“cari mora” e reflexões sobre thomas harris

Thomas Harris criou e desenvolveu ao longo de três romances um dos personagens mais icônicos da cultura pop recente: o psicólogo serial killer Hannibal Lecter. Ele aparece no primeiro livro de Harris, “Dragão Vermelho” (1981), sendo um dos três personagens masculinos principais, mas se destaca. No segundo, o manjado “O Silêncio dos Inocentes”, (1988) Harris introduz Clarice Starling, personagem feminina que vai alçar Hannibal a outro patamar, a ponto do próximo livro ter o nome do personagem no título, “Hannibal” (1999). Depois veio ainda outro livro, mas é só uma besteira comercial para fisgar a série de TV que estava sendo produzida.

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O fato é que a “trilogia Hannibal” é ótima literatura; vemos os personagens se construindo lentamente; a arquitetura cuidadosa de Harris, sem pressa; as cenas carinhosamente construídas, inclusive as cenas de ação, de tirar o fôlego; os desfechos bárbaros. Não por acaso, todos os livros viraram filmes de sucesso, ajudando a entronizar ainda mais Lecter como o rei dos serial killers do século XX – uma espécie de novo Drácula.

Então eu me pergunto por que Harris não nos entregou mais um romance de sua grande criação e se propôs a criar outro personagem em seu novo romance, lançado agora, vinte anos depois de “Hannibal”, do alto dos seus quase 80 anos de idade? Por que esse romance, por que “Cari Mora”?

cari mora

Harris começa errando no título; ele teve o cuidado de não chamar nem o primeiro nem o segundo livro da “trilogia Hannibal” com o nome de sua grande criação. Ao dar o nome da personagem principal ao livro já nos adianta seu foco – e isso é ruim num romance de suspense e ação. “Cari Mora” seria um tanto melhor se tivesse qualquer outro título, podia ser algo brega como “Sangue em Miami” – e então veríamos surgir essa personagem, uma colombiana expatriada nos EUA, que foi soldada mirim na FARC, tendo que lidar com dois grupos de bandidos que procuram por meia tonelada de ouro em uma ex-casa de Pablo Escobar em Miami. Essa é a base do livro.

Um dos grupos de bandidos é um pessoal simpático, tem uns colombianos e espanhóis, gente bronzeada, tatuada, que leva tortillas em bolsas térmicas quando vai matar alguém, caso a fome aperte. O outro grupo é liderado por um sujeito chamado Hans-Peter Schneider que, o nome aponta, é branquelo, não tem um único pelo no corpo, é cheio e maneirismos, meio artista, gosta de dissolver mulheres em ácido, enfim, um cara todo malzão, e a gente suspira: ah, não, outro Lecter?

Pra quê, meu Deus? Pra quê?

Pra nada, pois quase não há mistério… A gente percebe, logo no começo, que estarão antagonizados os personagens de Hans-Peter e de Cari Mora – e como o livro tem o nome dela na capa, não dá para esperar desfecho diferente. Aliás, Harris perde uma ótima oportunidade de colocar um elemento (nem tão) surpresa no entrecho final, melhorando aquilo ali.

contracapa

[na contracapa]

Outra coisa perturbadora no livro: os inúmeros personagens que aparecem só para serem mortos duas ou três páginas adiante. Em um momento aparece uma personagem, Candy, e eu pensei: puxa, agora podemos ter uma mulher para antagonizar e talvez se unir a Cari Mora contra Schneider e… Fuén.

O pouco que sobra do novo romance de Harris é sua capacidade de descrição de locais e paisagens – e ficamos sabendo que ele adora Miami. Mesmo neste sentido – e não sei se por culpa da tradução – abundam “tons alaranjados”, sejam nos nasceres ou nos pores de sóis. Um saco.

filmes do harris

Harris é um cara de sorte: seu primeiro livro, “Black Sunday” (1975), foi direto pro cinema e virou ótimo filme de John Frankenheimer, “Domingo Negro” (1977). “Dragão Vermelho” (1981) foi lindamente filmado por Michael Mann em 1986 e tem os ótimos William Petersen como Will Grahan e Brian Cox como Hannibal Lektor (inexplicavelmente, mudaram o nome do personagem). O filme se chamou “Caçador de Assassinos” por aqui, “Manhunter” no original (há uma explicação para a mudança de nome do filme: já havia um filme com dragão no nome passando nos cinemas: “O Ano do Dragão”, do Michael Cimino).

manhunter

Aí veio “O Silêncio dos Inocentes” e tal.

Embora a adaptação de “Hannibal” (2001) pelo Ridley Scott seja a mais esculhambada pela crítica e pelo público, creio que seja uma das preferidas pelos leitores e fãs de Harris. Gosto muito. O remake de “Dragão Vermelho” (2002) é mais fraco, mas ainda assistível.

Já “Hannibal – A Origem do Mal” (2007), que tem roteiro do próprio Harris, acho chato. E a série, pouco vi e fiquei sem saco.

Será que vão fazer filme da “Cari Mora”?

:/

 

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