o primeiro mandamento do pretenso escritor

Antes de pensar em escrever um livro, alguém que se considera um ESCRITOR deve se portar como UM ESCRITOR. Um escritor inventa personagens, enredos, situações e mundos e, portanto, é bom que ele conheça uma grande galeria de personagens, enredos, situações e mundos. Quanto maior o seu repertório, neste sentido, mais vai conseguir criar, desenvolver e encontrar multiplicidade em personagens, enredos, situações e mundos. Para tanto, uma maneira um pouco artificial mas importante (também por outro motivo, que explicarei adiante) – é: LER. Esse é o primeiro mandamento.

O escritor deve ler muito, sistematicamente, e de tudo. Se ele quer ser um escritor de tramas policiais deve ler todos os textos importantes da categoria, mas não apenas eles. Deve ler os livros que os autores de romances policiais liam e acham importantes. Deve ler as biografias e autobiografias dos autores. Mas não pode ficar fechado nesse universo, ou vai apenas reescrever e emular o que já foi escrito: deve ler coisas diametralmente opostas, como dramas, comédias, ensaios, entrevistas… O escritor deve saber que para uma pequena situação, digamos, dramática, do seu romance, a resposta pode estar naquele conto que leu na adolescência. Ou na entrevista que um jogador de futebol concedeu à revista Playboy. Ou até num programa de TV. Aconteceu comigo: em uma entrevista que assisti na TV, por acaso, do ator e cantor Tony Tornado, me veio a ideia para um conto que foi traduzido para três idiomas. Eu não estava procurando um tema para um conto: uma simples cena da história que Tornado contou durante a entrevista disparou a ideia para o conto, que se chama ME AND JANIS ALI.

Essa é outra coisa intrínseca do escritor: estar aberto e preparado para saber que uma história pode nascer de uma epifania, de um momento simples, de uma frase, de uma imagem. Umberto Eco conta que decidiu escrever O Pêndulo de Foucault a partir de duas imagens: a exibição do pêndulo original, que ele viu e achou incrível, e a imagem de um garoto solitário tocando uma trombeta num cemitério. Ele diz que entre as duas imagens ele desenvolveu seu romance.

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Eu participava do Seminário Genre, de Robert Mckee, no Rio de Janeiro, em 2013, e uma das palestras era sobre o filme Carnal Knowledge, de 1971, de Mike Nichols, com Jack Nicholson e Art Garfunkel. Mckee adora esse roteiro e começou a discorrer sobre o filme, mostrando algumas imagens. Eu estava com um pouco de sono… Tinha visto o filme, tinha uma lista de filmes para assistirmos antes do seminário… E recentemente eu tinha visto a nova versão do Grande Gatsby e lido o livro do Fitzgerald… De alguma maneira, enquanto Mckee falava sobre os personagens e a história, eu me lembrei do Grande Gatsby, que também é uma história sobre o relacionamento de dois homens, assim como o filme do Nichols, e me veio a ideia quase completa para a trama de A VIAGEM DE JAMES AMARO. Num sentido amplo, posso dizer que meu livro é um amálgama de CARNAL KNOWLEDGE e O GRANDE GATSBY.

(Aí, ao pesquisar sobre Carnal Knowledge, fiquei sabendo um pouco sobre a carreira de Garfunkel no cinema e que ele abandonou as telas depois que a namorada se matou. Ela se chamava Laurie Bird e tinha feito apenas dois filmes e então eu fui lá ver os filmes dela e saber um pouco sobre ela e acabei escrevendo um conto sobre o que descobri. Foi publicado no blog de Estudos Lusófonos da Sorbonne Paris IV, chamado “Two-Lane Blacktop”. Então veja como as coisas podem se revelar para um escritor.)

É também importante – e Mckee ressalta isso – que o escritor seja idiossincrático (fico sabendo que em Portugal se diz “idiossincrásico”). O que seria isso, basicamente? É ter uma personalidade forte, mas aberta, encarar o mundo de maneira pessoal, sem abraçar correntes. O grande autor não deve ter uma religião, nem uma grande ideologia, ou ser místico ou nitidamente de uma corrente política. O engessamento das ideologias geralmente leva o escritor a querer defender suas ideias ou ideais em seus romances. Salvo honrosas exceções, poucos dos grandes autores são religiosos fanáticos ou têm uma cor partidária clara. Os idiossincráticos trabalham melhor personagens diferentes de si e entre si mesmos, conseguem entrar na mente de personagens cujo comportamento e ações desaprovam, mas não o julgam (o personagem). Pessoas que não acreditam em nada são mais livres.

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Ler também faz o escritor apreender sobre ritmo. Amplia seu vocabulário. É importante ler poesia. Dicionários. Ser curioso para com as palavras.

E, por que não?, livros sobre livros, livros sobre edição de livros, sobre processos criativos de escritores… Já indiquei, mas não me canso, de “A Hora Terna do Crepúsculo – Paris nos anos 1950, Nova York nos anos 1960 – Memórias da era de ouro da edição de livros”, de Richard Seaver, que editou Beckett e Burroughs, entre vários outros, lindamente escrito, e “Max Perkins, um editor de gênios”, que atuou no início do século XX nos EUA e editou Fitzgerald e Hemingway, entre centenas. Lendo esses livros entendemos um pouco sobre o processo criativo dos autores, sistemas da indústria e o funcionamento do mercado – além de descobrirmos figuras incríveis por trás dos processos. Após ler esses livros e convidado para debater o cenário mercadológico, também escrevi um texto para o blog de Estudos Lusófonos.

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Depois, e finalmente, antes de se dizer escritor, o pretenso artista nesses tempos de tantas histórias e tanta literatura e filmes e séries de TV, deve ler o DOM QUIXOTE de Cervantes. O livro fundador da literatura moderna, pouco lido, aponta os caminhos da construção literária de maneira mais direta que a maioria dos cursos de escrita criativa e quetais.

Talvez exista uma certa pressão nessa insistência para que o escritor leia. Ele não deve se forçar – na verdade, ler deveria ser um ato natural e prazeroso para ele. Ninguém deve, na verdade, se forçar a ler. Deve haver, claro, um incentivo à leitura nas primeiras fases escolares, já que LER é a primeira premissa para o estudo e para a interpretação dos fatos -, então é fundamental que todos SAIBAM LER… E literatura, em especial, é um gosto que se adquire, mas são poucos os verdadeiramente apaixonados. É relativamente fácil que um leitor apaixonado se torne um escritor – ele vai conhecendo os caminhos enquanto lê. Os caminhos não são ensinados em salas de aula ou cursos de escrita. Quando se quer ser um atleta, deve-se treinar. O treino para escrever é ler.

Assim, sem pressa, vai o escritor lendo e acumulando ideias e projetos. São muitos; às vezes mais de uma ideia e um projeto por dia. Poucos vão adiante – e isso é natural. Às vezes pedaços de ideias e projetos se juntam. A mente do escritor fica em constante processo de imaginação.

E em determinado momento, ele decide escrever. E que história ele define? Quais personagens quer desenvolver? Que pergunta ele se faz quando abre o arquivo no computador? Ele escolhe um título para o livro antes ou depois? Ele vai escrever um romance, um roteiro para cinema, uma peça de teatro ou uma série de TV? Por onde começar?

Mckee, em seu Story, diz que “Uma boa história significa algo válido a dizer que o mundo queira ouvir”. Depois de todos esses séculos de histórias, depois da Bíblia, de Shakespeare, das Mil e Uma Noites, de Roth e Borges, e de todos esses vencedores do Nobel e do Pulitzer e do Man Booker Prize e de todos os autores que estiveram nas listas de mais vendidos, e de todos os filmes e séries de TV, ainda teremos histórias importantes, interessantes, relevantes e que podem ser contadas de maneira sensacional, impactante? E que possa interessar ao leitor? E com personagens sólidos, originais?

Responda, escritor.

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