em música, o novo é sempre ruim

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais – Belchior

Quando surgiu, João Gilberto dividiu opiniões. Para boa parte dos apreciadores de música popular, ele não cantava nada. Aquela voz miúda, aquele batuque no violão… Aquilo era só uma modinha que logo ia passar. Bom mesmo era Ataulfo Alves, Francisco Alves, Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Ivon Cury, Elizeth Cardoso… Mas João era uma novidade e conseguiu espaço na mídia – no rádio, especialmente forte na época -, pois a mídia precisa sempre de novidades para chamar a atenção e provocar reações.

Depois, com a bossa nova se firmando a partir de João, apareceu outra novidade, o rock de Roberto Carlos e Cely Campelo, entre outros, e a música e figuras estranhas de Tim Maia e Raul Seixas, que desagradavam os pais de adolescentes que já estavam se acostumando com egressos mais avançados da bossa, como Nara, Elis e mesmo Chico Buarque (“você não gosta de mim, mas sua filha gosta”). Os fenômenos tinham espaço na TV, que se popularizava, pois, como disse, eram novidades e a mídia é como o circo, precisa sempre de um número novo, chamativo, atrativo, polêmico.

Depois…

Depois, eu me lembro do Programa Flávio Cavalcanti, que assistia com meus avós e com meus pais, esperando para ver o apresentador apresentar a nova atração bizarra da música, espinafrar e quebrar seus discos. Meus avós achavam uma delícia a espinafração. Meus pais achavam meio constrangedor. Eu geralmente ficava muito interessado em ouvir mais daquele artista que os velhos acham ruim – se os velhos achavam ruim devia ser mesmo muito legal.

Depois, meus avós assistiam ao Festa Baile com Agnaldo Rayol e eu assistia também, achando chato.

Agnaldo Rayol

Hoje, a gente vê alguns artistas como Ney Matogrosso e Milton Nascimento entronizados na MPB e acha que apareceram com essa moral. Mas não foi assim: o espalhafatoso Ney era apresentado com deboche e visto como bizarrice, gay e excêntrico, inclassificável; Milton era um mineiro (é carioca, na verdade, mas…) negro e de voz fina, de figura também excêntrica e muito diferente para o padrão da MPB da época, quase um anti-João Gilberto.

O que quero dizer é que as gerações sempre acham que o gosto médio delas é o norteador e sempre melhor que a novidade. Há uma resistência em todos pela novidade. E a mídia usa a novidade para angariar o público dividido: uns vão amar, outros detestar; essa polêmica gera audiência – que é do que vive a mídia.

Isso, falando em termos de Brasil, mas basta dar uma olhada na música internacional para ver que as ondas de novidade geracional são ainda mais divisórias.

Em 2012, o presidente Barack Obama prestou uma homenagem ao Led Zeppelin com um evento na Casa Branca. Quando apareceu com seu blues eletrificado, rápido e de alta potência, o Led era uma banda tão estranha, tão incrivelmente barulhenta, que até os fãs das bandas de origem do Led, o Cream e o Yadbirds, estranharam. O sucesso veio por conta da estranheza e novidade, confundindo os amantes do rock psicodélico e do rock pesado. O mesmo aconteceu com o punk, com o pós-punk, com a new age, com o grunge, etc… Sessentões, hoje, acham que rock é Beatles e Rolling Stones. Cinquentões amam o Led. Quarentões vão de Nirvana. Trintões, de Gorillaz.

Recentemente, na festa de aniversário de um amigo, o DJ começou seu set com três ou quatro músicas jazz-funky interessantes e dançantes que eu não reconheci, mas adorei. Achei que o restante da noite seria assim, de boas descobertas, mas estávamos em uma festa de 39 anos então a maioria dos convidados tinha essa faixa de idade, nascidos ali por 1980, e logo as músicas foram se encaixando no que o dono da festa tinha pedido e proposto e hits dos anos 1990 começaram a tocar para a alegria da maioria dos presentes. “Candy”, do Iggy Pop, levou mais gente pra pista, com todo mundo cantando junto. “Debaser”, do Pixies, tocou duas vezes. Um pessoal no fundão queria músicas mais novas, queria mais agito e menos barulho. Os DJs se negaram a tocar aquelas não-músicas atuais.

Quando os Stooges apareceram, foi um choque e quase ninguém gostou. Aquilo não parecia música e a performance de Iggy não se encaixava em nada visto antes. Poucos sabiam que ele estava antenado com movimentos artísticos de vanguarda que faziam releitura do Grand Guignol. Não por acaso, o primeiro disco dos Stooges foi produzido por John Cale, do Velvet Underground, outra banda de art-rock que ia contra a corrente e que ninguém entendeu no primeiro momento. Tanto Iggy quanto Lou Reed, do Velvet, foram “popularizados” por David Bowie nos anos 1970 – e a performance artística teatral-glitter do Bowie serviu para justificar o que Iggy e Reed vinham fazendo. É bom que se diga que quando Bowie apareceu, apenas jovens se identificaram e se interessaram.

Quando os Pixies apareceram com um EP de 8 músicas e 20 minutos de duração e letras com palavras em espanhol, todo mundo achou que fosse uma banda colegial querendo chamar a atenção com barulho. Ninguém deu importância ou levou a sério. O primeiro disco, lançado por uma gravadora pequena, fracassou nos EUA, mas fez sucesso na Europa – o que fez a banda acontecer. A crítica especializada se dividiu, os mais velhos dizendo que aquilo era ruim – A Rolling Stone deu três estrelas para “Surfer Rosa” quando foi lançado e, depois, reavaliou o disco, em 2004, dando 5 estrelas. Hoje é considerado um clássico.

Depois apareceu o Nirvana, que foi mal quando apareceu, ratificou o Pixies e depois…

O que quero dizer é que quando alguém diz que isso ou aquilo “não é música” está repetindo o que os pais deles disseram quando os músicos que eles gostam apareceram.

Os pais dos quarentões que estavam na festa do meu amigo não devem curtir muito o que tocou lá. Música de verdade pra eles é os Beatles, Bee Gees, Ike e Tina Turner e, olhe lá, um Cream ou, depois, um Led Zeppelin. Afinal, o que é o baixo de Kim Deal perto de John Paul Jones ou a voz de Iggy diante da de Robert Plant? Os pais estão errados? Todos os pais estão errados.

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A música pop é geracional e está ligada ao emocional de certa faixa etária: esses quarentões ouviram essas canções que tocaram na festa quando estavam na adolescência e elas foram seu hino de rebeldia, amor e “estar no mundo”. Os quarentões da festa podem até ouvir e gostar, conhecer a importância musical e histórica daqueles que vieram antes, mas têm dificuldade de ouvir algo que os adolescentes amam agora pois estão em outra fase e nada pode ser melhor que os hinos de sua fase de crescimento emocional.

Se você é adulto, tem mais de trinta anos, pense em algo que ouviu recentemente e que realmente amou.

Isso também funciona em outras áreas.

O fato é que muita gente diz: “Pabllo canta mal” ou “Anitta não me representa” tendo como referências artistas que, quando apareceram, seus pais também achavam que cantavam mal e/ou que não os representavam. Estamos reproduzindo as falas de um coro antigo de descontentes pois só estamos velhos, como nossos pais.

É preciso parar e pensar um pouco. E não se meter muito no que as novas gerações gostam e querem ouvir. E não sermos os Flávios Cavalcantis de hoje.

 

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5 thoughts on “em música, o novo é sempre ruim

  1. Quanto mais repertório temos, fica cada vez mais difícil de sermos surpreendidos por algo novo ou realmente bom. Já ouvimos muita coisa boa e não será qualquer novo hit que chamará a nossa atenção.

    • biajoni says:

      penso que quanto maior o repertório, maior nossa tolerância, ainda mais se considerarmos A NOVIDADE, que sempre foi execrada. podemos não gostar, mas não vamos execrar – como tem acontecido com as novidades por aí. alías, quem execra geralmente tem um gosto específico: ou é fã de jazz, ou de sertanejo, ou de mpb dita culta… é esse povo que execra pabllo e outros…

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