… a problemática da alegoria erótica da liberdade.

(do artigo “Liberté, Liberté, Liberté – Fantasias Masculinas sobre a liberdade”, em “Terrenos Vulcânicos”, de Dolf Oehler)

[trecho inicial:]

Uma vez que a liberdade é mulher, e uma bela mulher, deveria ser fácil para nós amá-la. Isso supondo que seja fácil amar a uma mulher, a uma bela mulher, do modo como nós desejamos amar a liberdade: apaixonada, ilimitadae inquebrantavelmente. Mas como se concilia com a nossa liberdade o amor inquebrantável a uma só Dona Liberdade? E por que deveria ela mesma, a maravilhosa, amar somente a nós e a ninguém mais? Caso ela ame também nossos rivais e inimigos, como poderíamos ser felizes com ela? Se ela ama a todos, como podemos não lhe querer mal? Como não desesperar da liberdade, se ela é uma puta? Mas se ela não ama a todos, ainda será a liberdade? É claro: ela não ama seus inimigos, e os inimgos dela são também os nossos. Mas devemos assumir que todos os nossos inimigos sejam igualmente os dela, e que todos os seus adoradores se encontrem entre os nossos amigos, com os quais estamos prontos e a postos para partilhá-la sem ciúme? Ou não seria melhor deixar essas especulações de lado, já que a liberdade é sagrada, uma deusa ou mãe sublime, intocável e inacessível aos nossos desejos profanos? Contudo, se ela é uma pessoa tão altiva e extramundana, como nos permitimos dizer que a amamos? Não seria ela a mãe generosa, acolhedora e cheia de amor para conosco, seus filhos? Mas será que, em relação a liberdade, a imagem da infância, da menoridade e da passividade não seria despropositada, ou até humilhante para nós? Se a liberdade é santa ou maternal, não haveria o risco de sua proximidade sublime ser vazia? Entretanto, se ela não for um ser supra-sensível, mas sensível, não seria um perigo o seu abraço poderoso? Somos nós que temos de conquistar a liberdade ou é ela que vem nos libertar? Ela se entrega a nós ou espera, pelo contrário, que a venhamos tomar?

São perguntas sem fim sobre a liberdade, todas postas em forma de símile, mas não apenas isso. O radical dessa vontade de saber é erótico, uma vez que a liberdade é uma alegoria da amada ideal, daquela mulher que deve fazer da nossa vida um único coup de foudre.

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(coupe de foudre)

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