… ‘donnie darko’ é sobre pulsões sexuais adolescentes

donnie 1A Darkside Books colocou no mercado mais um livro lindo, dessa vez sobre o filme “Donnie Darko” (2001). O livro traz um pequeno texto do ator Jake Gyllenhaal, que faz o personagem principal, uma looonga entrevista com o diretor, o último roteiro do filme (segundo o livro, o roteiro que foi entregue para os atores antes do início das filmagens) e as páginas do livro “A Filosofia da Viagem no Tempo”, que é citado no filme, escrito pela personagem Roberta Sparrow, a Vovó Morte. É interessante ler o conjunto, mas o mais revelador ali é mesmo a entrevista com o jovem Richard Kelly, realizada um ano e meio depois do filme ter sido lançado, quando começou a crescer no boca-a-boca. Kelly tinha 28 anos.

Então, Kelly escreveu o roteiro, produziu, filmou e finalizou o filme quando tinha entre 23 e 26 anos de idade, um jovenzinho cheio de som & fúria. E tesão, certo?

donnie 2Pois lendo a entrevista de Kelly no livro podemos perceber que é exatamente disso que o filme trata, embora ele desconverse e aponte para (vários) outros lados. Sob o pretexto de fazer um filme sobre viagem no tempo ou de criar um herói sombrio que salva a humanidade, “Donnie Darko” é um filme sobre a pulsão da sexualidade na adolescência; pulsão que faz com que todos os adolescentes queiram ser adultos, mas se sintam carentes e impelidos a negar o crescimento, desejando voltar à infância. Acontece com todo mundo, em graus diferentes, deve ser o que aconteceu com o próprio Kelly; o garoto sensível, criado por pais liberais e inteligentes, numa cidadezinha do interior, nos anos 1980 – ou seja: exatamente como Darko.

(Aliás, o clima oitentista do filme colaborou para transformá-lo em uma peça cult; justamente o que está acontecendo com “Stranger Things” – os trintões que viram o filme nos anos 2.000 são os mesmos quarentões que estão babando na série da Netflix agora.)

Voltando à entrevista: nela Kelly desconversa que toda história tem um pouco de autobiográfica, blá, blá, blá, mas quando perguntado sobre seus livros preferidos ou que o influenciaram, o diretor cita justamente os livros que aparecem e são citados no filme; seus pais são exatamente como os pais de Darko no filme; até o relacionamento que Darko tem com Gretchen parece ser igual ao que Kelly teve na adolescência. Enfim: o filme é totalmente autobiográfico! Então vamos pensar sobre como Kelly, consciente ou inconscientemente, materializou isso ao longo do filme:

  • Não há viagem no tempo: o buraco da minhoca é que as pessoas são num momento crianças e, no outro, adultas; transformam-se ao longo da vida, não são sempre as mesmas pessoas ao longo da vida, mas outras pessoas, diferentes, até com personalidades diferentes. A viagem no tempo é crescer.
  • Durante a palestra motivacional no filme, Darko faz uma intervenção praticamente explicando a intenção do filme: ser um elemento desestabilizador do status quo para que a sociedade avance, melhorando a próxima geração, sem se apegar ao modelo social vigente (os pais).
  • Durante o diálogo com Frank, o homem vestido de coelho, no cinema, quando Darko pergunta por quê ele veste a fantasia e Frank retruca perguntando por quê Darko está fantasiado de homem revela que Darko ainda não é homem, ele está posando de homem com aquela garota do lado, quando fuma cigarros, mas é um menino inseguro, querendo a atenção e o carinho da mãe. O coelho então tira a fantasia e diz que se chama Frank, que é o nome do pai dele e do pai do pai dele – como filhos que crescem e assumem, naturalmente, o lugar do pai na sociedade. Darko quer ocupar seu próprio lugar, mas, ao mesmo tempo, quer continuar a ser criança e tem medo do que pode lhe acontecer se tentar se impor.
  • O coelho representa a própria pulsão sexual e de morte súbita (do ego). Em algum momento do filme, alguém diz que “coelhos só querem foder” – que talvez seja, no fim, o que Darko quer (e, possivelmente, Kelly). Quando Darko apunhala o espelho (e o coelho) quer matar seu ego, que é o que faz ser tão diferente e desestabilizador. Será que ele não podia, afinal, ser como o seu pai e se casar e foder tranquilamente – ou seja, crescer enfim?donnie 3
  • Os adolescentes e até as crianças no filme têm comportamentos distorcidos, parecidos com os de adultos. Falam palavrão, fumam, são arrogantes, blasfemam e ofendem-se umas às outras. Parecem crianças imitando adultos – com o exagero característico da imitação. Querem ser ou não querem ser adultos? O filme é sobre isso.
  • Tudo se passa em Middlesex, o que não deixa de ser uma referência a um “sexo que ainda é só metade”, ainda não está pronto, maduro, formado.
  • O facho de água que sai do peito e conduz alguns personagens em algumas cenas é fálico e, possivelmente, aponta para o desejo do personagem, não exatamente o que ele faz ou quer conscientemente.
  • Há diálogos no filme sobre o que os adolescentes vão ser quando crescer, ou sobre o que querem ser, e essa indecisão, a solidão e a confusão da adolescência, com a pulsão sexual latente, conduzem o filme.
  • O ápice do filme se dá num Halloween, que é quando “os fantasmas saem do armário”, podendo significar “assumir o que realmente se é” – e aí acontecem várias mortes, afinal “morte é transformação”.
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[Darko com a Vovó Morte]

  • Não por acaso, a autora do livro sobre “viagens no tempo” é a belezinha aí de cima, a Vovó Morte.

Podia escrever mais sobre o filme, mas não sou o Slavoj Zizek.

🙂

 

“Cellar door” é mais uma referência truncada no universo Donnie Darko: teria sido J.R.R. Tolkien, não Edgar Allan Poe, quem disse que “Cellar door” é a expressão mais bela da língua inglesa – e aí podíamos fazer todo um comparativo entre “Donnie Darko” e “O Senhor do Anéis”, não?

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O diretor Kelly é grande fã de Spielberg, em especial de “E.T.”, então a fotografia de “Donnie Darko” copia a de “E.T.”, com o uso de lentes anamórficas. No filme de Kelly, os adolescentes também andam de bicicleta. E tem a Drew Barrymore.

Outra influência é Stephen King, a mãe de Darko lê “It” e um palhaço parecido como do livro/filme aparece em Darko. As mesmas referências que temos em “Stranger Things” – e, assim, “Donnie Darko” acaba sendo também uma referência ao seriado da Netflix.

Fãs temporões de “Stranger Things” podem se revelar uma nova legião de fãs de “Donnie Darko”. Isso seria legal.

Na entrevista de Kelly no livro ele diz que trabalhou rápido e com pouco dinheiro em “Donnie Darko” e caso lhe dessem muito dinheiro e liberdade total, ele possivelmente faria alguma merda. Ele fez no filme seguinte. E no próximo, “A Caixa”, até acertou no tom, mas esqueceu que um grande filme é feito com grandes personagens. Como cresceu e ganhou dinheiro, Richard Kelly teria deixado as pulsões de lado? Onde estaria seu tesão?

(Para quem quer insistir na coisa da Viagem no Tempo, tem esse vídeo em português que ilustra bem a teoria mais ampla e disseminada sobre o filme.)

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