Uma obscura influência musical de Nick Drake e Nick Cave

É possível que você nunca tenha ouvido falar em Jackson C. Frank. Autor de um único disco nos anos 1960, o cantor/compositor praticamente sumiu gerando curiosidade, indignação e lendas sobre sua figura loura, meio etérea, fantasmagórica. O sujeito era azarado, deprimido, meio doido, traumatizado e alcoólatra. Foi a maior influência de Nick Drake. No disco em que Nick Cave mostra algumas de suas influências (incluindo um Chitãozinho e Xororó rápido), “The Boatman´s Call”, chupa a capa do único disco de Frank.

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O disco de Frank foi produzido por Paul Simon, que achava que o maluco seria o novo Dylan; junto com o parceiro Garfunkel, gravou “Blues Run the Game”, a canção. Nick Drake também a gravou, em uma sessão de “Five Leaves Left”, além de outras canções de Frank. Uma busca pela canção no YouTube mostra que diversos artistas a gravaram, entre eles Sandy Denny, Laura Marling, John Mayer, Bert Jansch, Mark Lanegan entre outros – e existem vários covers. Al Stewart e Lou Reed eram fãs de Frank. E a atenção ao músico cresceu nos últimos anos por conta de uma biografia elogiada, de um documentário que está sendo produzido, e da utilização de suas canções em filmes como “Inside Llewyn Davis” (que pode ter Frank como inspiração para o personagem), “Martha Marcy May Marlene”, além de séries de TV, como “This Is Us“.

Antes de contar rapidamente sua história, vale a pena ouvir sua melhor e emblemática canção em sua própria voz:

Pois é. Nascido em Buffalo, New York, em 1943, Frank era um garoto comum. Quando tinha 11 anos, o colégio onde Frank estudava pegou fogo. Quinze de seus amigos morreram, incluindo Marlene, sua namoradinha – ele a homenageou em uma canção depois. Frank teve 50% de seu corpo queimado e passou meses no hospital, em recuperação. Ganhou um violão e começou a tocar. Ficou fã de Elvis Presley e foi visitar Graceland com a mãe, que fez uma foto dele com o ídolo. Nascia o desejo de ser músico profissional.

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o Rei e Frank

Dez anos depois do incidente na escola, atingindo a maioridade, Frank recebeu um cheque de mais de cem mil dólares (cerca de meio milhão em dinheiro de hoje) de indenização pelo incêndio – e decidiu se mandar para a Inglaterra. Usou o dinheiro para produzir seu primeiro e único disco por lá, com a ajuda de Simon. Não foi fácil gravar o disco, ele sofria de ansiedade e era muito tímido, tendo que se esconder atrás de biombos para poder cantar e nunca ficava satisfeito com o resultado final. Em um ano, todo o dinheiro tinha acabado e ele voltou para os EUA. O disco não aconteceu e ele entrou em depressão severa.

Nos EUA, casou com Elaine Sedgwick, prima de Edie, e teve dois filhos.Um deles morreu de fibrose cística, o casamento acabou, e ele ficou realmente desequilibrado, tendo que ser internado em uma instituição.

Como o melhor período de Frank havia sido na Inglaterra, ele achou que devia voltar para lá, mas nada era como antes. De volta aos EUA, sem dinheiro, virou morador de rua, tendo sido atendido em várias instituições. Um dia, sentado num banco de praça em Queens, uma bala perdida atingiu seu olho esquerdo. É mole?

Com a ajuda de parentes e amigos, viveu seus últimos dias tentando controlar a esquizofrenia, o trauma da infância, a frustração com a música, a insatisfação com os relacionamentos, a incompreensão dos pares e a depressão, a angústia, a obesidade e a cegueira. Morreu em 1999, esquecido, aos 56 anos.

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Agora, quem sabe, Jackson C. Frank esteja sendo resgatado do esquecimento.

Aqui, o trailer do documentário que está prestes a ser lançado.

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O Brasil em Nick Cave

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Nick & Viv.

No início de 1993 fui até a Santa Efigênia, em São Paulo, buscar uns equipamentos para a emissora de TV em que trabalhava. Estava com meu chefe Ginel Flores. Andando por ali, parei num camelô que vendia CDs e encontrei o “Henry´s Dream”, do Nick Cave – que eu não conhecia, só tinha ouvido falar. O camelô abriu um sorriso e disse:

– Eu tinha uma loja na Galeria do Rock e esse cara não sai de lá, ele mora aqui na Vila Mariana. Ele não fala português e o pessoal lá zoa ele, chama ele de Chitãozinho.

O apelido era por causa do cabelo do músico, parecido com o do sertanejo, repicado em cima e com mullets gigantes.

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– Nick Cave mora em Sampa?

Foi quando fiquei sabendo.

Levei o CD, que é um dos meus preferidos dele até hoje. Depois comprei tudo, li o que pude sobre ele, e fiquei atento.

Em meados de 1989 era impossível ficar incólume a Chitãozinho e Xororó. A dupla estava em todos os programas de TV, tocava incessantemente no rádio, podia ser vista em outdoors de propaganda de seus shows e, para quem vinha do exterior, parecia representar uma unanimidade nacional. Foi quando Nick Cave chegou ao país para morar com Viviane Carneiro, que tinha conhecido um ano antes, quando os Bad Seeds vieram tocar aqui. Ela estava grávida e Nick se desintoxicando de heroína – acharam que viver no Brasil seria bom para o processo. O jornalista Pedro Alexandre Sanches diz que o casal morou na Vila Madalena, mas um cara, numa fila de cinema em SP, me disse que foi vizinho de Nick em Vila Mariana, corroborando o camelô.

Era dezembro de 2000 e eu estava em SP visitando um amigo com minha filha Isabelle, então com oito anos. Fomos ver Fuga das Galinhas em um cinema de rua, não me lembro qual, tínhamos entrado em uma loja de discos antes, eu tinha comprado alguns, e na fila dos ingressos, tirei o “The Boatman´s Call” da sacolinha para dar uma olhada. Um cara, mais ou menos da minha idade, com um garoto de uns dez anos, olhou para o disco por cima dos meus ombros e disse:

– Fui vizinho dele, fomos pais mais ou menos na mesma época, vivíamos conversando sobre paternidade e tal…

Infelizmente, a fila andou rápido e não pude falar mais com o sujeito. Me lembro só de ele ter dito que Nick ficava muito em casa e gostava de entrar em igrejas para ver os cultos, às vezes Viviane ia junto, achava que era evangélica. “Meio doida, mas evangélica”.

Aparentemente, a rotina de Nick era discreta, alternando idas à Galeria do Rock, a pé, parando em botecos no caminho, onde apreciava os salgados e cervejas Antarctica – quando foi assaltado duas ou três vezes (não guarda ressentimentos); em casa escrevendo e cuidando do filho, Luke; e, eventualmente, indo a casas noturnas, como o Espaço Retrô.

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Nick usou alguns desses lugares que conheceu, assim como prostitutas, travestis e gente da noite paulistana no videoclipe de “Do You Love Me”, rodado aqui.

Ele gravou “The Good Son” no Cardan Studios, em São Paulo, em 1989, o disco foi lançado no ano seguinte. A faixa de abertura é “Foi na Cruz”, assim mesmo, em português, com trechos do clássico cristão de mesmo nome, de Luiz de Carvalho, gravado em 1958, no primeiro disco gospel brasileiro, muito tocada em cultos da Assembléia de Deus. Ouça:

“The Good Son” tem outras canções de inspiração “tradicional” ou folclórica. Há tempos Nick vinha reescrevendo coisas assim. “The Good Son”, a canção, por exemplo, é baseada num spiritual chamado “Another Man Gone Done” e “The Witness Song” tem base num gospel chamado “Who Will be a Witness”. No período que Nick passou no Brasil, ele escreveu muito material desse tipo, que seria gravado em discos seguintes. Por exemplo, “When I First Came to Town”, de “Henry´s Dream”, é decalcado da canção tradicional “Kathy Cruel”; “Stagger Lee”, “Henry Lee” e “Crown Jane”, de “Murder Ballads” são quase versões literais de canções tradicionais. Esse disco tem uma cover de Bob Dylan e algumas pessoas entendem que o disco anterior de Nick, “Let Love In”, foi quase todo inspirado em canções de Dylan – tese na qual acredito.

O fato é que Nick fez uma versão para “Fio de Cabelo”, de Chitãozinho & Xororó. Ele gostou da ideia da canção e a reescreveu, dando o nome de “Black Hair”, gravada no disco “The Boatman´s Call”.

“The Boatman´s Call” é um disco com muita homenagem, reescrita e chupação. Por exemplo, fã de Leonard Cohen e de Lou Reed”, Nick começa “There is a Kingdom” com a frase “Just like a bird” emulando Cohen em “Bird on the Wire” e com uma melodia simplesmente chupada de “Perfect Day”, de Reed. Interessante que Nick diz que esse disco o remete a Viviane Carneiro tanto quanto a PJ Harvey, com quem ele teve um namoro e de quem levou um PNB.

Muita gente acha que o disco seguinte, “No More Shall We Part”, é uma espécie de continuação de “The Boatman´s Call”, mas, na verdade, o disco marca uma guinada e aponta para uma nova fase da carreira de Nick, com letras mais elaboradas, distância das canções tradicionais, autenticidade, originalidade. “No More…” é o décimo-primeiro disco de Nick, gravado quatro anos depois do anterior.

Depois tudo ficou ainda mais interessante. images

Voltando um pouco, Nick ficou por aqui entre fins de 1989 e 1993, voltando duas ou três vezes e, depois, levando Viviane e o filho Luke para Londres. Separaram-se, Viviane é psicoterapeuta lá e Luke é casado com uma jornalista esportiva.

Em 1994, Nick deu uma entrevista para a Hypno Mag onde não falou exatamente bem do país. Deve ser por isso que demorou quase 30 anos para voltar.

Mesmo que as coisas não tenham mudado muito por aqui.

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Nick & Luke.

UPDATE: doc interessante com imagens de Nick em SP, indicado nos comentários por César 🙂

 

 

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