… minha palestra sobre internet e jovens para pais do colégio polo em indaiatuba

(na íntegra, mas pulei uns pedaços na hora)

Quando eu era pré-adolescente, tinha uma vitrolinha na casa da minha avó e eu ouvia os discos das minhas tias. Elas tinham uns 20 ou 30 discos, e eu gostava de ficar na casa da minha avó no final de semana para ouvir esses discos. Tinha Milton Nascimento, Fagner, Roberto Carlos… Antes de dormir, eu ligava um rádio baixinho e ficava ouvindo as músicas que tocavam na madrugada. Nas noites de sábado, meus avós assistiam a um programa chato, chamado Festa-Baile, com Agnaldo Rayol. Era chato, mas às vezes tinha música e eu assistia atento. De vez em quando aparecia o Roberto Leal, um cantor português chato mas que minhas duas avós amavam. Eu me perguntava por quê.

1Aí comecei a trabalhar, muito jovem, uns 14 anos, e guardava um dinheiro para comprar discos. Um a cada dois ou três meses, era caro. Eu escolhia com muita atenção. Comprei um com as trilhas dos filmes do James Bond. E depois um do Milton, que tinha Coração de Estudante, que cantamos na formatura do colégio. Mas meus gostos começaram a mudar, o cara da loja de discos me mostrava umas coisas que chegavam e que não tocavam no rádio. Eu comecei a comprar esses discos. Um disco dos Rolling Stones. Um disco do The Clash. Um disco do Lou Reed. E meus avós não me deixaram mais usar a vitrolinha.

Era muito barulho.

Eu queria ter sido um adolescente com internet, com todas essas músicas à disposição e com fones de ouvido.

Aí consegui uma vitrolinha só para mim e na minha casa era mais tranquilo, minha mãe me deixava ouvir minhas músicas (desde que num volume razoável) e isso também, claro, fazia com que eu me ocupasse e não a atrapalhasse. Isso não muda: muitas vezes, mães não querem ser incomodadas.

2Meu pai tinha uma coleção de revistas Playboy que ficava meio escondida numa estante a caminho do banheiro. Sim, eu comecei a me interessar bastante por aquelas revistas. Eu as pegava escondido a caminho do banheiro e depois as devolvia rapidamente. Fui flagrado e repreendido algumas vezes – mas não parei o que tinha que fazer. Meus amigos tinham inveja da coleção de revistas do meu pai.

Eu e eles gostaríamos de ter sido adolescentes com internet.

😉

Preciso dizer que eu li muita coisa interessante nesses números da Playboy.

Na época, ainda não tínhamos telefone. Os números de telefone tinham 6 dígitos. Aí conseguimos um telefone e eu algumas namoradas. Eu queria ligar para namoradas e amigos, ficar batendo papo em casa nos momentos de tédio, aqueles momentos em que os adolescentes só querem conversar, mas os assuntos não interessam aos adultos e os adultos estão sempre ocupados, trabalhando ou resolvendo problemas domésticos. Mas as ligações tinham que ser rápidas, pois a conta era cara e não dava pra ficar de papo no telefone. Às vezes eu via uma coisa, tinha uma ideia, me sentia só, queria falar com eles, os finais de semana eram de saudade dos amigos, mas…

3Eu queria ter sido um adolescente com whatsapp.

A gente tinha apenas 3 ou 4 canais de TV e eu gostava de filmes. Mas os filmes passavam tarde e não dava pra assistir. O cinema era caro e nem sempre tinha adultos para nos acompanhar.

Eu queria ter sido um adolescente com Netflix e Youtube.

O que eu quero dizer é que é tudo melhor agora para um adolescente.

80% da população brasileira entre 9 e 17 anos está na internet. Eles têm acesso a coisas que sequer imaginávamos quando éramos adolescentes, para o bem ou para o mal.

Mas geralmente, para o bem. Tudo é muito melhor hoje, os pais precisam parar de demonizar a internet, assim como demonizam as escolas, professores, sistemas de ensino. Basicamente, se os filhos não estão usando direito (internet e escola), temos um problema familiar e a culpa não é dos filhos.

A única coisa que continua igual é a falta de tempo dos pais e responsáveis para estarem com os filhos enquanto eles ouvem música, veem filmes, conversam com amigos e se interessam por sexo, essas coisas naturalmente normais da vida saudável.

Na verdade, algumas coisas também não mudaram: a curiosidade quase insaciável do adolescente, sua vontade de aprender, de testar sua capacidade em jogos, de testar seus limites… Também de se espelhar em heróis, imitar aqueles que admiram, moldar seu comportamento nos pais e responsáveis ou contrariar esses comportamentos.

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Adolescentes são incrivelmente iguais. De todas as fases da vida, é a fase em que as pessoas são incrivelmente mais parecidas umas com as outras.

E para darem conta de seus interesses e necessidades, eles usam o que tem à mão, a tecnologia que está à sua disposição.

Hoje, há a internet, as redes sociais, o whatsapp, o Netflix, etc…

Os pais devem conversar, estar disponíveis, colocar parâmetros e, principalmente, dar exemplo. Conselhos e ensinamentos ajudam, movem, mas os exemplos arrastam.  Crianças e adolescentes que vivem na internet têm pais ou responsáveis que vivem na internet. Querem ver:

Apesar de todas as alternativas que tive que buscar na minha adolescência para dar conta dos meus interesses, sexuais, musicais, cinéfilos, literários, de comunicação, etc… meus pais ainda colocavam certos empecilhos, como as revistas escondidas ou a limitação do volume da vitrolinha. As ligações também tinham que ser rápidas. O que está à disposição não deve estar à vontade. Até porque, tudo o que é muito fácil não tem valor e dele não se extrai satisfação.

5Sobre o acesso à internet: os pais devem se desconectar. Aliás, uma boa dica é desconectar o wi-fi de casa num determinado horário da noite, na “hora de dormir”. Tire da tomada. Estudos dão conta que a emissão da frequência de internet pode até mesmo perturbar o sono de pessoas mais sensíveis. Os convites para a tal Baleia Azul ocorrem quase sempre na madrugada, por volta das quatro e meia da manhã.

Então, uma boa dica é ligar a internet de manhã, apanhar o celular ou o tablet do seu filho e verificar se chegou algum convite. E apagar ou denunciar (se for via Facebook) e conversar com ele sobre isso, claro.

Perfis falsos e aliciadores usam a internet depois das 23h, que é quando os pais estão dormindo. Eles procuram não correr riscos durante o dia, quando um pai ou mãe ou responsável ou professor pode flagrar uma aproximação.

Desligar o wi-fi às 21h e ligar às 6h garante quase 40% por cento de desconexão da internet num dia. Se a desconexão acontecer também em três horas na hora do almoço, digamos, entre 12h e 15h – período de refeição e descanso, teremos metade de um dia totalmente desconectados. Que tal deixar seu filho se conectar às 15h para fazer as tarefas de escola, pesquisa e tal, e depois para assistir a algo, um pouco de diversão, até às 18h, e depois banho e jantar, e mais um pouco de internet, digamos, entre 20h e 21h e fim?

A revista Veja de 10 de maio trouxe reportagem sobre conectividade e jovens que mostra que mais de duas horas e meia de conexão direta tendem a exacerbar comportamentos violentos, hiperatividade, déficit de atenção, depressão, ansiedade ou mesmo cansaço mental crônico em jovens entre 11 e 15 anos (o estudo foi feito com 151 estudantes americanos pela Universidade Duke).

Isso acontece conosco, adultos. Fique 3 horas diante da tela de um computador e você vai se sentir cansado depois, sonolento, disperso, distraído, esgotado.

6Um outro fator importante foi levantado recentemente e será tema de livro ainda a ser lançado pelo neurocientista Miguel Nicolelis que o uso constante de tecnologia e conexão está acabando com as qualidades de conexão neurais – ou seja: estamos cada vez com menos memória pois dizemos diariamente ao nosso cérebro que não precisamos mais dele – já que temos tudo na mão a um clique.

O desenvolvimento do cérebro ao longo de milhares e milhares de anos, com sua sensibilidade, com sua capacidade artística, criando arte, literatura, poesia, matemática, física, e evolução humana está em jogo se continuarmos deixando tudo para que o computador resolva.

Me digam: vocês sabem coisas básicas que sabiam antigamente, como o número do telefone da sua mãe?.

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… lendo livros de terror.

O escritor e amigo Santiago Nazarian perguntou no Facebook quais os melhores livros de terror que seus amigos e seguidores já tinham lido. Nazarian, assim como eu, tem interesse no assunto, gosta também de filmes de terror, interagiu em uma postagem minha no Face  sobre filmes do gênero, e fiquei pensando nesses livros perturbadores. Ah, sim, Nazarian escreve livros fantásticos e é autor de um ótimo livro de terror, o Biofobia, que recomendo.

Quando eu tinha uns 14 anos, frequentava muito a biblioteca pública de Americana. Isso foi entre 1984, não tinha videocassete ou TV a cabo (apenas 3 ou 4 canais de TV aberta) e, claro, nada de internet. Americana ainda tinha dois cinemas (hoje não tem nenhum) e nós ficávamos ligados na programação, torcendo para que passassem filmes interessantes entre um ou outro filme dos Trapalhões. As parcas informações que nos chegavam vinham através de jornais e das conversas com o pessoal mais velho e assim nasciam lendas envolvendo filmes – e livros.

Falavam sobre “O Exorcista”, filme e livro malditos, sobre como pessoas passavam mal no cinema ou até mesmo ao ler as páginas do romance. Fiquei intrigado e retirei o livro na biblioteca e li antes de ver o filme – e foi realmente assustador. Movido um pouco pelas histórias, passei dias meio estranhos lendo o livro, sugestionado: senti minha cama levitar e tremer, ficava arrepiado ao entrar na igreja (na época, eu era coroinha) e senti um alívio tremendo quando terminei a leitura, em poucos dias, e devolvi o livro.

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Eu já gostava de histórias de terror, lia gibis nacionais de terror, via filmes na TV, adorava, em especial, a série “Kolchak e os demônios da noite”, que, fiquei sabendo depois, era a série preferida de Chris Carter, o criador do Arquivo X. Mas nada tinha sido como aquele “O Exorcista”.

Coincidentemente, logo depois que li o livro, teve uma única exibição (pelo que me lembro) do filme na cidade – era uma cópia de aniversário de 10 anos do filme de William Friedkin. A censura era de 18 anos, mas eu consegui entrar com minha namoradinha, e foi uma experiência realmente chocante.

Veja: uma coisa é você ver “O Exorcista” hoje, na TV ou no BluRay, depois de ter visto trocentos filmes de terror e com 20 ou 30 anos nesses 2017. Outra coisa é você ver “O Exorcista” em 1984 ou 1985, com 15 anos, no cinema, com a namoradinha.

Ela também gostava, e entramos numas de ler livros de terror, um lia e indicava para o outro e foi assim que li os três livros de “A Profecia” – cada um escrito por um autor diferente, já que cada um deles morria imediatamente após ter escrito cada livro (era o que dizia a lenda). E lemos outros livros B, coleções de mistério, Edgar Allan Poe, depois Agatha Christie, e caímos, inevitavelmente, nos livros esotéricos de Carlos Castaneda e Lobsang Rampa, que faziam sucesso na época. Viajei e perdi muito tempo com eles.

AS_POSSUIDAS_1239490524BUm desses livros, lido ao acaso, me marcou: o “As Possuídas” – que foi publicado também como “As Esposas de Stepford” e, atualmente, como “Mulheres Perfeitas” -, de Ira Levin. Levin escreveu “O Bebê de Rosemary”, que não li, vi só o assustador filme do Polanski, um tempo depois, no início da explosão do videocassete, que afastou a gente um pouco da biblioteca. Mas o “Mulheres Perfeitas” foi uma experiência marcante para mim. Li também o “Meninos do Brasil” dele e gostei – o filme é marromenos.

O filme que vi em vídeo e me aterrorizou como nenhum outro antes – acho que nem mesmo “O Exorcista” – foi “O Iluminado”; e aí fui atrás do romance do Stephen King que li devagar e com muito prazer. Era diferente do filme, uma outra experiência. Não me lembro de ter ficado tão chocado ou aterrorizado; era como se tivesse sido transportado para outro universo, aquele do Hotel Overlook.

À época, não me interessava pelos chamados clássicos; já tinha visto muitos filmes com vampiros e frankensteins na televisão, aqueles filmes da Hammer, não achava que os livros pudessem ser bons ou assustadores… Mas um tempo depois achei que valia a pena tentar, e li, de uma só vez, os romances do Bram Stoker e da Mary Shelley e, uau, percebi que não era nada daquilo que tinha visto nas telas. Depois li também “O Médico e o Monstro” do Stevenson e adorei – se tornou um dos meus livros preferidos.

Dois filmes de terror me levaram, então, para dois livros que entraram em minha lista de preferidos de todos os tempos: “Coração Satânico”, de William Hjortsberg, e “O Silêncio dos Inocentes”, do Thomas Harris.

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Fiquei obcecado com o “Coração Satânico”, assisti dezenas de vezes, e o livro é ainda melhor – e bem diferente. Escrevi sobre ele aqui. Pena que o Hjortsberg não escreveu mais nada à altura, tudo o que li dele depois é chato. O livro está sendo relançado no Brasil pela Darkside. Diferente do Harris: “Dragão Vermelho” é ainda melhor que “O Silêncio dos Inocentes” – e o filme do Michael Mann (Manhunter, aqui “Caçador de Assassinos”, 1986, primeira adaptação de Harris para o cinema), é sensacional; e “Hannibal” é igualmente ótimo, mais violento que os outros dois – e também gosto do filme do Ridley Scott.

(Aliás, por onde anda Thomas Harris?)

Por essa época, final dos anos 1990, comecei a escrever e fui ler livros de meus contemporâneos, me interessei por livros policiais e pors Joseph Campbell, e deixei de lado a literatura de terror, focando mais nos filmes. Li “As Ruínas”, de Scott Smith”, e depois vi o filme – que gosto muito – e o incluo nesta lista para completar os 10.

Recentemente, li e ajudei na publicação deste pequeno livro de contos da amiga Verena Cavalcante (Bruna Oliveira Gonçalves), “Larva” (Editora Oitoemeio) – e considero uma das coisas mais aterrorizantes que já encontrei. São narrativas de crianças sobre coisas reais que elas vivem e veem e entendo que a autora conseguiu algo novo, inusitado e diferente na literatura de terror. Coloco na lista como “livro bônus” por ser um livro de contos e a lista é de romances.

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Taí:

  • 1 – O Exorcista – William Peter Blatty
  • 2 – A Profecia – David Seltzer
  • 3 – Mulheres Perfeitas – Ira Levin
  • 4 – O Iluminado – Stephen King
  • 5 – Drácula – Bram Stoker
  • 6 – Frankenstein – Mary Shelley
  • 7 – O Médico e o Monstro – R. L. Stevenson
  • 8 – Coração Satânico – William Hjortsberg
  • 9 – Dragão Vermelho – Thomas Harris
  • 10 – As Ruínas – Scott Smith
  • 11 – Larva – Verena Cavalcante

🙂

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O que escrever quando o romance está morrendo?

O professor e crítico da The New Yorker George Steiner e o escritor e ensaísta Salman Rushdie entraram em uma discussão no início deste século (já faz tempo), sobre um assunto que geralmente reaparece: o fim do romance.

Steiner disse em uma conferência: “Estamos cansados de nossos romances […] Gêneros sobem, gêneros caem […] Qual romance pode hoje competir realmente com o melhor da reportagem, com o melhor da narrativa imediata” E citou Píndaro (cerca de 400 a.C.), que depois de escrever um poema, disse: “este poema será cantado quando a cidade que o encomendou tiver deixado de existir”, arricando que “dizer isso hoje […] deixaria até o maior poeta profundamente envergonhado”.

Rushdie não concordou e escreveu uma “Em defesa do romance, mais uma vez”. Mas antes da argumentação de Rushdie, vale a pena dar uma olhada nos últimos dois vencedores do Nobel de Literatura para dizer que Steiner erra e acerta. Svetlana Alexijevich, vencedora de 2016, trabalha literariamente o que de mais impactante pode existir na realidade – acho que sua obra pode ser definida assim. E Bob Dylan, vencedor controverso deste ano, pode ser o “nosso Píndaro”: suas canções serão cantadas quando algumas cidades deixarem de existir.

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~Nosso Píndaro~

Rushdie escreveu seu artigo em 2000 e cita V. S. Naipaul, que tinha deixado de escrever romances e teria dito que “o romance viveu além de seu momento histórico, não desempenha mais nenhum papel útil (grifo meu) e será substituído pela escrita factual”. Nem Rushdie, nem Naipaul e, decerto, Steiner esperavam que Naipaul ganhasse o Nobel de Literatura em 2001 e, em 2005, publicasse um romance (contrariando a própria promessa), “Meia Vida”, que tem recorte memorialístico. Interessante notar que vários dos autores vencedores do Nobel neste século tem obras com recortes memorialísticos, como Mo Yan, Imre Kertész, Orhan Pamuk, Le Clezio, Tomas Tranströmer e Patrick Modiano. Steiner não previu que as narrativas com recorte memorialístico podiam fazer frente ao melhor da “reportagem com narrativa imediata”.

No levantamento histórico sobre o alardeado fim do romance, ao longo da História, por vários autores, Rushdie cita George Orwell, que escreveu, em 1936, que “neste momento, o prestígio do romance é extremamente baixo, tão baixo que as palavras ‘eu nunca leio romances’, que cerca de doze anos atrás eram pronunciadas com um toque de pedido de desculpas, agora são sempre pronunciadas num tom de orgulho”.

Não é de hoje que se diz sobre o fim ou a (citando eu grifo acima na fala de Naipaul) inutilidade do romance. Mas Rushdie observa algo interessante a esse respeito: Steiner, Naipaul e Orwell, britânicos, têm uma visão eurocentrista e, não por acaso, os grandes novos nomes da literatura mundial, inclusive vencedores do Nobel, que pode ser usado aqui como um termômetro, estão em países considerados periféricos em termos de literatura. Ok, britânicos levaram três prêmios Nobel neste século, mas quando esperariam uma bielorrusa, uma canadense, uma austríaca, uma romena, um húngaro, um peruano, um sujeito das ilhas Maurícia, e dois chineses?

(Rushdie diz que considera a produção norte-americana muito boa no momento, Roth, Pynchon, Cormac MacCarthy, Michael Cunningham, Gay Talese, entre vários outros, ainda estão vivos e uma nova geração está se saindo muito bem.)

O fato é que talvez um novo romance esteja emergindo, segundo Rushdie: um romance pós-colonial, um romance descentralizado, transnacional, interlingual, multicultural – e ele está em fase de gestação ampla, muitas vezes dentro de grandes centros, como a França, que gerou um “Submissão”, polêmico livro de Michel Houellebecq, ou mesmo em Londres ou nos EUA com autores imigrantes que escrevem em inglês – e os exemplos são os mais diversos. Temos indianos e japoneses escrevendo em inglês. Não há um centro para essa produção: o centro, agora, é a margem. Nesse sentido, Rushdie destaca, em seu artigo, o perigo que a literatura enfrenta, em especial em redutos ditatoriais ou com ampla censura política e/ou religiosa – e isso ele conhece bem. Mas vamos nos ater ao que se pode produzir e onde se pode produzir:

O novo romance não é mais a visão do Velho Mundo burguês.noviolet.jpg

A visão de Steiner, com a lanterna de Rushdie apontada para ela, nos dá, porém, uma ideia muito específica deste “novo romance”. Mas coloca, talvez, que “todo talento criativo é do mesmo tipo” – quando, obviamente, não é.

Temos “narrativas realistas imediatas e/ou memorialísticas, transnacionais, multilinguais, apontando para uma (des)ordem mundial; abordando problemas contemporâneos e/ou apontando para eles pela ótica história da experiência já vivida” como o modos de fazer do novo romance, certo?

Parece que sim.

Mas e todo o resto? Não há espaço para a ficção científica, o romance de estilo, a sátira, enfim, tudo o que não tem esse viés?

Com a resposta, o escritor.

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o primeiro mandamento do pretenso escritor

Antes de pensar em escrever um livro, alguém que se considera um ESCRITOR deve se portar como UM ESCRITOR. Um escritor inventa personagens, enredos, situações e mundos e, portanto, é bom que ele conheça uma grande galeria de personagens, enredos, situações e mundos. Quanto maior o seu repertório, neste sentido, mais vai conseguir criar, desenvolver e encontrar multiplicidade em personagens, enredos, situações e mundos. Para tanto, uma maneira um pouco artificial mas importante (também por outro motivo, que explicarei adiante) – é: LER. Esse é o primeiro mandamento.

O escritor deve ler muito, sistematicamente, e de tudo. Se ele quer ser um escritor de tramas policiais deve ler todos os textos importantes da categoria, mas não apenas eles. Deve ler os livros que os autores de romances policiais liam e acham importantes. Deve ler as biografias e autobiografias dos autores. Mas não pode ficar fechado nesse universo, ou vai apenas reescrever e emular o que já foi escrito: deve ler coisas diametralmente opostas, como dramas, comédias, ensaios, entrevistas… O escritor deve saber que para uma pequena situação, digamos, dramática, do seu romance, a resposta pode estar naquele conto que leu na adolescência. Ou na entrevista que um jogador de futebol concedeu à revista Playboy. Ou até num programa de TV. Aconteceu comigo: em uma entrevista que assisti na TV, por acaso, do ator e cantor Tony Tornado, me veio a ideia para um conto que foi traduzido para três idiomas. Eu não estava procurando um tema para um conto: uma simples cena da história que Tornado contou durante a entrevista disparou a ideia para o conto, que se chama ME AND JANIS ALI.

Essa é outra coisa intrínseca do escritor: estar aberto e preparado para saber que uma história pode nascer de uma epifania, de um momento simples, de uma frase, de uma imagem. Umberto Eco conta que decidiu escrever O Pêndulo de Foucault a partir de duas imagens: a exibição do pêndulo original, que ele viu e achou incrível, e a imagem de um garoto solitário tocando uma trombeta num cemitério. Ele diz que entre as duas imagens ele desenvolveu seu romance.

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Eu participava do Seminário Genre, de Robert Mckee, no Rio de Janeiro, em 2013, e uma das palestras era sobre o filme Carnal Knowledge, de 1971, de Mike Nichols, com Jack Nicholson e Art Garfunkel. Mckee adora esse roteiro e começou a discorrer sobre o filme, mostrando algumas imagens. Eu estava com um pouco de sono… Tinha visto o filme, tinha uma lista de filmes para assistirmos antes do seminário… E recentemente eu tinha visto a nova versão do Grande Gatsby e lido o livro do Fitzgerald… De alguma maneira, enquanto Mckee falava sobre os personagens e a história, eu me lembrei do Grande Gatsby, que também é uma história sobre o relacionamento de dois homens, assim como o filme do Nichols, e me veio a ideia quase completa para a trama de A VIAGEM DE JAMES AMARO. Num sentido amplo, posso dizer que meu livro é um amálgama de CARNAL KNOWLEDGE e O GRANDE GATSBY.

(Aí, ao pesquisar sobre Carnal Knowledge, fiquei sabendo um pouco sobre a carreira de Garfunkel no cinema e que ele abandonou as telas depois que a namorada se matou. Ela se chamava Laurie Bird e tinha feito apenas dois filmes e então eu fui lá ver os filmes dela e saber um pouco sobre ela e acabei escrevendo um conto sobre o que descobri. Foi publicado no blog de Estudos Lusófonos da Sorbonne Paris IV, chamado “Two-Lane Blacktop”. Então veja como as coisas podem se revelar para um escritor.)

É também importante – e Mckee ressalta isso – que o escritor seja idiossincrático (fico sabendo que em Portugal se diz “idiossincrásico”). O que seria isso, basicamente? É ter uma personalidade forte, mas aberta, encarar o mundo de maneira pessoal, sem abraçar correntes. O grande autor não deve ter uma religião, nem uma grande ideologia, ou ser místico ou nitidamente de uma corrente política. O engessamento das ideologias geralmente leva o escritor a querer defender suas ideias ou ideais em seus romances. Salvo honrosas exceções, poucos dos grandes autores são religiosos fanáticos ou têm uma cor partidária clara. Os idiossincráticos trabalham melhor personagens diferentes de si e entre si mesmos, conseguem entrar na mente de personagens cujo comportamento e ações desaprovam, mas não o julgam (o personagem). Pessoas que não acreditam em nada são mais livres.

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Ler também faz o escritor apreender sobre ritmo. Amplia seu vocabulário. É importante ler poesia. Dicionários. Ser curioso para com as palavras.

E, por que não?, livros sobre livros, livros sobre edição de livros, sobre processos criativos de escritores… Já indiquei, mas não me canso, de “A Hora Terna do Crepúsculo – Paris nos anos 1950, Nova York nos anos 1960 – Memórias da era de ouro da edição de livros”, de Richard Seaver, que editou Beckett e Burroughs, entre vários outros, lindamente escrito, e “Max Perkins, um editor de gênios”, que atuou no início do século XX nos EUA e editou Fitzgerald e Hemingway, entre centenas. Lendo esses livros entendemos um pouco sobre o processo criativo dos autores, sistemas da indústria e o funcionamento do mercado – além de descobrirmos figuras incríveis por trás dos processos. Após ler esses livros e convidado para debater o cenário mercadológico, também escrevi um texto para o blog de Estudos Lusófonos.

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Depois, e finalmente, antes de se dizer escritor, o pretenso artista nesses tempos de tantas histórias e tanta literatura e filmes e séries de TV, deve ler o DOM QUIXOTE de Cervantes. O livro fundador da literatura moderna, pouco lido, aponta os caminhos da construção literária de maneira mais direta que a maioria dos cursos de escrita criativa e quetais.

Talvez exista uma certa pressão nessa insistência para que o escritor leia. Ele não deve se forçar – na verdade, ler deveria ser um ato natural e prazeroso para ele. Ninguém deve, na verdade, se forçar a ler. Deve haver, claro, um incentivo à leitura nas primeiras fases escolares, já que LER é a primeira premissa para o estudo e para a interpretação dos fatos -, então é fundamental que todos SAIBAM LER… E literatura, em especial, é um gosto que se adquire, mas são poucos os verdadeiramente apaixonados. É relativamente fácil que um leitor apaixonado se torne um escritor – ele vai conhecendo os caminhos enquanto lê. Os caminhos não são ensinados em salas de aula ou cursos de escrita. Quando se quer ser um atleta, deve-se treinar. O treino para escrever é ler.

Assim, sem pressa, vai o escritor lendo e acumulando ideias e projetos. São muitos; às vezes mais de uma ideia e um projeto por dia. Poucos vão adiante – e isso é natural. Às vezes pedaços de ideias e projetos se juntam. A mente do escritor fica em constante processo de imaginação.

E em determinado momento, ele decide escrever. E que história ele define? Quais personagens quer desenvolver? Que pergunta ele se faz quando abre o arquivo no computador? Ele escolhe um título para o livro antes ou depois? Ele vai escrever um romance, um roteiro para cinema, uma peça de teatro ou uma série de TV? Por onde começar?

Mckee, em seu Story, diz que “Uma boa história significa algo válido a dizer que o mundo queira ouvir”. Depois de todos esses séculos de histórias, depois da Bíblia, de Shakespeare, das Mil e Uma Noites, de Roth e Borges, e de todos esses vencedores do Nobel e do Pulitzer e do Man Booker Prize e de todos os autores que estiveram nas listas de mais vendidos, e de todos os filmes e séries de TV, ainda teremos histórias importantes, interessantes, relevantes e que podem ser contadas de maneira sensacional, impactante? E que possa interessar ao leitor? E com personagens sólidos, originais?

Responda, escritor.

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