Essa geração de escritores brasileiros tem personagens odiosos?

[A propósito deste texto de Tiago Germano]

A principal questão levantada no artigo de Tiago Germano, que abre e fecha seu texto, é:como é possível que, com personagens tão antipáticos, a narrativa de nossa geração não pareça tão profundamente odiosa para o leitor do futuro?”. Durante o artigo, porém, Tiago não investiga os tais “personagens” da atual “narrativa geracional”, a não ser um odioso escritor, chamado propositalmente Graciliano, personagem principal do livro de Paulo Scott, “O Ano em que Vivi de Literatura”, que é, como o próprio artigo explica, uma paródia do escritor brasileiro contemporâneo, mais ou menos da geração de Scott. Ou seja: a questão de Germano está contaminada pela metalinguagem, pela confusão que ele mesmo criou ao escolher um único personagem, odioso, que é escritor e que emula escritores de uma geração, como parâmetro, tornando todo escritor desta geração, odioso e, por consequência, todos os seus personagens.

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Desenhos de Fabio Zimbres, utilizados na capa do livro de Scott

Apesar de talvez todos os escritores desta geração serem meio odiosos (hehehe) talvez os seus personagens não sejam. É, mais uma vez, a confusão de autor/criação, amplificada pelo exemplo pinçado por Germano.

Mais adiante, em seu texto, Germano cita um dos escritores mais bem-sucedidos desta geração, Daniel Galera (Galera não concorda com essa epítome, que usei em uma facilitação que fiz com ele no SESC Campinas há pouco tempo). Galera teria dito que “O que distancia minha geração das anteriores é o narcisismo e a carência elevados a ethos predominante”. Interessante: talvez a chave esteja no “ethos” que pode ser o âmbito da internet – e mais especificamente, das redes sociais, atualmente – que foi de onde surgiu praticamente toda a geração de Galera e Scott. Acompanhamos, como leitores deste tempo, não o surgimento deste ou daquele autor mas a sua construção. E isso nos dá muita informação sobre esse autor, a ponto de quase não conseguirmos dissociar o autor da obra, confusão intrínseca no texto de Germano.

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Voltando ao caso de Galera: eu o leio há vinte anos, antes de ele se tornar romancista; lia no CardosOnline, fanzine em .txt enviado por e-mail em fins dos anos 1990. Vi o jovem e seu interesse por coisas específicas, falando de sua vida e da interação com amigos e sua cidade, dos livros, discos e filmes que consumia e, depois  vi nascer o contista a partir de seus textos no fanzine e, depois, o romancista a partir dos contos. Esse tipo de coisa quase não se tinha há vinte anos: você não tinha muitas informações a respeito do novo autor, cujo livro encontrava na estante da livraria, além do que havia na orelha (se havia) ou de alguma resenha no jornal (impresso, diga-se) – para quem tinha acesso a jornal.

Hoje, essa construção é ainda mais exposta, através das redes sociais. É difícil que um escritor dessa geração não esteja ali, no Facebook – e Galera não está, o que talvez comprove minha tese que ele, sendo o mais bem-sucedido autor de sua geração (hehehe), está um passo acima de todos os outros, sem a necessidade de exposição e segurando seu narcisismo e carência (hehehe) em detrimento de uma escrita que não se contamine com sua personalidade. Mas o que sobra a todos os outros, reles mortais, senão a exposição de si mesmo nessa grande rede para se fazer visto, lembrado, conhecido, para fazer contatos com outros escritores, editores, críticos e todo o mundo da literatura?

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Dois de centenas de grupos de escritores no Facebook. Só os 2, mais de 40 mil escritores.

Assim, prosseguindo aquela incrível lógica daquele meme que diz que “Jesus só te ama porque não convive com você”, os escritores seguem expondo diariamente suas referências, angústias, carências, medos, humanidade, no fim, construindo uma imagem antes de uma obra, que acaba contaminada, fazendo com que potenciais leitores só se interessem por ela (a obra) a partir da ideia que têm do autor – essa pessoa narcisista e carente, inserida no ethos predominante que expõe e amplia essas características. Nesse meio todo, existem os incríveis ruídos de comunicação, mas essa é outra história.

Seria preciso uma leitura das obras contemporâneas para além dos autores, sem essa contaminação, para detectar o perfil de seus personagens e verificar se são realmente odiosos. É certo que temos muitos livros cujos personagens são escritores, mas essa também é outra história.

Talvez a pergunta que Germano tenha formulado seja: “como é possível que, com escritores tão carentes e narcisistas (ou, talvez, jovens e muito expostos), a narrativa da nossa geração não pareça tão imatura (ou, talvez, umbiguista e desinteressante) para o leitor do futuro?”. Colocado assim, penso que não há saída: poucos, muito poucos, produzem algo de relevante e que vai sobreviver no futuro. E sempre foi assim, independente dos níveis de carência, narcisismo ou deslumbramento, sempre restam poucos autores realmente relevantes em cada geração e, como Germano diz em seu artigo, alguns personagens são realmente odiosos e interessantíssimos. Assim como alguns autores.

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Entre em um sebo e veja os nomes completamente desconhecidos de uma legião de autores nacionais; muitos foram lidos e reverenciados em seu tempo, por um motivo ou outro, e entraram para a lista dos esquecidos completamente; outros produziram uma ou outra obra que pode aparecer em alguma lista, mas nunca conseguiram repetir a façanha do livro um pouco acima do mediano; poucos, estão ali com obras de 50 anos atrás e que ainda são razoavelmente lembradas e muito, muito poucos, podem ser colocados na lista de autores que construíram uma obra relevante, coesa, para além de seu tempo, seu ego, seu narcisismo, sua carência, seu umbiguismo.

Não é fácil.

E não há como prever, neste instante. Somente a próxima geração vai eleger o que vai sobreviver mais um pouco. E assim sucessivamente. Muitas variáveis atuam sobre esse cenário, desde prêmios a momentâneas ondas que reverberam neste ou naquele tema, sexo, doença, espiritualidade, crime… Um ponto interessante, para ampliar o debate, é o papel das editoras na avaliação do original, que antes parecia ser mais rígido, até mais invasivo, na intenção de melhorar o resultado final. Mas essa também é outra história.

The Academic Dr. George Steiner at his home in Cambridge, England. 6th May 2013

George Steiner, que acha que existem livros demais sendo publicados – sem critério.

 

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2 thoughts on “Essa geração de escritores brasileiros tem personagens odiosos?

  1. Oi, Biajoni! Obrigado por ter lido o texto e sobretudo por ter escrito essa réplica, fomentando uma discussão salutar pro andamento do debate. Na verdade, embora meu texto parta da referência de um personagem ficcional (o Graciliano, do Paulo Scott), de fato, minha crítica está mais voltada para o “personagem público” do escritor contemporâneo. Nesse sentido, minha pergunta, reformulada por você [“como é possível que, com escritores tão carentes e narcisistas (ou, talvez, jovens e muito expostos), a narrativa da nossa geração não pareça tão imatura (ou, talvez, umbiguista e desinteressante) para o leitor do futuro?”], faz mesmo muito mais sentido. Mas, como você bem apontou, autor/narrador/personagem são instâncias que a literatura contemporânea já está tensionando há muito tempo. Então acho que parte da crítica pode ser transportada pros personagens ficcionais também. Mas, de novo, é aquela coisa da visibilidade: estamos falando aqui de uma certa literatura, né? A literatura brasileira contemporânea é mais que essa que nós, os guris de apartamento, fazemos parecer que ela é.

    • biajoni says:

      sim, há grandes autores aí, de um pouco antes da “nossa geração” (sou mais velho que o scott), que estão pouco se lixando para redes sociais ou tendências. o autor como personagem se dilui até nessa nomeação. steiner diz que AUTOR vem de AUTORIDADE: alguém que sabe o que está dizendo, tem autoridade sobre aquilo. um PERSONAGEM é alguém criado para criar certa ILUSÃO DE REALIDADE – e é talvez como se comportam alguns pretensos escritores, que são mais ILUSÃO DE ESCRITOR do que AUTOR, na acepção da palavra.

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