…Mais um romance policial satírico – e isso não é ruim.

[Repostando esta resenha, pois ela estava em um site que saiu do ar.]

“A Pedido do Embaixador – Um Caso Ordinário do Incorrigível Detetive Andrade”, de Fernando Perdigão, é uma delícia. Em tempos de romances brasileiros sisudos, cerebrais, experimentais, de elaboração linguística e quetais, em sinuosos jogos verbais e pessoais, de autoficção e realismos brutais, encontrar uma história rápida, engraçada e incrivelmente bem escrita é um alento.

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[Foto roubada do site literaturapolicial.com]

Acho que foi o Milan Kundera quem disse que os franceses têm problemas com o entretenimento – e que tudo que seja apenas diversão, no campo das artes, é ruim. Os franceses contaminaram o mundo com essa visão. Não há nada de errado com um livro – ou um filme – divertido e, muitas vezes, a simples diversão, aparentemente escapista, divertidamente tola, pode apontar para temas e reflexões colaterais muito mais sérios que muitas obras ditas  “inteligentes” ou “adultas” ou “e-la-bo-ra-das” ou, ainda, que são apresentadas para o público como “polêmicas”. É o caso do livro de Perdigão.

Mas não devemos nos ater tanto a essa profundidade. Esqueçamos os franceses.

Em “A Pedido do Embaixador” temos um crime que será investigado pelo tira e sua ajudante, num esquema inicial bastante próximo do romance policial padrão. Fica claro que se trata de um romance policial satírico, que é um sub-gênero com alguma tradição no Brasil – caso do Ed Mort de Luiz Fernando Veríssimo ou das emulações de Jô Soares. Mas o romance pega carona em um outro sub-gênero, que é o romance LGBT – o que o aproxima do meu “Elvis & Madona – Uma Novela Lilás”. Foi o que me levou a lê-lo.

O detetive Andrade é um desses tiras das antigas que acreditam na lei. É também preconceituoso e desagradável, mas canta no coral do bairro, tem uma namorada de profissão duvidosa, uma empregada a quem adora irritar e uma relação meio paternal com sua auxiliar meio macha, a policial Lurdes. O ambiente é a Copacabana degradada, cheia de gays. É no universo dos gays que um crime será cometido: a morte de Rubens – ou Ruba – um grande pegador. Entre os suspeitos, os dois sócios de Rubens numa agência de turismo sexual gay, ex-namorados e peguetes, paqueras, michês… Quem quer saber quem deu fim ao Rubens é o tal embaixador do título, grande “amigo” do sujeito. Andrade terá que se superar para chegar ao assassino em meio a tanta purpurina.

O resultado importa pouco. O que faz de “A Pedido do Embaixador” uma ótima pedida são as tiradas do policial Andrade e sua relação com suas mulheres (a namorada, a empregada e a auxiliar) e com os gays suspeitos. Os diálogos abundantes e ágeis garantem gargalhadas a cada página.

O preconceito do detetive Andrade não deve, porém, incomodar os politicamente corretos – o personagem é produto de uma era. Mas comenta a nossa própria era, essa de tantos saudosos dos comportamentos do século, digamos, XIX na taimelaine do feicebuk. Nesse sentido, o desenrolar do romance pode servir para que nós mesmos, leitores, pensemos um pouco sobre os nossos próprios preconceitos.

Mas isso, depois de rir bastante.

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