… minha palestra sobre internet e jovens para pais do colégio polo em indaiatuba

(na íntegra, mas pulei uns pedaços na hora)

Quando eu era pré-adolescente, tinha uma vitrolinha na casa da minha avó e eu ouvia os discos das minhas tias. Elas tinham uns 20 ou 30 discos, e eu gostava de ficar na casa da minha avó no final de semana para ouvir esses discos. Tinha Milton Nascimento, Fagner, Roberto Carlos… Antes de dormir, eu ligava um rádio baixinho e ficava ouvindo as músicas que tocavam na madrugada. Nas noites de sábado, meus avós assistiam a um programa chato, chamado Festa-Baile, com Agnaldo Rayol. Era chato, mas às vezes tinha música e eu assistia atento. De vez em quando aparecia o Roberto Leal, um cantor português chato mas que minhas duas avós amavam. Eu me perguntava por quê.

1Aí comecei a trabalhar, muito jovem, uns 14 anos, e guardava um dinheiro para comprar discos. Um a cada dois ou três meses, era caro. Eu escolhia com muita atenção. Comprei um com as trilhas dos filmes do James Bond. E depois um do Milton, que tinha Coração de Estudante, que cantamos na formatura do colégio. Mas meus gostos começaram a mudar, o cara da loja de discos me mostrava umas coisas que chegavam e que não tocavam no rádio. Eu comecei a comprar esses discos. Um disco dos Rolling Stones. Um disco do The Clash. Um disco do Lou Reed. E meus avós não me deixaram mais usar a vitrolinha.

Era muito barulho.

Eu queria ter sido um adolescente com internet, com todas essas músicas à disposição e com fones de ouvido.

Aí consegui uma vitrolinha só para mim e na minha casa era mais tranquilo, minha mãe me deixava ouvir minhas músicas (desde que num volume razoável) e isso também, claro, fazia com que eu me ocupasse e não a atrapalhasse. Isso não muda: muitas vezes, mães não querem ser incomodadas.

2Meu pai tinha uma coleção de revistas Playboy que ficava meio escondida numa estante a caminho do banheiro. Sim, eu comecei a me interessar bastante por aquelas revistas. Eu as pegava escondido a caminho do banheiro e depois as devolvia rapidamente. Fui flagrado e repreendido algumas vezes – mas não parei o que tinha que fazer. Meus amigos tinham inveja da coleção de revistas do meu pai.

Eu e eles gostaríamos de ter sido adolescentes com internet.

😉

Preciso dizer que eu li muita coisa interessante nesses números da Playboy.

Na época, ainda não tínhamos telefone. Os números de telefone tinham 6 dígitos. Aí conseguimos um telefone e eu algumas namoradas. Eu queria ligar para namoradas e amigos, ficar batendo papo em casa nos momentos de tédio, aqueles momentos em que os adolescentes só querem conversar, mas os assuntos não interessam aos adultos e os adultos estão sempre ocupados, trabalhando ou resolvendo problemas domésticos. Mas as ligações tinham que ser rápidas, pois a conta era cara e não dava pra ficar de papo no telefone. Às vezes eu via uma coisa, tinha uma ideia, me sentia só, queria falar com eles, os finais de semana eram de saudade dos amigos, mas…

3Eu queria ter sido um adolescente com whatsapp.

A gente tinha apenas 3 ou 4 canais de TV e eu gostava de filmes. Mas os filmes passavam tarde e não dava pra assistir. O cinema era caro e nem sempre tinha adultos para nos acompanhar.

Eu queria ter sido um adolescente com Netflix e Youtube.

O que eu quero dizer é que é tudo melhor agora para um adolescente.

80% da população brasileira entre 9 e 17 anos está na internet. Eles têm acesso a coisas que sequer imaginávamos quando éramos adolescentes, para o bem ou para o mal.

Mas geralmente, para o bem. Tudo é muito melhor hoje, os pais precisam parar de demonizar a internet, assim como demonizam as escolas, professores, sistemas de ensino. Basicamente, se os filhos não estão usando direito (internet e escola), temos um problema familiar e a culpa não é dos filhos.

A única coisa que continua igual é a falta de tempo dos pais e responsáveis para estarem com os filhos enquanto eles ouvem música, veem filmes, conversam com amigos e se interessam por sexo, essas coisas naturalmente normais da vida saudável.

Na verdade, algumas coisas também não mudaram: a curiosidade quase insaciável do adolescente, sua vontade de aprender, de testar sua capacidade em jogos, de testar seus limites… Também de se espelhar em heróis, imitar aqueles que admiram, moldar seu comportamento nos pais e responsáveis ou contrariar esses comportamentos.

4

Adolescentes são incrivelmente iguais. De todas as fases da vida, é a fase em que as pessoas são incrivelmente mais parecidas umas com as outras.

E para darem conta de seus interesses e necessidades, eles usam o que tem à mão, a tecnologia que está à sua disposição.

Hoje, há a internet, as redes sociais, o whatsapp, o Netflix, etc…

Os pais devem conversar, estar disponíveis, colocar parâmetros e, principalmente, dar exemplo. Conselhos e ensinamentos ajudam, movem, mas os exemplos arrastam.  Crianças e adolescentes que vivem na internet têm pais ou responsáveis que vivem na internet. Querem ver:

Apesar de todas as alternativas que tive que buscar na minha adolescência para dar conta dos meus interesses, sexuais, musicais, cinéfilos, literários, de comunicação, etc… meus pais ainda colocavam certos empecilhos, como as revistas escondidas ou a limitação do volume da vitrolinha. As ligações também tinham que ser rápidas. O que está à disposição não deve estar à vontade. Até porque, tudo o que é muito fácil não tem valor e dele não se extrai satisfação.

5Sobre o acesso à internet: os pais devem se desconectar. Aliás, uma boa dica é desconectar o wi-fi de casa num determinado horário da noite, na “hora de dormir”. Tire da tomada. Estudos dão conta que a emissão da frequência de internet pode até mesmo perturbar o sono de pessoas mais sensíveis. Os convites para a tal Baleia Azul ocorrem quase sempre na madrugada, por volta das quatro e meia da manhã.

Então, uma boa dica é ligar a internet de manhã, apanhar o celular ou o tablet do seu filho e verificar se chegou algum convite. E apagar ou denunciar (se for via Facebook) e conversar com ele sobre isso, claro.

Perfis falsos e aliciadores usam a internet depois das 23h, que é quando os pais estão dormindo. Eles procuram não correr riscos durante o dia, quando um pai ou mãe ou responsável ou professor pode flagrar uma aproximação.

Desligar o wi-fi às 21h e ligar às 6h garante quase 40% por cento de desconexão da internet num dia. Se a desconexão acontecer também em três horas na hora do almoço, digamos, entre 12h e 15h – período de refeição e descanso, teremos metade de um dia totalmente desconectados. Que tal deixar seu filho se conectar às 15h para fazer as tarefas de escola, pesquisa e tal, e depois para assistir a algo, um pouco de diversão, até às 18h, e depois banho e jantar, e mais um pouco de internet, digamos, entre 20h e 21h e fim?

A revista Veja de 10 de maio trouxe reportagem sobre conectividade e jovens que mostra que mais de duas horas e meia de conexão direta tendem a exacerbar comportamentos violentos, hiperatividade, déficit de atenção, depressão, ansiedade ou mesmo cansaço mental crônico em jovens entre 11 e 15 anos (o estudo foi feito com 151 estudantes americanos pela Universidade Duke).

Isso acontece conosco, adultos. Fique 3 horas diante da tela de um computador e você vai se sentir cansado depois, sonolento, disperso, distraído, esgotado.

6Um outro fator importante foi levantado recentemente e será tema de livro ainda a ser lançado pelo neurocientista Miguel Nicolelis que o uso constante de tecnologia e conexão está acabando com as qualidades de conexão neurais – ou seja: estamos cada vez com menos memória pois dizemos diariamente ao nosso cérebro que não precisamos mais dele – já que temos tudo na mão a um clique.

O desenvolvimento do cérebro ao longo de milhares e milhares de anos, com sua sensibilidade, com sua capacidade artística, criando arte, literatura, poesia, matemática, física, e evolução humana está em jogo se continuarmos deixando tudo para que o computador resolva.

Me digam: vocês sabem coisas básicas que sabiam antigamente, como o número do telefone da sua mãe?.

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