o novo disco da Jambow Jane

A Jambow Jane é uma banda de pop rock composta pela família do brasileiro Flavio Prada – ele, a mulher e filhos + músicos agregados -, formada despretensiosamente há alguns anos, sediada na cidade onde eles moram, Riva Del Garda, Itália. No primeiro disco, eles musicaram um poema meu, “Fogo Aceso” e, depois, musicaram uma letra minha inspirada no meu livro “A Comédia Mundana”. Flávio é de Limeira, somos amigos, escrevemos para um mesmo condomínio de blogs nos primórdios da internet e agora, quando saiu o segundo disco da sua banda, o recebi como recebemos a obra de um brother: querendo muito gostar, mas com aquela desconfiança de não ser algo que atenda ao nosso gosto.

O fato é que me surpreendi pois gostei demais.

“Worlds and Bridges” é um disco de rock com muita pegada. E comento abaixo, um faixa a faixa para dar uma ideia do que pode esperar quem se interessar em ouvir no Spotify.

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“Worlds and Bridges” começa com uma cacofonia e a gente não sabe bem o que esperar. Em seguida vem um piano solene – eu pensei que a Jambow Jane tinha enveredado pela erudição, mas logo vem a bateria, o baixo e a guitarra com a voz do Flavio de maneira progressiva e, uau, é um rock clássico com pé no Metallica! Mas aos três minutos, volta a cacofonia, com frases em várias línguas e dá pra ver que a referência é o Pink Floyd. A segunda vez que a guitarra volta com força, nos leva para “In The Flesh” do PF. Esperamos por mais.

A segunda canção, “Music Makes you a Stronger Person” segue na mesma vibração, com pegada bluesy hipnótica, e lá pelos três minutos queria que não entrasse vocal. A bela linha de baixo que me lembrou Geddy Lee e seu Rush. Mas entra o jogral que canta o título da canção no minuto final, desnecessariamente. Só a música já estava ótimo.

A terceira faixa é “Medo”, em português, algo engraçadinha e com refrão pegajoso. Mais uma vez, a beleza maior está no instrumental – esse pessoal está afiado mesmo. Rápida, intensa, me lembrou a banda Joelho de Porco em seus momentos mais pesados, “Medo” prepara as expectativas para o que possa vir depois. E vem “Science Guy”, única música do disco com vocal exclusivo da Bea, mostrando talento incrível sobre base de piano, com coro também de rock progressivo, ok, Pink Floyd de novo, “The Great Gig in the Sky” está ali, e o piano que vira um sintetizador antigo. Acho que é a faixa mais curta do disco, infelizmente. (Lembrei que a banda já tinha gravado essa do PF com a Bea)

Nova cacofonia na abertura da grunge “Run Over the City”, que tem clipe no Youtube (veja abaixo). Acho que é a faixa de trabalho do disco e pode ser boa isca para os mais jovens e vai fazer os tiozões lembrar de Nirvana. Tem um lance de Pavement ali também, acho que na gritaria da parte final, o que gostei.

As próximas três faixas são exercícios de estilo. “Única” brinca com a bossa nova, uma bossa´n´roll, com violões e mais uma letra em português, engraçadinha-existencial, bem elaborada. “Wasting my Time” é uma atualização de “Oh Sweet Nuthin´” do Velvet Underground, onde o título da canção, vocalmente retorcido, serve de base para o exercício musical da banda – até que entra uma participação da Bea, mostrando que tem real potencial blues. E “Fuck Stasera” é a minha preferida, uma canção louca, com palavras em português, inglês, italiano e até francês, uma canção multilingual, multicultural, multisonora, dinâmica e engraçada, que pode bem indicar o caminho para o futuro da Jambow Jane. E é a canção com o melhor posicionamento de voz do Flavio – ele está solto, sem querer parecer afinado.

A oitava faixa é climática, com violões, encerrando o disco, como se as duas próximas canções fossem bônus. “It´s Hot In Summer” é um blues rápido, Stevie Ray Vaughn, bem solto e descontraído. E a última canção de “Worlds and Bridges” é a única em italiano, romântica, chamada “Sì e No”, que tem uma faixa pesada e uma fala meio brega, como se fosse uma canção dos Scorpions, que só gostei por ser em italiano e acho muito legal que a Jambow Jane tenha essa diversidade lingual.

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Bom, vão lá ouvir.

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os filmes de heróis estão salvando o cinema

Personagens com capacidades extraordinárias sempre chamaram a atenção.

Inicialmente, pelos “poderes” excepcionais que têm, mas, nas boas narrativas, por serem obrigados, APESAR dos poderes, a tomar decisões morais, emocionais, humanistas e humanitárias, de justiça e sacrifício. Os exemplos são vários, de heróis mitológicos, das narrativas clássicas todas, das histórias fundamentais das religiões, passando por Prometeu e Cristo, chegando a personagens mais humanos mas ainda extraordinários, tidos como reais, como Sherlock Holmes ou Dom Quixote, e seus derivados, até os chamados “super-heróis”, cujos principais representantes mesclam características de outros, que vieram antes, numa espécie de “atualização” para o principal público dessas histórias: o adolescente em formação.

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Joseph Campbell falou sobre isso no “Herói de Mil Faces” – e sobre a importância desses heróis, reais ou não, na formação, educação, apreensão do mundo, auxílio no conceitual de bem e mal, justiça e injustiça, das pessoas – em especial de jovens. E escreveu sobre isso em vários outros livros, como em “O Poder do Mito”.

Esses heróis sempre estiveram por aí, encantando jovens. Meu pai conta sobre as idas ao cinema nos sábado à tarde para acompanhar as séries de Flash Gordon, Tarzan, Zorro e muitos outros, além das trocas de gibis do Fantasma e Mandrake. Fui apresentado aos gibis cedo e essa foi minha porta de entrada para os livros. Na ocasião, acompanhávamos séries na TV, muitas com heróis, algumas bem toscas, mas era o que tinha. O filme que vi no cinema e que me fez gostar da sétima arte deriva de um gibi: “Conan – O Bárbaro”. Eu tinha doze anos, uma coleção de quadrinhos em PB do cimério, e saí do cinema boquiaberto com o que vi: Thulsa Doom dizendo a Conan que tinha matado seus pais e transformado ele no que ele era. Uau. Roteiro do John Millius e do Oliver Stone.

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Já ali, tinha ficado claro a mim que o herói é um personagem catalisador, central, extraordinário, onde orbitam outros personagens, dramas humanos, questões filosóficas, que podem ser muito mais interessantes e atraentes do que, bem, histórias que são puro drama humano com personagens super humanos.

Dramas humanos com personagens super humanos podem realmente ser atraentes? Me pergunto isso quando citam, em detrimento de “filmes de super heróis”, os filmes de, por exemplo, Bergman, Tarkovski, Antonioni, Buñuel ou sei lá quem, como superiores. Como comparar um filme de Bergman (ele fala de pessoas normais, reais?) com um Batman de Nolan? É como comparar água e vinho. Dostoiévski e Agatha Christie. Mas às vezes precisamos de água, às vezes de vinho. Às vezes chegamos a Dostoiévski através de Agatha Christie.

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~ arte real ~

Outra questão que envolve os chamados “filmes de herói” é que eles têm ação e efeitos demais, como se isso fosse um defeito. Ora, a ação E o efeito estão na gênese do cinema: quando os irmãos Lumiére decidiram filmar algo foram logo filmar o que existia de mais rápido no momento: um trem! Isso para mostrar que, sim, algo estava em movimento, e a câmera era capaz de captar! Quando tivemos o primeiro corte, talvez na saída dos empregados da fábrica, também dos irmãos Lumiére, tivemos o primeiro efeito. A elipse é um efeito. Citam os efeitos como defeitos, mas elogiam o estado-da-arte dos efeitos em “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, filmado por Kubrick, que era fanático por quadrinhos.

E apesar do cinema ter origem com os Lumiére, quem fez o negócio ir adiante foi um mágico, Mélies, que criou impressionantes efeitos especiais. São raros, muito raros, os filmes que não contam com efeitos hoje em dia, mesmo alguns dos mais baratos. O retoque em filmes acontece até em filmes ditos realistas – e não há nada de errado com isso. Vejam esse feature de “Garota Exemplar” (Fincher, 2014).

Quando eu lia as aventuras dos heróis nos quadrinhos, lá em meados dos anos 1980, e assistia na TV aos seriados do Batman e do Homem-Aranha, com aqueles efeitos toscos, ficava imaginando se algum dia conseguiríamos ter, nos cinemas ou na TV, as aventuras coloridas de Thor ou do Demolidor ou do Doutor Estranho. Demorou trinta anos para termos aqueles heróis nas telas. Mas os temas – e não apenas os efeitos, ora vejam – também evoluíram e as tramas ficaram melhores, mais interessantes, densas, inteligentes. Os personagens ganharam – em boa medida, quase todos – envergadura, personalidade marcante e ótimos intérpretes (vejam os atores que estão nos filmes) e roteiros que são escritos considerando os fãs antigos (eu) e os mais novos (minhas filhas de 25 e 11 anos) – dentro do que é possível em termos de adaptação. Isso não é pouco.

Loucos imbecis, fanáticos puristas, brigam por qualquer merda, sejam quadrinhos, religião ou futebol. Não perco tempo com malucos.

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Cores são para os coloristas de quadrinhos, ok?

Na adaptação de X-Men pelo Singer, em 2000, quando fãs encresparam com os uniformes, por exemplo, ficou claro que fãs puristas não entendem que a visão do diretor – ou da equipe – equivale, nos quadrinhos, às linhas de interpretação que roteiristas e desenhistas fizeram dos personagens ao longo da História. Personagens canônicos eram diferentes antes de Jim Starlin, Frank Miller e Mazzucchelli ou Mark Waid botar as mãos neles, por exemplo. Mas as essências dos personagens estão ali.

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E são esses personagens catalisadores de dramas humanos, potencializados muitas vezes pela impotência, apesar de seus superpoderes, diante de forças maiores que as deles – o mal, o poder, a política, o dinheiro, a ganância, a doença, a loucura, a soberba, a desilusão… – que os fazem tão atraentes e importantes.

Um dos melhores filmes de 2017 é “Logan”, a última aventura de Wolverine no cinema. Um filme de super-herói que discute configurações de família, um tema atual; imigração e fronteiras (era Trump); velhice e demência; infância e rejeição; experiências médicas e tecnológicas com humanos; laços de amizade e superação de limites. Tudo num subtexto não-didático, com roteiro exemplar. Os efeitos estão ali em favor da história. É cinema pleno, em especial na sequência do cassino, com o desequilíbrio mental do professor Xavier, fazendo o espectador cerrar os dentes de tanta tensão.

Quando “Mad Max – Estrada da Fúria” (uma série de herói) foi indicado ao Oscar de melhor filme e levou seis estatuetas, muitos saudaram a volta do cinema em sua forma plena: ação, montagem, beleza estética. (Quem ganhou naquele ano? Você se lembra?) Infelizmente, ainda há quem renegue esse tipo de filme, em favor de dramas humanos & reais. No ano seguinte, o filme premiado, ao invés de “La La Land”, maravilha emocionante de som, imagem e roteiro, foi um “drama humano comovente”, do qual poucos sem lembram ou se lembrarão – enquanto “La La Land” vai ficar (não é um filme de herói, ok, mas explora a emoção com as ferramentas do cinema, é isso que quero dizer com esse exemplo).

Antes mesmo de X-Men, como bem observou o Roberto Sadovski, houve “Matrix”, talvez um dos melhores filmes já feitos, seja de herói ou não. Um filme com referências pop que discute “A Caverna” de Platão, ora vejam. Ele nem concorreu aos principais Oscars de 2000 e o drama humano que ganhou, bem, ninguém se lembra ou fala sobre ele.

Os filmes de heróis estão salvando o cinema porque permanecem. Gostem deles ou não.

Para os mais jovens, pode ser uma porta de entrada para obras mais profundas e densas, com mais simbolismos, leituras e quetais. Vendo esses filmes, talvez eles consigam extrair ainda mais que os estudiosos de “O Sétimo Selo”, por exemplo.

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