Essa geração de escritores brasileiros tem personagens odiosos?

[A propósito deste texto de Tiago Germano]

A principal questão levantada no artigo de Tiago Germano, que abre e fecha seu texto, é:como é possível que, com personagens tão antipáticos, a narrativa de nossa geração não pareça tão profundamente odiosa para o leitor do futuro?”. Durante o artigo, porém, Tiago não investiga os tais “personagens” da atual “narrativa geracional”, a não ser um odioso escritor, chamado propositalmente Graciliano, personagem principal do livro de Paulo Scott, “O Ano em que Vivi de Literatura”, que é, como o próprio artigo explica, uma paródia do escritor brasileiro contemporâneo, mais ou menos da geração de Scott. Ou seja: a questão de Germano está contaminada pela metalinguagem, pela confusão que ele mesmo criou ao escolher um único personagem, odioso, que é escritor e que emula escritores de uma geração, como parâmetro, tornando todo escritor desta geração, odioso e, por consequência, todos os seus personagens.

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Desenhos de Fabio Zimbres, utilizados na capa do livro de Scott

Apesar de talvez todos os escritores desta geração serem meio odiosos (hehehe) talvez os seus personagens não sejam. É, mais uma vez, a confusão de autor/criação, amplificada pelo exemplo pinçado por Germano.

Mais adiante, em seu texto, Germano cita um dos escritores mais bem-sucedidos desta geração, Daniel Galera (Galera não concorda com essa epítome, que usei em uma facilitação que fiz com ele no SESC Campinas há pouco tempo). Galera teria dito que “O que distancia minha geração das anteriores é o narcisismo e a carência elevados a ethos predominante”. Interessante: talvez a chave esteja no “ethos” que pode ser o âmbito da internet – e mais especificamente, das redes sociais, atualmente – que foi de onde surgiu praticamente toda a geração de Galera e Scott. Acompanhamos, como leitores deste tempo, não o surgimento deste ou daquele autor mas a sua construção. E isso nos dá muita informação sobre esse autor, a ponto de quase não conseguirmos dissociar o autor da obra, confusão intrínseca no texto de Germano.

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Voltando ao caso de Galera: eu o leio há vinte anos, antes de ele se tornar romancista; lia no CardosOnline, fanzine em .txt enviado por e-mail em fins dos anos 1990. Vi o jovem e seu interesse por coisas específicas, falando de sua vida e da interação com amigos e sua cidade, dos livros, discos e filmes que consumia e, depois  vi nascer o contista a partir de seus textos no fanzine e, depois, o romancista a partir dos contos. Esse tipo de coisa quase não se tinha há vinte anos: você não tinha muitas informações a respeito do novo autor, cujo livro encontrava na estante da livraria, além do que havia na orelha (se havia) ou de alguma resenha no jornal (impresso, diga-se) – para quem tinha acesso a jornal.

Hoje, essa construção é ainda mais exposta, através das redes sociais. É difícil que um escritor dessa geração não esteja ali, no Facebook – e Galera não está, o que talvez comprove minha tese que ele, sendo o mais bem-sucedido autor de sua geração (hehehe), está um passo acima de todos os outros, sem a necessidade de exposição e segurando seu narcisismo e carência (hehehe) em detrimento de uma escrita que não se contamine com sua personalidade. Mas o que sobra a todos os outros, reles mortais, senão a exposição de si mesmo nessa grande rede para se fazer visto, lembrado, conhecido, para fazer contatos com outros escritores, editores, críticos e todo o mundo da literatura?

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Dois de centenas de grupos de escritores no Facebook. Só os 2, mais de 40 mil escritores.

Assim, prosseguindo aquela incrível lógica daquele meme que diz que “Jesus só te ama porque não convive com você”, os escritores seguem expondo diariamente suas referências, angústias, carências, medos, humanidade, no fim, construindo uma imagem antes de uma obra, que acaba contaminada, fazendo com que potenciais leitores só se interessem por ela (a obra) a partir da ideia que têm do autor – essa pessoa narcisista e carente, inserida no ethos predominante que expõe e amplia essas características. Nesse meio todo, existem os incríveis ruídos de comunicação, mas essa é outra história.

Seria preciso uma leitura das obras contemporâneas para além dos autores, sem essa contaminação, para detectar o perfil de seus personagens e verificar se são realmente odiosos. É certo que temos muitos livros cujos personagens são escritores, mas essa também é outra história.

Talvez a pergunta que Germano tenha formulado seja: “como é possível que, com escritores tão carentes e narcisistas (ou, talvez, jovens e muito expostos), a narrativa da nossa geração não pareça tão imatura (ou, talvez, umbiguista e desinteressante) para o leitor do futuro?”. Colocado assim, penso que não há saída: poucos, muito poucos, produzem algo de relevante e que vai sobreviver no futuro. E sempre foi assim, independente dos níveis de carência, narcisismo ou deslumbramento, sempre restam poucos autores realmente relevantes em cada geração e, como Germano diz em seu artigo, alguns personagens são realmente odiosos e interessantíssimos. Assim como alguns autores.

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Entre em um sebo e veja os nomes completamente desconhecidos de uma legião de autores nacionais; muitos foram lidos e reverenciados em seu tempo, por um motivo ou outro, e entraram para a lista dos esquecidos completamente; outros produziram uma ou outra obra que pode aparecer em alguma lista, mas nunca conseguiram repetir a façanha do livro um pouco acima do mediano; poucos, estão ali com obras de 50 anos atrás e que ainda são razoavelmente lembradas e muito, muito poucos, podem ser colocados na lista de autores que construíram uma obra relevante, coesa, para além de seu tempo, seu ego, seu narcisismo, sua carência, seu umbiguismo.

Não é fácil.

E não há como prever, neste instante. Somente a próxima geração vai eleger o que vai sobreviver mais um pouco. E assim sucessivamente. Muitas variáveis atuam sobre esse cenário, desde prêmios a momentâneas ondas que reverberam neste ou naquele tema, sexo, doença, espiritualidade, crime… Um ponto interessante, para ampliar o debate, é o papel das editoras na avaliação do original, que antes parecia ser mais rígido, até mais invasivo, na intenção de melhorar o resultado final. Mas essa também é outra história.

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George Steiner, que acha que existem livros demais sendo publicados – sem critério.

 

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Uma obscura influência musical de Nick Drake e Nick Cave

É possível que você nunca tenha ouvido falar em Jackson C. Frank. Autor de um único disco nos anos 1960, o cantor/compositor praticamente sumiu gerando curiosidade, indignação e lendas sobre sua figura loura, meio etérea, fantasmagórica. O sujeito era azarado, deprimido, meio doido, traumatizado e alcoólatra. Foi a maior influência de Nick Drake. No disco em que Nick Cave mostra algumas de suas influências (incluindo um Chitãozinho e Xororó rápido), “The Boatman´s Call”, chupa a capa do único disco de Frank.

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O disco de Frank foi produzido por Paul Simon, que achava que o maluco seria o novo Dylan; junto com o parceiro Garfunkel, gravou “Blues Run the Game”, a canção. Nick Drake também a gravou, em uma sessão de “Five Leaves Left”, além de outras canções de Frank. Uma busca pela canção no YouTube mostra que diversos artistas a gravaram, entre eles Sandy Denny, Laura Marling, John Mayer, Bert Jansch, Mark Lanegan entre outros – e existem vários covers. Al Stewart e Lou Reed eram fãs de Frank. E a atenção ao músico cresceu nos últimos anos por conta de uma biografia elogiada, de um documentário que está sendo produzido, e da utilização de suas canções em filmes como “Inside Llewyn Davis” (que pode ter Frank como inspiração para o personagem), “Martha Marcy May Marlene”, além de séries de TV, como “This Is Us“.

Antes de contar rapidamente sua história, vale a pena ouvir sua melhor e emblemática canção em sua própria voz:

Pois é. Nascido em Buffalo, New York, em 1943, Frank era um garoto comum. Quando tinha 11 anos, o colégio onde Frank estudava pegou fogo. Quinze de seus amigos morreram, incluindo Marlene, sua namoradinha – ele a homenageou em uma canção depois. Frank teve 50% de seu corpo queimado e passou meses no hospital, em recuperação. Ganhou um violão e começou a tocar. Ficou fã de Elvis Presley e foi visitar Graceland com a mãe, que fez uma foto dele com o ídolo. Nascia o desejo de ser músico profissional.

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o Rei e Frank

Dez anos depois do incidente na escola, atingindo a maioridade, Frank recebeu um cheque de mais de cem mil dólares (cerca de meio milhão em dinheiro de hoje) de indenização pelo incêndio – e decidiu se mandar para a Inglaterra. Usou o dinheiro para produzir seu primeiro e único disco por lá, com a ajuda de Simon. Não foi fácil gravar o disco, ele sofria de ansiedade e era muito tímido, tendo que se esconder atrás de biombos para poder cantar e nunca ficava satisfeito com o resultado final. Em um ano, todo o dinheiro tinha acabado e ele voltou para os EUA. O disco não aconteceu e ele entrou em depressão severa.

Nos EUA, casou com Elaine Sedgwick, prima de Edie, e teve dois filhos.Um deles morreu de fibrose cística, o casamento acabou, e ele ficou realmente desequilibrado, tendo que ser internado em uma instituição.

Como o melhor período de Frank havia sido na Inglaterra, ele achou que devia voltar para lá, mas nada era como antes. De volta aos EUA, sem dinheiro, virou morador de rua, tendo sido atendido em várias instituições. Um dia, sentado num banco de praça em Queens, uma bala perdida atingiu seu olho esquerdo. É mole?

Com a ajuda de parentes e amigos, viveu seus últimos dias tentando controlar a esquizofrenia, o trauma da infância, a frustração com a música, a insatisfação com os relacionamentos, a incompreensão dos pares e a depressão, a angústia, a obesidade e a cegueira. Morreu em 1999, esquecido, aos 56 anos.

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Agora, quem sabe, Jackson C. Frank esteja sendo resgatado do esquecimento.

Aqui, o trailer do documentário que está prestes a ser lançado.

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O Brasil em Nick Cave

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Nick & Viv.

No início de 1993 fui até a Santa Efigênia, em São Paulo, buscar uns equipamentos para a emissora de TV em que trabalhava. Estava com meu chefe Ginel Flores. Andando por ali, parei num camelô que vendia CDs e encontrei o “Henry´s Dream”, do Nick Cave – que eu não conhecia, só tinha ouvido falar. O camelô abriu um sorriso e disse:

– Eu tinha uma loja na Galeria do Rock e esse cara não sai de lá, ele mora aqui na Vila Mariana. Ele não fala português e o pessoal lá zoa ele, chama ele de Chitãozinho.

O apelido era por causa do cabelo do músico, parecido com o do sertanejo, repicado em cima e com mullets gigantes.

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– Nick Cave mora em Sampa?

Foi quando fiquei sabendo.

Levei o CD, que é um dos meus preferidos dele até hoje. Depois comprei tudo, li o que pude sobre ele, e fiquei atento.

Em meados de 1989 era impossível ficar incólume a Chitãozinho e Xororó. A dupla estava em todos os programas de TV, tocava incessantemente no rádio, podia ser vista em outdoors de propaganda de seus shows e, para quem vinha do exterior, parecia representar uma unanimidade nacional. Foi quando Nick Cave chegou ao país para morar com Viviane Carneiro, que tinha conhecido um ano antes, quando os Bad Seeds vieram tocar aqui. Ela estava grávida e Nick se desintoxicando de heroína – acharam que viver no Brasil seria bom para o processo. O jornalista Pedro Alexandre Sanches diz que o casal morou na Vila Madalena, mas um cara, numa fila de cinema em SP, me disse que foi vizinho de Nick em Vila Mariana, corroborando o camelô.

Era dezembro de 2000 e eu estava em SP visitando um amigo com minha filha Isabelle, então com oito anos. Fomos ver Fuga das Galinhas em um cinema de rua, não me lembro qual, tínhamos entrado em uma loja de discos antes, eu tinha comprado alguns, e na fila dos ingressos, tirei o “The Boatman´s Call” da sacolinha para dar uma olhada. Um cara, mais ou menos da minha idade, com um garoto de uns dez anos, olhou para o disco por cima dos meus ombros e disse:

– Fui vizinho dele, fomos pais mais ou menos na mesma época, vivíamos conversando sobre paternidade e tal…

Infelizmente, a fila andou rápido e não pude falar mais com o sujeito. Me lembro só de ele ter dito que Nick ficava muito em casa e gostava de entrar em igrejas para ver os cultos, às vezes Viviane ia junto, achava que era evangélica. “Meio doida, mas evangélica”.

Aparentemente, a rotina de Nick era discreta, alternando idas à Galeria do Rock, a pé, parando em botecos no caminho, onde apreciava os salgados e cervejas Antarctica – quando foi assaltado duas ou três vezes (não guarda ressentimentos); em casa escrevendo e cuidando do filho, Luke; e, eventualmente, indo a casas noturnas, como o Espaço Retrô.

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Nick usou alguns desses lugares que conheceu, assim como prostitutas, travestis e gente da noite paulistana no videoclipe de “Do You Love Me”, rodado aqui.

Ele gravou “The Good Son” no Cardan Studios, em São Paulo, em 1989, o disco foi lançado no ano seguinte. A faixa de abertura é “Foi na Cruz”, assim mesmo, em português, com trechos do clássico cristão de mesmo nome, de Luiz de Carvalho, gravado em 1958, no primeiro disco gospel brasileiro, muito tocada em cultos da Assembléia de Deus. Ouça:

“The Good Son” tem outras canções de inspiração “tradicional” ou folclórica. Há tempos Nick vinha reescrevendo coisas assim. “The Good Son”, a canção, por exemplo, é baseada num spiritual chamado “Another Man Gone Done” e “The Witness Song” tem base num gospel chamado “Who Will be a Witness”. No período que Nick passou no Brasil, ele escreveu muito material desse tipo, que seria gravado em discos seguintes. Por exemplo, “When I First Came to Town”, de “Henry´s Dream”, é decalcado da canção tradicional “Kathy Cruel”; “Stagger Lee”, “Henry Lee” e “Crown Jane”, de “Murder Ballads” são quase versões literais de canções tradicionais. Esse disco tem uma cover de Bob Dylan e algumas pessoas entendem que o disco anterior de Nick, “Let Love In”, foi quase todo inspirado em canções de Dylan – tese na qual acredito.

O fato é que Nick fez uma versão para “Fio de Cabelo”, de Chitãozinho & Xororó. Ele gostou da ideia da canção e a reescreveu, dando o nome de “Black Hair”, gravada no disco “The Boatman´s Call”.

“The Boatman´s Call” é um disco com muita homenagem, reescrita e chupação. Por exemplo, fã de Leonard Cohen e de Lou Reed”, Nick começa “There is a Kingdom” com a frase “Just like a bird” emulando Cohen em “Bird on the Wire” e com uma melodia simplesmente chupada de “Perfect Day”, de Reed. Interessante que Nick diz que esse disco o remete a Viviane Carneiro tanto quanto a PJ Harvey, com quem ele teve um namoro e de quem levou um PNB.

Muita gente acha que o disco seguinte, “No More Shall We Part”, é uma espécie de continuação de “The Boatman´s Call”, mas, na verdade, o disco marca uma guinada e aponta para uma nova fase da carreira de Nick, com letras mais elaboradas, distância das canções tradicionais, autenticidade, originalidade. “No More…” é o décimo-primeiro disco de Nick, gravado quatro anos depois do anterior.

Depois tudo ficou ainda mais interessante. images

Voltando um pouco, Nick ficou por aqui entre fins de 1989 e 1993, voltando duas ou três vezes e, depois, levando Viviane e o filho Luke para Londres. Separaram-se, Viviane é psicoterapeuta lá e Luke é casado com uma jornalista esportiva.

Em 1994, Nick deu uma entrevista para a Hypno Mag onde não falou exatamente bem do país. Deve ser por isso que demorou quase 30 anos para voltar.

Mesmo que as coisas não tenham mudado muito por aqui.

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Nick & Luke.

UPDATE: doc interessante com imagens de Nick em SP, indicado nos comentários por César 🙂

 

 

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50 anos da morte de RFK – vem um filme por aí

Em 5 de janeiro de 1968, Aristóteles Onassis telefonou para o jornalista Peter Evans oferecendo um contrato para que ele escrevesse a sua história. Ganhar uma boa grana para contar a vida do milionário mais famoso do mundo, uma história recheada de intrigas, sexo e política era tudo o que um escritor podia querer. Assim, Evans teve acesso ao universo de Onassis, acompanhando com atenção, inclusive, o casamento dele com Jacqueline Kennedy dia 20 de janeiro do mesmo ano. Mas Onassis cancelou o projeto, só retomando o contato com Evans em 1974. Era outra figura: o casamento com Jackie tinha acabado (ele chegara à conclusão que ela tinha dado um golpe), seu filho tinha morrido num estranho acidente de avião (podia ter sido uma sabotagem), sua ex-mulher tinha se matado (ou sido morta pelo marido, seu ex-cunhado), sua filha vivia em um estado de depressão, os negócios andavam mal e ele sofria de uma doença autoimune, miastenia grave, e mal conseguia falar. Ele estava também paranoico, falando em conspirações, e Evans fez algumas entrevistas complicadas com o milionário até que ele morresse meses depois.

“Ari: The Life and Times of Aristotle Socrates Onassis” saiu em 1986 e consolidou o mito do “grego dourado”. Foi vendido para a TV, virou minissérie premiada, com Raul Julia fazendo Ari, e Evans ficou rico.

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Porém, em 1988, o advogado grego Yannis Georgakis, amigo e conselheiro de Onassis durante toda a vida, disse a Evans que o livro era bom, mas que “faltava a história real”. O escritor devia se ater às circunstâncias do casamento entre Ari e Jackie e também sobre a morte de Bobby Kennedy. Não seria, porém, Georgakis quem iria contar os meandros da história, o escritor devia pesquisar. Evans podia deixar isso pra lá, já estava com a vida ganha, mas decidiu bater um papo com Christina, a filha. Eles almoçaram, ela estava infeliz, como sempre, disse que não tinha lido a biografia do pai pois tinha medo do que podia descobrir. Evans disse que gostaria que ela lesse, pois estava pensando em escrever mais sobre ele, talvez escrever até mesmo a biografia dela.

Cinco meses depois, ela ligou dizendo que tinha lido e queria discutir o livro com ele. Eles almoçaram em Paris, mas ela não parecia muito bem. Entre outras coisas, confessou que tinha acabado de refazer seu testamento – pelo oitava vez. Sua filha, Athina, estava com quatro anos, ela amava seu marido – que, ela sabia, a traia -, e disse que o pai, quando odiava, “não poupava ninguém”. Marcaram um café para o dia seguinte e, depois de fazer Evans jurar sigilo sobre o que ela ia contar, finalmente ofereceu o ponto de partida sobre o que estava faltando na biografia do pai: Onassis pagou a um terrorista palestino, Mahmoud Hamshari, uma taxa de proteção para sua empresa, a Olympic Airways, para que não ocorressem atentados terroristas em seus aviões – e, mais tarde, Onassis descobriu que parte desse dinheiro foi usado para financiar o assassinato de Robert Kennedy.

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Como a morte de Robert abriu caminho para que Onassis se casasse com Jackie – um casamento que Bobby tinha jurado que só aconteceria por cima de seu cadáver – podia ser que Onassis não “tivesse descoberto” o financiamento, mas sim tivesse deliberadamente financiado a morte de Bobby.

Estupefato, Evans disse que ia investigar e que não publicaria nada sem o consentimento de Christina. Três semanas depois, Christina foi encontrada morta em sua banheira em Buenos Aires. Aparente suicídio. Ela já tinha tentado antes. Mas como seu corpo fora retirado da banheira e colocado na cama, mudando a cena da morte, não podiam determinar com clareza. A polícia, os médicos, a imprensa, tudo virou uma confusão na suíte do Tortugas Country Club onde estava hospedada. Depois de examinarem o corpo, os médicos legistas queriam fazer uma autópsia, que foi negada, impedindo que se soubesse de fato do que ela morrera.

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Chocado, Evans começou um cauteloso levantamento de dados. Quase cinco anos depois, falou novamente com o velho Georgakis que disse que Robert Kennedy era um problema não resolvido há tempos para Onassis e que, sim, o amigo podia ter financiado o assassinato.

A conclusão da pesquisa de Evans está em “Nêmesis – Onassis, Jackie O. e o Triângulo Amoroso que derrubou os Kennedy” (Intrínseca), que está sendo adaptado para o cinema – e bem que o Scorsese podia estar à frente desse projeto.

O fato é que todos sabem quem matou JFK, mas ninguém se lembra do assassino de Bobby. O palestino Sirhan Bishara Sirhan trabalhava na cozinha do Ambassador Hotel de Los Angeles e não tinha ligações com organizações terroristas – na verdade, era considerado um jovem calmo, solícito e amável. A comitiva de Kennedy estava circulando pelo hall, Kennedy estava falando com alguns funcionários do hotel, quando Sirhan caminhou lentamente até ele, sacou um revolver calibre .22 e descarregou a arma. Bobby tinha dispensado os seguranças naquele dia pois o local era apertado e havia muitos ativistas pela paz na Califórnia – não queria parecer amendrontado ou inseguro. Depois dos disparos, Sirhan ficou calmo e parecia não saber o que estava acontecendo. Quem estava no staff de Bobby e ajudou a segurar o assassino foi o jornalista George Plimpton. Outras cinco pessoas foram atingidas pelos disparos. A cantora e tia de George Clooney, Rosemary Clooney, também estava lá com Bobby e quase foi atingida.

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Sirhan é preso.

Aos policiais, Sirhan disse que não sabia o que tinha feito. Não se lembrava. Continua com essa versão até hoje: ele está preso em Corcoran, na Califórnia, onde estava Charles Manson. Cumpre perpétua, depois que foi cancelada sua execução. Um dos motivos do cancelamento foi a convicção plena de Sirhan de que não tinha cometido o crime que todos viram ele cometer. Recentemente, foi negado seu 15º pedido de liberdade e a história se complica neste caso de 50 anos com um segundo atirador colocado na cena do crime. Mas isso é outra história.

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Sirhan hoje, alegando não se lembrar do crime.

Onassis odiava RFK desde muito antes da intenção de casamento com Jackie. Quando era procurador-geral, RFK praticamente banira Onassis dos EUA. RFK também tinha tretado com outros amigos de Ari, perseguia Jimmy Hoffa, presidente do sindicato dos caminhoneiros que também mandava no sindicato dos estivadores, com quem Onassis tinha negócios que ajudavam na movimentação de cargas de seus navios. Mas foi um caso prosaico que fez com que Ari mirasse toda sua raiva no irmão do presidente.

Spyros Skouras foi o grego que inventou Hollywood, um nome esquecido hoje. Em 1935 ele arquitetou a fusão da Fox com a Twentieth Century para criar uma das empresas mais famosas do mundo. Em 1962, com 73 anos, Skouras estava com dois filmes problemáticos em andamento.

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“Cleópatra” entrava em seu 33º mês de produção e já tinha consumido 30 milhões de dólares – cerca de 435 milhões em dinheiro de hoje. Skouras e o estúdio estavam à beira de um colapso, quando o grego recebe um telefonema do procurador-geral RFK pedindo para que Skouras fizesse preparativos no set de “Cleópatra”, em Roma, para receber a visita de seis amigos dele. E ainda exigia que os amigos fossem entretidos no almoço por Elizabeth Taylor. Skouras mandou RFK se foder e o irmão do presidente jurou que o grego ia desejar nunca ter vindo para os EUA.

O outro filme com problemas era “Something´s Got to Give”, estrelado por Marilyn Monroe que não aparecia nas filmagens e estava tendo um caso com os dois Kennedys.

Possivelmente, Skouras estava enciumado também, não era apenas a questão do filme: o grego não apenas tinha sido amante de Marilyn, mas também a tinha descoberto e sugerido a mudança de nome de Norma Jean para Marilyn Monroe. Ambos mantinham uma relação meio incestuosa; ela o tratava por Papa e ela a tratava por “filha maravilhosa”.

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Filhinha e papai

Não bastasse isso, Marylin foi convidada para cantar na festa de aniversário de 45 anos do presidente, mas dependia da liberação do estúdio. Skouras não permitiu – tinha um filme a ser feito e ele não gostava dos Kennedy. Mesmo sem a liberação, um helicóptero pousou na Fox na tarde de quinta-feira, 17 de maio, com o ator Peter Lawford, marido da irmã dos Kennedy, e praticamente sequestrou Marilyn para o evento de aniversário – deixando Skouras completamente puto.

Skouras era muito amigo de Onassis. E o amigo era solidário ao seu sentimento de vingança.

Surge então uma jovem maluquinha na história. Lee Radziwill tinha acabado de se casar com um príncipe, Stanislas Radziwill, da Ucrânia – ou algo assim. Era seu segundo casamento e conheceu Onassis de quem, rapidamente se tornou amante. Onassis também era amante de Maria Callas na ocasião. Lee também era amante de John Kennedy. E, ah, era irmã de Jacqueline Kennedy. Sim: John comia a cunhada – e fazia tempo.

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Jackie & Lee

Jackie vivia sua quarta gravidez, tida como arriscada, ela já perdera um bebê, e estava magoada com o marido, com Marilyn cantando no aniversário dele e não aguentou quando JFK foi convidado para uma viagem à Europa e chamou a cunhada para acompanha-lo. O convite foi um pouco para tirar Lee das garras de Onassis, mas também porque JFK queria levar uma marmita. Foi quando Bobby ligou para o grego exigindo que ele parasse de se encontrar com Lee. Onassis respondeu: “Bobby, você e Jack trepam com sua rainha do cinema, eu vou trepar com a minha princesa”.

Pouco tempo depois, Marilyn estava morta. Hoje já se sabe que Bobby e Lawford estiveram com a atriz na casa dela na tarde de 4 de agosto, saíram possivelmente antes das 18h, e ela foi “encontrada morta” muito mais tarde, mas essa é outra história.

Acontece que logo depois nasce Patrick, o filho de Jackie e John, mas ele só vive por um dia e meio. Ele é enterrado, a nação se comove. Vivendo seu luto triste – não apenas pelo filho morto, mas pelo fim iminente do casamento – Jackie recebe um convite para passar uns dias no iate de Onassis. Foi a irmã quem convidou, ela aceitou.

JFK e o irmão ficaram possessos, o que fez Jackie ficar ainda mais convicta da viagem. Como escreve Peter Evans, “era hora de dar o troco”.

Bobby ligou novamente para Onassis. Dessa vez mais calmo, disse que ele e o irmão não iam colocar objeções no caso dele com Lee, mas que desistisse do cruzeiro com a primeira-dama. Quando contava essa história, Onassis sempre lembrava que, no momento do telefonema de Bobby, ele estava recebendo um boquete de Manuela, sua prostituta preferida. Onassis rechaçou o pedido de Bobby: “Garoto, você não me assusta, já fui ameaçado por especialistas”. No que Bobby explodiu: “O que ocorreu no passado, seu grego filho da puta, não é nada comparado com o que está por vir”.

Jackie foi para o cruzeiro e fez amor com Onassis na terceira noite.

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Onassis ajuda Jackie durante o luto do filho.

Na volta aos EUA, ela tinha que excursionar com o marido para a campanha de reeleição presidencial, eles dormiam em quartos separados. Era tudo uma encenação. Três meses e meio depois do enterro de Patrick, JFK era assassinado em Dallas.

Durante os preparativos para o funeral, seis pessoas foram convidadas para se hospedar na Casa Branca. Uma delas era… Aristóteles Onassis, a convite de Jackie e Lee. Segundo Evans, a presença de Onassis seria uma maneira de Jackie dizer aos Kennedy que ela já não esperava ser tratada “apenas como uma coisa”. O encontro de Bobby e Ari na Casa Branca, às vésperas do enterro de JFK, daria, só ele, um filme fantástico. Estavam todos devastados pelo assassinato e meio loucos de pílulas, álcool e cansaço. Mas é claro que Bobby estava com vergonha, raiva e frustrado por ter que falar com o rival, o homem que tinha chifrado seu irmão.

Enquanto a nação chorava e Jackie encenava um luto necessário, Onassis voltou para seus negócios e se preparava para casar com Jackie. Ele ainda amava Callas, mas queria se casar com Jackie – era bom para sua imagem, para os negócios, e ela o excitava. O que ninguém esperava era que Jackie iniciasse um caso com… Bobby Kennedy!

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Cunhados e amantes.

É claro que Onassis sabia – ele sabia de tudo. Também instalou um detector de mentiras em seu telefone e acreditava no objeto. Assim, confirmou que Jackie estava se divertindo com várias companhias em Nova Iorque, estava “tirando o atraso”. Já não era santa quando estava casada, teve ao menos um caso notório, com William Holden, mas nos últimos dois ou três anos, alternando com Onassis, tivera ao menos meia dúzia de homens fixos.

Os negócios não iam bem e Onassis decidiu apressar o casamento. Jackie estava chegando aos 40 anos e o casamento ia fazer com que perdesse a pensão de JFK, então o contrato com o grego tinha que ser bom. Bobby não aceitava de maneira alguma. Até que apareceu Hamshari e sua proposta de proteção da companhia aérea de ataques palestinos e a lembrança de uma conversa que Onassis tivera com um amigo sobre um médico que utilizava hipnose e um filme polêmico feito pouco antes do assassinato de JFK…

O médico era William Joseph Bryan Jr. Ele havia sido consultor sobre hipnose no filme “Sob o Domínio do Mal” (The Manchurian Candidate, Frankenheimer, 1962). O filme mostra como um soldado americano capturado na Coréia é programado mentalmente para assassinar o presidente dos EUA. É certo que Hamshari esteve com o dr. Bryan. E há evidências que Sirhan também viu o dr. Bryan. E hoje sabe-se que o dr. Bryan trabalhara no projeto MKULTRA, da CIA, que estudava o controle mental.

Em 1968, pouco antes da morte de RFK e do casamento com Jackie, Onassis visitou o dr. Bryan em Las Vegas para uma sessão onde procurava curar sua insônia.

Agora, é esperar o filme que estão fazendo sobre tudo isso.

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Tô pasmo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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The Post & arredores reais do filme de Spielberg

Em 1976, Pakula dirigiu o filme “Todos os Homens do Presidente” dando as caras de Dustin Hoffman e de Robert Redford para os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward e de Jason Robarts para o editor-chefe Ben Bradlee, criando um The Washington Post incrível, um jornal tremendamente combativo. A imagem que temos do The Post é essa; toda uma geração do auge do jornalismo impresso pensa sempre no jornal com essa ideia romântica desses caras e desse ambiente de trabalho foda.

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Sim, essa foi a matéria que colocou o jornal no cenário e, agora, Spielberg dá um passo atrás para contar o que aconteceu antes de Watergate. O foco do filme é a viúva do dono do jornal, Katharine, que não aparece no filme de Pakula, mas teria sido essencial para que o jornal afrontasse o governo. O marido de Katharine, Phil, não aparece no filme de Pakula nem no de Spielberg, onde é levemente citado. Vamos falar um pouco sobre ele e sua época como presidente do The Washington Post.

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Phil Graham e John Kennedy estiveram no exército durante a segunda guerra. Depois, Phil já à frente do The Washington Post, ficaram grandes amigos. Phil ajudou o JFK na política e já estava casado há vinte anos com Katharine quando o amigo venceu as eleições presidenciais. Phil e próximos do presidente conheciam bem suas virtudes e problemas – patriotismo e mulheres, respectivamente. Os amigos, porém, acreditavam que a responsabilidade do novo desafio ia fazer crescer a virtude e afastar os problemas. Aconteceu o contrário mas isso, aos olhos de seu staff, não foi um mau negócio: a popularidade do presidente vinha crescendo, seu carisma o aproximava de todos, o homem era um imã, e as mulheres vinham e iam facilmente, sem causar problemas. Às vezes, até sobrava uma ou outra para os amigos. Até que aconteceu Marilyn.

E a Guerra do Vietnã, que o presidente iniciou com apoio da mídia, inclusive do amigo Phil.

Foram dois anos complexos, do início da guerra até a morte de Marilyn – e de Kennedy, na sequência. Foram dois anos que provocaram a necessidade de um reboot na história dos EUA, o que o jornalista François Forestier chamou de “a grande limpeza” em seu livro “Marilyn e JFK”.

Logo após a inexplicável mas anunciada morte de Marilyn, Phil deixa a esposa e assume o romance com a jovem jornalista Robin Webb, da Newsweek. Talvez prevendo que algo ruim pudesse acontecer a ele por conta de tudo o que sabia – a conivência com a gestão Kennedy, os pedidos do presidente para que o Post não escrevesse sobre a guerra, os planos dos Kennedy para matar Diem e Fidel -,  Phil aceita o convite para um seminário da Associated Press em Phoenix, Arizona, onde pretende fazer um discurso devastador. Fecha-se por dois dias no quarto do hotel com Robin preparando o discurso – mas consome doze garrafas de champanhe no período e alguns comprimidos.

Quando chega ao evento, antes mesmo de chegar o seu momento de falar, sobe ao palco e começa a atacar o público. Ele está fora de si. Chama os jornalistas de “imbecis sujos e inúteis”. Depois de vociferar um pouco sem sentido, mira a Casa Branca: “Por que ninguém nunca solta a informação? JFK passa o tempo trepando! Não tem um só que diga isso! Vocês não tem colhões? São uns merdas!”. Diz, ainda, que o presidente, seu amigo, faz orgias na piscina e que “está comendo uma amiga minha, uma ótima artista chamada Mary Pinchot Meyer”. Depois que Marilyn se foi, ele diz que essa é a nova favorita do presidente.

Phil fala mais uns minutos e, inesperadamente, arranca a própria roupa.

Tiram-no do palco.

Ainda segundo Forestier, informado sobre o incidente, JFK envia um avião da presidência para transportar o louco. Ben Bradlee, fiel a Kennedy e ao patrão, vai ajudar.

Depois de um tempo trancafiado em um hospital psiquiátrico, Phil rompe com Robin, pede desculpas à Katharine e volta para casa. Pouco tempo depois, na véspera do aniversário de um ano da morte de Marilyn, Phil coloca um disco de Beethoven, entra no banheiro de casa, senta-se na beira da banheira e dá um tiro no queixo com um rifle de caça, calibre 28. Forestier diz que ele fez isso para não sujar o quarto – “ele era muito cuidadoso”. Bradlee estava lá para ajudar a viúva Kay.

Não há fotos de Graham na conferência da imprensa, nem com Robin, tudo foi apagado a pedido de Ben Bradlee.

Uma onda de “apagamento” da relação Kennedys-Marilyn havia acabado de acontecer, segundo o jornalista Anthony Summers no seu relato biográfico de Marilyn. O FBI foi a todas as agências fotográficas e confiscaram fotos, o Washington Post entregou as fotos que tinha. Um executivo do Globe contou que os homens apareceram e disseram que estavam “colhendo material para a biblioteca presidencial. Pediram para ver tudo o que tínhamos sobre Monroe. […] mais tarde descobrimos que tinham levado tudo o que tínhamos, até os negativos”. É incrível que Marilyn e os Kennedy, com os Lawford e Sinatra, tenham estado em tantas festas, com tantos fotógrafos paparazzi em cima deles e não existam fotos! Forestier conta que uma única foto de John com Marilyn se salvou: a que está na capa do livro que ele escreveu, feita no dia do aniversário de John, quando Marilyn cantou o fatídico e sensual “Happy Birthday” para ele.

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Um ano depois da morte de Marilyn e logo depois da morte de Phil, JFK decide visitar várias cidades do país para testar sua popularidade e preparar sua reeleição. O casamento ia mal, Jackie ficou puta com a exposição que a morte de Marilyn deu ao caso deles, ela tem se encontrado com Onassis, John tem um boneco vodu do armador grego – não é figura de linguagem: JFK tem mesmo um boneco de vodu de Onassis. John e Jackie viajam juntos, mas dormem em quartos separados.

Antes de Dallas, John deve ir a Chicago, mas a viagem é cancelada por causa de uma denúncia de atentado. Thomas Artur Vallee, ex-fuzileiro com distúrbios mentais, é preso com um fuzil com mira telescópica no último andar de um depósito, na trilha do caminho que o cortejo presidencial deveria percorrer. Preso, ele diz: “sou apenas uma isca”.

JFK é morto em Dallas em 22 de novembro de 1963. Lee Harvey Oswald é preso e diz: “sou apenas uma isca”.

Não houve tempo para Oswald dizer mais: foi morto dois dias depois pelo mafioso Jack Ruby. Preso, julgado, Jack teve pena de morte, apelou mas morreu de câncer de pulmão em 1967 sem explicar o que o teria motivado o crime. Mas deu uma série de entrevistas para uma jornalista, Dorotthy Kilgallen, que preparava uma longa matéria e, quem sabe, um livro, com a história bombástica.

Um ano depois da morte de Kennedy, sua ex-namorada, alardeada por Phil Graham como a “nova preferida” depois de Marilyn, Mary Pinchot Meyer, enquanto caminhava por Georgetown, recebe um tiro na cabeça, por trás, e outro na homoplata enquanto cai. Coisa de profissional. Um negro foi preso, dizendo que era apenas uma isca, e o crime é considerado não solucionado até hoje.

Mary Pinchot era irmã de Tony Pinchot que era casada com Ben Bradlee, editor chefe do Washington Post, o chupa-saco de Phil, o amigão de Kennedy.

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Ben Bradlee, Jackie, Tony Pinchot, JFK

Segundo Forestier, Tony e Ben vão à casa de Mary para arrumar as coisas depois da morte dela e encontram James J. Angleton, número dois da CIA, vasculhando cartas, papéis e documentos. O agente tinha simplesmente arrombado a casa e pede que nada seja divulgado no The Washington Post. Bradley não só foi omisso como escondeu, ele mesmo, um diário da cunhada. Separou-se de Tony pouco mais de dez anos depois, casando com uma jornalista vinte anos mais jovem. Em sua biografia, tenta um mea-culpa e diz que o Post fez várias matérias sobre a morte da cunhada. É verdade, mas uns vinte anos depois apenas.

Três anos após a morte de Marilyn, a jornalista Dorothy Kilgallen morre exatamente igual à atriz, misturando álcool e barbitúricos (sic). Kilgallen tinha feito aquela série de entrevistas com Jack Ruby e preparava a matéria e o livro, que nunca apareceram.

Robert Kennedy, em campanha presidencial em 1968, estava no Ambassador Hotel, em Los Angeles, quando um palestino, calma e tranquilamente, saiu da cozinha do hotel e foi ao seu encontro com um revólver, crivando-o de balas. Uma morte bem besta para quem combateu a máfia, tinha um séquito de seguranças e teve o irmão assassinado.

Possivelmente, o fim da “limpeza geral”.

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Spielberg e Ben Bradlee era vizinhos em Long Island. Ambos eram, claro, fãs do filme de Pakula e Spielberg teve a ideia de fazer um filme que se conectasse com “Todos os Homens do Presidente” e homenageasse o amigo. A cena final de “The Post” é a cena inicial do filme de Pakula sobre Watergate.

Fim de The Post

cena final do filme de Spielberg é idêntica à inicial do filme de Pakula

No final, no meu entender, “The Post” é um filme sobre um jornal conivente com o governo até que o presidente que eles acobertavam morre assassinado e o dono do jornal se mata, possivelmente pela pressão de saber um monte de merda oficial, aquela bem fedorenta. Aí a esposa do dono (que era uma dondoca e se torna a mulher mais influente do país) e o chefe de redação (que era um pau mandado), depois de tomar um furo homérico do jornal concorrente, decidem correr atrás do prejuízo para que o jornal não fique ainda mais desvalorizado. Quase dez anos antes dos chamados Pentagon Papers os principais jornais americanos cobriam a Guerra do Vietnã com repórteres em campo, mas o The Washington Post parecia preferir o jornalismo de gabinete, com informações oficiais.

Bem, Lyndon Johnson vinha fazendo muita merda e era fácil criticar um vice que assume e, depois, Nixon era um bom alvo, republicano, anti-democrata, anti-Kennedy, velho, feio, recalcado; aconteceu Watergate, obra de um denunciante que seria amigo de Ben Bradlee, e da obstinação dos dois repórteres meio hippies que estavam por ali. Quase um acidente que botou os holofotes sobre o Post como “o jornal que derrubou um presidente”.

Eles podiam ter feito isso antes, caso quisessem.

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em música, o novo é sempre ruim

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais – Belchior

Quando surgiu, João Gilberto dividiu opiniões. Para boa parte dos apreciadores de música popular, ele não cantava nada. Aquela voz miúda, aquele batuque no violão… Aquilo era só uma modinha que logo ia passar. Bom mesmo era Ataulfo Alves, Francisco Alves, Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Ivon Cury, Elizeth Cardoso… Mas João era uma novidade e conseguiu espaço na mídia – no rádio, especialmente forte na época -, pois a mídia precisa sempre de novidades para chamar a atenção e provocar reações.

Depois, com a bossa nova se firmando a partir de João, apareceu outra novidade, o rock de Roberto Carlos e Cely Campelo, entre outros, e a música e figuras estranhas de Tim Maia e Raul Seixas, que desagradavam os pais de adolescentes que já estavam se acostumando com egressos mais avançados da bossa, como Nara, Elis e mesmo Chico Buarque (“você não gosta de mim, mas sua filha gosta”). Os fenômenos tinham espaço na TV, que se popularizava, pois, como disse, eram novidades e a mídia é como o circo, precisa sempre de um número novo, chamativo, atrativo, polêmico.

Depois…

Depois, eu me lembro do Programa Flávio Cavalcanti, que assistia com meus avós e com meus pais, esperando para ver o apresentador apresentar a nova atração bizarra da música, espinafrar e quebrar seus discos. Meus avós achavam uma delícia a espinafração. Meus pais achavam meio constrangedor. Eu geralmente ficava muito interessado em ouvir mais daquele artista que os velhos acham ruim – se os velhos achavam ruim devia ser mesmo muito legal.

Depois, meus avós assistiam ao Festa Baile com Agnaldo Rayol e eu assistia também, achando chato.

Agnaldo Rayol

Hoje, a gente vê alguns artistas como Ney Matogrosso e Milton Nascimento entronizados na MPB e acha que apareceram com essa moral. Mas não foi assim: o espalhafatoso Ney era apresentado com deboche e visto como bizarrice, gay e excêntrico, inclassificável; Milton era um mineiro (é carioca, na verdade, mas…) negro e de voz fina, de figura também excêntrica e muito diferente para o padrão da MPB da época, quase um anti-João Gilberto.

O que quero dizer é que as gerações sempre acham que o gosto médio delas é o norteador e sempre melhor que a novidade. Há uma resistência em todos pela novidade. E a mídia usa a novidade para angariar o público dividido: uns vão amar, outros detestar; essa polêmica gera audiência – que é do que vive a mídia.

Isso, falando em termos de Brasil, mas basta dar uma olhada na música internacional para ver que as ondas de novidade geracional são ainda mais divisórias.

Em 2012, o presidente Barack Obama prestou uma homenagem ao Led Zeppelin com um evento na Casa Branca. Quando apareceu com seu blues eletrificado, rápido e de alta potência, o Led era uma banda tão estranha, tão incrivelmente barulhenta, que até os fãs das bandas de origem do Led, o Cream e o Yadbirds, estranharam. O sucesso veio por conta da estranheza e novidade, confundindo os amantes do rock psicodélico e do rock pesado. O mesmo aconteceu com o punk, com o pós-punk, com a new age, com o grunge, etc… Sessentões, hoje, acham que rock é Beatles e Rolling Stones. Cinquentões amam o Led. Quarentões vão de Nirvana. Trintões, de Gorillaz.

Recentemente, na festa de aniversário de um amigo, o DJ começou seu set com três ou quatro músicas jazz-funky interessantes e dançantes que eu não reconheci, mas adorei. Achei que o restante da noite seria assim, de boas descobertas, mas estávamos em uma festa de 39 anos então a maioria dos convidados tinha essa faixa de idade, nascidos ali por 1980, e logo as músicas foram se encaixando no que o dono da festa tinha pedido e proposto e hits dos anos 1990 começaram a tocar para a alegria da maioria dos presentes. “Candy”, do Iggy Pop, levou mais gente pra pista, com todo mundo cantando junto. “Debaser”, do Pixies, tocou duas vezes. Um pessoal no fundão queria músicas mais novas, queria mais agito e menos barulho. Os DJs se negaram a tocar aquelas não-músicas atuais.

Quando os Stooges apareceram, foi um choque e quase ninguém gostou. Aquilo não parecia música e a performance de Iggy não se encaixava em nada visto antes. Poucos sabiam que ele estava antenado com movimentos artísticos de vanguarda que faziam releitura do Grand Guignol. Não por acaso, o primeiro disco dos Stooges foi produzido por John Cale, do Velvet Underground, outra banda de art-rock que ia contra a corrente e que ninguém entendeu no primeiro momento. Tanto Iggy quanto Lou Reed, do Velvet, foram “popularizados” por David Bowie nos anos 1970 – e a performance artística teatral-glitter do Bowie serviu para justificar o que Iggy e Reed vinham fazendo. É bom que se diga que quando Bowie apareceu, apenas jovens se identificaram e se interessaram.

Quando os Pixies apareceram com um EP de 8 músicas e 20 minutos de duração e letras com palavras em espanhol, todo mundo achou que fosse uma banda colegial querendo chamar a atenção com barulho. Ninguém deu importância ou levou a sério. O primeiro disco, lançado por uma gravadora pequena, fracassou nos EUA, mas fez sucesso na Europa – o que fez a banda acontecer. A crítica especializada se dividiu, os mais velhos dizendo que aquilo era ruim – A Rolling Stone deu três estrelas para “Surfer Rosa” quando foi lançado e, depois, reavaliou o disco, em 2004, dando 5 estrelas. Hoje é considerado um clássico.

Depois apareceu o Nirvana, que foi mal quando apareceu, ratificou o Pixies e depois…

O que quero dizer é que quando alguém diz que isso ou aquilo “não é música” está repetindo o que os pais deles disseram quando os músicos que eles gostam apareceram.

Os pais dos quarentões que estavam na festa do meu amigo não devem curtir muito o que tocou lá. Música de verdade pra eles é os Beatles, Bee Gees, Ike e Tina Turner e, olhe lá, um Cream ou, depois, um Led Zeppelin. Afinal, o que é o baixo de Kim Deal perto de John Paul Jones ou a voz de Iggy diante da de Robert Plant? Os pais estão errados? Todos os pais estão errados.

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A música pop é geracional e está ligada ao emocional de certa faixa etária: esses quarentões ouviram essas canções que tocaram na festa quando estavam na adolescência e elas foram seu hino de rebeldia, amor e “estar no mundo”. Os quarentões da festa podem até ouvir e gostar, conhecer a importância musical e histórica daqueles que vieram antes, mas têm dificuldade de ouvir algo que os adolescentes amam agora pois estão em outra fase e nada pode ser melhor que os hinos de sua fase de crescimento emocional.

Se você é adulto, tem mais de trinta anos, pense em algo que ouviu recentemente e que realmente amou.

Isso também funciona em outras áreas.

O fato é que muita gente diz: “Pabllo canta mal” ou “Anitta não me representa” tendo como referências artistas que, quando apareceram, seus pais também achavam que cantavam mal e/ou que não os representavam. Estamos reproduzindo as falas de um coro antigo de descontentes pois só estamos velhos, como nossos pais.

É preciso parar e pensar um pouco. E não se meter muito no que as novas gerações gostam e querem ouvir. E não sermos os Flávios Cavalcantis de hoje.

 

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o novo disco da Jambow Jane

A Jambow Jane é uma banda de pop rock composta pela família do brasileiro Flavio Prada – ele, a mulher e filhos + músicos agregados -, formada despretensiosamente há alguns anos, sediada na cidade onde eles moram, Riva Del Garda, Itália. No primeiro disco, eles musicaram um poema meu, “Fogo Aceso” e, depois, musicaram uma letra minha inspirada no meu livro “A Comédia Mundana”. Flávio é de Limeira, somos amigos, escrevemos para um mesmo condomínio de blogs nos primórdios da internet e agora, quando saiu o segundo disco da sua banda, o recebi como recebemos a obra de um brother: querendo muito gostar, mas com aquela desconfiança de não ser algo que atenda ao nosso gosto.

O fato é que me surpreendi pois gostei demais.

“Worlds and Bridges” é um disco de rock com muita pegada. E comento abaixo, um faixa a faixa para dar uma ideia do que pode esperar quem se interessar em ouvir no Spotify.

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“Worlds and Bridges” começa com uma cacofonia e a gente não sabe bem o que esperar. Em seguida vem um piano solene – eu pensei que a Jambow Jane tinha enveredado pela erudição, mas logo vem a bateria, o baixo e a guitarra com a voz do Flavio de maneira progressiva e, uau, é um rock clássico com pé no Metallica! Mas aos três minutos, volta a cacofonia, com frases em várias línguas e dá pra ver que a referência é o Pink Floyd. A segunda vez que a guitarra volta com força, nos leva para “In The Flesh” do PF. Esperamos por mais.

A segunda canção, “Music Makes you a Stronger Person” segue na mesma vibração, com pegada bluesy hipnótica, e lá pelos três minutos queria que não entrasse vocal. A bela linha de baixo que me lembrou Geddy Lee e seu Rush. Mas entra o jogral que canta o título da canção no minuto final, desnecessariamente. Só a música já estava ótimo.

A terceira faixa é “Medo”, em português, algo engraçadinha e com refrão pegajoso. Mais uma vez, a beleza maior está no instrumental – esse pessoal está afiado mesmo. Rápida, intensa, me lembrou a banda Joelho de Porco em seus momentos mais pesados, “Medo” prepara as expectativas para o que possa vir depois. E vem “Science Guy”, única música do disco com vocal exclusivo da Bea, mostrando talento incrível sobre base de piano, com coro também de rock progressivo, ok, Pink Floyd de novo, “The Great Gig in the Sky” está ali, e o piano que vira um sintetizador antigo. Acho que é a faixa mais curta do disco, infelizmente. (Lembrei que a banda já tinha gravado essa do PF com a Bea)

Nova cacofonia na abertura da grunge “Run Over the City”, que tem clipe no Youtube (veja abaixo). Acho que é a faixa de trabalho do disco e pode ser boa isca para os mais jovens e vai fazer os tiozões lembrar de Nirvana. Tem um lance de Pavement ali também, acho que na gritaria da parte final, o que gostei.

As próximas três faixas são exercícios de estilo. “Única” brinca com a bossa nova, uma bossa´n´roll, com violões e mais uma letra em português, engraçadinha-existencial, bem elaborada. “Wasting my Time” é uma atualização de “Oh Sweet Nuthin´” do Velvet Underground, onde o título da canção, vocalmente retorcido, serve de base para o exercício musical da banda – até que entra uma participação da Bea, mostrando que tem real potencial blues. E “Fuck Stasera” é a minha preferida, uma canção louca, com palavras em português, inglês, italiano e até francês, uma canção multilingual, multicultural, multisonora, dinâmica e engraçada, que pode bem indicar o caminho para o futuro da Jambow Jane. E é a canção com o melhor posicionamento de voz do Flavio – ele está solto, sem querer parecer afinado.

A oitava faixa é climática, com violões, encerrando o disco, como se as duas próximas canções fossem bônus. “It´s Hot In Summer” é um blues rápido, Stevie Ray Vaughn, bem solto e descontraído. E a última canção de “Worlds and Bridges” é a única em italiano, romântica, chamada “Sì e No”, que tem uma faixa pesada e uma fala meio brega, como se fosse uma canção dos Scorpions, que só gostei por ser em italiano e acho muito legal que a Jambow Jane tenha essa diversidade lingual.

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Bom, vão lá ouvir.

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