Meus filmes preferidos de 2017

Só agora no finalzinho do ano vi “Guimme Danger” do Jarmusch, documentário sobre Iggy Pop & The Stooges que adorei, principalmente por mostrar que Iggy e a banda tinham consciência do que faziam, da cena musical, da teatralidade do espetáculo, dos aspectos artísticos e musicais profundos e não eram apenas garotos descerebrados fazendo barulho. Muita imagem de arquivo interessante, ótima edição e som.

Acho que o filme de ficção que mais me deu prazer em 2017 foi “Monsieur & Madame Adelman”, que não vejo em nenhuma lista de melhores. Estreia do ator francês Nicolas Bedos na direção (ele ainda escreveu o roteiro, compôs a música e atua), o filme emula um Woody Allen sem medo de ser feliz. É a história do relacionamento de um escritor e sua mulher ao longo de 45 anos. Um espetáculo.

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Também meu deu grande prazer ver “Já não me sinto em casa neste mundo”, estréia do ator Macon Blair na direção, contando essa história de humor negro à la Saulnier, onde uma mulher deprimida e ansiosa se une ao seu vizinho esquisito para combater criminosos. Não tão interessantes, mas imaginativos e ótimos de ver, foram “A Morte te dá Parabéns”, espécie de “Feitiço do Tempo” de terror, mas com bom-humor e ótima direção; e “A Babá”, arroubo do diretor McG para a Netflix, um avanço em tema e terror para “Stranger Things” com muito sangue. Di-ver-ti-dís-si-mo!

Ainda em termos de “prazer”, “Em Ritmo de Fuga” é um abuso de cool, direção alucinante, música incrível e ótimos atores, com destaque para o Ansel Elgort, que pode ser um dos grandes. Filme de cinema.

Me deu prazer e me fez pensar ver “Logan”, acho que o melhor “filme de herói” já produzido. Há tantas questões nesse filme, é tão complexo, fala de imigração, direitos humanos, novas configurações de família, paternidade, velhice, sanidade, morte… Não por acaso, o roteirista é o mesmo de “Blade Runner 2049”, Michael Green. Muitos têm preconceito com os tais “filmes de heróis” – estão perdendo a oportunidade de ver filmes como “Logan” e discutir coisas importantes com seus filhos. Isso não tem nada a ver com “Deadpool”.

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Nesse sentido, “Mulher Maravilha” também é um grande filme. O roteiro pode não ser uma maravilha (sic), esquemático, com o turning point do vilão e o final caracteristicamente over de explosões, que virou lugar comum desses filmes e é um saco. Mas, sim, temos ali uma heroína tratada com atenção e os que se preocupam mais com a falta de pelos nas axilas ou o posicionamento político de Gal Gadot não percebem que isso está fora do radar das crianças e adolescentes e, no final, esse tipo de filme é para eles. Nós, adultos, podemos curtir, perceber camadas de subtexto que foram pensadas pelos roteiristas, conversar com os filhos sobre eles e, assim, “Mulher Maravilha” é um ótimo gancho para falar de feminismo e quetais. E é, também, ótima diversão.

Os novos filmes do Homem Aranha e dos Guardiões da Galáxia também são ótimos, ótima diversão, mas passáveis, certo? Assim como os novos do Thor ou da Liga da Justiça – que não vi, mas não estou com nenhuma pressa.

Ainda divertidos, dois dos melhores filmes que vi esse ano tem a relação de casais com a aceitação de famílias em seus enredos. “Corra!” é um ótimo exercício de terror e está em quase todas as listas de melhores do ano. Gosto, mas acho exagero. Principalmente pelo papel da namorada, que se mostra apaixonada demais, com muito brilho nos olhos pelo personagem de Daniel Kaluuya, para a virada do terceiro ato. Mesmo em filmes com os pés no nonsense, o universo ficcional deve fazer sentido. Em “Doentes de Amor” temos a história real do relacionamento do comediante paquistanês Kumail Najiani com uma americana diagnosticada com uma rara doença enquanto a família dele não aceita o namoro. Parece açucarado e mais uma “comédia romântica com doentes”, mas é um belo filme sobre relações humanas, com um personagem carismático e uma revelação, essa Zoe Kazan, que parece a Marisa Orth.

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Também gostei de dois filmes violentos e de cenário hostil: “Terra Selvagem” e “O Estranho que nós amamos”. O primeiro tem uma dupla inusitada de policiais investigando um crime na neve e é o trabalho de estréia do diretor Taylor Sheridan. Baseado em fatos reais, tem personagens bem construídos, sólidos, cenas de ação que eu chamaria de complacentes, diferente do ritmo alucinante das cenas dos filmes americanos. Vale muito a pena, fiquei impressionado com esse filme. Também diferente é o filme da Sofia Coppola, refilmagem do clássico de Don Siegel com o Clint Eastwood. Com ótimo elenco e ritmo lento, percebi uma adequação do filme aos novos tempos, diferente do original, que era mais sujo e imoral, sem a preocupação com a correção política. Basta dizer que no filme original, logo nos primeiros minutos, Eastwood beija uma menina de uns 10 anos na boca. Imagina que Sofia bota isso num filme nos dias de hoje… Mas, no final, é um filme bem feito, amarrado, que envolve e levanta questões.

Talvez os filmes que mais impressionaram, tanto a mim quanto a minha mulé, dona Raquel Cabral, tenham sido os esquisitões. Aqui vão eles: “A Ghost Story”, um exercício visual sobre o tempo, com um fantasma clássico tentando entender a vida que já não tem mais – lento, atmosférico, hipnotizador, é um filme que fica na memória; “Lady Macbeth”, outro filme de diretor estreante, sobre uma mulher que é vendida a um homem rico na Inglaterra vitoriana e arruma um amante – o que vai desencadear uma onda de violência e mostrar que os imorais e cínicos têm mais chance de sobrevivência; e “Ao Cair da Noite”, filme de terror onde faltam explicações, se estabelece na faixa da interferência que pessoas estranhas a nós têm em nossas vidas, apesar das boas intenções. Três filmes diferentes e que estão em nossa lista de melhores do ano, sem dúvida.

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Vi os dois alucinantes “A Região Selvagem”, do mexicano Amat Escalante, que não é para todos os gostos, sobre uma criatura alienígena sexual – mas o filme não tem nada a ver com ela, hahaha. E “O Bar”, mais uma colorida metáfora visual para a atual situação da Espanha, pelo Álex de La Iglesia, onde um grupo fica preso dentro de um bar e um atirador do lado de fora mata quem se atrever a sair. Gostei de ambos.

Raquel gostou também do esquisito “Personal Shopper”, mas dormi e não vi e ela me contou então acho que não verei e não gostarei.

Vimos juntos e nos divertimos com “Colossal” e “Bingo – O Rei das Manhãs“.

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Minha lista de Top 10 de 2017, então, até o momento, seria mais ou menos essa:

  1. Guimme Danger
  2. Monsieur & Madame Adelman
  3. Já Não Me Sinto em Casa neste Mundo
  4. Em Ritmo de Fuga
  5. Logan
  6. Corra!
  7. Doentes de Amor
  8. Terra Selvagem
  9. A Ghost Story
  10. Lady Macbeth

Até janeiro espero ver “Marjorie Prime”, “Dunkirk”, “Blade Runner 2049”, “I Called Him Morgan”, “Good Time”, “The Square”, “Lady Bird”, “Me chame pelo seu nome”, “Shape of Water”, “HHhH”, “Detroit”, “The Post”, “Três anúncios para um crime” e “Projeto Flórida”.

Update 11/12: Vimos “Good Time” (Bom Comportamento aqui) e… que merda de filme! Vai de nenhum lugar a lugar nenhum! Por que está em várias listas de melhores? Tem esse clima Winding Refn, com essa trilha sonora eletrônica retrô, com a fotografia escura-colorida, mas nenhuma história – a menos que você considere mil reviravoltas em um filme de duas horas um ótimo achado. Scorsese, que parece ter gostado do filme, já fez isso com “Depois de Horas” – e não é um dos seus melhores. Caia fora desse.

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uma história real com roger vadim

 

Roger Vadim 27

Roger trabalhando duro

Roger Vadim filmava La Ronde na primavera de 1960, em Paris, com Jane Fonda. A segunda esposa dele, Annette, estava de passagem pela cidade e foi visitá-lo no set. Em uma das cenas, o diretor foi mostrar ao ator Serge Marquand como ele devia cair de uma janela, em um take de briga. Roger caiu e quebrou o ombro.

Jane foi chamada no camarim, alguém ligou para uma ambulância. Roger estava caído no chão, procurando não se lamentar, enquanto um segurança pedia que ele ficasse quieto até que o levassem para o hospital. A notícia da queda circulou pelos estúdios da Paramount em Saint-Maurice, uma das três unidades que a empresa mantinha na França. E a terceira mulher de Roger, Catherine Deneuve, estava ensaiando em um set ao lado e ouviu sobre o acidente – e foi ver o que tinha acontecido. A ambulância finalmente chegou, colocaram Roger numa maca e dentro da viatura e as três mulheres quiseram ir junto, espremendo-se no compartimento minúsculo da van.

A porta já ia se fechando quando, extraordinariamente, Brigitte Bardot entrou com seu carro no estacionamento do estúdio e viu a cena. O segurança pediu que ela desse passagem à ambulância e, então, ela soube que se tratava de seu ex-marido. E a primeira esposa de Roger Vadim pulou dentro da ambulância, fazendo questão de ir junto para o hospital.

E, assim, foram todas, Brigitte, Annette, Catherine e Jane com Roger Vadim e seu ombro quebrado para o hospital. Ele e suas quatro ex-mulheres.

No caminho, Brigitte achou que Roger estava ficando verde.

E Catherine disse que isso era normal, já que Roger era um marciano.

Todas riram.

O fato que realmente tenha escapado é que Roger realmente era um marciano.

E que apenas Catherine sabia disso, deixando pular de sua boca o segredo, num momento de tensão, num ato falho.

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Roger Vadim, de cigarro na mão, chegando ao hospital, feliz da vida.

As quatro beldades se reuniriam apenas mais uma vez, no enterro de Roger, 40 anos depois. A elas, se juntou a última esposa dele, Marie-Christine Barrault.

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… escrever ficção hoje – minha palestra no IEL/Unicamp em 01-06-17

 

Introdução:

Inicialmente, devo dizer que tenho mais dúvidas que respostas para apresentar.

A ficção, mais especificamente o romance, sempre esteve na berlinda, sempre foi questionada: seu papel, sua importância, sua finalidade.

Por que escrever – e ler – ficção?

Fazem essa pergunta desde Homero.

Milhares de anos antes do desenvolvimento das formas escritas, contavam-se histórias, transmitiam-se ensinamentos religiosos ou mágicos, casos, aventuras, mitologias mais ou menos elaboradas e saberes naturais e tradicionais em toda sorte de comunidades étnicas. Não raro, essa tradição oral era acompanhada de música – ou sob a forma de canto ou de execução de um instrumento musical. A música parece ser uma linguagem universal para comunicar sentimentos e significados, que foi sendo construída pela humanidade através da História. Quem faz essa consideração é o professor George Steiner, de quem falaremos adiante. Segundo ele, não há um ser humano neste planeta que não tenha uma relação qualquer com a música. Segundo ele, a maior parte da humanidade não lê livros, mas canta e dança. (serrote 17)

A consideração sobre a música aqui passa por duas observações: o neurologista Oliver Sacks diz, em um de seus textos, que se extraterrestres chegassem a Terra eles possivelmente entenderiam boa parte do que se passa por aqui, inclusive nossas artes, mas é possível que não entendessem a música. A se pensar sobre isso. Outra consideração diz respeito a forma do texto escrito. Não são poucos os escritores que burilam o texto ao ponto de atingirem certa “musicalidade”, certa satisfação com a “condição oral” do texto e é certo que editores e revisores trabalham o texto antes da publicação à procura de palavras repetidas, cacófatos e rimas involuntárias que “atrapalhariam” ou “prejudicariam” o texto durante a leitura – e na maioria dos casos, creio que a evidência desses problemas só ocorreria caso os textos fossem lidos em voz alta. Ou seja: a oralidade ancestral e certa musicalidade intrínseca estão contempladas no texto elaborado – ou, mais precisamente aqui, no escrito de ficção.

Através da transmissão oral muitas histórias e visões chegaram até nós a posteriori, pelos filtros de outros escritores. Basta pensar que dois dos mais influentes personagens da História não escreveram uma única linha: Sócrates e Jesus Cristo.

Será que precisamos mesmo escrever, ainda mais algo que não existe, algo que está apenas dentro da nossa cabeça, personagens que inventamos, situações que criamos, mundos que elaboramos?

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Escrever, pontualmente, significa atingir certo grau de autoridade sobre um assunto, uma história. Não por acaso, quem escreve é o autor, palavra que nasce na AUTORIDADE. Assim como os xamãs em alguma aldeia africana nos primeiros anos da civilização criava um canto ou uma mágica impressionante, tendo sobre sua tribo uma AUTORIDADE MÍSTICA, o autor do texto ficcional, de maneira secular, reivindica para si algo de magistral, divino e até mesmo canônico (em vários sentidos).

Segundo o professor Steiner ainda, todo escrito é contratual. O texto liga o autor e seu leitor à promessa de um sentido. Ou de suspensão de sentido, acrescento.

Não por acaso, livros foram considerados perigosos, proibidos por religiões: há uma perturbadora forma de Verdade nos livros – ou, pelo menos, nos bons livros.

Nesse sentido, parece realmente ser bom escrever e ler livros. Mas será que os livros propiciam algum benefício à humanidade sofredora?

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Durante um tempo, eles foram os principais veículos de encantamento, elevação, epifania, emoção, transmissão cultural, (re)organização da vida, instrumento social, interação social… Mas, e hoje, com o avanço da informação, com os instrumentos todos novos dos veículos, a internet com tudo o que se pode ver e saber nela, com Netflix e quetais?

Em meados do século XIX, o russo Píssarev dizia que “para o homem do povo, um par de botas vale mais que toda obra de Shakespeare”. Faremos botas ou escreveremos livros?

Vamos iniciar com a primeira parte, conhecendo os passos da escrita através de alguns escritores que questionam seu ofício: Umberto Eco, David Mamet e Salman Rushdie. Vamos ver o que apontam sobre essa questão, relacionando Eco com o papa do roteiro americano de cinema, Robert Mckee; ver o que diz o dramaturgo Mamet sobre a consagrada estrutura da história em três atos, e, depois, sugerindo uma atividade, através de um ponto do crítico James Wood sobre a escrita de ficção hoje.

Na segunda parte, vamos colocar um ponto de discussão que Rushdie teve recentemente com Steiner sobre a morte do romance.

Vamos nos ater a escrita de ficção no romance, considerando que nesses tempos de pós-verdade, quase tudo é ficção, até mesmo as notícias, o telejornal – com seu roteiro editado para terminar com a satisfação do leitor, preparando-o para a novela (mais ficção) e as postagens do Facebook cheias de não-verdades, que são ficção da pior qualidade.

Primeira parte:

  1. Umberto Eco e Robert Mckee – maturidade e insight

O professor de roteiros de cinema e papa do cinema americano, Robert Mckee ensina técnicas de desenvolvimento de tramas, especialmente dentro dos três atos, e como desenvolver personagens, plot twists, e toda série de artimanhas para segurar o espectador em sua poltrona ou para dar a ele uma experiência completa de existência ao ver um filme. Mckee diz duas coisas interessantes que tem paralelo ao que diz Eco. A primeira delas é: “Escrever é para adultos”.

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É preciso ter algum grau de maturidade para escrever bem. É preciso ter lido bastante, pensado demais sobre a vida, o universo e tudo o mais. Há, é claro, as exceções que confirmam a regra. Mas o adulto idiossincrático é o melhor autor – em especial, aquele que não tem um credo específico, uma religião, ou defende uma ideologia muito clara. Ele tem que conhecer boa parte da zona cinza da humanidade. É bom que tenha viajado, se relacionado com pessoas diferentes. E que não conheça o mundo e apenas através da ficção e personagens de ficção.

Eco escreveu seu primeiro romance, O Nome da Rosa, em 1980, com mais de 45 anos. Ele repete o que diz um de seus personagens de ficção: há dois tipos de poetas: os bons, que queimam seus poemas aos dezoito anos, e os ruins, que continuam produzindo poesia por toda a vida.

Ratificando Mckee, Eco diz que “num poema ou num romance, a intenção é representar a vida em toda a sua incoerência”. A “representação” dessa incoerência encontra ressonância na incoerência da vida do leitor e o alivia, num processo que Steiner chama de “”, citando inclusive que um livro chama outro livro, responde a ele, o rebate, o contradiz, o complementa, o contextualiza, num monólogo sem fim dentro do leitor.

Eco diz que “a narrativa é, para início de conversa, uma questão cosmológica. Para narrar algo, você começa como uma espécie de demiurgo criador de um mundo – um mundo que precisa ser o mais fiel possível, de modo que você possa locomover-se nele com total segurança”. Nesse sentido, o mundo pode ser o real ou o inventado, mas ele tem que ser muito completo, fechado, inteligível (com suas leis, geografia, geologia, topografia, etc…) para que o autor narre os fatos e acontecimentos nele e coloque nele os seus personagens.

Se você for escrever sobre o mundo real e atual, precisa conhece-lo muito bem.

A maturidade do autor e seu relacionamento com o mundo sobre o qual vai escrever são essenciais para Mckee e Eco, mas para que o romance tenha início é preciso algo fundamental.

Mckee chama de insight. Eco chama de ideia seminal. Basicamente, trata-se da mesma coisa.

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Para Mckee, o insight para o início da escrita de uma trama envolve muita leitura. Ele diz que se você quer ser um músico, vai estudar música, tanto teoria quanto prática, e tocar e ensaiar e improvisar até conseguir compor. “Escrever uma boa história é tão difícil quanto compor uma sinfonia”, diz. Ler, pensar e tentar. “Autoconhecimento é a chave – a vida mais uma reflexão nas nossas reações à vida”. O novato confunde técnica com habilidade; habilidade é o que você consegue fazer coma absorção inconsciente dos elementos das estórias que você já leu, viu, experimentou – segundo ele.

Para Mckee não existe o bloqueio criativo – se você não está conseguindo escrever, vá a uma biblioteca. E também não existe o “gênio irreconhecido” – mais uma vez, exceções confirmam a regra.

O insight de Mckee pode aparece a qualquer momento e para o escritor, ele pode aparecer várias vezes num único dia – mas apenas aquele que permanece na memória é o insight que pode render uma história realmente boa: a sensibilidade do escritor, sua antena geracional, captou algo que merece ser escrito.

Para Eco, é mais ou menos assim também, embora ele ache que a “ideia seminal” que vai germinar um romance pode partir de uma simples imagem ou até de uma brincadeira. Ele diz que escreveu O Nome da Rosa porque foi convidado a escrever um conto policial e pensou em “envenenar um monge”. O conto não deu certo, mas a imagem de um monge envenenado numa biblioteca na Idade Média (que ele conhecia bem, ou seja, era um universo cosmológico que ele dominava), ficou em sua memória e tornou-se a “ideia seminal” para o romance, que escreveu em dois anos.

Para seu próximo livro, O Pêndulo de Foucault, a ideia seminal surgiu quando ele conheceu o pêndulo original em Paris. Ele ficou deslumbrado, mas não pensou num livro. A imagem que o fez pensar n´O Pêndulo foi de um garoto tocando uma trombeta em um cemitério. Ele demorou 8 anos para relacionar o pêndulo à imagem, construindo o romance.

Enfim, maturidade e insight constituem o início de algo que se pode escrever e que tenha certa relevância, ecoando na vida do leitor, resultando em algo “válido a dizer e que o mundo queira ouvir”, nas palavras de Mckee.

(Em “Sobre a Escrita”, Stephen King diz mais ou menos a mesma coisa: “as ideias para boas histórias parecem vir, quase literalmente, de lugar nenhum, navegando até você direto do vazio do céu: duas ideias que até então não tinham qualquer relação,se juntam e viram algo novo sob o sol. Seu trabalho não é encontrar essas ideias, mas reconhece-las quando aparecem”.)

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  1. David Mamet – estrutura antes da forma

Com maturidade para escrever a história nascida de um insight captado pela nossa antena geracional, devemos começar. Mas… por onde? Como contar essa história? Qual o incipt?

McKee diz que “o público quer o trivial bem contado” e que não há nada de mal nisso. Entretenimento? Para ele, “ser entretido é ser imerso na cerimônia da estória através de uma trama e personagens que te conduzam a um final intelectual e emocionalmente satisfatório. Para o público do cinema, entretenimento é o ritual de sentar-se no escuro, concentrado no significado da história, em todas as nuances, naquilo que não é dito diretamente, e sentir despertar emoções fortes, às vezes até dolorosas. Quando esse significado se aprofunda, o público é levado à satisfação suprema dessas emoções”. E na literatura também, já que a leitura é o consumo de arte mais solitário que existe. Em sua solidão de expectador daquela trama, o leitor experimenta muitas vezes emoções que não seriam alcançadas na vida real exceto em momentos extremos. É por isso, diz Eco, que todos choram diante do terrível fim de Ana Kariênina, de Tolstoi: mesmo sabendo que se trata de um personagem que não existe – a não ser na literatura – tomamos por ele um afeto e uma compreensão tão grande que a experiência da morte do personagem muitas vezes ultrapassa a emoção real da perda de um ente querido e real. A leitura nos prepara para a vida e nos ensina a lidar com esse tipo de situação também.

De qualquer maneira, não estamos falando de personagens ainda, mas da forma. Aliás, antes ainda da forma, estamos falando da estrutura. Como contar a história?

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É comum que autores – ainda mais os jovens – queiram exercitar alguma estrutura inovadora a partir da história sen-sa-cio-nal que estão prestes a narrar. Pode ser um erro descomunal. McKee: “não confunda excentricidade com originalidade. A diferença pela diferença é tão vazia quanto seguir servilmente imperativos comerciais. […] Originalidade é a confluência de conteúdo e forma – a escolha distinta de temas com uma forma única de moldar a narração”. Desde Ulysses de James Joyce, diariamente aparecem vários candidatos a Joyce. Paulo Coelho diz que James Joyce fez mais mal que bem à literatura moderna – e aí está um tema de boa discussão talvez para concordarmos com o mais odiado autor brasileiro.

O fato é que, para além de McKee, há uma certa compreensão de que “a construção do universo narrativo determina o estilo do romance”, sintetiza Eco. Ele conta que quando decidiu contar a história de Baudolino na primeira pessoa, um camponês do século XIII em Constantinopla, rapidamente a estrutura e a forma apareceram.

Mas, antes da forma, foquemos na estrutura para chegarmos a David Mamet.

Eco (como McKee) era entusiasta de uma estrutura levemente inovadora mas que garantisse, antes de mais nada, a satisfação do leitor.

(Há esse mito de que o leitor satisfeito não leu uma grande obra. Será?)

David Mamet exemplifica como podemos atender às expectativas de um leitor através do seu exemplo chamado “A Partida Perfeita”. Vamos a ele, caminhando com Aristóteles, que diz que todos querem “começo, meio e fim”:

A Partida Perfeita – o exemplo dos três atos de uma peça – por David Mamet:

            O que desejamos numa partida perfeita?

            Desejamos que nosso time entre em campo e surre os adversários desde o primeiro momento, emplacando uma goleada até o apito final?

            Não. Desejamos uma partida arduamente disputada, que contenha muitas reviravoltas satisfatórias mas que também possa ser vista, em retrospecto, como tendendo sempre para uma conclusão inevitável e satisfatória.

            Desejamos, na verdade, uma estrutura em três atos.

            No primeiro ato nosso time entra em campo, de fato prevalece sobre os adversários e nós, seus partidários, ficamos orgulhosos. Mas antes que esse orgulho possa amadurecer e se tornar arrogância, ocorre uma coisa nova: nosso time comete um erro, o outro lado se inspira e avança com força e imaginação até então insuspeitada. Nosso time fraqueja e recua.

            No segundo ato dessa partida perfeita, nosso time, abalado e confuso, esquece os rudimentos de coesão, estratégia e destreza em que se baseava sua força. Afunda cada vez mais no lodaçal do desalento. Todos os esforços contra isso parecem inúteis; e quando achamos que a maré talvez tenha virado a nosso favor de novo, uma penalidade ou decisão adversa é marcada, anulando o ganho obtido. O que poderia ser pior?

            Mas esperem: logo quando tudo parece irremediavelmente perdido, o socorro vem (terceiro ato) de uma fonte inesperada. Um jogador até então reputado como de segunda categoria surge com um bloqueio, uma corrida ou um passe e oferece um vislumbre (o vislumbre, atentem) da possibilidade de vitória.

            Sim, apenas um vislumbre, mas que é suficiente para animar o time a algo semelhante a seus melhores esforços. E o time, de fato, desperta, empata o placar e, mirabile dictu, realiza aquela jogada que iria coloca-lo em vantagem…

            Apenas para vê-la anulada, mais uma vez, pelo destino ou seu lugar-tenente: um árbitro equivocado, ignorante ou mal-intencionado.

            Mas vejam: as lições do segundo ato não foram desperdiçadas pelo nosso time. Este ou aquele pode dizer que é tarde demais, que o relógio está adiantado demais, que nossos heróis estão cansados demais, mas ainda assim eles se unem em um último esforço, uma última tentativa. E eles prevalecem? Chegam a triunfar, restando poucos segundos no relógio?

            Eles quase triunfam.”

Essa estrutura de três atos é perfeita não apenas nessa partida perfeita, mas na estrutura do romance, do filme ou da peça de teatro – ou no episódio da série. McKee diz que se o time ganhar, a estrutura tem um final “positivo”, se perder “contraditório” e se empatar, “neutro”. Nos três casos, a história, os personagens, seus dramas, o espírito de uma época, os dilemas levantados, as dúvidas existenciais, tudo pode ser bom dentro da ideia clara da história – não moralmente clara: honesta e fiel com seu insight, dentro da sua visão madura de mundo.

Mamet, McKee e Eco parecem conservadores ao defender a estrutura de três atos, mas vejam o que disse recentemente em livro sobre escrita, DBC Pierre, escritor vencedor do Man Booker Prize com Vernon God Little:

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McKee, na verdade, não é tão elástico: ele prefere finais pessimistas (ou contraditórios), que dão uma visão mais realista da condição humana, segundo ele. Não por acaso, entre seus filmes preferidos estão: Casablanca, Chinatown, As Diabólicas (de Clouzot), Seven – Os Sete Crimes Capitais – filmes sem finais felizes.

Mamet também prefere os heróis puros e irascíveis, que não dizem que “o fim justifica os meios” – o herói é puro, não mente, se sacrifica pelo outro (logo, pela humanidade) e isso dá um certo caráter utilitarista para a trama, segundo alguns. Mas diz Mamet:

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“Efeito cumulativo!” – a pensar.

O que se está defendendo aqui, no final, é a estrutura clássica, algo influenciada pelo cinema e pelo teatro, de três atos. Mas não é por ser em três atos sequenciados dentro de uma forma clássica que ela precisa uma forma formal.

“Quando pessoas talentosas escrevem mal (não adequando a forma ao conteúdo, basicamente), é geralmente por um desses dois motivos: elas ou foram cegadas por uma ideia a qual se sentem compelidas a provar, ou são guiadas por uma emoção que precisam expressar. Quando pessoas talentosas escrevem bem, geralmente é por esse motivo: elas são movidas por um desejo de tocar o público”, disse McKee.

Isso diz muito sobre o desejo de escrever de pessoas intelectualizadas: geralmente elas têm tanta informação e tanto a dizer e querem expressar tanta coisa, ideias, tudo de maneira tão inovadora que… não tem um desejo real de tocar o público. O público não existe, é um elemento distante e, na análise dessas pessoas, ignorante e não-merecedor de sua arte. Quantos escritores esnobes encontramos, dizendo que o público ainda não está pronto ou que sua arte (sic) é muito avançada para o público?

A forma é o que faz a arte chegar ao público. Um forma verdadeiramente inovadora, com frescor e originalidade, com Verdade e emoção, vai encontrar seu público apesar da dificuldade. Foi assim com o Ulysses. E, aliás, é por isso que não apareceu um novo Ulysses.

Com tudo estabelecido, diante do início do romance, você vai colocar os seus personagens em pé. Eles precisam ser sólidos e enormes. McKee diz que “um personagem não é um ser humano”, ele deve ser algo mais. Gosto da imagem de Frankenstein – aquele monstro sui-generis, construído com partes de outras pessoas e que é ao mesmo tempo horrível e assassino e doce, delicado e amante da poesia. Alguém que quer ser amado e mata. Alguém incrível – mas perfeitamente crível naquele universo da ficção. Quando forem construir personagens, lembrem-se de Frankenstein.

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  1. James Wood – A finalidade

Umberto Eco cita trecho de Os prazeres da imaginação (1712) de Joseph Addison: “as palavras, quando bem escolhidas, têm tamanha Força dentro delas que uma Descrição em geral nos oferece Ideias mais vívidas do que a Visão das Coisas em si”.

Ou seja: O ficcional pode não apenas emular o real ou lhe servir de espelho ou paradoxo, mas traduzir-lhe.

Em um artigo recente, o crítico de literatura James Wood usa um momento real de extrema dor e desalento, o funeral de um homem de cinquenta e poucos anos, que deixava duas filhas pequenas, para questionar sobre o papel da literatura como uma versão laica do funeral religioso, onde pode ser enfeixada, entre a primeira e a última página, a história de toda uma vida – real ou ficcional.

O que é a vida real e o que é a ficcional?, pergunta ele. Tendo crescido em família cristã e se sentindo ateu desde jovem, viu-se um grande mentiroso na flor da idade, dizendo que acreditava em Cristo e nas bobagens da Igreja. Mentia que acreditava na ficção da Igreja. E percebia que seus pais também eram assim.

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A literatura permitia a ele uma fuga das mentiras – mesmo sendo, ela mesma, uma mentira. Para Wood, ele usava um “mundo livresco no qual se usavam ficções para proteger verdades significativas”. Wood diz que aprendeu tudo com os livros. Nos romances os “espaços eram totalmente livres, onde tudo podia ser pensado, tudo podia ser pronunciado. Nos romances, podiam-se encontrar ateus, esnobes, libertinos, adúlteros, assassinos, ladrões, loucos cavalgando pelas planícies de Castela ou vagueando em torno de Oslo ou São Petersburgo, rapazes batalhando em Paris, moças batalhando em Londres, cidades sem nome, países sem lugar, terras de alegoria e surrealismo, um ser humano transformado em barata, uma história narrada por um gato, cidadãos de muitos países, místicos, fidalgos e mordomos, conservadores e radicais, radicais que também eram conservadores, intelectuais e simplórios, bêbados e padres, padres que também eram bêbados, os vivos e os mortos” – ou seja: havia nos livros um universo muito mais interessante que a realidade. Mas que, ao mesmo tempo, traduzia a realidade para ele.

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Mas não só isso.

Segundo ele, a literatura “muitas vezes nos dá essa visão estruturante da forma da vida de uma pessoa: vemos o começo e o fim de muitas vidas ficcionais; seus desdobramentos e erros, a estagnação e a deriva. A ficção faz isso de muitas formas – mediante o simples escopo e tamanho (o romance longo, com muitos personagens, cheio de muitas vidas, muitos começos e fins), mas também por compressão e brevidade (a novela que compacta radicalmente uma única vida, do começo ao fim). E também, em parte, pela transformação do presente em passado: embora avancemos num conto, toda história já está completa – nós a seguramos em nossas mãos. Nesse sentido, a ficção, a grande vivificadora, também mata, não só porque as pessoas muitas vezes morrem em romances e contos, mas, e isso é o mais importante, mesmo que não morram, porque elas já aconteceram. A forma ficcional é sempre uma espécie de morte.”

Para ele, a vida em um escrito ficcional, é uma vida “furiosamente determinada”, já está construída ali e não pode ser modificada. A não ser na interpretação individual de cada leitor, fazendo com que uma única peça seja capaz de traduzir questões para cada um que a ler de uma forma distinta.  A letra fria e morta do escrito ficcional revive cada alma em cada leitura.

Atividade:

Depois disso tudo, a atividade simples: descrevam, do alto da maturidade de cada um, através dos insights que vocês tiveram ao longo dessa palestra, usando uma estrutura padrão de começo, meio e fim, mas com um conteúdo o mais incrível possível, mais contemporâneo e atual, com a finalidade de emocionar ou mesmo fazer o mais duro leitor chorar – esse ápice do pieguismo, podem pensar, mas só conseguido por grandes autores como Goethe e Tolstoi. E tudo isso em até 60 linhas.

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Segunda parte:

  1. Salman Rushdie VS George Steiner – o romance morreu?

O professor e crítico da The New Yorker George Steiner e o escritor e ensaísta Salman Rushdie entraram em uma discussão no início deste século (já faz tempo), sobre um assunto que geralmente reaparece: o fim do romance.

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Steiner disse em uma conferência: “Estamos cansados de nossos romances […] Gêneros sobem, gêneros caem […] Qual romance pode hoje competir realmente com o melhor da reportagem, com o melhor da narrativa imediata” E citou Píndaro (cerca de 400 a.C.), que depois de escrever um poema, disse: “este poema será cantado quando a cidade que o encomendou tiver deixado de existir”, arricando que “dizer isso hoje […] deixaria até o maior poeta profundamente envergonhado”.

Rushdie não concordou e escreveu uma “Em defesa do romance, mais uma vez”. Mas antes da argumentação de Rushdie, vale a pena dar uma olhada nos últimos dois vencedores do Nobel de Literatura para dizer que Steiner erra e acertaSvetlana Alexijevich, vencedora de 2016, trabalha literariamente o que de mais impactante pode existir na realidade – acho que sua obra pode ser definida assim. E Bob Dylan, vencedor controverso deste ano, pode ser o “nosso Píndaro”: suas canções serão cantadas quando algumas cidades deixarem de existir.

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~ nosso Píndaro ~

Rushdie escreveu seu artigo em 2000 e cita V. S. Naipaul, que tinha deixado de escrever romances e teria dito que “o romance viveu além de seu momento histórico, não desempenha mais nenhum papel útil (grifo meu) e será substituído pela escrita factual”. Nem Rushdie, nem Naipaul e, decerto, Steiner esperavam que Naipaul ganhasse o Nobel de Literatura em 2001 e, em 2005, publicasse um romance (contrariando a própria promessa), “Meia Vida”, que tem recorte memorialístico. Interessante notar que vários dos autores vencedores do Nobel neste século tem obras com recortes memorialísticos, como Mo Yan, Imre Kertész, Orhan Pamuk, Le Clezio, Tomas Tranströmer e Patrick Modiano. Steiner não previu que as narrativas com recorte memorialístico podiam fazer frente ao melhor da “reportagem com narrativa imediata”.

No levantamento histórico sobre o alardeado fim do romance, ao longo da História, por vários autores, Rushdie cita George Orwell, que escreveu, em 1936, que:

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Não é de hoje que se diz sobre o fim ou a (citando meu grifo acima na fala de Naipaul) inutilidade do romance. Mas Rushdie observa algo interessante a esse respeito: Steiner, Naipaul e Orwell, britânicos, têm uma visão eurocentrista e, não por acaso, os grandes novos nomes da literatura mundial, inclusive vencedores do Nobel, que pode ser usado aqui como um termômetro, estão em países considerados periféricos em termos de literatura. Ok, britânicos levaram três prêmios Nobel neste século, mas quando esperariam uma bielorrusa, uma canadense, uma austríaca, uma romena, um húngaro, um peruano, um sujeito das ilhas Maurícia, e dois chineses?

(Rushdie diz que considera a produção norte-americana muito boa no momento, Roth, Pynchon, Cormac MacCarthy, Michael Cunningham, Gay Talese, entre vários outros, ainda estão vivos e uma nova geração está se saindo muito bem.)

O fato é que talvez um novo romance esteja emergindo, segundo Rushdie: um romance pós-colonial, um romance descentralizado, transnacional, interlingual, multicultural – e ele está em fase de gestação ampla, muitas vezes dentro de grandes centros, como a França, que gerou um “Submissão”, polêmico livro de Michel Houellebecq, ou mesmo em Londres ou nos EUA com autores imigrantes que escrevem em inglês – e os exemplos são os mais diversos. Temos indianos e japoneses escrevendo em inglês. Não há um centro para essa produção: o centro, agora, é a margem. Nesse sentido, Rushdie destaca, em seu artigo, o perigo que a literatura enfrenta, em especial em redutos ditatoriais ou com ampla censura política e/ou religiosa – e isso ele conhece bem. Mas vamos nos ater ao que se pode produzir e onde se pode produzir:

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O novo romance não é mais a visão do Velho Mundo burguês.

A visão de Steiner, com a lanterna de Rushdie apontada para ela, nos dá, porém, uma ideia muito específica deste “novo romance”. Mas coloca, talvez, que “todo talento criativo é do mesmo tipo” – quando, obviamente, não é.

Temos, então, “narrativas realistas imediatas e/ou memorialísticas, transnacionais, multilinguais, apontando para uma (des)ordem mundial; abordando problemas contemporâneos e/ou apontando para eles pela ótica história da experiência já vivida” como o modos de fazer do novo romance, certo?

Parece que sim.

Vamos ver dois casos recentes, de dois prêmios tradicionais de obra em língua inglesa, o Pulitzer e o Man Booker Prize.

O Pulitzer deste ano foi dado a um vietnamita de 46 anos residente nos EUA. Viet Thanh Nguyen venceu com seu romance de estreia, O Simpatizante, que conta a história de um espião comunista meio francês meio vietnamita, nos Estados Unidos, levando uma vida dupla entre a América e o Vietnã e se lembrando da Guerra.

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O segundo, é Marlon James que venceu o Man Booker Prize de 2015 com Uma Breve História de Sete Assassinatos – e estará na multicultural edição da FLIP neste ano. Inspirado em fatos reais que retratam a história da Jamaica ao longo de quase 700 páginas, o livro tem inúmeros personagens de várias etnias, um cantor inspirado em Bob Marley, é repleto de gírias e palavrões e tem um capítulo escrito inteiramente em jamaicano. Esse é o terceiro romance de James, que tem 44 anos. Os outros foram mal, o primeiro foi rejeitado 78 vezes, por diversas editoras.

Quando finalmente saiu, James recebeu vários exemplares como forma de pagamento de direitos e jogou várias cópias fora por não ter onde colocar, decidindo abandonar a carreira de escritor.

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Esses dois casos comprovam, de certo modo, a teoria de Rushdie.

Mas e todo o resto, como romance? Não há espaço para a ficção científica, o romance de estilo, a sátira, enfim, tudo o que não tem esse viés real, memorialístico, multiétnico?

Com a resposta, os escritores e seus novos livros, esses que eles escreveram a partir de hoje.

Adendo:

Dentro de toda essa discussão, devo colocar um ponto em que Steiner e Rushdie concordam: publica-se livros demais.

Diz Steiner: “Atravessando as estantes labirínticas, os depósitos de milhões de livros, a alma se apequena numa insignificância desesperadora. Afinal, o que é possível acrescentar a tudo isso. Como um escritor pode pretender rivalizar com as estátuas de mármore dos grandes clássicos canonizados? Tudo o que vale a pena ser imaginado, pensado e dito, já não o foi? (Quem ainda seria capaz de escrever numa página branca a palavra “tragédia”? – perguntava Keats com angústia, tendo Hamlet ou o Rei Lear atrás de si)

Diz Rushdie: “Nos Estados Unidos, em 1999, foram publicados mais de 5 mil novos romances. 5 mil! Seriam um milagre que 500 romances publicáveis fossem escritos em um ano. Seria extraordinário que 50 deles fossem bons. Seria causa de celebração se 5 deles – se um deles! – fossem geniais. As editoras estão editando demais pq uma após outra, elas foram despendindo seus bons editores que não foram substituídos e com essa rotatividade perdeu-se a capacidade de distinguir bons livros de maus livros. Que o mercado decida – parecem pensar muitos editores. Vamos simplesmente lançar o material, alguma coisa há de dar certo. E lá se vão para as lojas, para o vale da morte, os 5 mil, com a máquina publicitária fornecendo inadequado fogo de cobertura. Essa abordagem é fabulosamente autodestrutiva. Como disse Orwel em 1936, como se vê, não há nada de novo sob o sol: “O romance está sendo enxotado da existência”. Os leitores incapazes de abrir seu caminho pela floresta de ficção-lixo, transformados em cínicos pela linguagem aviltada da hipérbole com que cada livro é engalanado, acabam desistindo. Compram um ou dois livros premiados por ano, talvez um ou dois livros de escritores de nomes que conhecem – e fogem. Excesso de publicações e de publicidade criam deficiência de leitura. Não é apenas questão de romances demais perseguindo leitores de menos, mas a questão de romances demais afastando os leitores.”

Milan Kundera concorda com os dois.

FIM.

 

 

 

 

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… minha palestra sobre internet e jovens para pais do colégio polo em indaiatuba

(na íntegra, mas pulei uns pedaços na hora)

Quando eu era pré-adolescente, tinha uma vitrolinha na casa da minha avó e eu ouvia os discos das minhas tias. Elas tinham uns 20 ou 30 discos, e eu gostava de ficar na casa da minha avó no final de semana para ouvir esses discos. Tinha Milton Nascimento, Fagner, Roberto Carlos… Antes de dormir, eu ligava um rádio baixinho e ficava ouvindo as músicas que tocavam na madrugada. Nas noites de sábado, meus avós assistiam a um programa chato, chamado Festa-Baile, com Agnaldo Rayol. Era chato, mas às vezes tinha música e eu assistia atento. De vez em quando aparecia o Roberto Leal, um cantor português chato mas que minhas duas avós amavam. Eu me perguntava por quê.

1Aí comecei a trabalhar, muito jovem, uns 14 anos, e guardava um dinheiro para comprar discos. Um a cada dois ou três meses, era caro. Eu escolhia com muita atenção. Comprei um com as trilhas dos filmes do James Bond. E depois um do Milton, que tinha Coração de Estudante, que cantamos na formatura do colégio. Mas meus gostos começaram a mudar, o cara da loja de discos me mostrava umas coisas que chegavam e que não tocavam no rádio. Eu comecei a comprar esses discos. Um disco dos Rolling Stones. Um disco do The Clash. Um disco do Lou Reed. E meus avós não me deixaram mais usar a vitrolinha.

Era muito barulho.

Eu queria ter sido um adolescente com internet, com todas essas músicas à disposição e com fones de ouvido.

Aí consegui uma vitrolinha só para mim e na minha casa era mais tranquilo, minha mãe me deixava ouvir minhas músicas (desde que num volume razoável) e isso também, claro, fazia com que eu me ocupasse e não a atrapalhasse. Isso não muda: muitas vezes, mães não querem ser incomodadas.

2Meu pai tinha uma coleção de revistas Playboy que ficava meio escondida numa estante a caminho do banheiro. Sim, eu comecei a me interessar bastante por aquelas revistas. Eu as pegava escondido a caminho do banheiro e depois as devolvia rapidamente. Fui flagrado e repreendido algumas vezes – mas não parei o que tinha que fazer. Meus amigos tinham inveja da coleção de revistas do meu pai.

Eu e eles gostaríamos de ter sido adolescentes com internet.

😉

Preciso dizer que eu li muita coisa interessante nesses números da Playboy.

Na época, ainda não tínhamos telefone. Os números de telefone tinham 6 dígitos. Aí conseguimos um telefone e eu algumas namoradas. Eu queria ligar para namoradas e amigos, ficar batendo papo em casa nos momentos de tédio, aqueles momentos em que os adolescentes só querem conversar, mas os assuntos não interessam aos adultos e os adultos estão sempre ocupados, trabalhando ou resolvendo problemas domésticos. Mas as ligações tinham que ser rápidas, pois a conta era cara e não dava pra ficar de papo no telefone. Às vezes eu via uma coisa, tinha uma ideia, me sentia só, queria falar com eles, os finais de semana eram de saudade dos amigos, mas…

3Eu queria ter sido um adolescente com whatsapp.

A gente tinha apenas 3 ou 4 canais de TV e eu gostava de filmes. Mas os filmes passavam tarde e não dava pra assistir. O cinema era caro e nem sempre tinha adultos para nos acompanhar.

Eu queria ter sido um adolescente com Netflix e Youtube.

O que eu quero dizer é que é tudo melhor agora para um adolescente.

80% da população brasileira entre 9 e 17 anos está na internet. Eles têm acesso a coisas que sequer imaginávamos quando éramos adolescentes, para o bem ou para o mal.

Mas geralmente, para o bem. Tudo é muito melhor hoje, os pais precisam parar de demonizar a internet, assim como demonizam as escolas, professores, sistemas de ensino. Basicamente, se os filhos não estão usando direito (internet e escola), temos um problema familiar e a culpa não é dos filhos.

A única coisa que continua igual é a falta de tempo dos pais e responsáveis para estarem com os filhos enquanto eles ouvem música, veem filmes, conversam com amigos e se interessam por sexo, essas coisas naturalmente normais da vida saudável.

Na verdade, algumas coisas também não mudaram: a curiosidade quase insaciável do adolescente, sua vontade de aprender, de testar sua capacidade em jogos, de testar seus limites… Também de se espelhar em heróis, imitar aqueles que admiram, moldar seu comportamento nos pais e responsáveis ou contrariar esses comportamentos.

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Adolescentes são incrivelmente iguais. De todas as fases da vida, é a fase em que as pessoas são incrivelmente mais parecidas umas com as outras.

E para darem conta de seus interesses e necessidades, eles usam o que tem à mão, a tecnologia que está à sua disposição.

Hoje, há a internet, as redes sociais, o whatsapp, o Netflix, etc…

Os pais devem conversar, estar disponíveis, colocar parâmetros e, principalmente, dar exemplo. Conselhos e ensinamentos ajudam, movem, mas os exemplos arrastam.  Crianças e adolescentes que vivem na internet têm pais ou responsáveis que vivem na internet. Querem ver:

Apesar de todas as alternativas que tive que buscar na minha adolescência para dar conta dos meus interesses, sexuais, musicais, cinéfilos, literários, de comunicação, etc… meus pais ainda colocavam certos empecilhos, como as revistas escondidas ou a limitação do volume da vitrolinha. As ligações também tinham que ser rápidas. O que está à disposição não deve estar à vontade. Até porque, tudo o que é muito fácil não tem valor e dele não se extrai satisfação.

5Sobre o acesso à internet: os pais devem se desconectar. Aliás, uma boa dica é desconectar o wi-fi de casa num determinado horário da noite, na “hora de dormir”. Tire da tomada. Estudos dão conta que a emissão da frequência de internet pode até mesmo perturbar o sono de pessoas mais sensíveis. Os convites para a tal Baleia Azul ocorrem quase sempre na madrugada, por volta das quatro e meia da manhã.

Então, uma boa dica é ligar a internet de manhã, apanhar o celular ou o tablet do seu filho e verificar se chegou algum convite. E apagar ou denunciar (se for via Facebook) e conversar com ele sobre isso, claro.

Perfis falsos e aliciadores usam a internet depois das 23h, que é quando os pais estão dormindo. Eles procuram não correr riscos durante o dia, quando um pai ou mãe ou responsável ou professor pode flagrar uma aproximação.

Desligar o wi-fi às 21h e ligar às 6h garante quase 40% por cento de desconexão da internet num dia. Se a desconexão acontecer também em três horas na hora do almoço, digamos, entre 12h e 15h – período de refeição e descanso, teremos metade de um dia totalmente desconectados. Que tal deixar seu filho se conectar às 15h para fazer as tarefas de escola, pesquisa e tal, e depois para assistir a algo, um pouco de diversão, até às 18h, e depois banho e jantar, e mais um pouco de internet, digamos, entre 20h e 21h e fim?

A revista Veja de 10 de maio trouxe reportagem sobre conectividade e jovens que mostra que mais de duas horas e meia de conexão direta tendem a exacerbar comportamentos violentos, hiperatividade, déficit de atenção, depressão, ansiedade ou mesmo cansaço mental crônico em jovens entre 11 e 15 anos (o estudo foi feito com 151 estudantes americanos pela Universidade Duke).

Isso acontece conosco, adultos. Fique 3 horas diante da tela de um computador e você vai se sentir cansado depois, sonolento, disperso, distraído, esgotado.

6Um outro fator importante foi levantado recentemente e será tema de livro ainda a ser lançado pelo neurocientista Miguel Nicolelis que o uso constante de tecnologia e conexão está acabando com as qualidades de conexão neurais – ou seja: estamos cada vez com menos memória pois dizemos diariamente ao nosso cérebro que não precisamos mais dele – já que temos tudo na mão a um clique.

O desenvolvimento do cérebro ao longo de milhares e milhares de anos, com sua sensibilidade, com sua capacidade artística, criando arte, literatura, poesia, matemática, física, e evolução humana está em jogo se continuarmos deixando tudo para que o computador resolva.

Me digam: vocês sabem coisas básicas que sabiam antigamente, como o número do telefone da sua mãe?.

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… lendo livros de terror.

O escritor e amigo Santiago Nazarian perguntou no Facebook quais os melhores livros de terror que seus amigos e seguidores já tinham lido. Nazarian, assim como eu, tem interesse no assunto, gosta também de filmes de terror, interagiu em uma postagem minha no Face  sobre filmes do gênero, e fiquei pensando nesses livros perturbadores. Ah, sim, Nazarian escreve livros fantásticos e é autor de um ótimo livro de terror, o Biofobia, que recomendo.

Quando eu tinha uns 14 anos, frequentava muito a biblioteca pública de Americana. Isso foi entre 1984, não tinha videocassete ou TV a cabo (apenas 3 ou 4 canais de TV aberta) e, claro, nada de internet. Americana ainda tinha dois cinemas (hoje não tem nenhum) e nós ficávamos ligados na programação, torcendo para que passassem filmes interessantes entre um ou outro filme dos Trapalhões. As parcas informações que nos chegavam vinham através de jornais e das conversas com o pessoal mais velho e assim nasciam lendas envolvendo filmes – e livros.

Falavam sobre “O Exorcista”, filme e livro malditos, sobre como pessoas passavam mal no cinema ou até mesmo ao ler as páginas do romance. Fiquei intrigado e retirei o livro na biblioteca e li antes de ver o filme – e foi realmente assustador. Movido um pouco pelas histórias, passei dias meio estranhos lendo o livro, sugestionado: senti minha cama levitar e tremer, ficava arrepiado ao entrar na igreja (na época, eu era coroinha) e senti um alívio tremendo quando terminei a leitura, em poucos dias, e devolvi o livro.

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Eu já gostava de histórias de terror, lia gibis nacionais de terror, via filmes na TV, adorava, em especial, a série “Kolchak e os demônios da noite”, que, fiquei sabendo depois, era a série preferida de Chris Carter, o criador do Arquivo X. Mas nada tinha sido como aquele “O Exorcista”.

Coincidentemente, logo depois que li o livro, teve uma única exibição (pelo que me lembro) do filme na cidade – era uma cópia de aniversário de 10 anos do filme de William Friedkin. A censura era de 18 anos, mas eu consegui entrar com minha namoradinha, e foi uma experiência realmente chocante.

Veja: uma coisa é você ver “O Exorcista” hoje, na TV ou no BluRay, depois de ter visto trocentos filmes de terror e com 20 ou 30 anos nesses 2017. Outra coisa é você ver “O Exorcista” em 1984 ou 1985, com 15 anos, no cinema, com a namoradinha.

Ela também gostava, e entramos numas de ler livros de terror, um lia e indicava para o outro e foi assim que li os três livros de “A Profecia” – cada um escrito por um autor diferente, já que cada um deles morria imediatamente após ter escrito cada livro (era o que dizia a lenda). E lemos outros livros B, coleções de mistério, Edgar Allan Poe, depois Agatha Christie, e caímos, inevitavelmente, nos livros esotéricos de Carlos Castaneda e Lobsang Rampa, que faziam sucesso na época. Viajei e perdi muito tempo com eles.

AS_POSSUIDAS_1239490524BUm desses livros, lido ao acaso, me marcou: o “As Possuídas” – que foi publicado também como “As Esposas de Stepford” e, atualmente, como “Mulheres Perfeitas” -, de Ira Levin. Levin escreveu “O Bebê de Rosemary”, que não li, vi só o assustador filme do Polanski, um tempo depois, no início da explosão do videocassete, que afastou a gente um pouco da biblioteca. Mas o “Mulheres Perfeitas” foi uma experiência marcante para mim. Li também o “Meninos do Brasil” dele e gostei – o filme é marromenos.

O filme que vi em vídeo e me aterrorizou como nenhum outro antes – acho que nem mesmo “O Exorcista” – foi “O Iluminado”; e aí fui atrás do romance do Stephen King que li devagar e com muito prazer. Era diferente do filme, uma outra experiência. Não me lembro de ter ficado tão chocado ou aterrorizado; era como se tivesse sido transportado para outro universo, aquele do Hotel Overlook.

À época, não me interessava pelos chamados clássicos; já tinha visto muitos filmes com vampiros e frankensteins na televisão, aqueles filmes da Hammer, não achava que os livros pudessem ser bons ou assustadores… Mas um tempo depois achei que valia a pena tentar, e li, de uma só vez, os romances do Bram Stoker e da Mary Shelley e, uau, percebi que não era nada daquilo que tinha visto nas telas. Depois li também “O Médico e o Monstro” do Stevenson e adorei – se tornou um dos meus livros preferidos.

Dois filmes de terror me levaram, então, para dois livros que entraram em minha lista de preferidos de todos os tempos: “Coração Satânico”, de William Hjortsberg, e “O Silêncio dos Inocentes”, do Thomas Harris.

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Fiquei obcecado com o “Coração Satânico”, assisti dezenas de vezes, e o livro é ainda melhor – e bem diferente. Escrevi sobre ele aqui. Pena que o Hjortsberg não escreveu mais nada à altura, tudo o que li dele depois é chato. O livro está sendo relançado no Brasil pela Darkside. Diferente do Harris: “Dragão Vermelho” é ainda melhor que “O Silêncio dos Inocentes” – e o filme do Michael Mann (Manhunter, aqui “Caçador de Assassinos”, 1986, primeira adaptação de Harris para o cinema), é sensacional; e “Hannibal” é igualmente ótimo, mais violento que os outros dois – e também gosto do filme do Ridley Scott.

(Aliás, por onde anda Thomas Harris?)

Por essa época, final dos anos 1990, comecei a escrever e fui ler livros de meus contemporâneos, me interessei por livros policiais e pors Joseph Campbell, e deixei de lado a literatura de terror, focando mais nos filmes. Li “As Ruínas”, de Scott Smith”, e depois vi o filme – que gosto muito – e o incluo nesta lista para completar os 10.

Recentemente, li e ajudei na publicação deste pequeno livro de contos da amiga Verena Cavalcante (Bruna Oliveira Gonçalves), “Larva” (Editora Oitoemeio) – e considero uma das coisas mais aterrorizantes que já encontrei. São narrativas de crianças sobre coisas reais que elas vivem e veem e entendo que a autora conseguiu algo novo, inusitado e diferente na literatura de terror. Coloco na lista como “livro bônus” por ser um livro de contos e a lista é de romances.

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Taí:

  • 1 – O Exorcista – William Peter Blatty
  • 2 – A Profecia – David Seltzer
  • 3 – Mulheres Perfeitas – Ira Levin
  • 4 – O Iluminado – Stephen King
  • 5 – Drácula – Bram Stoker
  • 6 – Frankenstein – Mary Shelley
  • 7 – O Médico e o Monstro – R. L. Stevenson
  • 8 – Coração Satânico – William Hjortsberg
  • 9 – Dragão Vermelho – Thomas Harris
  • 10 – As Ruínas – Scott Smith
  • 11 – Larva – Verena Cavalcante

🙂

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O que escrever quando o romance está morrendo?

O professor e crítico da The New Yorker George Steiner e o escritor e ensaísta Salman Rushdie entraram em uma discussão no início deste século (já faz tempo), sobre um assunto que geralmente reaparece: o fim do romance.

Steiner disse em uma conferência: “Estamos cansados de nossos romances […] Gêneros sobem, gêneros caem […] Qual romance pode hoje competir realmente com o melhor da reportagem, com o melhor da narrativa imediata” E citou Píndaro (cerca de 400 a.C.), que depois de escrever um poema, disse: “este poema será cantado quando a cidade que o encomendou tiver deixado de existir”, arriscando que “dizer isso hoje […] deixaria até o maior poeta profundamente envergonhado”.

Rushdie não concordou e escreveu uma “Em defesa do romance, mais uma vez”. Mas antes da argumentação de Rushdie, vale a pena dar uma olhada nos últimos dois vencedores do Nobel de Literatura para dizer que Steiner erra e acerta. Svetlana Alexijevich, vencedora de 2016, trabalha literariamente o que de mais impactante pode existir na realidade – acho que sua obra pode ser definida assim. E Bob Dylan, vencedor controverso deste ano, pode ser o “nosso Píndaro”: suas canções serão cantadas quando algumas cidades deixarem de existir.

bob

~Nosso Píndaro~

Rushdie escreveu seu artigo em 2000 e cita V. S. Naipaul, que tinha deixado de escrever romances e teria dito que “o romance viveu além de seu momento histórico, não desempenha mais nenhum papel útil (grifo meu) e será substituído pela escrita factual”. Nem Rushdie, nem Naipaul e, decerto, Steiner esperavam que Naipaul ganhasse o Nobel de Literatura em 2001 e, em 2005, publicasse um romance (contrariando a própria promessa), “Meia Vida”, que tem recorte memorialístico. Interessante notar que vários dos autores vencedores do Nobel neste século tem obras com recortes memorialísticos, como Mo Yan, Imre Kertész, Orhan Pamuk, Le Clezio, Tomas Tranströmer e Patrick Modiano. Steiner não previu que as narrativas com recorte memorialístico podiam fazer frente ao melhor da “reportagem com narrativa imediata”.

No levantamento histórico sobre o alardeado fim do romance, ao longo da História, por vários autores, Rushdie cita George Orwell, que escreveu, em 1936, que “neste momento, o prestígio do romance é extremamente baixo, tão baixo que as palavras ‘eu nunca leio romances’, que cerca de doze anos atrás eram pronunciadas com um toque de pedido de desculpas, agora são sempre pronunciadas num tom de orgulho”.

Não é de hoje que se diz sobre o fim ou a (citando eu grifo acima na fala de Naipaul) inutilidade do romance. Mas Rushdie observa algo interessante a esse respeito: Steiner, Naipaul e Orwell, britânicos, têm uma visão eurocentrista e, não por acaso, os grandes novos nomes da literatura mundial, inclusive vencedores do Nobel, que pode ser usado aqui como um termômetro, estão em países considerados periféricos em termos de literatura. Ok, britânicos levaram três prêmios Nobel neste século, mas quando esperariam uma bielorrusa, uma canadense, uma austríaca, uma romena, um húngaro, um peruano, um sujeito das ilhas Maurícia, e dois chineses?

(Rushdie diz que considera a produção norte-americana muito boa no momento, Roth, Pynchon, Cormac MacCarthy, Michael Cunningham, Gay Talese, entre vários outros, ainda estão vivos e uma nova geração está se saindo muito bem.)

O fato é que talvez um novo romance esteja emergindo, segundo Rushdie: um romance pós-colonial, um romance descentralizado, transnacional, interlingual, multicultural – e ele está em fase de gestação ampla, muitas vezes dentro de grandes centros, como a França, que gerou um “Submissão”, polêmico livro de Michel Houellebecq, ou mesmo em Londres ou nos EUA com autores imigrantes que escrevem em inglês – e os exemplos são os mais diversos. Temos indianos e japoneses escrevendo em inglês. Não há um centro para essa produção: o centro, agora, é a margem. Nesse sentido, Rushdie destaca, em seu artigo, o perigo que a literatura enfrenta, em especial em redutos ditatoriais ou com ampla censura política e/ou religiosa – e isso ele conhece bem. Mas vamos nos ater ao que se pode produzir e onde se pode produzir:

O novo romance não é mais a visão do Velho Mundo burguês.noviolet.jpg

A visão de Steiner, com a lanterna de Rushdie apontada para ela, nos dá, porém, uma ideia muito específica deste “novo romance”. Mas coloca, talvez, que “todo talento criativo é do mesmo tipo” – quando, obviamente, não é.

Temos “narrativas realistas imediatas e/ou memorialísticas, transnacionais, multilinguais, apontando para uma (des)ordem mundial; abordando problemas contemporâneos e/ou apontando para eles pela ótica história da experiência já vivida” como o modos de fazer do novo romance, certo?

Parece que sim.

Mas e todo o resto? Não há espaço para a ficção científica, o romance de estilo, a sátira, enfim, tudo o que não tem esse viés?

Com a resposta, o escritor.

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o primeiro mandamento do pretenso escritor

Antes de pensar em escrever um livro, alguém que se considera um ESCRITOR deve se portar como UM ESCRITOR. Um escritor inventa personagens, enredos, situações e mundos e, portanto, é bom que ele conheça uma grande galeria de personagens, enredos, situações e mundos. Quanto maior o seu repertório, neste sentido, mais vai conseguir criar, desenvolver e encontrar multiplicidade em personagens, enredos, situações e mundos. Para tanto, uma maneira um pouco artificial mas importante (também por outro motivo, que explicarei adiante) – é: LER. Esse é o primeiro mandamento.

O escritor deve ler muito, sistematicamente, e de tudo. Se ele quer ser um escritor de tramas policiais deve ler todos os textos importantes da categoria, mas não apenas eles. Deve ler os livros que os autores de romances policiais liam e acham importantes. Deve ler as biografias e autobiografias dos autores. Mas não pode ficar fechado nesse universo, ou vai apenas reescrever e emular o que já foi escrito: deve ler coisas diametralmente opostas, como dramas, comédias, ensaios, entrevistas… O escritor deve saber que para uma pequena situação, digamos, dramática, do seu romance, a resposta pode estar naquele conto que leu na adolescência. Ou na entrevista que um jogador de futebol concedeu à revista Playboy. Ou até num programa de TV. Aconteceu comigo: em uma entrevista que assisti na TV, por acaso, do ator e cantor Tony Tornado, me veio a ideia para um conto que foi traduzido para três idiomas. Eu não estava procurando um tema para um conto: uma simples cena da história que Tornado contou durante a entrevista disparou a ideia para o conto, que se chama ME AND JANIS ALI.

Essa é outra coisa intrínseca do escritor: estar aberto e preparado para saber que uma história pode nascer de uma epifania, de um momento simples, de uma frase, de uma imagem. Umberto Eco conta que decidiu escrever O Pêndulo de Foucault a partir de duas imagens: a exibição do pêndulo original, que ele viu e achou incrível, e a imagem de um garoto solitário tocando uma trombeta num cemitério. Ele diz que entre as duas imagens ele desenvolveu seu romance.

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Eu participava do Seminário Genre, de Robert Mckee, no Rio de Janeiro, em 2013, e uma das palestras era sobre o filme Carnal Knowledge, de 1971, de Mike Nichols, com Jack Nicholson e Art Garfunkel. Mckee adora esse roteiro e começou a discorrer sobre o filme, mostrando algumas imagens. Eu estava com um pouco de sono… Tinha visto o filme, tinha uma lista de filmes para assistirmos antes do seminário… E recentemente eu tinha visto a nova versão do Grande Gatsby e lido o livro do Fitzgerald… De alguma maneira, enquanto Mckee falava sobre os personagens e a história, eu me lembrei do Grande Gatsby, que também é uma história sobre o relacionamento de dois homens, assim como o filme do Nichols, e me veio a ideia quase completa para a trama de A VIAGEM DE JAMES AMARO. Num sentido amplo, posso dizer que meu livro é um amálgama de CARNAL KNOWLEDGE e O GRANDE GATSBY.

(Aí, ao pesquisar sobre Carnal Knowledge, fiquei sabendo um pouco sobre a carreira de Garfunkel no cinema e que ele abandonou as telas depois que a namorada se matou. Ela se chamava Laurie Bird e tinha feito apenas dois filmes e então eu fui lá ver os filmes dela e saber um pouco sobre ela e acabei escrevendo um conto sobre o que descobri. Foi publicado no blog de Estudos Lusófonos da Sorbonne Paris IV, chamado “Two-Lane Blacktop”. Então veja como as coisas podem se revelar para um escritor.)

É também importante – e Mckee ressalta isso – que o escritor seja idiossincrático (fico sabendo que em Portugal se diz “idiossincrásico”). O que seria isso, basicamente? É ter uma personalidade forte, mas aberta, encarar o mundo de maneira pessoal, sem abraçar correntes. O grande autor não deve ter uma religião, nem uma grande ideologia, ou ser místico ou nitidamente de uma corrente política. O engessamento das ideologias geralmente leva o escritor a querer defender suas ideias ou ideais em seus romances. Salvo honrosas exceções, poucos dos grandes autores são religiosos fanáticos ou têm uma cor partidária clara. Os idiossincráticos trabalham melhor personagens diferentes de si e entre si mesmos, conseguem entrar na mente de personagens cujo comportamento e ações desaprovam, mas não o julgam (o personagem). Pessoas que não acreditam em nada são mais livres.

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Ler também faz o escritor apreender sobre ritmo. Amplia seu vocabulário. É importante ler poesia. Dicionários. Ser curioso para com as palavras.

E, por que não?, livros sobre livros, livros sobre edição de livros, sobre processos criativos de escritores… Já indiquei, mas não me canso, de “A Hora Terna do Crepúsculo – Paris nos anos 1950, Nova York nos anos 1960 – Memórias da era de ouro da edição de livros”, de Richard Seaver, que editou Beckett e Burroughs, entre vários outros, lindamente escrito, e “Max Perkins, um editor de gênios”, que atuou no início do século XX nos EUA e editou Fitzgerald e Hemingway, entre centenas. Lendo esses livros entendemos um pouco sobre o processo criativo dos autores, sistemas da indústria e o funcionamento do mercado – além de descobrirmos figuras incríveis por trás dos processos. Após ler esses livros e convidado para debater o cenário mercadológico, também escrevi um texto para o blog de Estudos Lusófonos.

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Depois, e finalmente, antes de se dizer escritor, o pretenso artista nesses tempos de tantas histórias e tanta literatura e filmes e séries de TV, deve ler o DOM QUIXOTE de Cervantes. O livro fundador da literatura moderna, pouco lido, aponta os caminhos da construção literária de maneira mais direta que a maioria dos cursos de escrita criativa e quetais.

Talvez exista uma certa pressão nessa insistência para que o escritor leia. Ele não deve se forçar – na verdade, ler deveria ser um ato natural e prazeroso para ele. Ninguém deve, na verdade, se forçar a ler. Deve haver, claro, um incentivo à leitura nas primeiras fases escolares, já que LER é a primeira premissa para o estudo e para a interpretação dos fatos -, então é fundamental que todos SAIBAM LER… E literatura, em especial, é um gosto que se adquire, mas são poucos os verdadeiramente apaixonados. É relativamente fácil que um leitor apaixonado se torne um escritor – ele vai conhecendo os caminhos enquanto lê. Os caminhos não são ensinados em salas de aula ou cursos de escrita. Quando se quer ser um atleta, deve-se treinar. O treino para escrever é ler.

Assim, sem pressa, vai o escritor lendo e acumulando ideias e projetos. São muitos; às vezes mais de uma ideia e um projeto por dia. Poucos vão adiante – e isso é natural. Às vezes pedaços de ideias e projetos se juntam. A mente do escritor fica em constante processo de imaginação.

E em determinado momento, ele decide escrever. E que história ele define? Quais personagens quer desenvolver? Que pergunta ele se faz quando abre o arquivo no computador? Ele escolhe um título para o livro antes ou depois? Ele vai escrever um romance, um roteiro para cinema, uma peça de teatro ou uma série de TV? Por onde começar?

Mckee, em seu Story, diz que “Uma boa história significa algo válido a dizer que o mundo queira ouvir”. Depois de todos esses séculos de histórias, depois da Bíblia, de Shakespeare, das Mil e Uma Noites, de Roth e Borges, e de todos esses vencedores do Nobel e do Pulitzer e do Man Booker Prize e de todos os autores que estiveram nas listas de mais vendidos, e de todos os filmes e séries de TV, ainda teremos histórias importantes, interessantes, relevantes e que podem ser contadas de maneira sensacional, impactante? E que possa interessar ao leitor? E com personagens sólidos, originais?

Responda, escritor.

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