william hjortsberg, autor de “coração satânico”, morre aos 76.

Fico sabendo da morte de William Hjortsberg, autor de um dos meus romances preferidos, que deu origem a um dos meus 10 filmes preferidos de todos os tempos, “Coração Satânico” (Parker, 1987). Fiquei sabendo através de uma postagem de Fábio Fernandes no Facebook, onde alguém comentou que o livro será reeditado pela Darkside. Aleluia! É um grande romance – e bem diferente do filme. Há quase 10 anos escrevi o texto abaixo sobre o livro e o filme em algum lugar, e republico aqui, caso alguém se interesse:

Coração Satânico: o livro & o filme.

Quando assisti “Coração Satânico” pela primeira vez, fiquei alucinado. Ali estava um dos meus diretores preferidos, dois dos meus atores preferidos, cenas impressionantemente fotografadas por um dos melhores fotógrafos do cinema contemporâneo, uma trilha arrebatadora e – principal – personagens incríveis em uma história sensacionalmente original.

Pois fui atrás do livro e encontrei um romance policial ainda melhor, um dos melhores que já li, melhor ainda que o filme. O autor era William Hjortsberg, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Pois é um escritor cultuado de contos e narrativas de ficção, um dos seus contos foi transformado no filme “A Lenda”, de Ridley Scott.

Quem pediu que o próprio Hjortsberg trabalhasse no roteiro de sua novela “Falling Angel” foi o lendário produtor Robert Evans. John Frankenheimer e Robert Redford se interessaram pelo projeto. Mas a pergunta que todos faziam era: não dá pra ter um final feliz? Felizmente o autor brigou para manter o final e ofereceu o roteiro para Brian DePalma, que se interessou. Foi DePalma quem sugeriu que parte da trama fosse transferida para New Orleans – no livro, a história se passa toda em New York.

Hjortsberg comentou sobre a idéia com Alan Parker que abraçou a produção. A entrada de DeNiro e Mickey Rourke, dois dos melhores atores de suas gerações, criou a perspectiva para um grande filme.

Parker chamou seu habitual fotógrafo, Michael Seresin, que tinha feito um excelente trabalho em “O Expresso da Meia-Noite” e “Asas da Liberdade” – e ele se superou nas luzes estouradas, trabalhadas com ventiladores, que geram sempre sombras duras e tenebrosas durante o filme. Aliás, discussões sem fim aconteceram por conta da presença excessiva de ventiladores do filme. Alguém arrisca alguma teoria?*

Seresin ficou amigo de Mickey Rourke e ambos encabeçaram o projeto “Homeboy”, único filme dirigido por Seresin. É um bom filme sobre um lutador de boxe decadente, personagem que Rourke reencarnou depois no ótimo “O Lutador”.

A trilha ficou a cargo de Trevor Jones, que voltaria a trabalhar com Parker na excelente trilha de “Mississipi em Chamas”. O trabalho de Jones não seria tão brilhante se não fosse pela presença do saxofonista-sensação do momento, Courtney Pine. Jones fez uma projeção do filme enquanto Pine improvisava no sax – e assim a trilha foi mixada. Um outro filme teve trilha composta da mesma maneira: “Ascensor para o Cadafalso” (Malle, 1958), com o trumpete de Miles Davis.

51ED597qdcL

O filme ficou bárbaro, assustador. Mas é um filme imperfeito, algumas sequências parecem desconexas. Quando Parker viu a trilha que tinha em mãos, experiente após “Pink Floyd – The Wall”, deixou de lado a lógica e deu preferência para a sensação. Funciona. Depois de assistir a várias vezes, as deficiências de montagem vão ficando evidentes. Mas o filme funciona completamente no que se propõe na(s) primeira(s) audiências.

Apesar de Parker ter sido indicado ao Oscar por “O Expresso da Meia Noite” – e, depois, por “Mississipi em Chamas” -, “Angel Heart”  foi solenemente ignorado pelo Oscar. Seu maior sucesso de bilheteria foi na Alemanha – talvez não por acaso, existe um eco de tragédia faustiana nele.

AH-11

Sobre o filme, escreveu Horst Peter Koll, na film-dienst: “[…] uma estratégia narrativa muito bem calculada: os acontecimentos são precedidos de ruídos, visões de sonho assustadoras encontram em estado de pesadelo seu remate em diversos níveis da ação, personagens com o contorno muito bem definidos perdem a identidade, porque as imagens não são compostas segundo as leis da razão e da lógica, mas nascem de uma realidade sintética, que só pode ter validade no cinema”.

Angel-Heart-161-1024x683

*Sobre os ventiladores no filme, Parker disse à revista Première: “[…] no filme aparecem muitos ventiladores. Sempre indicam a próxima morte. Verificamos que esse elemento funcionou muito bem como imagem e símbolo, mas a intenção não foi essa. Naturalmente a maior parte dos jornalistas não acredita nisso, mas, é verdade, não fotografei os ventiladores para produzir qualquer efeito. Introduzi-os no filme porque em toda parte em que chegava, em Nova Iorque ou Nova Orleans, enquanto trabalhava no roteiro, vi esse tipo de ventilador – com os mesmos tipos de pás, que sempre pareciam fazer parte das minhas costas. Isso me perseguiu e entrou naturalmente no roteiro, como algo que se tivesse imposto a mim”.

Advertisements
Standard