50 anos da morte de RFK – vem um filme por aí

Em 5 de janeiro de 1968, Aristóteles Onassis telefonou para o jornalista Peter Evans oferecendo um contrato para que ele escrevesse a sua história. Ganhar uma boa grana para contar a vida do milionário mais famoso do mundo, uma história recheada de intrigas, sexo e política era tudo o que um escritor podia querer. Assim, Evans teve acesso ao universo de Onassis, acompanhando com atenção, inclusive, o casamento dele com Jacqueline Kennedy dia 20 de janeiro do mesmo ano. Mas Onassis cancelou o projeto, só retomando o contato com Evans em 1974. Era outra figura: o casamento com Jackie tinha acabado (ele chegara à conclusão que ela tinha dado um golpe), seu filho tinha morrido num estranho acidente de avião (podia ter sido uma sabotagem), sua ex-mulher tinha se matado (ou sido morta pelo marido, seu ex-cunhado), sua filha vivia em um estado de depressão, os negócios andavam mal e ele sofria de uma doença autoimune, miastenia grave, e mal conseguia falar. Ele estava também paranoico, falando em conspirações, e Evans fez algumas entrevistas complicadas com o milionário até que ele morresse meses depois.

“Ari: The Life and Times of Aristotle Socrates Onassis” saiu em 1986 e consolidou o mito do “grego dourado”. Foi vendido para a TV, virou minissérie premiada, com Raul Julia fazendo Ari, e Evans ficou rico.

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Porém, em 1988, o advogado grego Yannis Georgakis, amigo e conselheiro de Onassis durante toda a vida, disse a Evans que o livro era bom, mas que “faltava a história real”. O escritor devia se ater às circunstâncias do casamento entre Ari e Jackie e também sobre a morte de Bobby Kennedy. Não seria, porém, Georgakis quem iria contar os meandros da história, o escritor devia pesquisar. Evans podia deixar isso pra lá, já estava com a vida ganha, mas decidiu bater um papo com Christina, a filha. Eles almoçaram, ela estava infeliz, como sempre, disse que não tinha lido a biografia do pai pois tinha medo do que podia descobrir. Evans disse que gostaria que ela lesse, pois estava pensando em escrever mais sobre ele, talvez escrever até mesmo a biografia dela.

Cinco meses depois, ela ligou dizendo que tinha lido e queria discutir o livro com ele. Eles almoçaram em Paris, mas ela não parecia muito bem. Entre outras coisas, confessou que tinha acabado de refazer seu testamento – pelo oitava vez. Sua filha, Athina, estava com quatro anos, ela amava seu marido – que, ela sabia, a traia -, e disse que o pai, quando odiava, “não poupava ninguém”. Marcaram um café para o dia seguinte e, depois de fazer Evans jurar sigilo sobre o que ela ia contar, finalmente ofereceu o ponto de partida sobre o que estava faltando na biografia do pai: Onassis pagou a um terrorista palestino, Mahmoud Hamshari, uma taxa de proteção para sua empresa, a Olympic Airways, para que não ocorressem atentados terroristas em seus aviões – e, mais tarde, Onassis descobriu que parte desse dinheiro foi usado para financiar o assassinato de Robert Kennedy.

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Como a morte de Robert abriu caminho para que Onassis se casasse com Jackie – um casamento que Bobby tinha jurado que só aconteceria por cima de seu cadáver – podia ser que Onassis não “tivesse descoberto” o financiamento, mas sim tivesse deliberadamente financiado a morte de Bobby.

Estupefato, Evans disse que ia investigar e que não publicaria nada sem o consentimento de Christina. Três semanas depois, Christina foi encontrada morta em sua banheira em Buenos Aires. Aparente suicídio. Ela já tinha tentado antes. Mas como seu corpo fora retirado da banheira e colocado na cama, mudando a cena da morte, não podiam determinar com clareza. A polícia, os médicos, a imprensa, tudo virou uma confusão na suíte do Tortugas Country Club onde estava hospedada. Depois de examinarem o corpo, os médicos legistas queriam fazer uma autópsia, que foi negada, impedindo que se soubesse de fato do que ela morrera.

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Chocado, Evans começou um cauteloso levantamento de dados. Quase cinco anos depois, falou novamente com o velho Georgakis que disse que Robert Kennedy era um problema não resolvido há tempos para Onassis e que, sim, o amigo podia ter financiado o assassinato.

A conclusão da pesquisa de Evans está em “Nêmesis – Onassis, Jackie O. e o Triângulo Amoroso que derrubou os Kennedy” (Intrínseca), que está sendo adaptado para o cinema – e bem que o Scorsese podia estar à frente desse projeto.

O fato é que todos sabem quem matou JFK, mas ninguém se lembra do assassino de Bobby. O palestino Sirhan Bishara Sirhan trabalhava na cozinha do Ambassador Hotel de Los Angeles e não tinha ligações com organizações terroristas – na verdade, era considerado um jovem calmo, solícito e amável. A comitiva de Kennedy estava circulando pelo hall, Kennedy estava falando com alguns funcionários do hotel, quando Sirhan caminhou lentamente até ele, sacou um revolver calibre .22 e descarregou a arma. Bobby tinha dispensado os seguranças naquele dia pois o local era apertado e havia muitos ativistas pela paz na Califórnia – não queria parecer amendrontado ou inseguro. Depois dos disparos, Sirhan ficou calmo e parecia não saber o que estava acontecendo. Quem estava no staff de Bobby e ajudou a segurar o assassino foi o jornalista George Plimpton. Outras cinco pessoas foram atingidas pelos disparos. A cantora e tia de George Clooney, Rosemary Clooney, também estava lá com Bobby e quase foi atingida.

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Sirhan é preso.

Aos policiais, Sirhan disse que não sabia o que tinha feito. Não se lembrava. Continua com essa versão até hoje: ele está preso em Corcoran, na Califórnia, onde estava Charles Manson. Cumpre perpétua, depois que foi cancelada sua execução. Um dos motivos do cancelamento foi a convicção plena de Sirhan de que não tinha cometido o crime que todos viram ele cometer. Recentemente, foi negado seu 15º pedido de liberdade e a história se complica neste caso de 50 anos com um segundo atirador colocado na cena do crime. Mas isso é outra história.

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Sirhan hoje, alegando não se lembrar do crime.

Onassis odiava RFK desde muito antes da intenção de casamento com Jackie. Quando era procurador-geral, RFK praticamente banira Onassis dos EUA. RFK também tinha tretado com outros amigos de Ari, perseguia Jimmy Hoffa, presidente do sindicato dos caminhoneiros que também mandava no sindicato dos estivadores, com quem Onassis tinha negócios que ajudavam na movimentação de cargas de seus navios. Mas foi um caso prosaico que fez com que Ari mirasse toda sua raiva no irmão do presidente.

Spyros Skouras foi o grego que inventou Hollywood, um nome esquecido hoje. Em 1935 ele arquitetou a fusão da Fox com a Twentieth Century para criar uma das empresas mais famosas do mundo. Em 1962, com 73 anos, Skouras estava com dois filmes problemáticos em andamento.

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“Cleópatra” entrava em seu 33º mês de produção e já tinha consumido 30 milhões de dólares – cerca de 435 milhões em dinheiro de hoje. Skouras e o estúdio estavam à beira de um colapso, quando o grego recebe um telefonema do procurador-geral RFK pedindo para que Skouras fizesse preparativos no set de “Cleópatra”, em Roma, para receber a visita de seis amigos dele. E ainda exigia que os amigos fossem entretidos no almoço por Elizabeth Taylor. Skouras mandou RFK se foder e o irmão do presidente jurou que o grego ia desejar nunca ter vindo para os EUA.

O outro filme com problemas era “Something´s Got to Give”, estrelado por Marilyn Monroe que não aparecia nas filmagens e estava tendo um caso com os dois Kennedys.

Possivelmente, Skouras estava enciumado também, não era apenas a questão do filme: o grego não apenas tinha sido amante de Marilyn, mas também a tinha descoberto e sugerido a mudança de nome de Norma Jean para Marilyn Monroe. Ambos mantinham uma relação meio incestuosa; ela o tratava por Papa e ela a tratava por “filha maravilhosa”.

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Filhinha e papai

Não bastasse isso, Marylin foi convidada para cantar na festa de aniversário de 45 anos do presidente, mas dependia da liberação do estúdio. Skouras não permitiu – tinha um filme a ser feito e ele não gostava dos Kennedy. Mesmo sem a liberação, um helicóptero pousou na Fox na tarde de quinta-feira, 17 de maio, com o ator Peter Lawford, marido da irmã dos Kennedy, e praticamente sequestrou Marilyn para o evento de aniversário – deixando Skouras completamente puto.

Skouras era muito amigo de Onassis. E o amigo era solidário ao seu sentimento de vingança.

Surge então uma jovem maluquinha na história. Lee Radziwill tinha acabado de se casar com um príncipe, Stanislas Radziwill, da Ucrânia – ou algo assim. Era seu segundo casamento e conheceu Onassis de quem, rapidamente se tornou amante. Onassis também era amante de Maria Callas na ocasião. Lee também era amante de John Kennedy. E, ah, era irmã de Jacqueline Kennedy. Sim: John comia a cunhada – e fazia tempo.

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Jackie & Lee

Jackie vivia sua quarta gravidez, tida como arriscada, ela já perdera um bebê, e estava magoada com o marido, com Marilyn cantando no aniversário dele e não aguentou quando JFK foi convidado para uma viagem à Europa e chamou a cunhada para acompanha-lo. O convite foi um pouco para tirar Lee das garras de Onassis, mas também porque JFK queria levar uma marmita. Foi quando Bobby ligou para o grego exigindo que ele parasse de se encontrar com Lee. Onassis respondeu: “Bobby, você e Jack trepam com sua rainha do cinema, eu vou trepar com a minha princesa”.

Pouco tempo depois, Marilyn estava morta. Hoje já se sabe que Bobby e Lawford estiveram com a atriz na casa dela na tarde de 4 de agosto, saíram possivelmente antes das 18h, e ela foi “encontrada morta” muito mais tarde, mas essa é outra história.

Acontece que logo depois nasce Patrick, o filho de Jackie e John, mas ele só vive por um dia e meio. Ele é enterrado, a nação se comove. Vivendo seu luto triste – não apenas pelo filho morto, mas pelo fim iminente do casamento – Jackie recebe um convite para passar uns dias no iate de Onassis. Foi a irmã quem convidou, ela aceitou.

JFK e o irmão ficaram possessos, o que fez Jackie ficar ainda mais convicta da viagem. Como escreve Peter Evans, “era hora de dar o troco”.

Bobby ligou novamente para Onassis. Dessa vez mais calmo, disse que ele e o irmão não iam colocar objeções no caso dele com Lee, mas que desistisse do cruzeiro com a primeira-dama. Quando contava essa história, Onassis sempre lembrava que, no momento do telefonema de Bobby, ele estava recebendo um boquete de Manuela, sua prostituta preferida. Onassis rechaçou o pedido de Bobby: “Garoto, você não me assusta, já fui ameaçado por especialistas”. No que Bobby explodiu: “O que ocorreu no passado, seu grego filho da puta, não é nada comparado com o que está por vir”.

Jackie foi para o cruzeiro e fez amor com Onassis na terceira noite.

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Onassis ajuda Jackie durante o luto do filho.

Na volta aos EUA, ela tinha que excursionar com o marido para a campanha de reeleição presidencial, eles dormiam em quartos separados. Era tudo uma encenação. Três meses e meio depois do enterro de Patrick, JFK era assassinado em Dallas.

Durante os preparativos para o funeral, seis pessoas foram convidadas para se hospedar na Casa Branca. Uma delas era… Aristóteles Onassis, a convite de Jackie e Lee. Segundo Evans, a presença de Onassis seria uma maneira de Jackie dizer aos Kennedy que ela já não esperava ser tratada “apenas como uma coisa”. O encontro de Bobby e Ari na Casa Branca, às vésperas do enterro de JFK, daria, só ele, um filme fantástico. Estavam todos devastados pelo assassinato e meio loucos de pílulas, álcool e cansaço. Mas é claro que Bobby estava com vergonha, raiva e frustrado por ter que falar com o rival, o homem que tinha chifrado seu irmão.

Enquanto a nação chorava e Jackie encenava um luto necessário, Onassis voltou para seus negócios e se preparava para casar com Jackie. Ele ainda amava Callas, mas queria se casar com Jackie – era bom para sua imagem, para os negócios, e ela o excitava. O que ninguém esperava era que Jackie iniciasse um caso com… Bobby Kennedy!

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Cunhados e amantes.

É claro que Onassis sabia – ele sabia de tudo. Também instalou um detector de mentiras em seu telefone e acreditava no objeto. Assim, confirmou que Jackie estava se divertindo com várias companhias em Nova Iorque, estava “tirando o atraso”. Já não era santa quando estava casada, teve ao menos um caso notório, com William Holden, mas nos últimos dois ou três anos, alternando com Onassis, tivera ao menos meia dúzia de homens fixos.

Os negócios não iam bem e Onassis decidiu apressar o casamento. Jackie estava chegando aos 40 anos e o casamento ia fazer com que perdesse a pensão de JFK, então o contrato com o grego tinha que ser bom. Bobby não aceitava de maneira alguma. Até que apareceu Hamshari e sua proposta de proteção da companhia aérea de ataques palestinos e a lembrança de uma conversa que Onassis tivera com um amigo sobre um médico que utilizava hipnose e um filme polêmico feito pouco antes do assassinato de JFK…

O médico era William Joseph Bryan Jr. Ele havia sido consultor sobre hipnose no filme “Sob o Domínio do Mal” (The Manchurian Candidate, Frankenheimer, 1962). O filme mostra como um soldado americano capturado na Coréia é programado mentalmente para assassinar o presidente dos EUA. É certo que Hamshari esteve com o dr. Bryan. E há evidências que Sirhan também viu o dr. Bryan. E hoje sabe-se que o dr. Bryan trabalhara no projeto MKULTRA, da CIA, que estudava o controle mental.

Em 1968, pouco antes da morte de RFK e do casamento com Jackie, Onassis visitou o dr. Bryan em Las Vegas para uma sessão onde procurava curar sua insônia.

Agora, é esperar o filme que estão fazendo sobre tudo isso.

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Tô pasmo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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