… “transformer – a história completa de lou reed” por victor bockris

Estão vendendo Victor Bockris, autor de “Transformer”, como amigo de Lou Reed. Se algum amigo meu escrever uma biografia minha com as tintas que Bockris pinta Reed, eu volto do além para infernizar a vida do sujeito até o fim! Bockris trabalhou para Andy Warhol na Factory e na revista Interview, mais ou menos no período que Warhol e Reed romperam, no fim do Velvet Underground, e Warhol escrevia constantemente em seu diário que odiava Lou Reed. Bockris escreveu uma boa biografia de Warhol como insider. Bockris também era próximo de Gerard Malanga, secretário de Warhol e dançarino no espetáculo que Warhol tinha criado para o Velvet tocar. Bockris e Malanga escreveram um livro sobre o Velvet. Bockris era mais amigo, na verdade, de John Cale, a outra metade criativa do Velvet, e alguém que também odiava Lou Reed. Bockris ajudou Cale a escrever sua autobiografia. Ou seja: Bockris é amigo de gente que odiava Reed.

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Como jornalista, Bockris diz ter entrevistado Reed e falado com ele várias vezes por telefone, mas em “Transformer” ele publica, como um apêndice, uma breve e algo desconexa entrevista com Reed, coisa de uma única página, falando sobre Sinatra. E também um papo que ele, Bockris, promoveu entre William Burroughs (de quem era amigo) e Reed, um pouco mais interessante, mas que apenas comprova boa parte da tese do livro de que Reed era mesmo um cuzão.

Aliás, toda a segunda metade do livro parece um grande apêndice, parece ter sido escrita apressadamente e sem fontes sólidas e confiáveis. A segunda metade do livro é, na verdade, um desastre.

A impressão que tive é que Bockris estava fazendo um bom trabalho de pesquisa e escrevendo com esmero durante muitos anos o que seria a biografia definitiva de Lou Reed. Os editores quiseram publicar uma versão para aproveitar uma repentina popularidade que Reed alcançou no início dos anos 1990 com os lançamentos de “New York” e “Magic and Loss” e a biografia inacabada escrita por Bockris saiu em 1994.

Bockris sabia que teria tempo para trabalhar melhor e rechear lacunas do que havia sido publicado e tentar entrevistar pessoas que realmente tivessem tido contato mais direto e íntimo com o músico. Em 1994, Reed estava com 52 anos, limpo de álcool e drogas há um bom tempo, praticando Tai Chi Chuan, iria durar muito.

Mas certamente Bockris foi fazer outras coisas e o tempo passou e vinte anos depois, Lou Reed morto, os editores quiseram que ele corresse para lançar a biografia definitiva, mas ele tinha 40 anos da vida de Lou Reed para pesquisar, entrevistar pessoas e escrever e… O resultado é o livro que temos aí: um requentado de histórias conhecidas, compiladas de entrevistas de personagens do segundo time, curiosidades tiradas da internet, algumas opiniões esquisitas do autor (como, por exemplo, “Esse é o melhor álbum que Lou já fez”, ao se referir ao “Lulu”), pensatas de mau gosto do autor no meio da narrativa (ex: “O ato de amor é dar seu tempo para o ser amado”), além de nomes simplesmente encurtados ou escritos errado (a primeira vez que o autor se refere ao disco “Set the Twilight Reeling” ele o chama apenas de “Twilight”; em uma mesma página, ele chama o disco “Live in New York”, de Laurie Anderson, também de “New York Live”).

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A primeira metade do livro, que trata dos primeiros 30 anos de Reed, sua adolescência, o início na música, o início e o fim do Velvet, o início da carreira solo, é melhor e mais empolgante, com informações interessantes. Por exemplo: ficamos sabendo que os pais de Reed não eram aqueles monstros que estão nas músicas. Sempre achamos que os pais encaminharam o garoto para os choques elétricos para curar sua homossexualidade, mas eles ficaram compadecidos da experiência e também desenvolveram traumas sobre isso. O encaminhamento foi feito por um médico maluco e os choques eram dados com o garoto desacordado. (Não há dúvida que a experiência foi terrível, mas Reed faturou em cima dessa história, inclusive justificando, já no futuro, seu comportamento  autoritário e abusivo).

Nesta primeira metade ficamos conhecendo a namorada de Reed, Shelley Albin, para quem ele compôs “I´ll be Your Mirror” (não foi para Nico) e “Pale  Blue Eyes” (quando ela se casou com outro) e sua primeira esposa, Bettye Kronstad (abaixo), uma garota quadrada, que era constantemente abusada por Reed – ele gostava de socar a cara dela, aparentemente gostava das marcas roxas que os socos causavam.

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Também ficamos sabendo que Reed se considerava melhor guitarrista que Jimi Hendrix (quando caiu sua ficha, deixou de tocar por um tempo, não tocou guitarra no seu primeiro disco solo). Também que o primeiro disco solo teve capa desenhada pelo “artista responsável pelas capas dos livros de Raymond Chandler”, uma informação interessante, mas não diz o nome do artista – defeitos desse tipo permeiam o livro. O artista é Tom Adams. Engraçado: tirando a capa do disco “Transformer”, que foi clicada pelo amigo Mick Rock, Bockris não fala mais nada sobre as capas ou projetos gráficos dos discos de Reed, infelizmente.

Tem besteiras nessa primeira parte também. Quando vai comentar a associação de Reed com Bowie, Bockris escreve que Bowie era um colaborador tão importante quanto Warhol, só que “mais comercial”. O disco produzido por Bowie vendeu mais mas não sei se a abordagem de Bowie pode ser chamada de comercial. E a parceria terminou nesse disco, depois Reed foi lamentar o colapso de seu casamento com Bettye em “Berlin”, produzido por Bob Ezrin. Sobre “Berlin”, achei interessante a informação que o guitarrista Jack Bruce escreveu boa parte da parte musical do álbum – sempre achei que musicalmente, “Berlin” destoava demais de toda obra reediana.

Com o fim do casamento, Reed passa a se relacionar com Barbara Hodes e eu mesmo me questionei, neste ponto, sobre o ícone homossexual que Reed tinha se transformado sendo tão… heterossexual.  Bockris filosofa sobre isso: “Desde a faculdade, ele era bissexual praticante. Contudo, amigos que o conheceram bem durante o final dos anos 1970 e começo dos anos 1980, provavelmente o período mais vulnerável de sua carreira diante do público, acreditavam que ele fosse gay, mas como vinha do mundo dos anos 1950, no qual as pessoas desprezavam as bichas, Lou também desprezava as bichas e odiava ser uma bicha” (pág. 302).

Em meio a todas as informações já bastante conhecidas pelos fãs, Bockris conta sobre a adição de Reed em sorvete de café, sobre dois tapas que Reed deu em Bowie em um restaurante (Bowie fez um comentário sobre as composições de Reed estarem muito cruas) e sobre como Reed ficava dias sem comer, apenas a base de metanfetaminas.

lou rachel

O meio do livro de Bockris, quando descamba para a falta de fontes confiáveis e informações interessantes, é justo quando Reed se junta a Rachel, sua companheira que “seria” transsexual. Uma investigação mínima sobre Rachel seria importante, penso eu. O que realmente era Rachel? Afinal, depois de Rachel, Reed se casa com Sylvia Morales, uma mulher com o biótipo de Rachel…

Num ponto, no início da segunda metade do livro, Bockris faz duas alegações complicadas: 1) “Como conjunto da obra, os discos solos de John [Cale] são indiscutivelmente superiores aos de Lou”; 2) “A influência de Cale no punk também foi sem dúvida mais forte que a de Reed” (páginas 284 e 285). Obviamente, trata-se da opinião de Bockris, que é amigo de John Cale e muita gente boa terá argumentos para dizer o contrário.

(Embora eu ache que o primeiro disco solo de Cale é infinitamente superior ao primeiro disco de Reed)

Fiquei bastante chocado – mas pode ter sido o peso da mão de Bockris – com o trecho que fala da relação de Reed com Robert Quine, o guitarrista que moldou o som de reed nos anos 1980 e fez com que Reed voltasse com tudo para a guitarra. Quine foi um dos entrevistados de Bockris para o livro. Reed foi incrivelmente filho-da-puta com Quine, um sujeito amável e gentil, usando-o para desenvolver uma sonoridade que abraçou como sua, dispensando-o na sequência. Enciumado das críticas (positivas) que seus discos vinham tendo destacando Quine, Reed abafou o som da guitarra dele no disco “Legendary Hearts”, por exemplo. Na turnê de divulgação do disco, encrencava com Quine por besteiras; uma vez proibiu o guitarrista de usar óculos escuros no palco – o que era uma marca registrada dele.  E proibia o pessoal da trupe a sair, beber ou usar drogas. A turnê seguinte, de “New Sensations” foi apelidade de “No Sensations” pelos músicos.

Lou Reed Robert Quine 1984

O Lou Reed adorador de dinheiro também aparece nesta segunda metade do livro de Bockris: ele divide as contas nos restaurantes, vende direitos das músicas para comerciais e até aparece em alguns deles, coloca advogados graúdos para ser e continuar sendo o único detentor dos direitos das músicas do Velvet.

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Duas informações curiosas fizeram essa segunda parte do livro valer a pena para mim: 1) o motivo da segunda e definitiva separação de Reed e Warhol foi um comentário levemente sarcástico de Warhol, enquanto faziam uma viagem de carro por um campo nevado. Reed achou que o motorista ia muito rápido e pediu para que fosse mais devagar. Warhol, com voz afetada, superior e aguda, disse: “você não teria dito isso alguns anos atrás”. Foi o suficiente para um melindroso Lou Reed nunca mais falar com o homem que o descobriu e, inicialmente, o patrocinou; 2) Mike Rathke, ora veja, o grande guitarrista de sua super banda, que moldou a nova dinâmica sonora reediana a partir de “New York”, só foi chamado por Reed por ser seu concunhado, casado com a irmã de Sylvia! (Achei que Reed tivesse feito uma grande audição para encontrar o seu novo super guitarrista, mas não…)

Os dois momentos mais importantes da, digamos, fase final da vida de Reed, a reunião do Velvet e o casamento com Laurie Anderson, são tratados de maneira rasteira. A reunião do Velvet serve para reforçar o perfil maníaco por controle, o cuzão autoritário, que continuou sendo Lou Reed. Na avaliação de Bockris, “separar a banda outra vez era uma guinada tão forte na carreira [de Reed] quanto reuni-la” – ou seja: a opção de Reed de implodir a banda mais uma vez, não abraçar a turnê mundial ou o especial que a MTV preparava foi uma decisão estratégica para fazê-lo ficar na mídia, no topo. Acho bem discutível, tem outros fatores que Bockris não pesquisou ou não quis colocar.

Credit: Leon Morris / RedfernsAgency: Redferns

Credit: Leon Morris / Redferns Agency: Redferns

O casamento com Laurie parece algo idílico demais no livro. Bockris fala, por alto, em traições e num cara “negro e mais velho, um guarda do Museu de História Natural” que Reed via desde o fim do casamento com Sylvia. Teria mesmo existido tal caso? Quem é esse sujeito? Uma relação relativamente duradoura não teria reflexo na obra do músico, em alguma canção?

Aí, nesse entrecho final onde Reed, aos 50 e poucos anos, descobre o amor, a lealdade, a amizade, a escrita de Bockris fica constrangedora, ele começa a fazer análise dos discos de Reed e Anderson, estabelecendo conexões estranhas entre as músicas para suprir o trabalho de entrevistas e pesquisas que ele devia ter feito para escrever aquela parte. O tempo urgia, os editores estavam cobrando e, então, ele deve ter resolvido “deduzir” os últimos 10 ou 15 anos de Reed com Anderson através das músicas que ambos colocaram em seus discos. As últimas 100 páginas do “Transformer” de Bockris não devem ser consideradas.

LOU ANDERSON

Há uma anedota que envolve Bob Dylan, no livro de Bockris: Lou, Sylvia e o guarda costas deles, Big John Miller, caminhavam por um campo nos bastidores do Farm Aid quando viram Dylan indo na direção deles. De repente, Dylan abriu os braços e um sorriso e correu em direção a eles. Reed ficou emocionado, abriu os braços e esperou o abraço do ídolo. Mas Dylan passou direto por Reed e abraçou seu querido amigo e ex-guarda-costas Big John. Reed ficou inconsolável, olhando para os próprios sapatos.

Do jeito que Bockris pinta Reed é o momento que a gente pensa: “bem feito, seu filho da puta!”

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