“a verdade” e a pior tentativa de suicídio de brigitte bardot

 

Brigitte Bardot encontrava-se em uma casa isolada, a cerca de duas horas de Paris, com Mercédès, amiga da família, no dia 28 de setembro de 1960. Fazia um calor infernal, as cigarras estavam numa grande algazarra. Havia um jantar marcado na casa de amigos logo mais, às nove da noite. Brigitte estava triste. Mercédès serviu champanhe para as duas às seis da tarde, Brigitte pediu para ficar sozinha com sua taça e fez com que suas lágrimas caíssem dentro dela – e ficou observando como as borbulhas se agitavam. Depois, chamou a amiga e informou que não iria ao jantar, implorando para que ela fosse.

Assim que Mercédès saiu, Brigitte terminou o champanhe engolindo junto com cada gole um comprimido de Imménoctal, um barbitúrico poderoso. Toda caixa se foi. Cambaleante, ela foi até o banheiro e apanhou uma lâmina de barbear.  Avançou para a noite, parando próximo de um curral, onde se sentou. Com todas as forças, enfiou a lâmina primeiro no pulso esquerdo e depois no direito – e deitou-se, observando as estrelas. Não sentia dor, apenas o sangue jorrando em golfadas. Era sua quarta ou quinta tentativa de suicídio – e a mais séria. Era também seu aniversário de 26 anos.

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Cerca de um ano antes, ela recebera o convite para participar de um filme do temido cineasta Henri-Georges Clouzot, La Verité, no papel principal. Embora já tivesse trabalhado com René Clair e Autant-Lara, Clouzot estava um degrau acima deles: era um dos mais respeitados diretores do mundo, tendo vencido em Cannes em duas ocasiões. Embora todos conhecessem os métodos pouco ortodoxos de Clouzot em lidar e preparar os atores, muito agressivo, e obsessivo com a direção a ponto de ensaiar e filmar dezenas de vezes a mesma cena (coisa que Bardot odiava), ela não pôde recusar.

Clouzot procurava um ator para ser o par de Bardot no filme, para o personagem que ela iria negar, amar e depois matar. Belmondo, Hugues Aufray, Gérard Blain, Marc Michel, Jean-Pierre Cassel e Sami Frey fizeram testes com ela em uma cena de amor tórrido durante um dia inteiro. O semi-desconhecido Sami Frey foi o escolhido para o papel do aspirante a maestro que namora uma violinista e se apaixona pela irmã dela, a liberal Dominique Marceau, Bardot.

Bardot estava se recuperando de uma depressão pós-parto – da qual, na verdade, nunca se recuperou, já que nunca aceitou totalmente o filho. Seu marido, Jacques Charrier, estava internado em uma clínica com transtornos mentais. Ela administrava um caso com Alain Delon. E, agora, iria encarar o trabalho com Clouzot.

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Como se tudo isso fosse pouco, uma nova bomba explodia: seu secretário particular e confidente, Alain Carré, vendera informações sobre B.B. para o jornal popular France-Dimanche. Intimamente, a traição foi devastadora para ela. Publicamente, a França e o mundo conheciam as angústias, querelas, a recusa da maternidade, as correspondências, os estados de espírito, os suicídios fracassados, os amantes, a verdadeira Brigitte. O julgamento sobre ela acontecia nas esquinas.

As filmagens de La Verité tiveram início em dois de maio. A excitação natural de iniciar um novo filme deu lugar ao cansaço de ter que lidar com Clouzot. Ela o chamou de despótico. E havia os mexericos dos figurantes, as línguas compridas dos maquiadores e de todo staff do filme sobre o que aparecia nos jornais.

Um dia, em uma cena particularmente difícil, onde Brigitte deveria chorar histericamente, ela, descontrolada, teve uma crise de riso nervoso, um ataque de nervos. Clouzot aproximou-se dela, marchando firme e deu-lhe meia dúzia de bofetadas duras. Ela retribuiu. Furioso, diante de toda equipe, ele pisou, com o salto de seu sapato, nos pés desnudos de Brigitte, que soltou um urro, chorando copiosamente de dor, com o dedinho do pé direito esmagado. Clouzot apanhou a câmera e filmou a cena, que está no filme.

Brigitte registrou boletim de ocorrência contra Clouzot, pediu dias para se recuperar e o caso apareceu nos tabloides mais uma vez.

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Noutra vez, havia uma cena de suicídio e Clouzot queria Brigitte babando, espumando pela boca, respirando ruidosamente. Não estava bom. Brigitte tinha dor de cabeça e pediu duas aspirinas. Clouzot deu-lhe duas pílulas, que ela engoliu achando que fosse o remédio, mas eram dois soníferos potentes. Tentando se manter acordada, Brigitte revirava os olhos e babava – e Clouzot assim filmou, a cena também está no filme.

Com uma ameaça de processo, Clouzot foi mais cauteloso com a maior estrela francesa de então, a partir daí.

Sami Frey, jovem ator, também sofria com o diretor. Sensível, lia Brecht e ouvia Bach nos intervalos das gravações. Namorava a atriz Pascale Audret e era muito discreto. E Brigitte ficou tremendamente apaixonada por ele.

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As cenas entre os dois eram tórridas e Clouzot não queria beijos cênicos. Pudico, Sami teve que se superar para conseguir a intensidade sexual que o diretor exigia. Mesmo sendo rodado em preto-e-branco, em alguns momentos foi preciso utilizar maquiagem para esconder o rubor no rosto do ator. Mas ele também foi se apaixonando por Brigitte.

Na primeira vez em que estiveram juntos, amaram-se com enorme pudor, nas palavras de Brigitte. E juraram amor eterno.

Enquanto isso, Brigitte contratou uma pessoa para cuidar de sua correspondência, que se avolumava. A maioria das cartas era de propostas sexuais e até mesmo de fotos explícitas. Brigitte estava sendo assediada publicamente. Em várias das correspondências, era xingada por não ter aceitado a maternidade, por ter tido casos enquanto estava casada, por ter sonegado impostos. Um paralelo muito estranho se estabeleceu entre a “nova” Brigitte Bardot e sua personagem em La Verité, que também é julgada por conservadores menos pelo crime que cometeu e mais pela vida desairosa que levava.

Em meio ao caos, Sami deixou Pascale e alugou um apartamento para se encontrar com Brigitte. Eles escutavam discos de música clássica e se amavam discretamente. As últimas cenas filmadas de La Verité eram terríveis para Brigitte, já que todas se passavam com Marceau, sua personagem, no banco dos réus. Era como se estivesse sendo julgada de verdade. Clouzot, acompanhando as fofocas nos jornais, cuidava para que esse paralelo ficasse ainda mais claro, deixando a interpretação de Brigitte mais realista e, ao mesmo tempo, seus nervos em frangalhos.

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Havia ali um monólogo muito importante a ser dito por Brigitte/Marceau no entrecho final do filme – e a atriz se preparou para ele. Clouzot estava impaciente, achando que ela não fosse dar conta de transmitir o que deveria. No estúdio, na cena do tribunal, havia centenas de figurantes e alguns dos atores veteranos mais respeitados do cinema e do teatro francês. Era o momento de Brigitte brilhar.

Clouzot disse a ela que era preciso sinceridade, que a sinceridade deveria prevalecer sobre a técnica – e então Brigitte calaria todos os idiotas. “Luz, Câmera, Ação!”.

Ela esperou alguns segundos – e então sua voz se elevou. Rouca, soluçando, ela disse o que tinha para dizer. Chorando, ao final da fala, caiu sentada com a cabeça entre as mãos, numa crise real de desespero. Houve um momento de silêncio e… “Corta!”.

Toda sala a aplaudiu em pé. Não houve segunda tomada, não houve cena de fundo, não podia ser melhor. Brigitte não alcançaria mais tal altura como atriz.

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Mas havia ainda mais uma cena a filmar: a do suicídio da personagem em sua cela. A morte de Marceau significava que a humanidade era podre e que só através dela podia-se conseguir a paz. A personagem quebrava um espelho e enterrava uma parte pontiaguda em seu pulso. Brigitte sentia o sangue cenográfico escorrer pelo braço, pela mão, e achou que aquela era uma boa sensação.

Terminadas as filmagens, Brigitte e Sami foram flagrados por Jacques, marido de Brigitte, que havia deixado a clínica. Jacques agrediu seriamente Sami, que fugiu com Brigitte para a casa de amigos. Durante a fuga, ambos só falavam em morrer.

A vida de Sami, porém, teve um revés: ele teve que se apresentar ao exército. Se ele fosse obrigado a servir, jurou que se mataria. Brigitte também jurou. Foi na semana de 28 de setembro de 1960.

Naquela noite do dia 28, Mercédès foi jantar na casa dos amigos, conforme marcado. Mas, ainda nos aperitivos, sentiu remorso por ter deixado Brigitte sozinha. Ao voltar para casa mais cedo, não encontrando a amiga, chamou vizinhos que vasculharam o campo até a encontrarem. Ao contrário da personagem Dominique Marceau, ela tinha fracassado na tentativa de se matar.

Os jornais estavam satisfeitos com mais uma manchete sensacional envolvendo La Bardot.

Depois de algumas semanas, Sami foi dispensado do exército por causa de seu estado mental. Um amigo ajudou que ele se encontrasse com Brigitte em uma casa de campo afastada de Paris. Brigitte conta que “tínhamos medo de nos quebrar quando nos abraçávamos”: ambos estavam esqueléticos, ela tinha ainda as ataduras nos pulsos.

Eles moraram juntos por alguns meses até se recuperarem – e foram viver suas vidas. Sami ainda atua no cinema. Apesar de ter feito filmes com Louis Malle e Godard, Brigitte considera La Verité seu ápice. Ela deixou o cinema em 1973, antes de completar quarenta anos de idade.

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Em 2 de novembro de 1960, La Verité estreou com enorme sucesso. O crítico do Le Monde cravou: “Brigitte Bardot tal como realmente é, enfim”.

Clouzot não poderia ter escolhido melhor atriz para Dominique Marceau.

 

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