontece que logo depois nasce Patrick, o filho de Jackie e John, mas ele só vive por um dia e meio. Ele é enterrado, a nação se comove. Vivendo seu luto triste – não apenas pelo filho morto, mas pelo fim iminente do casamento – Jackie recebe um convite para passar uns dias no iate de Onassis. Foi a irmã quem convidou, ela aceitou.

JFK e o irmão ficaram possessos, o que fez Jackie ficar ainda mais convicta da viagem. Como escreve Peter Evans, “era hora de dar o troco”.

Bobby ligou novamente para Onassis. Dessa vez mais calmo, disse que ele e o irmão não iam colocar objeções no caso dele com Lee, mas que desistisse do cruzeiro com a primeira-dama. Quando contava essa história, Onassis sempre lembrava que, no momento do telefonema de Bobby, ele estava recebendo um boquete de Manuela, sua prostituta preferida. Onassis rechaçou o pedido de Bobby: “Garoto, você não me assusta, já fui ameaçado por especialistas”. No que Bobby explodiu: “O que ocorreu no passado, seu grego filho da puta, não é nada comparado com o que está por vir”.

Jackie foi para o cruzeiro e fez amor com Onassis na terceira noite.

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Onassis ajuda Jackie durante o luto do filho.

Na volta aos EUA, ela tinha que excursionar com o marido para a campanha de reeleição presidencial, eles dormiam em quartos separados. Era tudo uma encenação. Três meses e meio depois do enterro de Patrick, JFK era assassinado em Dallas.

Durante os preparativos para o funeral, seis pessoas foram convidadas para se hospedar na Casa Branca. Uma delas era… Aristóteles Onassis, a convite de Jackie e Lee. Segundo Evans, a presença de Onassis seria uma maneira de Jackie dizer aos Kennedy que ela já não esperava ser tratada “apenas como uma coisa”. O encontro de Bobby e Ari na Casa Branca, às vésperas do enterro de JFK, daria, só ele, um filme fantástico. Estavam todos devastados pelo assassinato e meio loucos de pílulas, álcool e cansaço. Mas é claro que Bobby estava com vergonha, raiva e frustrado por ter que falar com o rival, o homem que tinha chifrado seu irmão.

Enquanto a nação chorava e Jackie encenava um luto necessário, Onassis voltou para seus negócios e se preparava para casar com Jackie. Ele ainda amava Callas, mas queria se casar com Jackie – era bom para sua imagem, para os negócios, e ela o excitava. O que ninguém esperava era que Jackie iniciasse um caso com… Bobby Kennedy!

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Cunhados e amantes.

É claro que Onassis sabia – ele sabia de tudo. Também instalou um detector de mentiras em seu telefone e acreditava no objeto. Assim, confirmou que Jackie estava se divertindo com várias companhias em Nova Iorque, estava “tirando o atraso”. Já não era santa quando estava casada, teve ao menos um caso notório, com William Holden, mas nos últimos dois ou três anos, alternando com Onassis, tivera ao menos meia dúzia de homens fixos.

Os negócios não iam bem e Onassis decidiu apressar o casamento. Jackie estava chegando aos 40 anos e o casamento ia fazer com que perdesse a pensão de JFK, então o contrato com o grego tinha que ser bom. Bobby não aceitava de maneira alguma. Até que apareceu Hamshari e sua proposta de proteção da companhia aérea de ataques palestinos e a lembrança de uma conversa que Onassis tivera com um amigo sobre um médico que utilizava hipnose e um filme polêmico feito pouco antes do assassinato de JFK…

O médico era William Joseph Bryan Jr. Ele havia sido consultor sobre hipnose no filme “Sob o Domínio do Mal” (The Manchurian Candidate, Frankenheimer, 1962). O filme mostra como um soldado americano capturado na Coréia é programado mentalmente para assassinar o presidente dos EUA. É certo que Hamshari esteve com o dr. Bryan. E há evidências que Sirhan também viu o dr. Bryan. E hoje sabe-se que o dr. Bryan trabalhara no projeto MKULTRA, da CIA, que estudava o controle mental.

Em 1968, pouco antes da morte de RFK e do casamento com Jackie, Onassis visitou o dr. Bryan em Las Vegas para uma sessão onde procurava curar sua insônia.

Agora, é esperar o filme que estão fazendo sobre tudo isso.

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Tô pasmo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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The Post & arredores reais do filme de Spielberg

Em 1976, Pakula dirigiu o filme “Todos os Homens do Presidente” dando as caras de Dustin Hoffman e de Robert Redford para os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward e de Jason Robarts para o editor-chefe Ben Bradlee, criando um The Washington Post incrível, um jornal tremendamente combativo. A imagem que temos do The Post é essa; toda uma geração do auge do jornalismo impresso pensa sempre no jornal com essa ideia romântica desses caras e desse ambiente de trabalho foda.

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Sim, essa foi a matéria que colocou o jornal no cenário e, agora, Spielberg dá um passo atrás para contar o que aconteceu antes de Watergate. O foco do filme é a viúva do dono do jornal, Katharine, que não aparece no filme de Pakula, mas teria sido essencial para que o jornal afrontasse o governo. O marido de Katharine, Phil, não aparece no filme de Pakula nem no de Spielberg, onde é levemente citado. Vamos falar um pouco sobre ele e sua época como presidente do The Washington Post.

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Phil Graham e John Kennedy estiveram no exército durante a segunda guerra. Depois, Phil já à frente do The Washington Post, ficaram grandes amigos. Phil ajudou o JFK na política e já estava casado há vinte anos com Katharine quando o amigo venceu as eleições presidenciais. Phil e próximos do presidente conheciam bem suas virtudes e problemas – patriotismo e mulheres, respectivamente. Os amigos, porém, acreditavam que a responsabilidade do novo desafio ia fazer crescer a virtude e afastar os problemas. Aconteceu o contrário mas isso, aos olhos de seu staff, não foi um mau negócio: a popularidade do presidente vinha crescendo, seu carisma o aproximava de todos, o homem era um imã, e as mulheres vinham e iam facilmente, sem causar problemas. Às vezes, até sobrava uma ou outra para os amigos. Até que aconteceu Marilyn.

E a Guerra do Vietnã, que o presidente iniciou com apoio da mídia, inclusive do amigo Phil.

Foram dois anos complexos, do início da guerra até a morte de Marilyn – e de Kennedy, na sequência. Foram dois anos que provocaram a necessidade de um reboot na história dos EUA, o que o jornalista François Forestier chamou de “a grande limpeza” em seu livro “Marilyn e JFK”.

Logo após a inexplicável mas anunciada morte de Marilyn, Phil deixa a esposa e assume o romance com a jovem jornalista Robin Webb, da Newsweek. Talvez prevendo que algo ruim pudesse acontecer a ele por conta de tudo o que sabia – a conivência com a gestão Kennedy, os pedidos do presidente para que o Post não escrevesse sobre a guerra, os planos dos Kennedy para matar Diem e Fidel -,  Phil aceita o convite para um seminário da Associated Press em Phoenix, Arizona, onde pretende fazer um discurso devastador. Fecha-se por dois dias no quarto do hotel com Robin preparando o discurso – mas consome doze garrafas de champanhe no período e alguns comprimidos.

Quando chega ao evento, antes mesmo de chegar o seu momento de falar, sobe ao palco e começa a atacar o público. Ele está fora de si. Chama os jornalistas de “imbecis sujos e inúteis”. Depois de vociferar um pouco sem sentido, mira a Casa Branca: “Por que ninguém nunca solta a informação? JFK passa o tempo trepando! Não tem um só que diga isso! Vocês não tem colhões? São uns merdas!”. Diz, ainda, que o presidente, seu amigo, faz orgias na piscina e que “está comendo uma amiga minha, uma ótima artista chamada Mary Pinchot Meyer”. Depois que Marilyn se foi, ele diz que essa é a nova favorita do presidente.

Phil fala mais uns minutos e, inesperadamente, arranca a própria roupa.

Tiram-no do palco.

Ainda segundo Forestier, informado sobre o incidente, JFK envia um avião da presidência para transportar o louco. Ben Bradlee, fiel a Kennedy e ao patrão, vai ajudar.

Depois de um tempo trancafiado em um hospital psiquiátrico, Phil rompe com Robin, pede desculpas à Katharine e volta para casa. Pouco tempo depois, na véspera do aniversário de um ano da morte de Marilyn, Phil coloca um disco de Beethoven, entra no banheiro de casa, senta-se na beira da banheira e dá um tiro no queixo com um rifle de caça, calibre 28. Forestier diz que ele fez isso para não sujar o quarto – “ele era muito cuidadoso”. Bradlee estava lá para ajudar a viúva Kay.

Não há fotos de Graham na conferência da imprensa, nem com Robin, tudo foi apagado a pedido de Ben Bradlee.

Uma onda de “apagamento” da relação Kennedys-Marilyn havia acabado de acontecer, segundo o jornalista Anthony Summers no seu relato biográfico de Marilyn. O FBI foi a todas as agências fotográficas e confiscaram fotos, o Washington Post entregou as fotos que tinha. Um executivo do Globe contou que os homens apareceram e disseram que estavam “colhendo material para a biblioteca presidencial. Pediram para ver tudo o que tínhamos sobre Monroe. […] mais tarde descobrimos que tinham levado tudo o que tínhamos, até os negativos”. É incrível que Marilyn e os Kennedy, com os Lawford e Sinatra, tenham estado em tantas festas, com tantos fotógrafos paparazzi em cima deles e não existam fotos! Forestier conta que uma única foto de John com Marilyn se salvou: a que está na capa do livro que ele escreveu, feita no dia do aniversário de John, quando Marilyn cantou o fatídico e sensual “Happy Birthday” para ele.

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Um ano depois da morte de Marilyn e logo depois da morte de Phil, JFK decide visitar várias cidades do país para testar sua popularidade e preparar sua reeleição. O casamento ia mal, Jackie ficou puta com a exposição que a morte de Marilyn deu ao caso deles, ela tem se encontrado com Onassis, John tem um boneco vodu do armador grego – não é figura de linguagem: JFK tem mesmo um boneco de vodu de Onassis. John e Jackie viajam juntos, mas dormem em quartos separados.

Antes de Dallas, John deve ir a Chicago, mas a viagem é cancelada por causa de uma denúncia de atentado. Thomas Artur Vallee, ex-fuzileiro com distúrbios mentais, é preso com um fuzil com mira telescópica no último andar de um depósito, na trilha do caminho que o cortejo presidencial deveria percorrer. Preso, ele diz: “sou apenas uma isca”.

JFK é morto em Dallas em 22 de novembro de 1963. Lee Harvey Oswald é preso e diz: “sou apenas uma isca”.

Não houve tempo para Oswald dizer mais: foi morto dois dias depois pelo mafioso Jack Ruby. Preso, julgado, Jack teve pena de morte, apelou mas morreu de câncer de pulmão em 1967 sem explicar o que o teria motivado o crime. Mas deu uma série de entrevistas para uma jornalista, Dorotthy Kilgallen, que preparava uma longa matéria e, quem sabe, um livro, com a história bombástica.

Um ano depois da morte de Kennedy, sua ex-namorada, alardeada por Phil Graham como a “nova preferida” depois de Marilyn, Mary Pinchot Meyer, enquanto caminhava por Georgetown, recebe um tiro na cabeça, por trás, e outro na homoplata enquanto cai. Coisa de profissional. Um negro foi preso, dizendo que era apenas uma isca, e o crime é considerado não solucionado até hoje.

Mary Pinchot era irmã de Tony Pinchot que era casada com Ben Bradlee, editor chefe do Washington Post, o chupa-saco de Phil, o amigão de Kennedy.

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Ben Bradlee, Jackie, Tony Pinchot, JFK

Segundo Forestier, Tony e Ben vão à casa de Mary para arrumar as coisas depois da morte dela e encontram James J. Angleton, número dois da CIA, vasculhando cartas, papéis e documentos. O agente tinha simplesmente arrombado a casa e pede que nada seja divulgado no The Washington Post. Bradley não só foi omisso como escondeu, ele mesmo, um diário da cunhada. Separou-se de Tony pouco mais de dez anos depois, casando com uma jornalista vinte anos mais jovem. Em sua biografia, tenta um mea-culpa e diz que o Post fez várias matérias sobre a morte da cunhada. É verdade, mas uns vinte anos depois apenas.

Três anos após a morte de Marilyn, a jornalista Dorothy Kilgallen morre exatamente igual à atriz, misturando álcool e barbitúricos (sic). Kilgallen tinha feito aquela série de entrevistas com Jack Ruby e preparava a matéria e o livro, que nunca apareceram.

Robert Kennedy, em campanha presidencial em 1968, estava no Ambassador Hotel, em Los Angeles, quando um palestino, calma e tranquilamente, saiu da cozinha do hotel e foi ao seu encontro com um revólver, crivando-o de balas. Uma morte bem besta para quem combateu a máfia, tinha um séquito de seguranças e teve o irmão assassinado.

Possivelmente, o fim da “limpeza geral”.

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Spielberg e Ben Bradlee era vizinhos em Long Island. Ambos eram, claro, fãs do filme de Pakula e Spielberg teve a ideia de fazer um filme que se conectasse com “Todos os Homens do Presidente” e homenageasse o amigo. A cena final de “The Post” é a cena inicial do filme de Pakula sobre Watergate.

Fim de The Post

cena final do filme de Spielberg é idêntica à inicial do filme de Pakula

No final, no meu entender, “The Post” é um filme sobre um jornal conivente com o governo até que o presidente que eles acobertavam morre assassinado e o dono do jornal se mata, possivelmente pela pressão de saber um monte de merda oficial, aquela bem fedorenta. Aí a esposa do dono (que era uma dondoca e se torna a mulher mais influente do país) e o chefe de redação (que era um pau mandado), depois de tomar um furo homérico do jornal concorrente, decidem correr atrás do prejuízo para que o jornal não fique ainda mais desvalorizado. Quase dez anos antes dos chamados Pentagon Papers os principais jornais americanos cobriam a Guerra do Vietnã com repórteres em campo, mas o The Washington Post parecia preferir o jornalismo de gabinete, com informações oficiais.

Bem, Lyndon Johnson vinha fazendo muita merda e era fácil criticar um vice que assume e, depois, Nixon era um bom alvo, republicano, anti-democrata, anti-Kennedy, velho, feio, recalcado; aconteceu Watergate, obra de um denunciante que seria amigo de Ben Bradlee, e da obstinação dos dois repórteres meio hippies que estavam por ali. Quase um acidente que botou os holofotes sobre o Post como “o jornal que derrubou um presidente”.

Eles podiam ter feito isso antes, caso quisessem.

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em música, o novo é sempre ruim

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais – Belchior

Quando surgiu, João Gilberto dividiu opiniões. Para boa parte dos apreciadores de música popular, ele não cantava nada. Aquela voz miúda, aquele batuque no violão… Aquilo era só uma modinha que logo ia passar. Bom mesmo era Ataulfo Alves, Francisco Alves, Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Ivon Cury, Elizeth Cardoso… Mas João era uma novidade e conseguiu espaço na mídia – no rádio, especialmente forte na época -, pois a mídia precisa sempre de novidades para chamar a atenção e provocar reações.

Depois, com a bossa nova se firmando a partir de João, apareceu outra novidade, o rock de Roberto Carlos e Cely Campelo, entre outros, e a música e figuras estranhas de Tim Maia e Raul Seixas, que desagradavam os pais de adolescentes que já estavam se acostumando com egressos mais avançados da bossa, como Nara, Elis e mesmo Chico Buarque (“você não gosta de mim, mas sua filha gosta”). Os fenômenos tinham espaço na TV, que se popularizava, pois, como disse, eram novidades e a mídia é como o circo, precisa sempre de um número novo, chamativo, atrativo, polêmico.

Depois…

Depois, eu me lembro do Programa Flávio Cavalcanti, que assistia com meus avós e com meus pais, esperando para ver o apresentador apresentar a nova atração bizarra da música, espinafrar e quebrar seus discos. Meus avós achavam uma delícia a espinafração. Meus pais achavam meio constrangedor. Eu geralmente ficava muito interessado em ouvir mais daquele artista que os velhos acham ruim – se os velhos achavam ruim devia ser mesmo muito legal.

Depois, meus avós assistiam ao Festa Baile com Agnaldo Rayol e eu assistia também, achando chato.

Agnaldo Rayol

Hoje, a gente vê alguns artistas como Ney Matogrosso e Milton Nascimento entronizados na MPB e acha que apareceram com essa moral. Mas não foi assim: o espalhafatoso Ney era apresentado com deboche e visto como bizarrice, gay e excêntrico, inclassificável; Milton era um mineiro (é carioca, na verdade, mas…) negro e de voz fina, de figura também excêntrica e muito diferente para o padrão da MPB da época, quase um anti-João Gilberto.

O que quero dizer é que as gerações sempre acham que o gosto médio delas é o norteador e sempre melhor que a novidade. Há uma resistência em todos pela novidade. E a mídia usa a novidade para angariar o público dividido: uns vão amar, outros detestar; essa polêmica gera audiência – que é do que vive a mídia.

Isso, falando em termos de Brasil, mas basta dar uma olhada na música internacional para ver que as ondas de novidade geracional são ainda mais divisórias.

Em 2012, o presidente Barack Obama prestou uma homenagem ao Led Zeppelin com um evento na Casa Branca. Quando apareceu com seu blues eletrificado, rápido e de alta potência, o Led era uma banda tão estranha, tão incrivelmente barulhenta, que até os fãs das bandas de origem do Led, o Cream e o Yadbirds, estranharam. O sucesso veio por conta da estranheza e novidade, confundindo os amantes do rock psicodélico e do rock pesado. O mesmo aconteceu com o punk, com o pós-punk, com a new age, com o grunge, etc… Sessentões, hoje, acham que rock é Beatles e Rolling Stones. Cinquentões amam o Led. Quarentões vão de Nirvana. Trintões, de Gorillaz.

Recentemente, na festa de aniversário de um amigo, o DJ começou seu set com três ou quatro músicas jazz-funky interessantes e dançantes que eu não reconheci, mas adorei. Achei que o restante da noite seria assim, de boas descobertas, mas estávamos em uma festa de 39 anos então a maioria dos convidados tinha essa faixa de idade, nascidos ali por 1980, e logo as músicas foram se encaixando no que o dono da festa tinha pedido e proposto e hits dos anos 1990 começaram a tocar para a alegria da maioria dos presentes. “Candy”, do Iggy Pop, levou mais gente pra pista, com todo mundo cantando junto. “Debaser”, do Pixies, tocou duas vezes. Um pessoal no fundão queria músicas mais novas, queria mais agito e menos barulho. Os DJs se negaram a tocar aquelas não-músicas atuais.

Quando os Stooges apareceram, foi um choque e quase ninguém gostou. Aquilo não parecia música e a performance de Iggy não se encaixava em nada visto antes. Poucos sabiam que ele estava antenado com movimentos artísticos de vanguarda que faziam releitura do Grand Guignol. Não por acaso, o primeiro disco dos Stooges foi produzido por John Cale, do Velvet Underground, outra banda de art-rock que ia contra a corrente e que ninguém entendeu no primeiro momento. Tanto Iggy quanto Lou Reed, do Velvet, foram “popularizados” por David Bowie nos anos 1970 – e a performance artística teatral-glitter do Bowie serviu para justificar o que Iggy e Reed vinham fazendo. É bom que se diga que quando Bowie apareceu, apenas jovens se identificaram e se interessaram.

Quando os Pixies apareceram com um EP de 8 músicas e 20 minutos de duração e letras com palavras em espanhol, todo mundo achou que fosse uma banda colegial querendo chamar a atenção com barulho. Ninguém deu importância ou levou a sério. O primeiro disco, lançado por uma gravadora pequena, fracassou nos EUA, mas fez sucesso na Europa – o que fez a banda acontecer. A crítica especializada se dividiu, os mais velhos dizendo que aquilo era ruim – A Rolling Stone deu três estrelas para “Surfer Rosa” quando foi lançado e, depois, reavaliou o disco, em 2004, dando 5 estrelas. Hoje é considerado um clássico.

Depois apareceu o Nirvana, que foi mal quando apareceu, ratificou o Pixies e depois…

O que quero dizer é que quando alguém diz que isso ou aquilo “não é música” está repetindo o que os pais deles disseram quando os músicos que eles gostam apareceram.

Os pais dos quarentões que estavam na festa do meu amigo não devem curtir muito o que tocou lá. Música de verdade pra eles é os Beatles, Bee Gees, Ike e Tina Turner e, olhe lá, um Cream ou, depois, um Led Zeppelin. Afinal, o que é o baixo de Kim Deal perto de John Paul Jones ou a voz de Iggy diante da de Robert Plant? Os pais estão errados? Todos os pais estão errados.

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A música pop é geracional e está ligada ao emocional de certa faixa etária: esses quarentões ouviram essas canções que tocaram na festa quando estavam na adolescência e elas foram seu hino de rebeldia, amor e “estar no mundo”. Os quarentões da festa podem até ouvir e gostar, conhecer a importância musical e histórica daqueles que vieram antes, mas têm dificuldade de ouvir algo que os adolescentes amam agora pois estão em outra fase e nada pode ser melhor que os hinos de sua fase de crescimento emocional.

Se você é adulto, tem mais de trinta anos, pense em algo que ouviu recentemente e que realmente amou.

Isso também funciona em outras áreas.

O fato é que muita gente diz: “Pabllo canta mal” ou “Anitta não me representa” tendo como referências artistas que, quando apareceram, seus pais também achavam que cantavam mal e/ou que não os representavam. Estamos reproduzindo as falas de um coro antigo de descontentes pois só estamos velhos, como nossos pais.

É preciso parar e pensar um pouco. E não se meter muito no que as novas gerações gostam e querem ouvir. E não sermos os Flávios Cavalcantis de hoje.

 

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o novo disco da Jambow Jane

A Jambow Jane é uma banda de pop rock composta pela família do brasileiro Flavio Prada – ele, a mulher e filhos + músicos agregados -, formada despretensiosamente há alguns anos, sediada na cidade onde eles moram, Riva Del Garda, Itália. No primeiro disco, eles musicaram um poema meu, “Fogo Aceso” e, depois, musicaram uma letra minha inspirada no meu livro “A Comédia Mundana”. Flávio é de Limeira, somos amigos, escrevemos para um mesmo condomínio de blogs nos primórdios da internet e agora, quando saiu o segundo disco da sua banda, o recebi como recebemos a obra de um brother: querendo muito gostar, mas com aquela desconfiança de não ser algo que atenda ao nosso gosto.

O fato é que me surpreendi pois gostei demais.

“Worlds and Bridges” é um disco de rock com muita pegada. E comento abaixo, um faixa a faixa para dar uma ideia do que pode esperar quem se interessar em ouvir no Spotify.

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“Worlds and Bridges” começa com uma cacofonia e a gente não sabe bem o que esperar. Em seguida vem um piano solene – eu pensei que a Jambow Jane tinha enveredado pela erudição, mas logo vem a bateria, o baixo e a guitarra com a voz do Flavio de maneira progressiva e, uau, é um rock clássico com pé no Metallica! Mas aos três minutos, volta a cacofonia, com frases em várias línguas e dá pra ver que a referência é o Pink Floyd. A segunda vez que a guitarra volta com força, nos leva para “In The Flesh” do PF. Esperamos por mais.

A segunda canção, “Music Makes you a Stronger Person” segue na mesma vibração, com pegada bluesy hipnótica, e lá pelos três minutos queria que não entrasse vocal. A bela linha de baixo que me lembrou Geddy Lee e seu Rush. Mas entra o jogral que canta o título da canção no minuto final, desnecessariamente. Só a música já estava ótimo.

A terceira faixa é “Medo”, em português, algo engraçadinha e com refrão pegajoso. Mais uma vez, a beleza maior está no instrumental – esse pessoal está afiado mesmo. Rápida, intensa, me lembrou a banda Joelho de Porco em seus momentos mais pesados, “Medo” prepara as expectativas para o que possa vir depois. E vem “Science Guy”, única música do disco com vocal exclusivo da Bea, mostrando talento incrível sobre base de piano, com coro também de rock progressivo, ok, Pink Floyd de novo, “The Great Gig in the Sky” está ali, e o piano que vira um sintetizador antigo. Acho que é a faixa mais curta do disco, infelizmente. (Lembrei que a banda já tinha gravado essa do PF com a Bea)

Nova cacofonia na abertura da grunge “Run Over the City”, que tem clipe no Youtube (veja abaixo). Acho que é a faixa de trabalho do disco e pode ser boa isca para os mais jovens e vai fazer os tiozões lembrar de Nirvana. Tem um lance de Pavement ali também, acho que na gritaria da parte final, o que gostei.

As próximas três faixas são exercícios de estilo. “Única” brinca com a bossa nova, uma bossa´n´roll, com violões e mais uma letra em português, engraçadinha-existencial, bem elaborada. “Wasting my Time” é uma atualização de “Oh Sweet Nuthin´” do Velvet Underground, onde o título da canção, vocalmente retorcido, serve de base para o exercício musical da banda – até que entra uma participação da Bea, mostrando que tem real potencial blues. E “Fuck Stasera” é a minha preferida, uma canção louca, com palavras em português, inglês, italiano e até francês, uma canção multilingual, multicultural, multisonora, dinâmica e engraçada, que pode bem indicar o caminho para o futuro da Jambow Jane. E é a canção com o melhor posicionamento de voz do Flavio – ele está solto, sem querer parecer afinado.

A oitava faixa é climática, com violões, encerrando o disco, como se as duas próximas canções fossem bônus. “It´s Hot In Summer” é um blues rápido, Stevie Ray Vaughn, bem solto e descontraído. E a última canção de “Worlds and Bridges” é a única em italiano, romântica, chamada “Sì e No”, que tem uma faixa pesada e uma fala meio brega, como se fosse uma canção dos Scorpions, que só gostei por ser em italiano e acho muito legal que a Jambow Jane tenha essa diversidade lingual.

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Bom, vão lá ouvir.

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os filmes de heróis estão salvando o cinema

Personagens com capacidades extraordinárias sempre chamaram a atenção.

Inicialmente, pelos “poderes” excepcionais que têm, mas, nas boas narrativas, por serem obrigados, APESAR dos poderes, a tomar decisões morais, emocionais, humanistas e humanitárias, de justiça e sacrifício. Os exemplos são vários, de heróis mitológicos, das narrativas clássicas todas, das histórias fundamentais das religiões, passando por Prometeu e Cristo, chegando a personagens mais humanos mas ainda extraordinários, tidos como reais, como Sherlock Holmes ou Dom Quixote, e seus derivados, até os chamados “super-heróis”, cujos principais representantes mesclam características de outros, que vieram antes, numa espécie de “atualização” para o principal público dessas histórias: o adolescente em formação.

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Joseph Campbell falou sobre isso no “Herói de Mil Faces” – e sobre a importância desses heróis, reais ou não, na formação, educação, apreensão do mundo, auxílio no conceitual de bem e mal, justiça e injustiça, das pessoas – em especial de jovens. E escreveu sobre isso em vários outros livros, como em “O Poder do Mito”.

Esses heróis sempre estiveram por aí, encantando jovens. Meu pai conta sobre as idas ao cinema nos sábado à tarde para acompanhar as séries de Flash Gordon, Tarzan, Zorro e muitos outros, além das trocas de gibis do Fantasma e Mandrake. Fui apresentado aos gibis cedo e essa foi minha porta de entrada para os livros. Na ocasião, acompanhávamos séries na TV, muitas com heróis, algumas bem toscas, mas era o que tinha. O filme que vi no cinema e que me fez gostar da sétima arte deriva de um gibi: “Conan – O Bárbaro”. Eu tinha doze anos, uma coleção de quadrinhos em PB do cimério, e saí do cinema boquiaberto com o que vi: Thulsa Doom dizendo a Conan que tinha matado seus pais e transformado ele no que ele era. Uau. Roteiro do John Millius e do Oliver Stone.

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Já ali, tinha ficado claro a mim que o herói é um personagem catalisador, central, extraordinário, onde orbitam outros personagens, dramas humanos, questões filosóficas, que podem ser muito mais interessantes e atraentes do que, bem, histórias que são puro drama humano com personagens super humanos.

Dramas humanos com personagens super humanos podem realmente ser atraentes? Me pergunto isso quando citam, em detrimento de “filmes de super heróis”, os filmes de, por exemplo, Bergman, Tarkovski, Antonioni, Buñuel ou sei lá quem, como superiores. Como comparar um filme de Bergman (ele fala de pessoas normais, reais?) com um Batman de Nolan? É como comparar água e vinho. Dostoiévski e Agatha Christie. Mas às vezes precisamos de água, às vezes de vinho. Às vezes chegamos a Dostoiévski através de Agatha Christie.

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~ arte real ~

Outra questão que envolve os chamados “filmes de herói” é que eles têm ação e efeitos demais, como se isso fosse um defeito. Ora, a ação E o efeito estão na gênese do cinema: quando os irmãos Lumiére decidiram filmar algo foram logo filmar o que existia de mais rápido no momento: um trem! Isso para mostrar que, sim, algo estava em movimento, e a câmera era capaz de captar! Quando tivemos o primeiro corte, talvez na saída dos empregados da fábrica, também dos irmãos Lumiére, tivemos o primeiro efeito. A elipse é um efeito. Citam os efeitos como defeitos, mas elogiam o estado-da-arte dos efeitos em “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, filmado por Kubrick, que era fanático por quadrinhos.

E apesar do cinema ter origem com os Lumiére, quem fez o negócio ir adiante foi um mágico, Mélies, que criou impressionantes efeitos especiais. São raros, muito raros, os filmes que não contam com efeitos hoje em dia, mesmo alguns dos mais baratos. O retoque em filmes acontece até em filmes ditos realistas – e não há nada de errado com isso. Vejam esse feature de “Garota Exemplar” (Fincher, 2014).

Quando eu lia as aventuras dos heróis nos quadrinhos, lá em meados dos anos 1980, e assistia na TV aos seriados do Batman e do Homem-Aranha, com aqueles efeitos toscos, ficava imaginando se algum dia conseguiríamos ter, nos cinemas ou na TV, as aventuras coloridas de Thor ou do Demolidor ou do Doutor Estranho. Demorou trinta anos para termos aqueles heróis nas telas. Mas os temas – e não apenas os efeitos, ora vejam – também evoluíram e as tramas ficaram melhores, mais interessantes, densas, inteligentes. Os personagens ganharam – em boa medida, quase todos – envergadura, personalidade marcante e ótimos intérpretes (vejam os atores que estão nos filmes) e roteiros que são escritos considerando os fãs antigos (eu) e os mais novos (minhas filhas de 25 e 11 anos) – dentro do que é possível em termos de adaptação. Isso não é pouco.

Loucos imbecis, fanáticos puristas, brigam por qualquer merda, sejam quadrinhos, religião ou futebol. Não perco tempo com malucos.

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Cores são para os coloristas de quadrinhos, ok?

Na adaptação de X-Men pelo Singer, em 2000, quando fãs encresparam com os uniformes, por exemplo, ficou claro que fãs puristas não entendem que a visão do diretor – ou da equipe – equivale, nos quadrinhos, às linhas de interpretação que roteiristas e desenhistas fizeram dos personagens ao longo da História. Personagens canônicos eram diferentes antes de Jim Starlin, Frank Miller e Mazzucchelli ou Mark Waid botar as mãos neles, por exemplo. Mas as essências dos personagens estão ali.

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E são esses personagens catalisadores de dramas humanos, potencializados muitas vezes pela impotência, apesar de seus superpoderes, diante de forças maiores que as deles – o mal, o poder, a política, o dinheiro, a ganância, a doença, a loucura, a soberba, a desilusão… – que os fazem tão atraentes e importantes.

Um dos melhores filmes de 2017 é “Logan”, a última aventura de Wolverine no cinema. Um filme de super-herói que discute configurações de família, um tema atual; imigração e fronteiras (era Trump); velhice e demência; infância e rejeição; experiências médicas e tecnológicas com humanos; laços de amizade e superação de limites. Tudo num subtexto não-didático, com roteiro exemplar. Os efeitos estão ali em favor da história. É cinema pleno, em especial na sequência do cassino, com o desequilíbrio mental do professor Xavier, fazendo o espectador cerrar os dentes de tanta tensão.

Quando “Mad Max – Estrada da Fúria” (uma série de herói) foi indicado ao Oscar de melhor filme e levou seis estatuetas, muitos saudaram a volta do cinema em sua forma plena: ação, montagem, beleza estética. (Quem ganhou naquele ano? Você se lembra?) Infelizmente, ainda há quem renegue esse tipo de filme, em favor de dramas humanos & reais. No ano seguinte, o filme premiado, ao invés de “La La Land”, maravilha emocionante de som, imagem e roteiro, foi um “drama humano comovente”, do qual poucos sem lembram ou se lembrarão – enquanto “La La Land” vai ficar (não é um filme de herói, ok, mas explora a emoção com as ferramentas do cinema, é isso que quero dizer com esse exemplo).

Antes mesmo de X-Men, como bem observou o Roberto Sadovski, houve “Matrix”, talvez um dos melhores filmes já feitos, seja de herói ou não. Um filme com referências pop que discute “A Caverna” de Platão, ora vejam. Ele nem concorreu aos principais Oscars de 2000 e o drama humano que ganhou, bem, ninguém se lembra ou fala sobre ele.

Os filmes de heróis estão salvando o cinema porque permanecem. Gostem deles ou não.

Para os mais jovens, pode ser uma porta de entrada para obras mais profundas e densas, com mais simbolismos, leituras e quetais. Vendo esses filmes, talvez eles consigam extrair ainda mais que os estudiosos de “O Sétimo Selo”, por exemplo.

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Meus filmes preferidos de 2017

Só agora no finalzinho do ano vi “Guimme Danger” do Jarmusch, documentário sobre Iggy Pop & The Stooges que adorei, principalmente por mostrar que Iggy e a banda tinham consciência do que faziam, da cena musical, da teatralidade do espetáculo, dos aspectos artísticos e musicais profundos e não eram apenas garotos descerebrados fazendo barulho. Muita imagem de arquivo interessante, ótima edição e som.

Acho que o filme de ficção que mais me deu prazer em 2017 foi “Monsieur & Madame Adelman”, que não vejo em nenhuma lista de melhores. Estreia do ator francês Nicolas Bedos na direção (ele ainda escreveu o roteiro, compôs a música e atua), o filme emula um Woody Allen sem medo de ser feliz. É a história do relacionamento de um escritor e sua mulher ao longo de 45 anos. Um espetáculo.

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Também meu deu grande prazer ver “Já não me sinto em casa neste mundo”, estréia do ator Macon Blair na direção, contando essa história de humor negro à la Saulnier, onde uma mulher deprimida e ansiosa se une ao seu vizinho esquisito para combater criminosos. Não tão interessantes, mas imaginativos e ótimos de ver, foram “A Morte te dá Parabéns”, espécie de “Feitiço do Tempo” de terror, mas com bom-humor e ótima direção; e “A Babá”, arroubo do diretor McG para a Netflix, um avanço em tema e terror para “Stranger Things” com muito sangue. Di-ver-ti-dís-si-mo!

Ainda em termos de “prazer”, “Em Ritmo de Fuga” é um abuso de cool, direção alucinante, música incrível e ótimos atores, com destaque para o Ansel Elgort, que pode ser um dos grandes. Filme de cinema.

Me deu prazer e me fez pensar ver “Logan”, acho que o melhor “filme de herói” já produzido. Há tantas questões nesse filme, é tão complexo, fala de imigração, direitos humanos, novas configurações de família, paternidade, velhice, sanidade, morte… Não por acaso, o roteirista é o mesmo de “Blade Runner 2049”, Michael Green. Muitos têm preconceito com os tais “filmes de heróis” – estão perdendo a oportunidade de ver filmes como “Logan” e discutir coisas importantes com seus filhos. Isso não tem nada a ver com “Deadpool”.

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Nesse sentido, “Mulher Maravilha” também é um grande filme. O roteiro pode não ser uma maravilha (sic), esquemático, com o turning point do vilão e o final caracteristicamente over de explosões, que virou lugar comum desses filmes e é um saco. Mas, sim, temos ali uma heroína tratada com atenção e os que se preocupam mais com a falta de pelos nas axilas ou o posicionamento político de Gal Gadot não percebem que isso está fora do radar das crianças e adolescentes e, no final, esse tipo de filme é para eles. Nós, adultos, podemos curtir, perceber camadas de subtexto que foram pensadas pelos roteiristas, conversar com os filhos sobre eles e, assim, “Mulher Maravilha” é um ótimo gancho para falar de feminismo e quetais. E é, também, ótima diversão.

Os novos filmes do Homem Aranha e dos Guardiões da Galáxia também são ótimos, ótima diversão, mas passáveis, certo? Assim como os novos do Thor ou da Liga da Justiça – que não vi, mas não estou com nenhuma pressa.

Ainda divertidos, dois dos melhores filmes que vi esse ano tem a relação de casais com a aceitação de famílias em seus enredos. “Corra!” é um ótimo exercício de terror e está em quase todas as listas de melhores do ano. Gosto, mas acho exagero. Principalmente pelo papel da namorada, que se mostra apaixonada demais, com muito brilho nos olhos pelo personagem de Daniel Kaluuya, para a virada do terceiro ato. Mesmo em filmes com os pés no nonsense, o universo ficcional deve fazer sentido. Em “Doentes de Amor” temos a história real do relacionamento do comediante paquistanês Kumail Najiani com uma americana diagnosticada com uma rara doença enquanto a família dele não aceita o namoro. Parece açucarado e mais uma “comédia romântica com doentes”, mas é um belo filme sobre relações humanas, com um personagem carismático e uma revelação, essa Zoe Kazan, que parece a Marisa Orth.

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Também gostei de dois filmes violentos e de cenário hostil: “Terra Selvagem” e “O Estranho que nós amamos”. O primeiro tem uma dupla inusitada de policiais investigando um crime na neve e é o trabalho de estréia do diretor Taylor Sheridan. Baseado em fatos reais, tem personagens bem construídos, sólidos, cenas de ação que eu chamaria de complacentes, diferente do ritmo alucinante das cenas dos filmes americanos. Vale muito a pena, fiquei impressionado com esse filme. Também diferente é o filme da Sofia Coppola, refilmagem do clássico de Don Siegel com o Clint Eastwood. Com ótimo elenco e ritmo lento, percebi uma adequação do filme aos novos tempos, diferente do original, que era mais sujo e imoral, sem a preocupação com a correção política. Basta dizer que no filme original, logo nos primeiros minutos, Eastwood beija uma menina de uns 10 anos na boca. Imagina que Sofia bota isso num filme nos dias de hoje… Mas, no final, é um filme bem feito, amarrado, que envolve e levanta questões.

Talvez os filmes que mais impressionaram, tanto a mim quanto a minha mulé, dona Raquel Cabral, tenham sido os esquisitões. Aqui vão eles: “A Ghost Story”, um exercício visual sobre o tempo, com um fantasma clássico tentando entender a vida que já não tem mais – lento, atmosférico, hipnotizador, é um filme que fica na memória; “Lady Macbeth”, outro filme de diretor estreante, sobre uma mulher que é vendida a um homem rico na Inglaterra vitoriana e arruma um amante – o que vai desencadear uma onda de violência e mostrar que os imorais e cínicos têm mais chance de sobrevivência; e “Ao Cair da Noite”, filme de terror onde faltam explicações, se estabelece na faixa da interferência que pessoas estranhas a nós têm em nossas vidas, apesar das boas intenções. Três filmes diferentes e que estão em nossa lista de melhores do ano, sem dúvida.

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Vi os dois alucinantes “A Região Selvagem”, do mexicano Amat Escalante, que não é para todos os gostos, sobre uma criatura alienígena sexual – mas o filme não tem nada a ver com ela, hahaha. E “O Bar”, mais uma colorida metáfora visual para a atual situação da Espanha, pelo Álex de La Iglesia, onde um grupo fica preso dentro de um bar e um atirador do lado de fora mata quem se atrever a sair. Gostei de ambos.

Raquel gostou também do esquisito “Personal Shopper”, mas dormi e não vi e ela me contou então acho que não verei e não gostarei.

Vimos juntos e nos divertimos com “Colossal” e “Bingo – O Rei das Manhãs“.

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Minha lista de Top 10 de 2017, então, até o momento, seria mais ou menos essa:

  1. Guimme Danger
  2. Monsieur & Madame Adelman
  3. Já Não Me Sinto em Casa neste Mundo
  4. Em Ritmo de Fuga
  5. Logan
  6. Corra!
  7. Doentes de Amor
  8. Terra Selvagem
  9. A Ghost Story
  10. Lady Macbeth

Até janeiro espero ver “Marjorie Prime”, “Dunkirk”, “Blade Runner 2049”, “I Called Him Morgan”, “Good Time”, “The Square”, “Lady Bird”, “Me chame pelo seu nome”, “Shape of Water”, “HHhH”, “Detroit”, “The Post”, “Três anúncios para um crime” e “Projeto Flórida”.

Update 11/12: Vimos “Good Time” (Bom Comportamento aqui) e… que merda de filme! Vai de nenhum lugar a lugar nenhum! Por que está em várias listas de melhores? Tem esse clima Winding Refn, com essa trilha sonora eletrônica retrô, com a fotografia escura-colorida, mas nenhuma história – a menos que você considere mil reviravoltas em um filme de duas horas um ótimo achado. Scorsese, que parece ter gostado do filme, já fez isso com “Depois de Horas” – e não é um dos seus melhores. Caia fora desse.

Update 15/01: Vimos “Blade Runner 2049”, “A Forma da Água” e “Três Anúncios para um crime”. Gostei dos três, mas BR não entra na minha lista de melhores pela impressão que me deu de pedir por uma continuação, achei meio desleal. “A Forma da Água” é mais Cinema que o “Doentes de Amor”, então entrou no lugar dele na minha lista. E “Três Anúncios…” é um dos grandes filmes dos últimos anos, vai para o topo da minha lista – é o filme que os irmãos Coen não entregam faz tempo. Delícia. Então minha lista ficou assim:

  • 01 – Três Anúncios para um Crime
  • 02 – Guimme Danger
  • 03 – Monsieur & Madame Adelman
  • 04 – Já Não Me Sinto em Casa neste Mundo
  • 05 – Em Ritmo de Fuga
  • 06 – Logan
  • 07 – Corra!
  • 08 – A Forma da Água
  • 09 – Terra Selvagem
  • 10 – A Ghost Story

 

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