The Post & arredores reais do filme de Spielberg

Em 1976, Pakula dirigiu o filme “Todos os Homens do Presidente” dando as caras de Dustin Hoffman e de Robert Redford para os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward e de Jason Robarts para o editor-chefe Ben Bradlee, criando um The Washington Post incrível, um jornal tremendamente combativo. A imagem que temos do The Post é essa; toda uma geração do auge do jornalismo impresso pensa sempre no jornal com essa ideia romântica desses caras e desse ambiente de trabalho foda.

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Sim, essa foi a matéria que colocou o jornal no cenário e, agora, Spielberg dá um passo atrás para contar o que aconteceu antes de Watergate. O foco do filme é a viúva do dono do jornal, Katharine, que não aparece no filme de Pakula, mas teria sido essencial para que o jornal afrontasse o governo. O marido de Katharine, Phil, não aparece no filme de Pakula nem no de Spielberg, onde é levemente citado. Vamos falar um pouco sobre ele e sua época como presidente do The Washington Post.

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Phil Graham e John Kennedy estiveram no exército durante a segunda guerra. Depois, Phil já à frente do The Washington Post, ficaram grandes amigos. Phil ajudou o JFK na política e já estava casado há vinte anos com Katharine quando o amigo venceu as eleições presidenciais. Phil e próximos do presidente conheciam bem suas virtudes e problemas – patriotismo e mulheres, respectivamente. Os amigos, porém, acreditavam que a responsabilidade do novo desafio ia fazer crescer a virtude e afastar os problemas. Aconteceu o contrário mas isso, aos olhos de seu staff, não foi um mau negócio: a popularidade do presidente vinha crescendo, seu carisma o aproximava de todos, o homem era um imã, e as mulheres vinham e iam facilmente, sem causar problemas. Às vezes, até sobrava uma ou outra para os amigos. Até que aconteceu Marilyn.

E a Guerra do Vietnã, que o presidente iniciou com apoio da mídia, inclusive do amigo Phil.

Foram dois anos complexos, do início da guerra até a morte de Marilyn – e de Kennedy, na sequência. Foram dois anos que provocaram a necessidade de um reboot na história dos EUA, o que o jornalista François Forestier chamou de “a grande limpeza” em seu livro “Marilyn e JFK”.

Logo após a inexplicável mas anunciada morte de Marilyn, Phil deixa a esposa e assume o romance com a jovem jornalista Robin Webb, da Newsweek. Talvez prevendo que algo ruim pudesse acontecer a ele por conta de tudo o que sabia – a conivência com a gestão Kennedy, os pedidos do presidente para que o Post não escrevesse sobre a guerra, os planos dos Kennedy para matar Diem e Fidel -,  Phil aceita o convite para um seminário da Associated Press em Phoenix, Arizona, onde pretende fazer um discurso devastador. Fecha-se por dois dias no quarto do hotel com Robin preparando o discurso – mas consome doze garrafas de champanhe no período e alguns comprimidos.

Quando chega ao evento, antes mesmo de chegar o seu momento de falar, sobe ao palco e começa a atacar o público. Ele está fora de si. Chama os jornalistas de “imbecis sujos e inúteis”. Depois de vociferar um pouco sem sentido, mira a Casa Branca: “Por que ninguém nunca solta a informação? JFK passa o tempo trepando! Não tem um só que diga isso! Vocês não tem colhões? São uns merdas!”. Diz, ainda, que o presidente, seu amigo, faz orgias na piscina e que “está comendo uma amiga minha, uma ótima artista chamada Mary Pinchot Meyer”. Depois que Marilyn se foi, ele diz que essa é a nova favorita do presidente.

Phil fala mais uns minutos e, inesperadamente, arranca a própria roupa.

Tiram-no do palco.

Ainda segundo Forestier, informado sobre o incidente, JFK envia um avião da presidência para transportar o louco. Ben Bradlee, fiel a Kennedy e ao patrão, vai ajudar.

Depois de um tempo trancafiado em um hospital psiquiátrico, Phil rompe com Robin, pede desculpas à Katharine e volta para casa. Pouco tempo depois, na véspera do aniversário de um ano da morte de Marilyn, Phil coloca um disco de Beethoven, entra no banheiro de casa, senta-se na beira da banheira e dá um tiro no queixo com um rifle de caça, calibre 28. Forestier diz que ele fez isso para não sujar o quarto – “ele era muito cuidadoso”. Bradlee estava lá para ajudar a viúva Kay.

Não há fotos de Graham na conferência da imprensa, nem com Robin, tudo foi apagado a pedido de Ben Bradlee.

Uma onda de “apagamento” da relação Kennedys-Marilyn havia acabado de acontecer, segundo o jornalista Anthony Summers no seu relato biográfico de Marilyn. O FBI foi a todas as agências fotográficas e confiscaram fotos, o Washington Post entregou as fotos que tinha. Um executivo do Globe contou que os homens apareceram e disseram que estavam “colhendo material para a biblioteca presidencial. Pediram para ver tudo o que tínhamos sobre Monroe. […] mais tarde descobrimos que tinham levado tudo o que tínhamos, até os negativos”. É incrível que Marilyn e os Kennedy, com os Lawford e Sinatra, tenham estado em tantas festas, com tantos fotógrafos paparazzi em cima deles e não existam fotos! Forestier conta que uma única foto de John com Marilyn se salvou: a que está na capa do livro que ele escreveu, feita no dia do aniversário de John, quando Marilyn cantou o fatídico e sensual “Happy Birthday” para ele.

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Um ano depois da morte de Marilyn e logo depois da morte de Phil, JFK decide visitar várias cidades do país para testar sua popularidade e preparar sua reeleição. O casamento ia mal, Jackie ficou puta com a exposição que a morte de Marilyn deu ao caso deles, ela tem se encontrado com Onassis, John tem um boneco vodu do armador grego – não é figura de linguagem: JFK tem mesmo um boneco de vodu de Onassis. John e Jackie viajam juntos, mas dormem em quartos separados.

Antes de Dallas, John deve ir a Chicago, mas a viagem é cancelada por causa de uma denúncia de atentado. Thomas Artur Vallee, ex-fuzileiro com distúrbios mentais, é preso com um fuzil com mira telescópica no último andar de um depósito, na trilha do caminho que o cortejo presidencial deveria percorrer. Preso, ele diz: “sou apenas uma isca”.

JFK é morto em Dallas em 22 de novembro de 1963. Lee Harvey Oswald é preso e diz: “sou apenas uma isca”.

Não houve tempo para Oswald dizer mais: foi morto dois dias depois pelo mafioso Jack Ruby. Preso, julgado, Jack teve pena de morte, apelou mas morreu de câncer de pulmão em 1967 sem explicar o que o teria motivado o crime. Mas deu uma série de entrevistas para uma jornalista, Dorotthy Kilgallen, que preparava uma longa matéria e, quem sabe, um livro, com a história bombástica.

Um ano depois da morte de Kennedy, sua ex-namorada, alardeada por Phil Graham como a “nova preferida” depois de Marilyn, Mary Pinchot Meyer, enquanto caminhava por Georgetown, recebe um tiro na cabeça, por trás, e outro na homoplata enquanto cai. Coisa de profissional. Um negro foi preso, dizendo que era apenas uma isca, e o crime é considerado não solucionado até hoje.

Mary Pinchot era irmã de Tony Pinchot que era casada com Ben Bradlee, editor chefe do Washington Post, o chupa-saco de Phil, o amigão de Kennedy.

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Ben Bradlee, Jackie, Tony Pinchot, JFK

Segundo Forestier, Tony e Ben vão à casa de Mary para arrumar as coisas depois da morte dela e encontram James J. Angleton, número dois da CIA, vasculhando cartas, papéis e documentos. O agente tinha simplesmente arrombado a casa e pede que nada seja divulgado no The Washington Post. Bradley não só foi omisso como escondeu, ele mesmo, um diário da cunhada. Separou-se de Tony pouco mais de dez anos depois, casando com uma jornalista vinte anos mais jovem. Em sua biografia, tenta um mea-culpa e diz que o Post fez várias matérias sobre a morte da cunhada. É verdade, mas uns vinte anos depois apenas.

Três anos após a morte de Marilyn, a jornalista Dorothy Kilgallen morre exatamente igual à atriz, misturando álcool e barbitúricos (sic). Kilgallen tinha feito aquela série de entrevistas com Jack Ruby e preparava a matéria e o livro, que nunca apareceram.

Robert Kennedy, em campanha presidencial em 1968, estava no Ambassador Hotel, em Los Angeles, quando um palestino, calma e tranquilamente, saiu da cozinha do hotel e foi ao seu encontro com um revólver, crivando-o de balas. Uma morte bem besta para quem combateu a máfia, tinha um séquito de seguranças e teve o irmão assassinado.

Possivelmente, o fim da “limpeza geral”.

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Spielberg e Ben Bradlee era vizinhos em Long Island. Ambos eram, claro, fãs do filme de Pakula e Spielberg teve a ideia de fazer um filme que se conectasse com “Todos os Homens do Presidente” e homenageasse o amigo. A cena final de “The Post” é a cena inicial do filme de Pakula sobre Watergate.

Fim de The Post

cena final do filme de Spielberg é idêntica à inicial do filme de Pakula

No final, no meu entender, “The Post” é um filme sobre um jornal conivente com o governo até que o presidente que eles acobertavam morre assassinado e o dono do jornal se mata, possivelmente pela pressão de saber um monte de merda oficial, aquela bem fedorenta. Aí a esposa do dono (que era uma dondoca e se torna a mulher mais influente do país) e o chefe de redação (que era um pau mandado), depois de tomar um furo homérico do jornal concorrente, decidem correr atrás do prejuízo para que o jornal não fique ainda mais desvalorizado. Quase dez anos antes dos chamados Pentagon Papers os principais jornais americanos cobriam a Guerra do Vietnã com repórteres em campo, mas o The Washington Post parecia preferir o jornalismo de gabinete, com informações oficiais.

Bem, Lyndon Johnson vinha fazendo muita merda e era fácil criticar um vice que assume e, depois, Nixon era um bom alvo, republicano, anti-democrata, anti-Kennedy, velho, feio, recalcado; aconteceu Watergate, obra de um denunciante que seria amigo de Ben Bradlee, e da obstinação dos dois repórteres meio hippies que estavam por ali. Quase um acidente que botou os holofotes sobre o Post como “o jornal que derrubou um presidente”.

Eles podiam ter feito isso antes, caso quisessem.

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