a curiosa bio de david lynch e um passeio por curiosidades perto do fogo

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Espaço para Sonhar” (Editora Best Seller) é um misto de biografia e livro de memórias e reminiscências do artista David Lynch. Cada capítulo é dividido em duas partes: na primeira, a jornalista Kristine McKenna conta a história, tendo como base cerca de 100 entrevistas que fez com parentes, amigos e com o próprio Lynch; na segunda, temos Lynch comentando algumas passagens, colocando seu ponto de vista, contando algumas curiosidades e anedotas e, principalmente, revelando algumas de suas intenções.

Lynch é um sujeito misterioso, que realizou filmes misteriosos, e desperta muita curiosidade sobre tudo o que o envolve. Não está entre meus cineastas preferidos, mas sua filmografia acompanha minha vida desde que “Duna” (1984) e “Veludo Azul” (1986) chegaram às locadoras mais ou menos ao mesmo tempo em que “O Homem Elefante” (1980) chegava à TV aberta e “Coração Selvagem” (1990) chegava aos cinemas – fui ver no cinema, fiquei maluco, consegui um cartaz do filme e instalei-o do lado de dentro da porta do meu banheiro, então sempre tomava banho olhando para esse cartaz. Eu tinha 21 anos de idade, o cartaz ficou lá por uns 6 anos.

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Lynch nasceu em 1946 em uma família classe média e supernormal, com irmãos, indo mal na escola e fazendo traquinagens, participando do grupo de escoteiros e tal. Ele gostava de desenhar e um dia soube de um artista que ganhava a vida desenhando e pintando e aquilo mudou a vida dele, “como poderia ser capaz?”. Praticamente abandonou estudos e só queria desenhar e pintar e então ele pintava um dia e achou que algo aconteceu e os elementos na tela “se moveram” e ele achou que devia fazer cinema.

A história em “Espaço para Sonhar” mostra como as atenções de Lynch são flutuantes, como nada é muito programado e como ele segue quase que exclusivamente seu instinto, sendo quase um naif. Ele não tinha ido muito longe na pintura, não se interessava por estudar aquilo – e o mesmo aconteceu com o cinema: ele simplesmente queria filmar, começou a ter ideias e a juntar pessoas (seu grande talento), fez um curta e outro e todo mundo adorava David e seu jeito calmo e atencioso e ele recebeu um convite para a faculdade de cinema AFI.

Lynch não era um aficionado em cinema e se lembra de poucos filmes que tinha visto ou que o impressionaram até então, “O Mágico de Oz” (1939) e “Crepúsculo dos Deuses” (1950). Na faculdade, encantou-se com Fellini e “8 ½” (1963) passou a ser seu filme preferido.

Ele também nunca foi fã de drogas e bebe pouco, é o que chamamos de maluco de ar, oxigênio chapa o cara. Suas ideias malucas encontravam atenção dos professores e da direção da faculdade pois ele falava sobre elas com entusiasmo e calma. Tinha muita gente com ideias estranhas em sua sala, como Terrence Malick, Tim Hunter e Paul Schrader, por exemplo.

No final do primeiro ano do curso, Lynch já casado e com uma filha, recebendo uma mesada de 250 dólares do pai, tem uma ideia para um longa, chamado “Eraserhead”. Escreveu o roteiro de 21 páginas e não sabia bem como acabaria – então ele pegou uma Bíblia, encontrou uma frase que o iluminou e ele pensou: ‘É isso!”. Mas não lembra que frase foi.

Lynch estava com 25 anos e atormentou a AFI para patrocinarem o filme e então a faculdade deu 10 mil dólares e os galpões do fundo para que ele fizesse aquela maluquice. Um pessoal foi se reunindo em torno daquilo, Jack Nance foi um deles – o ator virou amigo, trabalhou em vários projetos de Lynch e morreu aos 56 anos depois que se envolveu em uma briga em uma loja de rosquinhas; um crime nunca solucionado.

“Eraserhead” caminhava lento, sempre com a ajuda de amigos; dois anos se passaram e não tinham filmado tudo ainda. Lynch parecia muito lento, filmando muitas vezes a mesma cena, preocupado com coisas pouco importantes. Em 1973 o diretor de arte que o ajudava em “Eraserhead”, o amigo Jack Fisk, arrumou emprego no primeiro filme de Malick, “Terra de Ninguém” – conheceu e se casou com Sissy Spacek. Fisk e Spacek deram cerca de 4 mil dólares para Lynch andar com “Eraserhead”.

Uma parte importante do filme era o som, que tinha um desenho específico na cabeça de Lynch. As pessoas com quem ele conversava e o pessoal dos estúdios da faculdade não entendia. Então ele conheceu um cara bastante esquisito, chamado Alan Splet. Foi um amor de esquisitices e “Eraserhead”, o primeiro filme real em que Splet trabalhou, sendo parceiro em vários projetos de Lynch. Apenas um ano depois que “Eraserhead” saiu, Splet trabalhou com Malick e ganhou um Oscar de edição de som por “Corcel Negro” no ano seguinte.

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[Splet, Lynch e Jack Nance, que estaria em todos os filmes do diretor, até sua morte prematura]

Em fins de 1973 o filme empacou, o casamento de Lynch estava mal, ele conheceu a Meditação Transcendental, parou de fumar e começou a entregar o Wall Street Journal para se manter, ganhando 48,50 dólares por semana, atirando os jornais de dentro de um Fusca. Segundo relatos, ele “transformou o ato de atirar jornais pela janela do carro em arte”.

Em 1974 as filmagens retomaram, juntaram algum dinheiro, Lynch escreveu a canção “In Heaven” (seu amigo Peter Ivers musicou e gravou – é a que está no filme), a coisa se estendeu por mais um ano e às vésperas de seu aniversário de 30 anos, Lynch estava montando o som com Splet. Os amigos acreditavam no projeto, Fisk pediu a um amigo 10 mil dólares para Lynch terminar o filme, que estava quase pronto uns meses depois. Foram cinco anos de sofrimento.

Quando o filme estava pronto, Lynch reuniu as 14 pessoas que tinham feito parte do filme desde o início no Hamburger Hamlet, em Sunset Boulevard, e deu uma porcentagem do filme para cada um de maneira vitalícia. Todos recebem cheques de direitos autorais do filme anualmente até hoje.

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[Recado que Lynch deixou para os pais quando o filme estreou]

Na noite de estreia, eram 26 pessoas. Na seguinte, 24. Algumas notas apareceram na imprensa marginal sobre o filme, que foi crescendo no boca-a-boca. Consta que os cineastas John Waters e Stanley Kubrick gostaram e convidaram pessoas a ver – algumas se conectavam com o filme a ponto de saber as falas de cor. Lynch estava vivendo numa cabana, com uma nova mulher e fazendo trabalhos de marcenaria, passando por dificuldades. Certo dia, viu uma torta de maçã holandesa na vitrine de um café, entrou, tomou um café, pediu um pedaço e “era tão bom, mas era caro, então não podia repetir”. Um pouco tempo depois, a situação dele seria bem diferente.

Sorte de elefante

Ao final do livro “Espaço para Sonhar”, Lynch se diz um sortudo – e é verdade: a história sobre como foi feito “O Homem Elefante” comprova isso.

Stuart Cornfeld dava um curso de direção de cinema na AFI e Anne Bancroft era uma de suas alunas. Anne apresentou Cornfeld para eu marido, Mel Brooks, que chamou o professor para ajudar no filme que rodava, “Alta Ansiedade” (1977). Durante as filmagens, Cornfeld conheceu o assistente de direção Jonathan Sanger. Sanger tinha que deixar os filhos com uma babá para poder trabalhar. A babá se chamava Kathleen Prilliman e ela namorava um rapaz, Chris de Vore, que tinha escrito um roteiro com um amigo, Eric Bergren, baseado num livro que ambos haviam lido, chamado “Very Special People”. A babá mostrou o roteiro para Sanger que gostou e o comprou por mil dólares. Sanger mostrou para Cornfeld, que tinha acabado de assistir “Eraserhead” e conhecia Lynch da AFI. Cornfeld pensou que talvez Lynch pudesse ser capaz de dirigir o filme. Ao mesmo tempo, Mel Brooks queria montar uma produtora, mas não tinha um bom projeto. Cornfeld mostrou o roteiro para Bancroft, que mostrou para Brooks, que gostou e achou que o filme tivesse a cara de Alan Parker. Cornfeld sugeriu então que Brooks assistisse a “Eraserhead” e, ao contrário do que Lynch, Sager e muitos outros esperavam, ele adorou o filme! Foi montada a Brooksfilms, Brooks e Lynch debruçaram-se sobre o roteiro e o filme foi feito. Como disse Lynch: lá estava aquele garoto de Montana dirigindo John Gielgud, Wendy Hiller, Anthony Hopkins e John Hurt. O filme teve 8 indicações para o Oscar, inclusive de melhor diretor. Foi o primeiro, melhor e mais bem-sucedido filme da produtora Brooksfilms.

Sorte: Kathleen Prilliman não fosse a babá dos filhos de Sanger ou se Anne Bancroft tivesse caído com outro professor e não Cornfeld na AFI, o filme não teria existido. Pelo menos, não desse jeito e com Lynch à frente do projeto.

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De repente, Lynch estava na cerimônia do Oscar concorrendo a duas estatuetas (também de roteiro), sentado ao lado de Scorsese e feliz por ver sua amiga Sissy Spacek concorrendo por “Carrie – A Estranha”. No páreo de melhor filme, estavam “Touro Indomável”, “Tess” (de Polanski), “O Destino Mudou sua Vida” (de Apted) e “Gente como a Gente”, que ganhou, dando o prêmio de direção para Robert Redford e levando também o prêmio de roteiro adaptado.

Lynch ia ser pai novamente, então deixaram a pequena cabana onde morava com a mulher e compraram uma casa na periferia de Los Angeles por 105 mil dólares. Apesar do sucesso de “O Homem Elefante” e dos convites que apareciam para novos projetos, eles ainda não estavam exatamente ricos. Mel Brooks ofereceu “Frances”, mas Lynch não quis. George Lucas ofereceu “O Retorno do Jedi” e ele se interessou, mas na reunião que teve com Lucas não se entenderam bem. Também ofereceram a direção de “Dragão Vermelho” – que acabou sendo dirigido por Michael Mann e é um dos meus filmes preferidos. Foi quando surgiu o gigantesco projeto de “Duna”, com produção de Dino de Laurentiis.

Lynch gostou do projeto de “Duna”, leu os livros, encontrou-se com o autor Frank Herbert – e a roda começou a girar, era muito dinheiro envolvido, um cast enorme, filmagens no México, complicações no orçamento, a mulher grávida longe, a fama bafejando no cangote… Com toneladas de material bruto, Lynch mudou-se para um pequeno apartamento onde passou seis meses editando o filme, cujo corte inicial foi de 5 horas. Não havia possibilidade de passar aquilo nos cinemas – e o filme foi “enxugado” para 2h17.

“Duna” (1984) não foi tão mal nos cinemas, mas tinha custado muito caro. De repente, a culpa pelo fracasso do projeto parecia ser do menino de ouro de Montana. Ele estava na maré baixa de novo, mas com muito mais dinheiro no bolso. O casamento tinha acabado e ele tinha um projeto que desenvolvia há anos: “Veludo Azul”.

Reunindo os amigos de novo

A melhor coisa sobre “Duna” foi Kyle MacLachlan: Lynch encontrou um amigo, alguém com a mesma vibração que ele, os mesmos gostos, o mesmo humor. Ele foi chamado para o projeto de “Veludo Azul”, assim como a amiga de tempos, Laura Dern, e o fotógrafo de “Eraserhead”, Frederick Elmes. Era um projeto barato, 10% do que custou “Duna” – cerca de 4 milhões de dólares. Como uma espécie de retribuição por ter entrado na barca furada de “Duna”, Lynch pediu dinheiro para Dino de Laurentiis – que deu.

No meio da escolha do elenco, surgiu a modelo Isabella Rossellini, por quem Lynch se apaixonou durante as filmagens, e Dennis Hopper, que vivia um inferno pessoal, tentando se manter longe do álcool e das drogas, topando qualquer trabalho que conseguisse. Os dois foram perfeitos para os papéis.

Durante a produção, surgiu também aquele que seria um dos mais fiéis parceiros de Lynch: o músico Angelo Badalamenti, responsável pela música de quase todos os outros projetos de Lynch.

Totalmente à frente do projeto, autor único do roteiro, com liberdade para as decisões artísticas, cercado de amigos, as filmagens foram agradáveis, fáceis e rápidas.

A montagem original de “Veludo Azul”, porém, foi de 4 horas – e então foi preciso reduzir pela metade. Reduzido, o filme foi muito mal na avaliação de público-teste (prática que estava se popularizando no início dos anos 1980). Lynch ficou desolado, mas Dino de Laurentiis disse: “Fodam-se! Estão errados. O filme é brilhante, não vamos cortar nenhum fotograma, vamos lança-lo assim como está. Os críticos vão adorar e o público vai comparecer”. O experiente produtor estava certo.

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Mais uma vez, Lynch foi indicado ao Oscar de diretor – única categoria em que “Veludo Azul” (1986) concorreu. Perdeu para Oliver Stone, que venceu também o melhor filme, com “Platoon”. Dennis Hopper concorreu a melhor ator coadjuvante, porém com outro filme: o esquecível “Momentos Decisivos”, de David Anspaugh.

Numa festa pós-Oscar, Lynch conheceu Elizabeth Taylor, que tinha entregue o prêmio para Stone na cerimônia do prêmio. Ela disse que tinha adorado “Veludo Azul”. Ele disse que ia adorar ter vencido o prêmio – não pelo prêmio em si, mas para poder beijar Taylor. A veterana atriz então tascou um beijo na boca de Lynch. Virou quase um hábito: as próximas duas vezes que se encontraram, beijaram-se.

Lynch estava enfim milionário, realizado, em um ótimo relacionamento com Rossellini e cheio de ideias na cabeça.

Se metendo onde não deve

1986 estava sendo um ótimo ano para Lynch e alguém apresentou um roteirista de TV a ele: Mark Frost. O projeto que eles deviam desenvolver era de um filme baseado na biografia de Marilyn Monroe escrita pelo Anthony Summers, “Goddess”. A sinergia com Frost foi total e logo eles estavam com o ótimo e explosivo roteiro pronto, com nome provisório de “Venus Descending”. Essa biografia de Marilyn é uma das minhas preferidas, saiu no Brasil, mas hoje é raridade, só encontrada em sebos. A história do roteiro, porém, implicava a participação de Bob Kennedy na morte de Monroe e a United Artists decidiu engavetar o projeto.

Lynch e Frost tiveram uma ideia para uma comédia, chamada “One Saliva Bubble” e a coisa andou rápido, Steve Martin e Martin Short envolveram-se e Dino de Laurentiis ia produzir quando a produtora do italiano decretou falência e fechou, botando fim a todos os projetos.

Na mesma época, começaram a acontecer exposições com os trabalhos artísticos de Lynch, alguns deles com indicação de Isabella Rosselini, que tinha ótimos contatos na Europa. Na Itália, passou um dia com Fellini, enquanto o mestre filmava “Entrevista” (1987). Lynch e Fellini nasceram no mesmo dia.

Ofereceram o filme “A Força do Carinho” para que ele dirigisse, mas ele recusou. Beresford dirigiu, o filme concorreu a 5 Oscars, ganhou 2: roteiro e ator (Robert Duvall).

Conheceu Roy Orbison, que tinha uma música na trilha de “Veludo Azul”, e decidiu produzir um disco do ídolo. Uma tarde, estava gravando com Orbison quando Bob Dylan e Bono Vox apareceram – foi quando Lynch percebeu que estava fazendo parte de uma faixa diferenciada do star system.

Lynch também fez uma participação como ator, ao lado de Rossellini, no filme “Zelly e eu” (Tina Rathborne, 1988) e criou uma série para TV, com Frost, chamada “The Lemurians” – que era muito doida e não foi adiante. Foi quando um amigo em comum disse que ambos deviam fazer algo na linha de “Veludo Azul”: dramas estranhos numa cidadezinha comum. Começava a nascer “Twin Peaks”.

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[Quem matou Laura Palmer?]

Mais uma vez, a coisa andou rápido: ele e Frost desenharam um mapa da cidade, estabeleceram o crime inicial e alguns personagens, já tendo em mente alguns atores, como MacLachlan, por exemplo. Apresentaram para a rede de TV ABC que gostou e encomendou o piloto.

Lynch sabia fazer cinema, mas não TV – há outro ritmo e dinâmica, menos pessoas, menos tempo, menos dinheiro. Foi feito um bom planejamento para que tudo pudesse ser reutilizado depois de gravado o piloto, caso a série fosse aprovada. Com mil ideias na cabeça, Lynch conheceu o anão Michael J. Anderson na boate Magoo, em Manhattan, e ficou encantado com sua habilidade de falar frases ao contrário e seu peculiar jeito de dançar – convidou-o para a série. Um dia, Lynch alugou um carro com motorista para ir a um evento em homenagem a Roy Orbison – e simpatizou com o motorista, que virou o vice-xerife Andy Brennan em “Twin Peaks” (Harry Goaz). Outro motorista entrou na vida de Lynch durante “Twin Peaks”: Deepak Nayar tinha chegado a pouco tempo nos EUA, vindo da Índia, onde tinha trabalhado em produção de cinema para a franquia Merchant-Ivory e estava procurando emprego na América. Virou chofer de Lynch e, depois, virou produtor de projetos de Lynch e até esteve à frente da produção de “A Estrada Perdida” (1997).

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A ABC aprovou o piloto e deu carta branca a Lynch e Frost. O seriado foi uma febre nacional e Lynch apareceu na capa da revista “Time” em outubro de 1990 como “o tzar do bizarro”. Em “Espaço para Sonhar”, Lynch diz que “Twin Peaks” é sobre Marilyn Monroe. “Cidade dos Sonhos” (2001) também. “Tudo é sobre Marilyn Monroe”.

Vários detalhes de “Twin Peaks” surgiram completamente ao acaso. O fato do agente Cooper ser favorável ao povo tibetano, por exemplo, foi porque o pai de Uma Thurman era amigo do Dalai Lama e Lynch o conheceu na casa da atriz meio que por acaso.

Lynch estava com muita coisa na cabeça, produzindo música e espetáculos, fazendo curtas e comerciais, e tinha um roteiro novo para filmar, não queria ficar preso a “Twin Peaks”: deixou a série nas mãos de Frost e roteiristas convidados, pegou Isabella e foi filmar “Coração Selvagem”.

Perto do fogo

Lynch é um neurótico obsessivo cheio de manias diversas e esporádicas – ou, como disse Mel Brooks, “tem a cabeça fodida”. Durante as gravações de “Coração Selvagem”, por exemplo, só entrava no set depois de rodar pela cidade com seu motorista fazendo numerologia com placas de carro e encontrar uma placa com as iniciais de seu nome, DKL. As letras não precisavam estar na sequência, mas quando estavam indicava que as filmagens daquele dia seriam ótimas. Somar placas de carros é uma mania de desde antes de “Eraserhead” e o número da sorte de Lynch é 7.

A ideia inicial por trás de “Coração Selvagem” era explorar a sexualidade de Laura Dern. Lynch achava a amiga muito sensual e ela tinha feito aquele papel de sonsa em “Veludo Azul”; Lynch queria incendiar a tela com a amiga, botar fogo no cinema. O livro de Barry Giford veio a calhar com um universo esquisito de personagens e muita violência. Lynch chamou os amigos e mais uma vez o lance era se divertir durante as filmagens. Só não foi uma delícia pois “Twin Peaks” tinha se transformado em algo muito grande, ele tinha que lidar com aquilo também, e havia muito trabalho.

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Colocar um dos atores mais quentes do momento, Nic Cage, foi uma sacada, já que o personagem tem uma pegada Elvis Presley e Cage adora imitar o Rei. Willem Dafoe tinha feito um teste para o personagem que acabou com Dennis Hopper em “Veludo Azul” e Lynch queria trabalhar com ele – foi um Bobby Peru perfeito.

Filme pronto, mais um casamento acabado: Lynch estava tendo um caso com uma amiga, Mary Sweeney, que trabalhava em seus filmes desde “Veludo Azul”. Isabella ficou arrasada, diz que levou anos para superar o rompimento.

E então, Lynch subiu outro degrau no star system cinematográfico: “Coração Selvagem” (1990) levou a Palma de Ouro em Cannes. Bernardo Bertolucci presidia o júri e Lynch estava sentado ao lado de Federico Fellini. O filme certamente seria um sucesso. Não foi bem isso o que aconteceu.

Antes de ser lançado comercialmente nos EUA, fizeram duas sessões-teste e as pessoas saíam horrorizadas do filme, especialmente na cena final. Nesta cena, a cabeça de Harry Dean Stanton era explodida e havia uma espécie de catarse de sexo e sangue e o público não suportava aquilo. Os produtores disseram que gostavam do filme, era mais um “filme estranho de David Lynch”, mas também não suportavam o final. Lynch cedeu: chamou a amiga Sherryl Lee (Laura Palmer) e filmou a cena com a Bruxa Boa de “O Mágico de Oz”.

Ainda assim, nem público nem crítica gostaram muito do filme, que mal se pagou. Lynch tinha chegado muito perto do fogo e tinha se queimado.

A segunda temporada de “Twin Peaks” estava sendo um fiasco, a ABC quis que a resposta para a grande pergunta “Quem matou Laura Palmer?” fosse ao ar o mais rápido possível. Quando o crime foi solucionado na metade da segunda temporada, a série foi por água abaixo.

Talvez Lynch tenha se sentido culpado pelo distanciamento de “Twin Peaks” e tinha coisas que ele não havia conseguido transmitir na série – por isso, seu próximo projeto ainda tinha Laura Palmer como personagem principal.

Correndo atrás do próprio rabo

Um dos ataques que “Coração Selvagem” sofreu foi de autoparódia – e Lynch devia desconfiar que fazer um filme no universo de Twin Peaks ia dar na mesma acusação.

Mas talvez, para ele fosse só uma oportunidade de estar mais uma vez entre amigos. Chamou todos amigos quanto foi possível, inclusive um recente: David Bowie. As filmagens foram suaves e, desta vez, mais afinado com o mundo musical, Lynch decidiu contribuir com Badalamenti na trilha – trabalharam juntos, do zero. Um dia, estavam gravando e a canção precisava de uma improvisação vocal e Badalamenti decidiu fazer – ele não canta. Durante a gravação da voz do amigo, Lynch riu tanto que teve uma hérnia e precisou ser operado rapidamente.

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Parece que “Twin Peaks – Os Últimos dias de Laura Palmer” (1992) não interessou a ninguém. Indicado em Cannes, suscitou apenas um comentário de Quentin Tarantino: “Ele se acha tanto que não tenho a menor vontade de assistir a outro filme de David Lynch”. No NYT, Canby escreveu: “Não é o pior filme do mundo. Mas parece”. Revi-o recentemente e devo dizer que gostei muito mais dele agora – mas jogue os primeiros 33 minutos no lixo; aquele começo é ruim, não serve para nada e Chris Isaak é um péssimo ator.

Neste ínterim, alguns outros projetos de TV foram desenvolvidos sem grande repercussão. Parecia que Lynch tinha perdido o toque de Midas e seu frescor. E ia ser pai mais uma vez.

Lynch estava dirigindo clipes, curtas, comerciais, pintando, expondo, construindo móveis, escrevendo roteiros (tinha um projeto para fazer “A Metamorfose”, de Kafka), participando de filmes coletivos e comemorativos… Comprou os direitos de outro livro de Barry Giford, “Night People” e teve uma ideia de um videocassete que chegava à uma casa de um casal revelando algo assustador.

Ele estava ganhando dinheiro como nunca e tinha entrado de cabeça na coisa da Meditação Transcendental, viajando para divulgar as ideias do Maharishi Mahesh Yogi – mas não havia uma grande ideia para um filme.

Um dia, o interfone de sua casa tocou, ele atendeu e alguém disse: “Dick Laurent morreu” – e desligou. Ele foi olhar e não encontrou ninguém do lado de fora. Depois, estava conversando com Barry Giford e comentou sobre uma cena que lhe tinha ocorrido: você conhece alguém em uma festa e a pessoa te diz que está na sua casa naquele momento. Giford gostou, juntaram outras peças soltas e iniciaram o que seria “A Estrada Perdida”.

Nem todos os antigos amigos estavam disponíveis para o novo projeto, mas alguns novos queriam fazer parte do filme que resgataria Lynch. O estilo empregado nas filmagens não agradou a todos: o roteiro era escrito enquanto o filme era feito, parecia algo sem sentido, não se sabia o que estava acontecendo. Mas Lynch estava confiante como nunca.

Ele foi a um show do Portishead com David Bowie, que teve participação em “Twin Peaks” e queria o amigo no filme, mas não encontrou um papel para ele – colocou uma música do amigo na abertura.

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Outros caminhos

“Estrada Perdida” (1997) não estava pronto quando Jack Nance morreu. Além de amigo, Nance estava presente de alguma forma em todos os filmes de Lynch. Foi algo surreal: alcoólatra que deixava e reincidia na bebida, tinha bebido quando foi tomar café numa loja de rosquinhas às 5 da manhã e arrumou encrenca com dois sujeitos que bateram na cabeça dele. Ele dormiu e morreu. Tinha 56 anos.

Havia um clima surreal ao redor de Lynch, que estava se afastando da esposa. Todo o clima foi refletido no filme, durante a edição, mas ele ficou feliz com o corte final. Chamou amigos, entre eles, Marlon Brando, para uma exibição. Brando elogiou: “é um filme muito bom, mas não vai render um tostão!”. Ele estava certo.

As críticas se dividiram. O filme não faturou 10% do custo no primeiro mês, os cinemas não queriam exibir, o público não estava a fim de ver mais um espetáculo sem pé nem cabeça de 2 horas de David Lynch. Já havia a internet, os DVDs, “A Estrada Perdida” parecia uma diversão desencaminhada para aquele momento. Eu vi no cinema e é meu filme preferido de Lynch.

[Interregno]

Aí teve “História Real” (1999), que era um projeto da mulher de Lynch, Sweeney com um amigo. Ela estava escrevendo o roteiro e mostrou ao marido, que acho a história bonita e quis filmar. A amiga Sissy Spacek veio para o projeto, assim como Harry Dean Stanton e o fotógrafo Freddie Francis (em seu último trabalho) – e tudo caminhou de maneira agradável. Badalamenti compôs uma trilha diferente do habitual, com temas tipicamente americanos. O filme foi a Cannes, Lynch foi indicado para o prêmio de diretor – perdeu para Almodóvar com “Tudo sobre Minha Mãe”. A edição de Cannes em 1999 foi presidida por David Cronenberg e polêmica em seus prêmios.

O grande trunfo e espírito de “História Real” é Richard Farnsworth, veterano ator e dublê, que lutava contra um câncer enquanto fazia o filme. Foi a única indicação do filme para ao Oscar, Farnsworth foi o ator mais velho a ser indicado até então – tinha 79 anos, perdeu para Kevin Spacey em “Beleza Americana”.

Meses depois, Farnsworth se matou com um tiro.

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[Farnsworth com Spacek]

Ainda na estrada

Alguém questionou se a TV não seria o ambiente mais favorável a Lynch – e um novo projeto nasceu: “Cidade dos Sonhos” seria uma série que seguiria os passos de duas aspirantes a atriz em Hollywood, uma dando suporte para a outra, desviando de todas as armadilhas da profissão e do comércio.

Lynch mapeou a série toda e sabia de onde partiria e onde chegaria – pela primeira vez tinha algo realmente estruturado. Começaram as escritas de roteiro, tratativas e encontros. Outros amigos, ainda lembrando-se de “O Homem Elefante” e até de “História Real”, questionava se Lynch não iria melhor com um projeto já definido, com roteiro de outra pessoa, sem tantas esquisitices. Ofereceram “Beleza Americana”, mas ele não quis filmar – Sam Mendes dirigiu e o filme ganhou 5 Oscars. Também acharam que o remake de “O Chamado” tinha a cara dele, mas ele disse não – pouco depois, o filme foi o campeão de bilheteria no ano, com Naomi Watts, que tinha acabado de filmar “Cidade dos Sonhos”.

Algumas emissoras demonstraram interesse pela nova série de Lynch – ele então foi gravar um piloto e Laura Harring apareceu em seu caminho. Ela tinha sido Miss América e feito algumas poucas coisas na TV e cinema. Lynch achou-a perfeita para o papel principal de “Cidade dos Sonhos”. Resumindo muito a história, ninguém botou fé naquilo e depois de muita encrenca e confusão, ele filmou outras sequências e reescreveu o roteiro para montar um longa-metragem com o material. Nascia o filme “Cidade dos Sonhos” (2001).

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Lynch acreditava naquele material e lutou pela integridade dele. Em Cannes, o filme deu a ele o prêmio de melhor diretor – que ele dividiu com Joel Coen com “O Homem que não estava lá”. Quando o filme concorria no Festival de Toronto, as Torres Gêmeas caíram em Manhattan e nada mais seria como antes.

O foco de Lynch foi para a Fundação David Lynch para a Educação e a Paz Mundial com Base na Consciência – que foi finalmente concretizada em 2005.

“Cidade dos Sonhos” estreou no final de 2001 nos EUA e Lynch foi indicado mais uma vez a melhor diretor no Oscar do ano seguinte. Perdeu para Ron Howard e seu esquecível “Uma Mente Brilhante”.

O Oscar chamou a atenção para o filme, que teve ótima bilheteria na Europa. Hoje, é considerado um dos melhores e mais importantes do século XXI.

Prioridade em arte e meditação

No início do século XXI aconteceram muitas modificações na indústria do cinema, nas comunicações, com os ambientes digitais, handcams digitais, a internet, a globalização. Lynch caiu nas experimentações em vídeo, aprendeu usar computador, Photoshop, comprou uma câmera Sony PD150, continuou pintando e construindo móveis, gravando e produzindo discos, realizando exposições, divulgando sua Fundação, palestrando sobre meditação, escrevendo sobre meditação.

Lynch foi presidente do Festival de Cannes em 2002 e entregou a Palma de Ouro para “O Pianista”, de Roman Polanski.

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[A obsessão por Laura Dern teria inspirado Laura Palmer?]

Agora, a amiga Laura Dern tinha virado sua vizinha e eles estavam juntos e filmavam o tempo todo. De uma série de improvisos e pequenas cenas gravadas, nasceu “Império dos Sonhos” (2006), filme mais impenetrável, metido a artístico e difícil de sua carreira como diretor de longas (existem curtas dele mais difíceis que esse longa, claro). Lynch voltaria a projetos de cinema e TV apenas dez anos depois, em 2016, com a “terceira temporada” de “Twin Peaks”.

Na fase de preparação de “Império dos Sonhos”, Lynch separou-se de Sweeney e se casou com Emily Stofle, vinte anos mais nova que ele. Teve também uma filha, Lula. Lynch sempre amou fumar e sua imagem se relaciona com cigarros, mas ele ficou longos períodos sem fumar. Depois de alguns bons anos longe dos cigarros, possivelmente relacionou seu distanciamento do cinema com a falta de fumar e voltou com tudo: no Natal de 2012 pediu de presente apenas cigarros aos amigos. Ele voltava a se encontrar com Mark Frost para “Twin Peaks – The Return”.

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Com o passar dos anos, Lynch construiu um complexo com três casas interligadas; comprou as duas casas vizinhas à sua e montou ateliê, estúdio de gravação de música e um canto só para ele – onde pode ficar sozinho, meditar, ler e, principalmente, fumar. Emily e Lula ficam na casa maior e ele neste espaço que, aparentemente é pequeno – há uma cama de solteiro, onde ele dorme. Não há muitos móveis, não recebe quase ninguém ali: há guimbas de cigarros pelo chão e ele faz xixi na pia; há um telefone antigo de parede (que ainda funciona) e um notebook.

David Lynch recebeu um Oscar honorário pela contribuição ao cinema americano em 2020.

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[MacLachlan, Dern e Rossellini no Oscar de Lynch]

A Fundação David Lynch criou vida própria e recebe dinheiro de boa parte dos ganhos de seu idealizador, atuando em diversas frentes e tendo uma atuação especialmente importante em diversas regiões dos EUA neste momento de coronavírus.

Uma figura, esse David Lynch. Mas um cara do bem.

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“Espaço para sonhar” tem 600 páginas de David Lynch e uma parte da história do cinema americano de seu auge nos anos 1970 até 2020 e muitas, muitas curiosidades incríveis, como você pode ver no textão acima – mesmo para quem não é muito fã do cinema de Lynch, como é o meu caso. Ao longo da leitura, anotei algumas curiosidades curiosas (sic) como essas abaixo:

Curiosidades:

– O personagem de Lynch em “Twin Peaks”, Gordon Cole, é o nome do homem da Paramount Studios que liga para Norma Desmond em “Crepúsculo dos Deuses” (Wilder, 1950). Lynch tem uma teoria sobre como Wilder criou o nome: quando se vai de carro até os estúdios da Paramount passa-se pela Gordon Street e pela Cole Street.

– O personagem Bob, que é a influência do mal em “Twin Peaks”, não estava no roteiro original. Em um dia de filmagem na casa dos Palmer apareceu o reflexo do produtor de arte da série, Frank Silva, em um espelho. Lynch gostou, chamou Frank e perguntou se ele era ator – ele respondeu que sim e o personagem foi criado.

– Um dia, sem aparente motivo, Marlon Brando foi visitar Lynch em sua casa. Lynch ofereceu café, mas Brando queria algo para comer. Lynch só tinha um tomate e uma banana; Brando sentou-se no chão, pediu um prato e sal, comeu o tomate e a banana e foi embora.

– Em 2014, Lynch participou do “Desafio do Balde de Gelo” e recebeu dois baldes na cabeça, de Laura Dern e Justin Theroux, enquanto tocava “Somewhere Over the Rainbow” no trompete. E desafiou Vladimir Putin para o desafio.

É isso, pessoal. Que o fogo caminhe com vocês!

🙂

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“cari mora” e reflexões sobre thomas harris

Thomas Harris criou e desenvolveu ao longo de três romances um dos personagens mais icônicos da cultura pop recente: o psicólogo serial killer Hannibal Lecter. Ele aparece no primeiro livro de Harris, “Dragão Vermelho” (1981), sendo um dos três personagens masculinos principais, mas se destaca. No segundo, o manjado “O Silêncio dos Inocentes”, (1988) Harris introduz Clarice Starling, personagem feminina que vai alçar Hannibal a outro patamar, a ponto do próximo livro ter o nome do personagem no título, “Hannibal” (1999). Depois veio ainda outro livro, mas é só uma besteira comercial para fisgar a série de TV que estava sendo produzida.

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O fato é que a “trilogia Hannibal” é ótima literatura; vemos os personagens se construindo lentamente; a arquitetura cuidadosa de Harris, sem pressa; as cenas carinhosamente construídas, inclusive as cenas de ação, de tirar o fôlego; os desfechos bárbaros. Não por acaso, todos os livros viraram filmes de sucesso, ajudando a entronizar ainda mais Lecter como o rei dos serial killers do século XX – uma espécie de novo Drácula.

Então eu me pergunto por que Harris não nos entregou mais um romance de sua grande criação e se propôs a criar outro personagem em seu novo romance, lançado agora, vinte anos depois de “Hannibal”, do alto dos seus quase 80 anos de idade? Por que esse romance, por que “Cari Mora”?

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Harris começa errando no título; ele teve o cuidado de não chamar nem o primeiro nem o segundo livro da “trilogia Hannibal” com o nome de sua grande criação. Ao dar o nome da personagem principal ao livro já nos adianta seu foco – e isso é ruim num romance de suspense e ação. “Cari Mora” seria um tanto melhor se tivesse qualquer outro título, podia ser algo brega como “Sangue em Miami” – e então veríamos surgir essa personagem, uma colombiana expatriada nos EUA, que foi soldada mirim na FARC, tendo que lidar com dois grupos de bandidos que procuram por meia tonelada de ouro em uma ex-casa de Pablo Escobar em Miami. Essa é a base do livro.

Um dos grupos de bandidos é um pessoal simpático, tem uns colombianos e espanhóis, gente bronzeada, tatuada, que leva tortillas em bolsas térmicas quando vai matar alguém, caso a fome aperte. O outro grupo é liderado por um sujeito chamado Hans-Peter Schneider que, o nome aponta, é branquelo, não tem um único pelo no corpo, é cheio e maneirismos, meio artista, gosta de dissolver mulheres em ácido, enfim, um cara todo malzão, e a gente suspira: ah, não, outro Lecter?

Pra quê, meu Deus? Pra quê?

Pra nada, pois quase não há mistério… A gente percebe, logo no começo, que estarão antagonizados os personagens de Hans-Peter e de Cari Mora – e como o livro tem o nome dela na capa, não dá para esperar desfecho diferente. Aliás, Harris perde uma ótima oportunidade de colocar um elemento (nem tão) surpresa no entrecho final, melhorando aquilo ali.

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[na contracapa]

Outra coisa perturbadora no livro: os inúmeros personagens que aparecem só para serem mortos duas ou três páginas adiante. Em um momento aparece uma personagem, Candy, e eu pensei: puxa, agora podemos ter uma mulher para antagonizar e talvez se unir a Cari Mora contra Schneider e… Fuén.

O pouco que sobra do novo romance de Harris é sua capacidade de descrição de locais e paisagens – e ficamos sabendo que ele adora Miami. Mesmo neste sentido – e não sei se por culpa da tradução – abundam “tons alaranjados”, sejam nos nasceres ou nos pores de sóis. Um saco.

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Harris é um cara de sorte: seu primeiro livro, “Black Sunday” (1975), foi direto pro cinema e virou ótimo filme de John Frankenheimer, “Domingo Negro” (1977). “Dragão Vermelho” (1981) foi lindamente filmado por Michael Mann em 1986 e tem os ótimos William Petersen como Will Grahan e Brian Cox como Hannibal Lektor (inexplicavelmente, mudaram o nome do personagem). O filme se chamou “Caçador de Assassinos” por aqui, “Manhunter” no original (há uma explicação para a mudança de nome do filme: já havia um filme com dragão no nome passando nos cinemas: “O Ano do Dragão”, do Michael Cimino).

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Aí veio “O Silêncio dos Inocentes” e tal.

Embora a adaptação de “Hannibal” (2001) pelo Ridley Scott seja a mais esculhambada pela crítica e pelo público, creio que seja uma das preferidas pelos leitores e fãs de Harris. Gosto muito. O remake de “Dragão Vermelho” (2002) é mais fraco, mas ainda assistível.

Já “Hannibal – A Origem do Mal” (2007), que tem roteiro do próprio Harris, acho chato. E a série, pouco vi e fiquei sem saco.

Será que vão fazer filme da “Cari Mora”?

:/

 

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meus filmes preferidos do século XXI até agora :)

2001:

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01 – Frailty (A Mão do Diabo) – Paxton

02 – The Royal Tenenbaums (Os Excêntricos Tenenbaums) – Anderson

03 – Lord of the Rings – The Fellowship of the Ring (O senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel) – Jackson

04 – A.I. Artificial Intelligence (Inteligência Artificial) – Spielberg

05 – Amélie Polain – Jeunet

06 – The Others (Os Outros) – Amenábar

07 – Donnie Darko – Kelly

08 – Ali – Mann

 

2002:

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09 – Bubba Ho-Tep – Coscarelli

10 – The Pianist (O Pianista) – Polanski

11 – Gangs of New York (Gangues de Nova Iorque) – Scorsese

12 – Signs (Sinais) – Shyamalan

13 – Irreversible (Irreversível) – Noe

14 – Adaptation (Adaptação) – Jonze

15 – About Schmidt (As Confissões de Schmidt) – Payne

16 – Spider Man (Homem Aranha) – Raimi

17 – Cidade de Deus – Meirelles/Lund

2003:

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18 – Oldboy – Chan-wook

19 – Dogville – Von Trier

20 – Kill Bill – Volume I – Tarantino

21 – Mystic River (Sobre Meninos e Lobos) – Eastwood

22 – O Homem que Copiava – Furtado

23 – X-Men 2 – Singer

2004:

24 – Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças) – Gondry

25 – Kill Bill Volume II – Tarantino

 

2005:

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26 – A History of Violence (Uma História de Violência) – Cronenberg

27 – Sin City – Miller/Rodriguez

28 – Match Point – Allen

2006:

29 – Pan’s Labyrinth (O Labirinto do Fauno) – Del Toro

30 – The Departed (Os Infiltrados) – Scorsese

31 – The Host (O Hospedeiro) – Joon-ho

32 – O Cheiro do Ralo – Dhalia

 

2007:

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33 – – Atonement (Desejo e Reparação) – Wright

34 – Eastern Promisses (Senhores do Crime) – Cronenberg

35 – Planet Terror (Planeta Terror) – Rodriguez

36 – The Mist (O Nevoeiro) – Darabont

37 – 30 Days of Night (30 Dias de Noite) – Slade

38 – Saneamento Básico – O Filme – Furtado

39 – Não Por Acaso – Barcinski

40 – Zodiac (Zodíaco) – Fincher

 

2008:

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41 – Synecdoche, New York – Kaufman

42 – Let the Right One In (Deixe Ela Entrar) – Alfredson

43 – Gran Torino – Eastwood

44 – Iron Man (Homem de Ferro) – Favreau

45 – The Dark Knight (O Cavaleiro das Trevas) – Nolan

46 – Lake Mungo – Anderson

47 – Tropical Thunder (Trovão Tropical) – Stiller

 

2009:

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48 – Get Low (Segredos de um Funeral) – Schneider

49 – Watchmen – Snyder

50 – District 9 (Distrito 9)– Blomkamp

51 – Drag me to Hell (Arrasta-me para o Inferno) – Raimi

2010:

52 – Sound of Noise (O Som do Ruído) – Simonsson-Nilsson

53 – Audition (Audição) – Miike

54 – Shutter Island (Ilha do Medo) – Scorsese

 

2011:

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55 – Kill List – Wheatley

56 – Headhunters – Tyldum

57 – Attack the Block (Ataque ao Prédio) – Cornish

58 – Midnight in Paris (Meia-Noite em Paris) – Allen

59 – Source Code (Contra o Tempo) – Jones

 

2012:

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60 – Berberian Sound Studio – Strickland

61 – The Avengers (Os Vingadores) – Whedon

62 – Relatos Salvajes (Relatos Selvagens) – Szifron

63 – Final Cut, Ladies and Gentlemen (Senhoras & Senhores, Corte Final) – Pálfi

 

2013:

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64 – Blue Ruin (Ruína Azul) – Saulnier

65 – Upstream Color – Carruth

66 – La Grande Bellezza (A Grande Beleza) – Sorrentino

67 – About Time (Questão de Tempo) – Curtis

68 – Blue Jasmine – Allen

69 – Las Brujas de Zagarramurdi (As Bruxas de Zagarramurdi) – Iglesia

70 – Big Bad Wolves – Keshale-Papushado

2014:

71 – The Grand Budapest Hotel (O Grande Hotel Budapeste) – Anderson

72 – Whiplash (Em Busca da Perfeição) – Chazelle

73 – Captain America – Winter Soldier (Capitão América – Soldado Invernal) – Russo

74 – Guardians of the Galaxy (Guardiões da Galáxia) – Gunn – 2014

75 – It Follows (Corrente do Mal) – Mitchell

76 – What we do in the Shadows (O Que Fazemos nas Sombras) – Waititi

 

2015:

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77 – Mad Max: Fury Road (Mad Max: Estrada da Fúria) – Miller

78 – Star Wars – Episode VII: The Force Awakens (Star Wars: O Despertar da Força) – Abrams

79 – The Gift (O Presente) – Edgerton

80 – Jurassic World (O Mundo dos Dinossauros) – Trevorrow

81 – Que Horas Ela Volta – Muylaert

82 – O Lobo Atrás da Porta – Coimbra

 

2016:

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83 – La La Land (La La Land: Cantando Estações) – Chazelle

84 – Nocturnal Animals (Animais Noturnos) – Ford

85 – Doctor Strange (Doutor Estranho) – Derrickson

 

2017:

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86 – First Reformed – Schrader

87 – I, Tonya (Eu, Tonia) – Gillespie

88 – I Don’t Feel at Home in This World Anymore (Eu Não Me Sinto mais em Casa neste Mundo) – Blair

89 – Wonder Woman (Mulher Maravilha) – Jenkins

90 – Logan – Mangold

91 – Baby Driver – Wright

92 – Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (Três Anúncios para um Crime) – McDonaugh

93 – Wind River (Terra Selvagem) – Sheridan

94 – Lucky – Lynch

95 – Mr & Mme Adelman (Monsieur & Madame Adelman) – Bedos

2018:

96 – The Guilty (A Culpa) – Moller

97 – BlackKlansman (Infiltrado na Klan) – Lee

98 – Black Panther (Pantera Negra) – Coogler

2019:

99 – Parasite – Bon-ho

100 – Joker – Philips

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20 livros preferidos & influentes

Cresci em uma casa sem livros. Um primo de meu pai tinha uma oficina mecânica e gostava de desenhar e de histórias em quadrinhos, na oficina dele, nos fundos, tinha uma saleta com alguns gibis, eram gibis antigos, suplementos de jornais, com histórias em quadrinhos em preto e branco, eu não sabia o que era aquilo direito, mas foi algo marcante e eu rezava pro carro do meu pai quebrar só para ir naquele pequeno paraíso de imagens e histórias. A oficina não era muito longe de casa e, depois, um pouco mais crescidinho, com 12 ou 13 anos, eu ia até lá de bicicleta e ficava umas horas na saleta lendo aquilo: HQs do Príncipe Valente, Flash Gordon, O Fantasma, Homem Borracha, Mandrake, Nick Holmes, Recruta Zero, entre vários outros. Começava a paixão pelos quadrinhos e por ler. Às vezes o primo Fleury me emprestava alguns exemplares, e eu levava para casa. Alguns poucos estão comigo até hoje – e guardo como tesouro.

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Depois, meu pai comprava gibis pra mim, a turma da Mônica, Heróis da TV e quadrinhos nacionais de terror. Depois a revista Mad.

Eventualmente, eu ia dormir na casa de um tio e ele tinha livros. Alguns eram de ocultismo e eu gostava de folhear aquilo, embora me desse um pouco de medo. Também havia livros de bolso, da série ZZ7, com as capas do Benício da Fonseca e as aventuras sensuais da agente Brigitte Montfort. Se eu escrevesse um livro um dia, pensava, gostaria de ter uma capa como aquela – foi um sonho conquistado, Benício faria a capa do meu A Comédia Mundana, para minha grande satisfação. Creio que foi sua última capa desenhada.

Os livros de ocultismo de meu tio foram a porta de entrada para os livros de terror e mistério, que abracei na sequência, frequentando a biblioteca municipal. Li Agatha Christie, Conan Doyle e Maurice Leblanc. E depois Stephen King e os similares. Na escola, davam os livros da Coleção Vagalume – acho que li quase todos – até que chegou o momento de O Gênio do Crime, do João Carlos Marinho, pelo qual me apaixonei.

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Acho interessante como O Gênio do Crime me influenciou a escrever; vejo muito dele nos meus livros, que foram escritos mais de vinte anos depois. Em Elvis & Madona fiz uma homenagem ao Marinho, recriando a famosa cena da perseguição ao contrário do Gênio.

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Aí, então, já mais crescidinho, a escola pediu que lêssemos O Cortiço, do Aluísio Azevedo, e aquilo foi um choque pois, claro, era literatura de adulto. Eu devia ter uns quinze anos.

De Azevedo, passei para Machado de Assis e seu Dom Casmurro e, depois, para alguns clássicos que eram adaptados – eram muito comuns, não li Moby Dick ou Os Três Mosqueteiros nas versões integrais, mas as adaptações resumidas que saíam, muitas delas feitas pelo Carlos Heitor Cony. Também procurava por adaptações em quadrinhos e havia uma coleção que trazia vários títulos de Shakespeare e Dickens com desenhos elaborados. Eu estava pronto para leituras mais densas e então lembro de ter lido três livros que gostei muito e que me mostraram o poder da literatura: O Exorcista, do William Peter Blatty; O Apanhador no Campo de Centeio, do Salinger; e Crime e Castigo, do Dostoiévski.

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Um amigo de colégio gostava muito de ler e me apresentou Herman Hesse e o Lobo da Estepe e achei aquilo interessante mas não me bateu. Gostava – e ainda gosto muito mais – dos romances mais lineares e menos viajandões, menos experimentais. Minha escrita vai muito por esse caminho, acho. Mas esse amigo me apresentou algo completamente novo e incrível: Henry Miller e seu Trópico de Câncer. Uau.

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Achava que aquilo era um passo além de O Cortiço e li todos os livros de Miller com grande interesse e depois sua biografia e fiquei fascinado por ele. Lia alguns dos autores que ele citava, procurei por referências, fiquei um bom tempo com Miller. Aí, então, eu fui trabalhar no Unibanco e – incrível! – o banco contava com uma grande biblioteca em sua sede e os funcionários podiam solicitar os livros para ler e eles chegavam via malote! Li vários títulos através desse sistema e um deles, que peguei pelo título, entrou em minha lista de favoritos: Fabulário Geral do Delírio Cotidiano – Ereções, Ejaculações e Exibicionismos, de Charles Bukowski.

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O título, assim como o texto, bastante explícito, me influenciaria bastante. Li muita coisa de Bukowski e, hoje, acho Misto Quente melhor que O Apanhador no Campo de Centeio.

Por essa época, comecei a escrever e me achava poeta. Até participei, com patrocínio do Unibanco, de um concurso nacional e tirei uma menção honrosa com uma juntada de poemas – nem os tenho mais, para benefício da humanidade. Foi quando passou na TV Cultura a série O Poder do Mito, do Joseph Campbell com o Bill Moyers, e eu assisti por acaso, simplesmente mudando minha vida. Comprei o livro depois e me posicionei como ateísta, simplificando minha vida consideravelmente.

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De Campbell, fui para algumas leituras de mitos e acho que aí cheguei a Jorge Luis Borges. Acho que o primeiro foi O Aleph. Mas foi o Ficções que me pegou. Ficava relendo o livro, tentando imaginar o que ali podia ser verdade, o que não era, e de onde aquele sujeito tirava aquelas coisas todas. Li tudo o que pude de Borges, a biografia catatau do Williamson, mas aquilo tudo me enfastiou um pouco e, hoje, acho que gosto mesmo só do Ficções e um pouco menos do Aleph.

Aí eu já tinha saído do banco e ido trabalhar em uma pequena emissora de TV local, tendo contato com o jornalismo. Pensava em ser jornalista – acabei me tornando, pelo ofício, e trabalhei mais de vinte anos em televisão, mas me via sempre mais como um escritor e comunicador do que jornalista. Ainda me vejo. Mas, quando se está em um meio profissional, é meio inevitável que literatura relacionada lhe caia no colo e, então, eu estava lendo livros com reportagens, um tipo pelo qual criei grande gosto. E então teve A Sangue Frio, do Truman Capote.

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Eu queria escrever igual e um livro igual. O que consegui, misturando O Gênio do Crime, Miller e Bukowski e Capote, foi meu A Comédia Mundana, depois. Foi o que eu realmente queria ter feito. Fico feliz pelo que consegui.

O jornalismo literário me pegou e fui ler Gay Talese e toda a turma e gostei do experimentalismo louco do Wolfe do primeiro momento, a arrogância do Mailer, a classe do Joseph Mitchell, mas o que bateu forte foi a demência de Hunter Thompson. Era o momento em que a internet nascia e eu comecei a experimentar alguns textos, algumas reportagens, críticas e alguns relatos de viagem emulando Thompson. Foi interessante descobrir que mais gente estava interessada por ele. Durante muito tempo me diverti lendo Thompson e acho que ele teve influência em algumas coisas da minha escrita – há um pouco dele no meu A Viagem de James Amaro, mas não há um Grande Livro dele para constar aqui. Do jornalismo literário, hoje, prefiro a Janet Malcolm, que conheci há pouco.

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Eu escrevia meu primeiro romance, Virgínia Berlim, e estava lendo sobre mitos do amor, relendo Campbell, até que me deparei com A Dupla Chama – Amor e Erotismo, do Octavio Paz, que logo entrou na minha lista de preferidos de todos os tempos.

Acho que o livro está fora de catálogo no Brasil, o que é uma pena. Meu volume está todo anotado, todo riscado, e é um dos poucos que não empresto, absolutamente. Paz simplesmente conta a história do Amor. É um livro que me posicionou na vida também.

E aí chegamos a Philip Roth, talvez meu ideal de escrita. Existem todos esses livros maravilhosos do Roth, mas o que realmente me pegou foi Homem Comum, que inicia sua terceira fase, de livros curtos e rápidos e contundentes. Eu já tinha escrito alguns livros, estava me preparando para Elvis & Madona (acho) e Homem Comum mudou uma percepção minha sobre livros caudalosos, com muitos personagens, mostrando que a coisa toda pode se concentrar em alguns poucos personagens.

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Acho que depois de Homem Comum e da escrita de Elvis & Madona, direcionei-me para histórias menores, menos personagens e mais concisão. Foi a meta de A Viagem de James Amaro. E de meu recente Quatro Velhos.

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Um dia, em um sebo, vi um livro do Jim Dodge, de Fup, com uma capa horrível, e decidi levar. Entrava na minha vida um livro que acho incrível, não só pela história e a sua forma – é um livro de formação – mas pelo que ele tem de sobrenatural. Acho que também está fora de catálogo no Brasil, mas pode ser encontrado em sebos por bagatela. É O Enigma da Pedra.

Não sabemos porque alguns livros no batem tão fortemente, mas esse é um que me bateu. Escrevi brevemente sobre ele uma vez. Queria escrever algo parecido, um dia.

Também, às vezes, uma resenha nos chama a atenção para um livro. Li num jornal, um dia, sobre Tanto Faz, do Reinaldo Moraes. Decidi ir atrás do livro, justo em um momento em que entrava no mundo do jazz, começava a ouvir jazz com mais atenção e a ler e pesquisar sobre o estilo. Vi um livro totalmente jazzístico, a começar pelo título. Achei incrível, fiquei fascinado e fui atrás de todos os livros do Reinaldo – e foi uma satisfação, depois, estar com ele em alguns eventos literários e saber que ele conhecia minha Comédia Mundana.

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Um pouco do estilo do Reinaldo também está em A Viagem de James Amaro, minha tentativa de estruturar um livro a partir do jazz de formação clássica e tonal.

Sempre gostei também de biografias e queria citar quatro das muitas que li, que me influenciaram e me encheram de prazer. A primeira, lida há muitos anos, é a de Baudelaire, escrita por Henri Troyat, e que mostra de maneira muito clara a formação psicológica de um autor comprometido psicoticamente com o que acredita. Troyat teve acesso a correspondência de Baudelaire e é tudo muito incrível. A segunda, é a de Balzac, curta, sintética, escrita pelo Paulo Rónai, tradutor do francês no Brasil, que dá um panorama geral do momento histórico e da personalidade do autor de A Comédia Humana, inspiração colateral para minha Comédia Mundana. A terceira é A Deusa – As Vidas Secretas de Marilyn Monroe, de Anthony Summers, espécie de protótipo de investigação do que viriam a ser as biografias no Século XX. Summers fala com centenas de pessoas, investiga profundamente a história da atriz e nos entrega uma nova realidade sobre ela, diferente da história oficial, ajudando a criar um novo mito – o livro foi base para tudo o que se conjecturou sobre ela depois, sobre a morte da atriz, sobre o envolvimento dos Kennedy, etc… Recomendo muito.

O quarto, é a bio de Leonard Cohen, o cantautor e poeta canadense, escrita pela Sylvie Simmons, que nos dá uma dimensão incrível da cabeça de uma pessoa criativa e sensível. Escrevi sobre o livro aqui.

Para encerrar… Nelson Rodrigues. Por tudo, pelo conjunto da obra, não dá pra indicar uma. Fui lendo Nelson ao longo dos anos e é impressionante o que ele criou. É referência e influência pra mim.

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É isso.

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Um guru necessário: Atenção. de Alex Castro

Há uns sete anos, eu almoçava com Alex Castro num restaurante em Copacabana, quando tive uma espécie de visão antecipatória. Ok, não vamos exagerar: conhecia Alex há mais de dez anos, quase desde o início do seu blog Liberal Libertário Libertino, quando ele falava do projeto As Prisões; sabia que ele tinha a intenção de transformar aquelas ideias em um livro, estava tateando sobre como fazer, e percebia a resistência que ele de certa forma se impunha: não queria que aquelas dissertações coloquiais soassem como cagação de regra, como se ele fosse alguém, bem, iluminado, algum tipo de pensador muito certo de suas conclusões, dizendo como as pessoas deviam pensar & se comportar. Ele não queria ser um guru. Ele não estava convicto de que enfaixar aqueles textos num livro fosse resultar em algo dinâmico, duradouro e que seria lido da maneira correta; mais como linhas de pensamento para pensar junto com o leitor que linhas estabelecidas e inflexíveis sobre a vida, o universo e tudo o mais. Eu, puro e besta, forçava-o ao contrário, dizia que ele devia publicar o quanto antes, antes que alguém fizesse algo parecido, antes que surgisse algum espertalhão que ousasse ir contra os padrões estabelecidos, as verdades e pressões sociais da tradição & da História sobre o indivíduo, aquilo que ele questionava e levava o leitor a pensar nos textos dAs Prisões.

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Surgiram pessoas questionando o formato do planeta, a gravidade, negando a ditadura, dizendo que o nazismo é de esquerda, enfim, o mundo da pós-verdade se estabeleceu sem questionar as mentiras mais duradouras e evidentes que aprisionam o ser humano, a saber, o dinheiro, o trabalho, a monogamia, o sucesso, a felicidade, as bolas de ferro mentais e emocionais que o indivíduo arrasta pela vida, como diz Alex – ok, os temas foram tratados pontualmente por um autor ou outro, por um filósofo desta ou daquela linha, por coachs (maldição!), por psicólogos, mas, aí é que está, não de maneira geral e ampla, com linguagem para o cidadão comum e, importante!, partindo de um conceito original, esse, criado por Alex, o da Outroajuda.

Touché.

Voltando ao almoço daquele dia lindo e ensolarado, falei a Alex que não importava se ele queria ou não ser visto como guru da geração, isso era algo que estava ligado ao ego dele, o que se pode querer ou não… Ele devia fazer o que ele devia fazer, independente de como seria visto ou chamado. Ele não me deu bola, disse que não era hora – e voltou para o seu peixe frito.

Mas eu estava certo.

Ele então ingressou no zen-budismo e burilou seus textos dAs Prisões em uma série de encontros de Outroajuda, uma espécie de instalação artístico-literária, que acabou ajudando-o na definição de conceitos e na criação de termos únicos e exclusivos para a sua literatura e para entender o Brasil e o mundo de hoje: a outrofobia e a outroajuda. A outrofobia foi tratada em livro com mesmo título e, agora, sai “Atenção.”, o livro que trata da outroajuda. Alex conseguiu alcançar um estado tal de desprendimento de ego que já não se importa como vai ser chamado – e já há quem ache que seus livros são algum tipo de “autoajuda com outro nome, para enganar o pobrezinho do leitor”. Mas ele já não liga: os textos de “Atenção.” são carregados de autossuficiência e posição, energia e direção, conceito e fato concreto, análise e conclusão certeiras, sem que ele se importe se vão achar que está cagando regras.

Não está, mas não se pode controlar o leitor mais despreparado.

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É preciso dizer: é um livro para leitores preparados para receber esse tipo de informação, de raciocínio. É preciso querer pensar – algo raro nos nossos dias. É preciso ler com atenção, esse livro chamado “Atenção.”.

Estou feliz pelo Alex, por esse livro e por ele ser o guru certo, neste momento certo. Um guru necessário.

Alex estará em Americana (SP) dia 31 de março para a palestra Atenção como Commodity, na Semana de Tecnologia da FAM – Faculdade de Americana, 19h. Entrada gratuita, patrocínio da Vegas Card.

E no dia seguinte, 1 de maio, nós dois lançamos nossos novos livros na Flipoços. Vai rolar um bate-papo com o público sobre os primórdios da internet. Eu e Alex somos uns dos primeiros a lançar e-books no Brasil.  Vamos lá? 🙂

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desafio dos 10 discos que mais ouvi na vida

tive que pensar bastante sobre isso. não são os meus discos preferidos de todos os tempos (alguns são), mas sim aqueles discos que eu ouvi muito mesmo, sei a ordem das músicas, conheço as canções de coração (de cor), por um motivo ou outros esses discos estão incorporados à minha vida. então:

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duplo, né? minha tia rita tinha na casa dos meus avós e eu ficava ouvindo e acompanhando as letras. depois comprei o vinil e ainda ouço. devo ter ouvido umas mil vezes e amo.

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quando esse disco saiu eu tinha 17 anos e comprei na única loja de discos da cidade e tenho até hoje. esse disco e 17 anos, rapaz…

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quase não conheço nada do marillion antes ou depois desse disco, mas acho que é o disco que levaria para uma ilha deserta se pudesse levar só um.

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também comprei quando saiu e acho que meio que me introduziu no jazz, em tudo o que fui gostar depois. ouço muito, muito, até hoje.

3

então, esse é o disco que está no prato neste momento, acho que é o meu preferido do jazz.

6

esse é um disco pop considerado menor do RC, mas eu o amo. ele estava em uma pilha de descarte em uma emissora de rádio onde trabalhei, lá por 1990 e eu levei pra casa e está aqui ❤

9

o disco do LR que mais ouvi foi o primeiro, um best of, mas acho que esse foi o segundo. esse ou transformer…

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um dos primeiros discos que comprei na vida, assim que foi lançado, e eu ficava trancado no quarto ouvindo as canções estranhas e me achando muito gótico 🙂

8

primeiro disco do EC que comprei, quase que pela capa… tava passando na loja e vi essa capa extravagante e comprei. depois ouvi tudo dele.

10

bom, o VC produzido pelo michael stipe é um dos meus discos preferidos de todos os tempos, comprei o cd em digipack quando ninguém fala do vic…

menção honrosa para esse que não tenho mais, ouvi demais, ainda quero comprar de novo para ouvir em vinil só:

4

em breve penso nos nacionais. quer dizer, o NOUVELLE CUISINE é nacional, mas vai nessa lista mesmo.

😉

 

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Essa geração de escritores brasileiros tem personagens odiosos?

[A propósito deste texto de Tiago Germano]

A principal questão levantada no artigo de Tiago Germano, que abre e fecha seu texto, é:como é possível que, com personagens tão antipáticos, a narrativa de nossa geração não pareça tão profundamente odiosa para o leitor do futuro?”. Durante o artigo, porém, Tiago não investiga os tais “personagens” da atual “narrativa geracional”, a não ser um odioso escritor, chamado propositalmente Graciliano, personagem principal do livro de Paulo Scott, “O Ano em que Vivi de Literatura”, que é, como o próprio artigo explica, uma paródia do escritor brasileiro contemporâneo, mais ou menos da geração de Scott. Ou seja: a questão de Germano está contaminada pela metalinguagem, pela confusão que ele mesmo criou ao escolher um único personagem, odioso, que é escritor e que emula escritores de uma geração, como parâmetro, tornando todo escritor desta geração, odioso e, por consequência, todos os seus personagens.

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Desenhos de Fabio Zimbres, utilizados na capa do livro de Scott

Apesar de talvez todos os escritores desta geração serem meio odiosos (hehehe) talvez os seus personagens não sejam. É, mais uma vez, a confusão de autor/criação, amplificada pelo exemplo pinçado por Germano.

Mais adiante, em seu texto, Germano cita um dos escritores mais bem-sucedidos desta geração, Daniel Galera (Galera não concorda com essa epítome, que usei em uma facilitação que fiz com ele no SESC Campinas há pouco tempo). Galera teria dito que “O que distancia minha geração das anteriores é o narcisismo e a carência elevados a ethos predominante”. Interessante: talvez a chave esteja no “ethos” que pode ser o âmbito da internet – e mais especificamente, das redes sociais, atualmente – que foi de onde surgiu praticamente toda a geração de Galera e Scott. Acompanhamos, como leitores deste tempo, não o surgimento deste ou daquele autor mas a sua construção. E isso nos dá muita informação sobre esse autor, a ponto de quase não conseguirmos dissociar o autor da obra, confusão intrínseca no texto de Germano.

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Voltando ao caso de Galera: eu o leio há vinte anos, antes de ele se tornar romancista; lia no CardosOnline, fanzine em .txt enviado por e-mail em fins dos anos 1990. Vi o jovem e seu interesse por coisas específicas, falando de sua vida e da interação com amigos e sua cidade, dos livros, discos e filmes que consumia e, depois  vi nascer o contista a partir de seus textos no fanzine e, depois, o romancista a partir dos contos. Esse tipo de coisa quase não se tinha há vinte anos: você não tinha muitas informações a respeito do novo autor, cujo livro encontrava na estante da livraria, além do que havia na orelha (se havia) ou de alguma resenha no jornal (impresso, diga-se) – para quem tinha acesso a jornal.

Hoje, essa construção é ainda mais exposta, através das redes sociais. É difícil que um escritor dessa geração não esteja ali, no Facebook – e Galera não está, o que talvez comprove minha tese que ele, sendo o mais bem-sucedido autor de sua geração (hehehe), está um passo acima de todos os outros, sem a necessidade de exposição e segurando seu narcisismo e carência (hehehe) em detrimento de uma escrita que não se contamine com sua personalidade. Mas o que sobra a todos os outros, reles mortais, senão a exposição de si mesmo nessa grande rede para se fazer visto, lembrado, conhecido, para fazer contatos com outros escritores, editores, críticos e todo o mundo da literatura?

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Dois de centenas de grupos de escritores no Facebook. Só os 2, mais de 40 mil escritores.

Assim, prosseguindo aquela incrível lógica daquele meme que diz que “Jesus só te ama porque não convive com você”, os escritores seguem expondo diariamente suas referências, angústias, carências, medos, humanidade, no fim, construindo uma imagem antes de uma obra, que acaba contaminada, fazendo com que potenciais leitores só se interessem por ela (a obra) a partir da ideia que têm do autor – essa pessoa narcisista e carente, inserida no ethos predominante que expõe e amplia essas características. Nesse meio todo, existem os incríveis ruídos de comunicação, mas essa é outra história.

Seria preciso uma leitura das obras contemporâneas para além dos autores, sem essa contaminação, para detectar o perfil de seus personagens e verificar se são realmente odiosos. É certo que temos muitos livros cujos personagens são escritores, mas essa também é outra história.

Talvez a pergunta que Germano tenha formulado seja: “como é possível que, com escritores tão carentes e narcisistas (ou, talvez, jovens e muito expostos), a narrativa da nossa geração não pareça tão imatura (ou, talvez, umbiguista e desinteressante) para o leitor do futuro?”. Colocado assim, penso que não há saída: poucos, muito poucos, produzem algo de relevante e que vai sobreviver no futuro. E sempre foi assim, independente dos níveis de carência, narcisismo ou deslumbramento, sempre restam poucos autores realmente relevantes em cada geração e, como Germano diz em seu artigo, alguns personagens são realmente odiosos e interessantíssimos. Assim como alguns autores.

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Entre em um sebo e veja os nomes completamente desconhecidos de uma legião de autores nacionais; muitos foram lidos e reverenciados em seu tempo, por um motivo ou outro, e entraram para a lista dos esquecidos completamente; outros produziram uma ou outra obra que pode aparecer em alguma lista, mas nunca conseguiram repetir a façanha do livro um pouco acima do mediano; poucos, estão ali com obras de 50 anos atrás e que ainda são razoavelmente lembradas e muito, muito poucos, podem ser colocados na lista de autores que construíram uma obra relevante, coesa, para além de seu tempo, seu ego, seu narcisismo, sua carência, seu umbiguismo.

Não é fácil.

E não há como prever, neste instante. Somente a próxima geração vai eleger o que vai sobreviver mais um pouco. E assim sucessivamente. Muitas variáveis atuam sobre esse cenário, desde prêmios a momentâneas ondas que reverberam neste ou naquele tema, sexo, doença, espiritualidade, crime… Um ponto interessante, para ampliar o debate, é o papel das editoras na avaliação do original, que antes parecia ser mais rígido, até mais invasivo, na intenção de melhorar o resultado final. Mas essa também é outra história.

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George Steiner, que acha que existem livros demais sendo publicados – sem critério.

 

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Uma obscura influência musical de Nick Drake e Nick Cave

É possível que você nunca tenha ouvido falar em Jackson C. Frank. Autor de um único disco nos anos 1960, o cantor/compositor praticamente sumiu gerando curiosidade, indignação e lendas sobre sua figura loura, meio etérea, fantasmagórica. O sujeito era azarado, deprimido, meio doido, traumatizado e alcoólatra. Foi a maior influência de Nick Drake. No disco em que Nick Cave mostra algumas de suas influências (incluindo um Chitãozinho e Xororó rápido), “The Boatman´s Call”, chupa a capa do único disco de Frank.

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O disco de Frank foi produzido por Paul Simon, que achava que o maluco seria o novo Dylan; junto com o parceiro Garfunkel, gravou “Blues Run the Game”, a canção. Nick Drake também a gravou, em uma sessão de “Five Leaves Left”, além de outras canções de Frank. Uma busca pela canção no YouTube mostra que diversos artistas a gravaram, entre eles Sandy Denny, Laura Marling, John Mayer, Bert Jansch, Mark Lanegan entre outros – e existem vários covers. Al Stewart e Lou Reed eram fãs de Frank. E a atenção ao músico cresceu nos últimos anos por conta de uma biografia elogiada, de um documentário que está sendo produzido, e da utilização de suas canções em filmes como “Inside Llewyn Davis” (que pode ter Frank como inspiração para o personagem), “Martha Marcy May Marlene”, além de séries de TV, como “This Is Us“.

Antes de contar rapidamente sua história, vale a pena ouvir sua melhor e emblemática canção em sua própria voz:

Pois é. Nascido em Buffalo, New York, em 1943, Frank era um garoto comum. Quando tinha 11 anos, o colégio onde Frank estudava pegou fogo. Quinze de seus amigos morreram, incluindo Marlene, sua namoradinha – ele a homenageou em uma canção depois. Frank teve 50% de seu corpo queimado e passou meses no hospital, em recuperação. Ganhou um violão e começou a tocar. Ficou fã de Elvis Presley e foi visitar Graceland com a mãe, que fez uma foto dele com o ídolo. Nascia o desejo de ser músico profissional.

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o Rei e Frank

Dez anos depois do incidente na escola, atingindo a maioridade, Frank recebeu um cheque de mais de cem mil dólares (cerca de meio milhão em dinheiro de hoje) de indenização pelo incêndio – e decidiu se mandar para a Inglaterra. Usou o dinheiro para produzir seu primeiro e único disco por lá, com a ajuda de Simon. Não foi fácil gravar o disco, ele sofria de ansiedade e era muito tímido, tendo que se esconder atrás de biombos para poder cantar e nunca ficava satisfeito com o resultado final. Em um ano, todo o dinheiro tinha acabado e ele voltou para os EUA. O disco não aconteceu e ele entrou em depressão severa.

Nos EUA, casou com Elaine Sedgwick, prima de Edie, e teve dois filhos.Um deles morreu de fibrose cística, o casamento acabou, e ele ficou realmente desequilibrado, tendo que ser internado em uma instituição.

Como o melhor período de Frank havia sido na Inglaterra, ele achou que devia voltar para lá, mas nada era como antes. De volta aos EUA, sem dinheiro, virou morador de rua, tendo sido atendido em várias instituições. Um dia, sentado num banco de praça em Queens, uma bala perdida atingiu seu olho esquerdo. É mole?

Com a ajuda de parentes e amigos, viveu seus últimos dias tentando controlar a esquizofrenia, o trauma da infância, a frustração com a música, a insatisfação com os relacionamentos, a incompreensão dos pares e a depressão, a angústia, a obesidade e a cegueira. Morreu em 1999, esquecido, aos 56 anos.

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Agora, quem sabe, Jackson C. Frank esteja sendo resgatado do esquecimento.

Aqui, o trailer do documentário que está prestes a ser lançado.

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O Brasil em Nick Cave

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Nick & Viv.

No início de 1993 fui até a Santa Efigênia, em São Paulo, buscar uns equipamentos para a emissora de TV em que trabalhava. Estava com meu chefe Ginel Flores. Andando por ali, parei num camelô que vendia CDs e encontrei o “Henry´s Dream”, do Nick Cave – que eu não conhecia, só tinha ouvido falar. O camelô abriu um sorriso e disse:

– Eu tinha uma loja na Galeria do Rock e esse cara não sai de lá, ele mora aqui na Vila Mariana. Ele não fala português e o pessoal lá zoa ele, chama ele de Chitãozinho.

O apelido era por causa do cabelo do músico, parecido com o do sertanejo, repicado em cima e com mullets gigantes.

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– Nick Cave mora em Sampa?

Foi quando fiquei sabendo.

Levei o CD, que é um dos meus preferidos dele até hoje. Depois comprei tudo, li o que pude sobre ele, e fiquei atento.

Em meados de 1989 era impossível ficar incólume a Chitãozinho e Xororó. A dupla estava em todos os programas de TV, tocava incessantemente no rádio, podia ser vista em outdoors de propaganda de seus shows e, para quem vinha do exterior, parecia representar uma unanimidade nacional. Foi quando Nick Cave chegou ao país para morar com Viviane Carneiro, que tinha conhecido um ano antes, quando os Bad Seeds vieram tocar aqui. Ela estava grávida e Nick se desintoxicando de heroína – acharam que viver no Brasil seria bom para o processo. O jornalista Pedro Alexandre Sanches diz que o casal morou na Vila Madalena, mas um cara, numa fila de cinema em SP, me disse que foi vizinho de Nick em Vila Mariana, corroborando o camelô.

Era dezembro de 2000 e eu estava em SP visitando um amigo com minha filha Isabelle, então com oito anos. Fomos ver Fuga das Galinhas em um cinema de rua, não me lembro qual, tínhamos entrado em uma loja de discos antes, eu tinha comprado alguns, e na fila dos ingressos, tirei o “The Boatman´s Call” da sacolinha para dar uma olhada. Um cara, mais ou menos da minha idade, com um garoto de uns dez anos, olhou para o disco por cima dos meus ombros e disse:

– Fui vizinho dele, fomos pais mais ou menos na mesma época, vivíamos conversando sobre paternidade e tal…

Infelizmente, a fila andou rápido e não pude falar mais com o sujeito. Me lembro só de ele ter dito que Nick ficava muito em casa e gostava de entrar em igrejas para ver os cultos, às vezes Viviane ia junto, achava que era evangélica. “Meio doida, mas evangélica”.

Aparentemente, a rotina de Nick era discreta, alternando idas à Galeria do Rock, a pé, parando em botecos no caminho, onde apreciava os salgados e cervejas Antarctica – quando foi assaltado duas ou três vezes (não guarda ressentimentos); em casa escrevendo e cuidando do filho, Luke; e, eventualmente, indo a casas noturnas, como o Espaço Retrô.

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Nick usou alguns desses lugares que conheceu, assim como prostitutas, travestis e gente da noite paulistana no videoclipe de “Do You Love Me”, rodado aqui.

Ele gravou “The Good Son” no Cardan Studios, em São Paulo, em 1989, o disco foi lançado no ano seguinte. A faixa de abertura é “Foi na Cruz”, assim mesmo, em português, com trechos do clássico cristão de mesmo nome, de Luiz de Carvalho, gravado em 1958, no primeiro disco gospel brasileiro, muito tocada em cultos da Assembléia de Deus. Ouça:

“The Good Son” tem outras canções de inspiração “tradicional” ou folclórica. Há tempos Nick vinha reescrevendo coisas assim. “The Good Son”, a canção, por exemplo, é baseada num spiritual chamado “Another Man Gone Done” e “The Witness Song” tem base num gospel chamado “Who Will be a Witness”. No período que Nick passou no Brasil, ele escreveu muito material desse tipo, que seria gravado em discos seguintes. Por exemplo, “When I First Came to Town”, de “Henry´s Dream”, é decalcado da canção tradicional “Kathy Cruel”; “Stagger Lee”, “Henry Lee” e “Crown Jane”, de “Murder Ballads” são quase versões literais de canções tradicionais. Esse disco tem uma cover de Bob Dylan e algumas pessoas entendem que o disco anterior de Nick, “Let Love In”, foi quase todo inspirado em canções de Dylan – tese na qual acredito.

O fato é que Nick fez uma versão para “Fio de Cabelo”, de Chitãozinho & Xororó. Ele gostou da ideia da canção e a reescreveu, dando o nome de “Black Hair”, gravada no disco “The Boatman´s Call”.

“The Boatman´s Call” é um disco com muita homenagem, reescrita e chupação. Por exemplo, fã de Leonard Cohen e de Lou Reed”, Nick começa “There is a Kingdom” com a frase “Just like a bird” emulando Cohen em “Bird on the Wire” e com uma melodia simplesmente chupada de “Perfect Day”, de Reed. Interessante que Nick diz que esse disco o remete a Viviane Carneiro tanto quanto a PJ Harvey, com quem ele teve um namoro e de quem levou um PNB.

Muita gente acha que o disco seguinte, “No More Shall We Part”, é uma espécie de continuação de “The Boatman´s Call”, mas, na verdade, o disco marca uma guinada e aponta para uma nova fase da carreira de Nick, com letras mais elaboradas, distância das canções tradicionais, autenticidade, originalidade. “No More…” é o décimo-primeiro disco de Nick, gravado quatro anos depois do anterior.

Depois tudo ficou ainda mais interessante. images

Voltando um pouco, Nick ficou por aqui entre fins de 1989 e 1993, voltando duas ou três vezes e, depois, levando Viviane e o filho Luke para Londres. Separaram-se, Viviane é psicoterapeuta lá e Luke é casado com uma jornalista esportiva.

Em 1994, Nick deu uma entrevista para a Hypno Mag onde não falou exatamente bem do país. Deve ser por isso que demorou quase 30 anos para voltar.

Mesmo que as coisas não tenham mudado muito por aqui.

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Nick & Luke.

UPDATE: doc interessante com imagens de Nick em SP, indicado nos comentários por César 🙂

 

 

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50 anos da morte de RFK – vem um filme por aí

Em 5 de janeiro de 1968, Aristóteles Onassis telefonou para o jornalista Peter Evans oferecendo um contrato para que ele escrevesse a sua história. Ganhar uma boa grana para contar a vida do milionário mais famoso do mundo, uma história recheada de intrigas, sexo e política era tudo o que um escritor podia querer. Assim, Evans teve acesso ao universo de Onassis, acompanhando com atenção, inclusive, o casamento dele com Jacqueline Kennedy dia 20 de janeiro do mesmo ano. Mas Onassis cancelou o projeto, só retomando o contato com Evans em 1974. Era outra figura: o casamento com Jackie tinha acabado (ele chegara à conclusão que ela tinha dado um golpe), seu filho tinha morrido num estranho acidente de avião (podia ter sido uma sabotagem), sua ex-mulher tinha se matado (ou sido morta pelo marido, seu ex-cunhado), sua filha vivia em um estado de depressão, os negócios andavam mal e ele sofria de uma doença autoimune, miastenia grave, e mal conseguia falar. Ele estava também paranoico, falando em conspirações, e Evans fez algumas entrevistas complicadas com o milionário até que ele morresse meses depois.

“Ari: The Life and Times of Aristotle Socrates Onassis” saiu em 1986 e consolidou o mito do “grego dourado”. Foi vendido para a TV, virou minissérie premiada, com Raul Julia fazendo Ari, e Evans ficou rico.

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Porém, em 1988, o advogado grego Yannis Georgakis, amigo e conselheiro de Onassis durante toda a vida, disse a Evans que o livro era bom, mas que “faltava a história real”. O escritor devia se ater às circunstâncias do casamento entre Ari e Jackie e também sobre a morte de Bobby Kennedy. Não seria, porém, Georgakis quem iria contar os meandros da história, o escritor devia pesquisar. Evans podia deixar isso pra lá, já estava com a vida ganha, mas decidiu bater um papo com Christina, a filha. Eles almoçaram, ela estava infeliz, como sempre, disse que não tinha lido a biografia do pai pois tinha medo do que podia descobrir. Evans disse que gostaria que ela lesse, pois estava pensando em escrever mais sobre ele, talvez escrever até mesmo a biografia dela.

Cinco meses depois, ela ligou dizendo que tinha lido e queria discutir o livro com ele. Eles almoçaram em Paris, mas ela não parecia muito bem. Entre outras coisas, confessou que tinha acabado de refazer seu testamento – pelo oitava vez. Sua filha, Athina, estava com quatro anos, ela amava seu marido – que, ela sabia, a traia -, e disse que o pai, quando odiava, “não poupava ninguém”. Marcaram um café para o dia seguinte e, depois de fazer Evans jurar sigilo sobre o que ela ia contar, finalmente ofereceu o ponto de partida sobre o que estava faltando na biografia do pai: Onassis pagou a um terrorista palestino, Mahmoud Hamshari, uma taxa de proteção para sua empresa, a Olympic Airways, para que não ocorressem atentados terroristas em seus aviões – e, mais tarde, Onassis descobriu que parte desse dinheiro foi usado para financiar o assassinato de Robert Kennedy.

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Como a morte de Robert abriu caminho para que Onassis se casasse com Jackie – um casamento que Bobby tinha jurado que só aconteceria por cima de seu cadáver – podia ser que Onassis não “tivesse descoberto” o financiamento, mas sim tivesse deliberadamente financiado a morte de Bobby.

Estupefato, Evans disse que ia investigar e que não publicaria nada sem o consentimento de Christina. Três semanas depois, Christina foi encontrada morta em sua banheira em Buenos Aires. Aparente suicídio. Ela já tinha tentado antes. Mas como seu corpo fora retirado da banheira e colocado na cama, mudando a cena da morte, não podiam determinar com clareza. A polícia, os médicos, a imprensa, tudo virou uma confusão na suíte do Tortugas Country Club onde estava hospedada. Depois de examinarem o corpo, os médicos legistas queriam fazer uma autópsia, que foi negada, impedindo que se soubesse de fato do que ela morrera.

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Chocado, Evans começou um cauteloso levantamento de dados. Quase cinco anos depois, falou novamente com o velho Georgakis que disse que Robert Kennedy era um problema não resolvido há tempos para Onassis e que, sim, o amigo podia ter financiado o assassinato.

A conclusão da pesquisa de Evans está em “Nêmesis – Onassis, Jackie O. e o Triângulo Amoroso que derrubou os Kennedy” (Intrínseca), que está sendo adaptado para o cinema – e bem que o Scorsese podia estar à frente desse projeto.

O fato é que todos sabem quem matou JFK, mas ninguém se lembra do assassino de Bobby. O palestino Sirhan Bishara Sirhan trabalhava na cozinha do Ambassador Hotel de Los Angeles e não tinha ligações com organizações terroristas – na verdade, era considerado um jovem calmo, solícito e amável. A comitiva de Kennedy estava circulando pelo hall, Kennedy estava falando com alguns funcionários do hotel, quando Sirhan caminhou lentamente até ele, sacou um revolver calibre .22 e descarregou a arma. Bobby tinha dispensado os seguranças naquele dia pois o local era apertado e havia muitos ativistas pela paz na Califórnia – não queria parecer amendrontado ou inseguro. Depois dos disparos, Sirhan ficou calmo e parecia não saber o que estava acontecendo. Quem estava no staff de Bobby e ajudou a segurar o assassino foi o jornalista George Plimpton. Outras cinco pessoas foram atingidas pelos disparos. A cantora e tia de George Clooney, Rosemary Clooney, também estava lá com Bobby e quase foi atingida.

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Sirhan é preso.

Aos policiais, Sirhan disse que não sabia o que tinha feito. Não se lembrava. Continua com essa versão até hoje: ele está preso em Corcoran, na Califórnia, onde estava Charles Manson. Cumpre perpétua, depois que foi cancelada sua execução. Um dos motivos do cancelamento foi a convicção plena de Sirhan de que não tinha cometido o crime que todos viram ele cometer. Recentemente, foi negado seu 15º pedido de liberdade e a história se complica neste caso de 50 anos com um segundo atirador colocado na cena do crime. Mas isso é outra história.

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Sirhan hoje, alegando não se lembrar do crime.

Onassis odiava RFK desde muito antes da intenção de casamento com Jackie. Quando era procurador-geral, RFK praticamente banira Onassis dos EUA. RFK também tinha tretado com outros amigos de Ari, perseguia Jimmy Hoffa, presidente do sindicato dos caminhoneiros que também mandava no sindicato dos estivadores, com quem Onassis tinha negócios que ajudavam na movimentação de cargas de seus navios. Mas foi um caso prosaico que fez com que Ari mirasse toda sua raiva no irmão do presidente.

Spyros Skouras foi o grego que inventou Hollywood, um nome esquecido hoje. Em 1935 ele arquitetou a fusão da Fox com a Twentieth Century para criar uma das empresas mais famosas do mundo. Em 1962, com 73 anos, Skouras estava com dois filmes problemáticos em andamento.

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“Cleópatra” entrava em seu 33º mês de produção e já tinha consumido 30 milhões de dólares – cerca de 435 milhões em dinheiro de hoje. Skouras e o estúdio estavam à beira de um colapso, quando o grego recebe um telefonema do procurador-geral RFK pedindo para que Skouras fizesse preparativos no set de “Cleópatra”, em Roma, para receber a visita de seis amigos dele. E ainda exigia que os amigos fossem entretidos no almoço por Elizabeth Taylor. Skouras mandou RFK se foder e o irmão do presidente jurou que o grego ia desejar nunca ter vindo para os EUA.

O outro filme com problemas era “Something´s Got to Give”, estrelado por Marilyn Monroe que não aparecia nas filmagens e estava tendo um caso com os dois Kennedys.

Possivelmente, Skouras estava enciumado também, não era apenas a questão do filme: o grego não apenas tinha sido amante de Marilyn, mas também a tinha descoberto e sugerido a mudança de nome de Norma Jean para Marilyn Monroe. Ambos mantinham uma relação meio incestuosa; ela o tratava por Papa e ela a tratava por “filha maravilhosa”.

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Filhinha e papai

Não bastasse isso, Marylin foi convidada para cantar na festa de aniversário de 45 anos do presidente, mas dependia da liberação do estúdio. Skouras não permitiu – tinha um filme a ser feito e ele não gostava dos Kennedy. Mesmo sem a liberação, um helicóptero pousou na Fox na tarde de quinta-feira, 17 de maio, com o ator Peter Lawford, marido da irmã dos Kennedy, e praticamente sequestrou Marilyn para o evento de aniversário – deixando Skouras completamente puto.

Skouras era muito amigo de Onassis. E o amigo era solidário ao seu sentimento de vingança.

Surge então uma jovem maluquinha na história. Lee Radziwill tinha acabado de se casar com um príncipe, Stanislas Radziwill, da Ucrânia – ou algo assim. Era seu segundo casamento e conheceu Onassis de quem, rapidamente se tornou amante. Onassis também era amante de Maria Callas na ocasião. Lee também era amante de John Kennedy. E, ah, era irmã de Jacqueline Kennedy. Sim: John comia a cunhada – e fazia tempo.

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Jackie & Lee

Jackie vivia sua quarta gravidez, tida como arriscada, ela já perdera um bebê, e estava magoada com o marido, com Marilyn cantando no aniversário dele e não aguentou quando JFK foi convidado para uma viagem à Europa e chamou a cunhada para acompanha-lo. O convite foi um pouco para tirar Lee das garras de Onassis, mas também porque JFK queria levar uma marmita. Foi quando Bobby ligou para o grego exigindo que ele parasse de se encontrar com Lee. Onassis respondeu: “Bobby, você e Jack trepam com sua rainha do cinema, eu vou trepar com a minha princesa”.

Pouco tempo depois, Marilyn estava morta. Hoje já se sabe que Bobby e Lawford estiveram com a atriz na casa dela na tarde de 4 de agosto, saíram possivelmente antes das 18h, e ela foi “encontrada morta” muito mais tarde, mas essa é outra história.

Acontece que logo depois nasce Patrick, o filho de Jackie e John, mas ele só vive por um dia e meio. Ele é enterrado, a nação se comove. Vivendo seu luto triste – não apenas pelo filho morto, mas pelo fim iminente do casamento – Jackie recebe um convite para passar uns dias no iate de Onassis. Foi a irmã quem convidou, ela aceitou.

JFK e o irmão ficaram possessos, o que fez Jackie ficar ainda mais convicta da viagem. Como escreve Peter Evans, “era hora de dar o troco”.

Bobby ligou novamente para Onassis. Dessa vez mais calmo, disse que ele e o irmão não iam colocar objeções no caso dele com Lee, mas que desistisse do cruzeiro com a primeira-dama. Quando contava essa história, Onassis sempre lembrava que, no momento do telefonema de Bobby, ele estava recebendo um boquete de Manuela, sua prostituta preferida. Onassis rechaçou o pedido de Bobby: “Garoto, você não me assusta, já fui ameaçado por especialistas”. No que Bobby explodiu: “O que ocorreu no passado, seu grego filho da puta, não é nada comparado com o que está por vir”.

Jackie foi para o cruzeiro e fez amor com Onassis na terceira noite.

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Onassis ajuda Jackie durante o luto do filho.

Na volta aos EUA, ela tinha que excursionar com o marido para a campanha de reeleição presidencial, eles dormiam em quartos separados. Era tudo uma encenação. Três meses e meio depois do enterro de Patrick, JFK era assassinado em Dallas.

Durante os preparativos para o funeral, seis pessoas foram convidadas para se hospedar na Casa Branca. Uma delas era… Aristóteles Onassis, a convite de Jackie e Lee. Segundo Evans, a presença de Onassis seria uma maneira de Jackie dizer aos Kennedy que ela já não esperava ser tratada “apenas como uma coisa”. O encontro de Bobby e Ari na Casa Branca, às vésperas do enterro de JFK, daria, só ele, um filme fantástico. Estavam todos devastados pelo assassinato e meio loucos de pílulas, álcool e cansaço. Mas é claro que Bobby estava com vergonha, raiva e frustrado por ter que falar com o rival, o homem que tinha chifrado seu irmão.

Enquanto a nação chorava e Jackie encenava um luto necessário, Onassis voltou para seus negócios e se preparava para casar com Jackie. Ele ainda amava Callas, mas queria se casar com Jackie – era bom para sua imagem, para os negócios, e ela o excitava. O que ninguém esperava era que Jackie iniciasse um caso com… Bobby Kennedy!

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Cunhados e amantes.

É claro que Onassis sabia – ele sabia de tudo. Também instalou um detector de mentiras em seu telefone e acreditava no objeto. Assim, confirmou que Jackie estava se divertindo com várias companhias em Nova Iorque, estava “tirando o atraso”. Já não era santa quando estava casada, teve ao menos um caso notório, com William Holden, mas nos últimos dois ou três anos, alternando com Onassis, tivera ao menos meia dúzia de homens fixos.

Os negócios não iam bem e Onassis decidiu apressar o casamento. Jackie estava chegando aos 40 anos e o casamento ia fazer com que perdesse a pensão de JFK, então o contrato com o grego tinha que ser bom. Bobby não aceitava de maneira alguma. Até que apareceu Hamshari e sua proposta de proteção da companhia aérea de ataques palestinos e a lembrança de uma conversa que Onassis tivera com um amigo sobre um médico que utilizava hipnose e um filme polêmico feito pouco antes do assassinato de JFK…

O médico era William Joseph Bryan Jr. Ele havia sido consultor sobre hipnose no filme “Sob o Domínio do Mal” (The Manchurian Candidate, Frankenheimer, 1962). O filme mostra como um soldado americano capturado na Coréia é programado mentalmente para assassinar o presidente dos EUA. É certo que Hamshari esteve com o dr. Bryan. E há evidências que Sirhan também viu o dr. Bryan. E hoje sabe-se que o dr. Bryan trabalhara no projeto MKULTRA, da CIA, que estudava o controle mental.

Em 1968, pouco antes da morte de RFK e do casamento com Jackie, Onassis visitou o dr. Bryan em Las Vegas para uma sessão onde procurava curar sua insônia.

Agora, é esperar o filme que estão fazendo sobre tudo isso.

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Tô pasmo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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