20 livros preferidos & influentes

Cresci em uma casa sem livros. Um primo de meu pai tinha uma oficina mecânica e gostava de desenhar e de histórias em quadrinhos, na oficina dele, nos fundos, tinha uma saleta com alguns gibis, eram gibis antigos, suplementos de jornais, com histórias em quadrinhos em preto e branco, eu não sabia o que era aquilo direito, mas foi algo marcante e eu rezava pro carro do meu pai quebrar só para ir naquele pequeno paraíso de imagens e histórias. A oficina não era muito longe de casa e, depois, um pouco mais crescidinho, com 12 ou 13 anos, eu ia até lá de bicicleta e ficava umas horas na saleta lendo aquilo: HQs do Príncipe Valente, Flash Gordon, O Fantasma, Homem Borracha, Mandrake, Nick Holmes, Recruta Zero, entre vários outros. Começava a paixão pelos quadrinhos e por ler. Às vezes o primo Fleury me emprestava alguns exemplares, e eu levava para casa. Alguns poucos estão comigo até hoje – e guardo como tesouro.

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Depois, meu pai comprava gibis pra mim, a turma da Mônica, Heróis da TV e quadrinhos nacionais de terror. Depois a revista Mad.

Eventualmente, eu ia dormir na casa de um tio e ele tinha livros. Alguns eram de ocultismo e eu gostava de folhear aquilo, embora me desse um pouco de medo. Também havia livros de bolso, da série ZZ7, com as capas do Benício da Fonseca e as aventuras sensuais da agente Brigitte Montfort. Se eu escrevesse um livro um dia, pensava, gostaria de ter uma capa como aquela – foi um sonho conquistado, Benício faria a capa do meu A Comédia Mundana, para minha grande satisfação. Creio que foi sua última capa desenhada.

Os livros de ocultismo de meu tio foram a porta de entrada para os livros de terror e mistério, que abracei na sequência, frequentando a biblioteca municipal. Li Agatha Christie, Conan Doyle e Maurice Leblanc. E depois Stephen King e os similares. Na escola, davam os livros da Coleção Vagalume – acho que li quase todos – até que chegou o momento de O Gênio do Crime, do João Carlos Marinho, pelo qual me apaixonei.

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Acho interessante como O Gênio do Crime me influenciou a escrever; vejo muito dele nos meus livros, que foram escritos mais de vinte anos depois. Em Elvis & Madona fiz uma homenagem ao Marinho, recriando a famosa cena da perseguição ao contrário do Gênio.

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Aí, então, já mais crescidinho, a escola pediu que lêssemos O Cortiço, do Aluísio Azevedo, e aquilo foi um choque pois, claro, era literatura de adulto. Eu devia ter uns quinze anos.

De Azevedo, passei para Machado de Assis e seu Dom Casmurro e, depois, para alguns clássicos que eram adaptados – eram muito comuns, não li Moby Dick ou Os Três Mosqueteiros nas versões integrais, mas as adaptações resumidas que saíam, muitas delas feitas pelo Carlos Heitor Cony. Também procurava por adaptações em quadrinhos e havia uma coleção que trazia vários títulos de Shakespeare e Dickens com desenhos elaborados. Eu estava pronto para leituras mais densas e então lembro de ter lido três livros que gostei muito e que me mostraram o poder da literatura: O Exorcista, do William Peter Blatty; O Apanhador no Campo de Centeio, do Salinger; e Crime e Castigo, do Dostoiévski.

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Um amigo de colégio gostava muito de ler e me apresentou Herman Hesse e o Lobo da Estepe e achei aquilo interessante mas não me bateu. Gostava – e ainda gosto muito mais – dos romances mais lineares e menos viajandões, menos experimentais. Minha escrita vai muito por esse caminho, acho. Mas esse amigo me apresentou algo completamente novo e incrível: Henry Miller e seu Trópico de Câncer. Uau.

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Achava que aquilo era um passo além de O Cortiço e li todos os livros de Miller com grande interesse e depois sua biografia e fiquei fascinado por ele. Lia alguns dos autores que ele citava, procurei por referências, fiquei um bom tempo com Miller. Aí, então, eu fui trabalhar no Unibanco e – incrível! – o banco contava com uma grande biblioteca em sua sede e os funcionários podiam solicitar os livros para ler e eles chegavam via malote! Li vários títulos através desse sistema e um deles, que peguei pelo título, entrou em minha lista de favoritos: Fabulário Geral do Delírio Cotidiano – Ereções, Ejaculações e Exibicionismos, de Charles Bukowski.

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O título, assim como o texto, bastante explícito, me influenciaria bastante. Li muita coisa de Bukowski e, hoje, acho Misto Quente melhor que O Apanhador no Campo de Centeio.

Por essa época, comecei a escrever e me achava poeta. Até participei, com patrocínio do Unibanco, de um concurso nacional e tirei uma menção honrosa com uma juntada de poemas – nem os tenho mais, para benefício da humanidade. Foi quando passou na TV Cultura a série O Poder do Mito, do Joseph Campbell com o Bill Moyers, e eu assisti por acaso, simplesmente mudando minha vida. Comprei o livro depois e me posicionei como ateísta, simplificando minha vida consideravelmente.

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De Campbell, fui para algumas leituras de mitos e acho que aí cheguei a Jorge Luis Borges. Acho que o primeiro foi O Aleph. Mas foi o Ficções que me pegou. Ficava relendo o livro, tentando imaginar o que ali podia ser verdade, o que não era, e de onde aquele sujeito tirava aquelas coisas todas. Li tudo o que pude de Borges, a biografia catatau do Williamson, mas aquilo tudo me enfastiou um pouco e, hoje, acho que gosto mesmo só do Ficções e um pouco menos do Aleph.

Aí eu já tinha saído do banco e ido trabalhar em uma pequena emissora de TV local, tendo contato com o jornalismo. Pensava em ser jornalista – acabei me tornando, pelo ofício, e trabalhei mais de vinte anos em televisão, mas me via sempre mais como um escritor e comunicador do que jornalista. Ainda me vejo. Mas, quando se está em um meio profissional, é meio inevitável que literatura relacionada lhe caia no colo e, então, eu estava lendo livros com reportagens, um tipo pelo qual criei grande gosto. E então teve A Sangue Frio, do Truman Capote.

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Eu queria escrever igual e um livro igual. O que consegui, misturando O Gênio do Crime, Miller e Bukowski e Capote, foi meu A Comédia Mundana, depois. Foi o que eu realmente queria ter feito. Fico feliz pelo que consegui.

O jornalismo literário me pegou e fui ler Gay Talese e toda a turma e gostei do experimentalismo louco do Wolfe do primeiro momento, a arrogância do Mailer, a classe do Joseph Mitchell, mas o que bateu forte foi a demência de Hunter Thompson. Era o momento em que a internet nascia e eu comecei a experimentar alguns textos, algumas reportagens, críticas e alguns relatos de viagem emulando Thompson. Foi interessante descobrir que mais gente estava interessada por ele. Durante muito tempo me diverti lendo Thompson e acho que ele teve influência em algumas coisas da minha escrita – há um pouco dele no meu A Viagem de James Amaro, mas não há um Grande Livro dele para constar aqui. Do jornalismo literário, hoje, prefiro a Janet Malcolm, que conheci há pouco.

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Eu escrevia meu primeiro romance, Virgínia Berlim, e estava lendo sobre mitos do amor, relendo Campbell, até que me deparei com A Dupla Chama – Amor e Erotismo, do Octavio Paz, que logo entrou na minha lista de preferidos de todos os tempos.

Acho que o livro está fora de catálogo no Brasil, o que é uma pena. Meu volume está todo anotado, todo riscado, e é um dos poucos que não empresto, absolutamente. Paz simplesmente conta a história do Amor. É um livro que me posicionou na vida também.

E aí chegamos a Philip Roth, talvez meu ideal de escrita. Existem todos esses livros maravilhosos do Roth, mas o que realmente me pegou foi Homem Comum, que inicia sua terceira fase, de livros curtos e rápidos e contundentes. Eu já tinha escrito alguns livros, estava me preparando para Elvis & Madona (acho) e Homem Comum mudou uma percepção minha sobre livros caudalosos, com muitos personagens, mostrando que a coisa toda pode se concentrar em alguns poucos personagens.

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Acho que depois de Homem Comum e da escrita de Elvis & Madona, direcionei-me para histórias menores, menos personagens e mais concisão. Foi a meta de A Viagem de James Amaro. E de meu recente Quatro Velhos.

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Um dia, em um sebo, vi um livro do Jim Dodge, de Fup, com uma capa horrível, e decidi levar. Entrava na minha vida um livro que acho incrível, não só pela história e a sua forma – é um livro de formação – mas pelo que ele tem de sobrenatural. Acho que também está fora de catálogo no Brasil, mas pode ser encontrado em sebos por bagatela. É O Enigma da Pedra.

Não sabemos porque alguns livros no batem tão fortemente, mas esse é um que me bateu. Escrevi brevemente sobre ele uma vez. Queria escrever algo parecido, um dia.

Também, às vezes, uma resenha nos chama a atenção para um livro. Li num jornal, um dia, sobre Tanto Faz, do Reinaldo Moraes. Decidi ir atrás do livro, justo em um momento em que entrava no mundo do jazz, começava a ouvir jazz com mais atenção e a ler e pesquisar sobre o estilo. Vi um livro totalmente jazzístico, a começar pelo título. Achei incrível, fiquei fascinado e fui atrás de todos os livros do Reinaldo – e foi uma satisfação, depois, estar com ele em alguns eventos literários e saber que ele conhecia minha Comédia Mundana.

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Um pouco do estilo do Reinaldo também está em A Viagem de James Amaro, minha tentativa de estruturar um livro a partir do jazz de formação clássica e tonal.

Sempre gostei também de biografias e queria citar quatro das muitas que li, que me influenciaram e me encheram de prazer. A primeira, lida há muitos anos, é a de Baudelaire, escrita por Henri Troyat, e que mostra de maneira muito clara a formação psicológica de um autor comprometido psicoticamente com o que acredita. Troyat teve acesso a correspondência de Baudelaire e é tudo muito incrível. A segunda, é a de Balzac, curta, sintética, escrita pelo Paulo Rónai, tradutor do francês no Brasil, que dá um panorama geral do momento histórico e da personalidade do autor de A Comédia Humana, inspiração colateral para minha Comédia Mundana. A terceira é A Deusa – As Vidas Secretas de Marilyn Monroe, de Anthony Summers, espécie de protótipo de investigação do que viriam a ser as biografias no Século XX. Summers fala com centenas de pessoas, investiga profundamente a história da atriz e nos entrega uma nova realidade sobre ela, diferente da história oficial, ajudando a criar um novo mito – o livro foi base para tudo o que se conjecturou sobre ela depois, sobre a morte da atriz, sobre o envolvimento dos Kennedy, etc… Recomendo muito.

O quarto, é a bio de Leonard Cohen, o cantautor e poeta canadense, escrita pela Sylvie Simmons, que nos dá uma dimensão incrível da cabeça de uma pessoa criativa e sensível. Escrevi sobre o livro aqui.

Para encerrar… Nelson Rodrigues. Por tudo, pelo conjunto da obra, não dá pra indicar uma. Fui lendo Nelson ao longo dos anos e é impressionante o que ele criou. É referência e influência pra mim.

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É isso.

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Um guru necessário: Atenção. de Alex Castro

Há uns sete anos, eu almoçava com Alex Castro num restaurante em Copacabana, quando tive uma espécie de visão antecipatória. Ok, não vamos exagerar: conhecia Alex há mais de dez anos, quase desde o início do seu blog Liberal Libertário Libertino, quando ele falava do projeto As Prisões; sabia que ele tinha a intenção de transformar aquelas ideias em um livro, estava tateando sobre como fazer, e percebia a resistência que ele de certa forma se impunha: não queria que aquelas dissertações coloquiais soassem como cagação de regra, como se ele fosse alguém, bem, iluminado, algum tipo de pensador muito certo de suas conclusões, dizendo como as pessoas deviam pensar & se comportar. Ele não queria ser um guru. Ele não estava convicto de que enfaixar aqueles textos num livro fosse resultar em algo dinâmico, duradouro e que seria lido da maneira correta; mais como linhas de pensamento para pensar junto com o leitor que linhas estabelecidas e inflexíveis sobre a vida, o universo e tudo o mais. Eu, puro e besta, forçava-o ao contrário, dizia que ele devia publicar o quanto antes, antes que alguém fizesse algo parecido, antes que surgisse algum espertalhão que ousasse ir contra os padrões estabelecidos, as verdades e pressões sociais da tradição & da História sobre o indivíduo, aquilo que ele questionava e levava o leitor a pensar nos textos dAs Prisões.

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Surgiram pessoas questionando o formato do planeta, a gravidade, negando a ditadura, dizendo que o nazismo é de esquerda, enfim, o mundo da pós-verdade se estabeleceu sem questionar as mentiras mais duradouras e evidentes que aprisionam o ser humano, a saber, o dinheiro, o trabalho, a monogamia, o sucesso, a felicidade, as bolas de ferro mentais e emocionais que o indivíduo arrasta pela vida, como diz Alex – ok, os temas foram tratados pontualmente por um autor ou outro, por um filósofo desta ou daquela linha, por coachs (maldição!), por psicólogos, mas, aí é que está, não de maneira geral e ampla, com linguagem para o cidadão comum e, importante!, partindo de um conceito original, esse, criado por Alex, o da Outroajuda.

Touché.

Voltando ao almoço daquele dia lindo e ensolarado, falei a Alex que não importava se ele queria ou não ser visto como guru da geração, isso era algo que estava ligado ao ego dele, o que se pode querer ou não… Ele devia fazer o que ele devia fazer, independente de como seria visto ou chamado. Ele não me deu bola, disse que não era hora – e voltou para o seu peixe frito.

Mas eu estava certo.

Ele então ingressou no zen-budismo e burilou seus textos dAs Prisões em uma série de encontros de Outroajuda, uma espécie de instalação artístico-literária, que acabou ajudando-o na definição de conceitos e na criação de termos únicos e exclusivos para a sua literatura e para entender o Brasil e o mundo de hoje: a outrofobia e a outroajuda. A outrofobia foi tratada em livro com mesmo título e, agora, sai “Atenção.”, o livro que trata da outroajuda. Alex conseguiu alcançar um estado tal de desprendimento de ego que já não se importa como vai ser chamado – e já há quem ache que seus livros são algum tipo de “autoajuda com outro nome, para enganar o pobrezinho do leitor”. Mas ele já não liga: os textos de “Atenção.” são carregados de autossuficiência e posição, energia e direção, conceito e fato concreto, análise e conclusão certeiras, sem que ele se importe se vão achar que está cagando regras.

Não está, mas não se pode controlar o leitor mais despreparado.

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É preciso dizer: é um livro para leitores preparados para receber esse tipo de informação, de raciocínio. É preciso querer pensar – algo raro nos nossos dias. É preciso ler com atenção, esse livro chamado “Atenção.”.

Estou feliz pelo Alex, por esse livro e por ele ser o guru certo, neste momento certo. Um guru necessário.

Alex estará em Americana (SP) dia 31 de março para a palestra Atenção como Commodity, na Semana de Tecnologia da FAM – Faculdade de Americana, 19h. Entrada gratuita, patrocínio da Vegas Card.

E no dia seguinte, 1 de maio, nós dois lançamos nossos novos livros na Flipoços. Vai rolar um bate-papo com o público sobre os primórdios da internet. Eu e Alex somos uns dos primeiros a lançar e-books no Brasil.  Vamos lá? 🙂

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