…a bio de cohen por sylvie simmons, mais lou reed e adjacências

A biografia escrita por Sylvie Simmons, “I´m Your Man – A Vida de Leonard Cohen” é um espetáculo em vários sentidos. Diferente da bio de Lou Reed escrita por Victor Bockris, que destrói qualquer resquício humano do líder do Velvet Underground, o trabalho de Simmons é de fã que adora seu biografado – e a recíproca parece ser verdadeira – chegando a ser meio condescendente em alguns momentos. Mas isso não tira o monumento que lemos: ela teve acesso ao próprio Cohen, que entrevistou várias vezes, e também aos amigos, mulheres, amantes, músicos, parceiros e até os (pouquíssimos) desafetos, e escreveu a vida de um sujeito com mais de 80 anos do alto de sua integridade como poeta, músico, ser humano, monge budista juramentado – um santo perverso, retrato do nosso tempo.

livro

As semelhanças entre Reed e Cohen são diversas, porém. Ambos foram rebeldes, cada um de seu jeito, e “criados soltos” – Reed fugia de casa, Cohen passava noites em companhia de poetas com a anuência da mãe (o pai morre quando ele tinha 9 anos). Ambos montaram bandas country no colégio e escreveram para publicações estudantis. Ambos descobriram a poesia cedo, Reed tinha Delmore Schwartz e Poe, Cohen tinha Irving Layton e Garcia Lorca. Ambos foram apaixonados por Nico e por anfetaminas (e por drogas em geral) – há quem defenda que Cohen usou mais anfetaminas que Reed durante os anos 1960. Ambos acreditavam-se predestinados a fazer algo grandioso – Cohen era mais convicto. Ambos viviam com pouco: Cohen tinha uma casinha sem água e energia elétrica em uma ilha grega, Hidra, onde passava vários períodos; Reed tinha um apartamento pequeno e sem fogão, com uma geladeira cheia de sorvete de café, seu maior vício. Ambos vinham de famílias judias. Enquanto Reed foi parar em um hospital psiquiátrico para tomar choques elétricos, Cohen fazia concertos de graça neles. Ambos gostavam de jejuar (“Mas até o jejum de Cohen era elegante. Enquanto jejuava, ele bebia suco de uva branca com limão e água com gás”, conta o amigo Brian Cullman). E os dois amavam a voz de Antony.

Mas as diferenças entre os dois também são gigantes: Cohen fora educado no judaísmo e nos modos dos anos 1930: vestia-se com roupas costuradas para ele, levantava-se quando alguém entrava ou saía de um recinto, falava baixo e só quando solicitado, e nunca, jamais, podia ser cruel com alguém. Com ele, não havia jogos mentais de poder e dominação, diferente de Reed. Embora Reed e Cohen preferissem a companhia de homens, Cohen nunca teve uma relação homossexual. Nas críticas aos seus discos, Cohen era comparado a Dylan, Reed não. Cohen não estava interessado no reconhecimento de seus pares, queria fazer sucesso, atingir o público. Reed não queria holofotes, queria ser reconhecido como o Poe ou o Chandler do rock, pretensioso até os ossos. Interessante notar que Cohen conseguiu todas as grandes honrarias possíveis a um poeta-cantor ao redor do mundo – e Reed passou longe desse reconhecimento uniforme. Reed tem uma identidade com os EUA e, em especial, com New York; Cohen tem um apelo mundial maior, falando de temas mais universais. No ingresso de Cohen no Rock´n´Roll Hall of Fame quem o apresentou foi Reed, que leu, extasiado, um poema de Cohen concluindo que era bom viver no mesmo momento que alguém como ele. Era um Reed mais velho e (um pouco) mais humano, mas uma ponta de inveja podia ser detectada ali.

cohen e reed rock n roll hall of fame

As drogas mexeram com os dois, isso é certo. Enquanto Reed virou um paranoico com tara por espezinhar e foder com a vida dos outros, Cohen desenvolveu uma depressão que o levou para o budismo, a reclusão, o silêncio, o trabalho obsessivo e, mais tarde, para o monastério – uma saída que só pode ser o ápice do desespero de alguém muito sensível jogado no mundo cruel da música, do marketing, do entretenimento e da perversão. Mas isso foi quando ele estava com 60 anos, então vamos com calma.

Fã de Bukowski

“O único homem que vi capaz de atrair mulheres mais lindas que Leonard Cohen provavelmente foi Charles Bukowski”, Paul Body, porteiro do clube mais quente de música folk de Hollywood, onde estreiaram Joni Mitchell e Tom Waits.

Interessante como Cohen conseguiu atingir picos sublimes da poesia e da emoção tendo como referência poetas sujos, mundanos e rebeldes; os beatniks, os santos renegados e Charles Bukowski. “Escritores que não estiveram doidões ou sentiram o gosto da loucura nunca saberiam do que se trata”, escreveu enquanto terminava seu romance “Beautiful Losers” – considerado seu melhor trabalho em prosa e nunca traduzido no Brasil – consumindo haxixe, ácido e speed. Quando terminou, mandou para seu editor dizendo que aquele era o livro mais importante já escrito no Canadá. Depois, disse: “As duas qualidades mais importantes para um escritor são arrogância e inexperiência”. “Beautiful Losers” foi o livro que Lou Reed leu, seu primeiro contato com Cohen, que ainda não cantava. A soberba de Reed fez com que ele fizesse a incrível declaração, anos depois:

’Beautiful Losers’ é um livro incrível, um livro maravilhoso, e, acima de tudo, incrivelmente engraçado e muito ardiloso. Eu me lembro de Leonard me falar que começou a compor canções após ouvir ‘Ill be Your Mirror´. Quem diria…”

Um babaca, esse Lou Reed, vai dizer?

O que Cohen ouvia? Ray Charles. Para relaxar, fazia a barba – dica da mãe. Às vezes, fazia a barba algumas vezes no dia.  Com um público restrito na poesia e na prosa, decidiu cantar. Foi pros EUA já velho – com 30 anos você já era bem velho em 1960.

cohen safadão

O fato é que Cohen foi descoberto por Judy Collins, uma das maiores vendedoras de discos à época, que ficou apaixonada pelas canções do canadense bonitão. Ela gravou e transformou “Suzanne” em um hit e deu uma declaração que “não haviam canções como a dele. Nem de Dylan”. Quando começou a aparecer, Cohen foi morar no endereço dos descolados, o Chelsea Hotel. Conheceu Nico e se apaixonou por ela, mas ela não deu pra ele, segundo a biógrafa Simmons – ela tinha um princípio de não se relacionar com homens mais velhos que ela, depois que engravidou de Alain Delon. Cohen era 4 anos mais velho que ela.

Podemos dizer que Nico foi uma das maiores musas dele. Em quantidade de canções, acho que Nico foi a mais inspiradora. O que nos leva a questionar se a grande arte, no fim, não é apenas a projeção de um grande amor não consumado.

Com Janis Joplin não se sabe com certeza se rolou um sexo completo, mas que houve um boquete dos deuses, isso é inquestionável. É do que trata a canção “Chelsea Hotel #2”.  A outra namorada famosa na fila foi Joni Mitchell – que durou pouco; ela disse algo como “uma coisa é você amar Cohen, outra é viver com ele”. Muitos anos depois, ela estava em um show de Cohen e foi até o camarim, quando disse: “Sou groupie apenas para Picasso e Leonard”.

Leonard Cohen & Joni Mitchell, NFF 1967, R19-15, NFF67, Edit

NEWPORT, R.I. – Singer-songwriters Leonard Cohen and Joni Mitchell meet backstage before separately performing at the Newport Folk Festival in July 1967 in Newport, Rhode Island. (Photo by David Gahr/Getty Images)

O primeiro disco foi bem, o segundo foi mais ou menos, o terceiro não teve a repercussão esperada e a depressão de Cohen ia aumentando e ele ia bebendo e fumando mais e todo esse turbilhão o levou à… Cientologia. Puxa, essa informação me desanimou bastante – mas parece que o caso de Cohen com a seita durou pouco e serviu para que ele ficasse convicto de que o caminho era o budismo.

Só que nessa fase, ainda antes do budismo, o caminho era o LSD. Eles tomavam tanto ácido que, em uma ocasião, o gerente da turnê fez toda a trupe andar de mãos dadas no aeroporto para não perder ninguém no caminho para o avião, de tão loucos que todos estavam!

Um coisa interessante sobre esse início e os primeiros discos é que muitas músicas eram gravadas e, no final, algumas eram escolhidas para entrar no disco – e a grande maioria das outras está INÉDITA ATÉ HOJE! Isso mesmo: existem dezenas de músicas antigas de Cohen guardadas, inéditas, fechadas, fresquinhas, jamais divulgadas! Algumas poucas entraram em caixas e edições de aniversários de discos, mas MUITAS estão inteiramente intactas! Não é incrível?

(É outra diferença com Reed, que lançou tudo o que pôde, todas as gravações, todos os bootlegs, todas as merdas, tudo, tudo…)

Apesar dos discos estarem saindo e recebendo críticas eles não estavam vendendo. Ao redor de Cohen começou-se a formar um grupo de admiradores que tentavam decifrar o que ouviam. Nessa primeira fase, Cohen se apresentava como “um misto de Charles Aznavour e Bob Dylan”.

cohen in hidra

Mas os fãs eram bons e envolvidos na causa da divulgação do mestre. Foram discos tributos (com Nick Cave e The Pixies, por exemplo) e um disco de uma de suas backing vocals, Jennifer Warnes, que fizeram com que Cohen ficasse mais conhecido.

Enquanto sua fama aumentava e ele ia ficando mais famoso e requisitado, fez algumas façanhas de respeito, como negar um pedido de Dylan para tocar na apresentação da turnê Rolling Thunder em Montreal. Dylan, reconhecendo a firmeza e a postura de um igual cantou “Isis” (uma música sobre casamento, que tem o verso: “what drives me to you is what drives me insane”) e disse: “Esta é para o Leonard. Se ele ainda estiver aqui”.

A merda desse primeiro período é que Cohen, assim como a maioria dos artistas nos anos 60, foi vítima de contratos leoninos que beneficiaram gravadoras e agentes e tiraram das mãos dos compositores a propriedade de algumas canções. Cohen mal tinha consciência disso, nunca deu muita importância para dinheiro, até porque ele nunca lhe faltou. Para piorar um pouquinho, Cohen caiu nas mãos de Phil Spector, um crápula charmoso que produziu um disco que fez mais fama e publicidade do que acrescentou algo ao cancioneiro de Cohen. As canções de “Death of a Ladies´ Man” pertencem a Cohen/Spector e o produtor nunca autorizou regravações ou a inclusão de canções desse disco em coletâneas. Um grandessíssimo filho da puta.

cohen phil

Perdi o controle da minha família, do meu trabalho, da minha vida. Foi um período muito, muito sombrio”, disse Cohen sobre o processo com Spector. Ao New York Times, Cohen disse que não gostava de nada no disco. “Este álbum é um lixo”. Tirando a canção “Memories”, eu também acho – tenho todos os discos de Cohen, menos esse, que dei para um amigo. Ele publicou um ótimo livro de poemas em prosa com o mesmo título do disco, produzidos durante os 10 anos do casamento com Suzanne. Tanto o livro quanto o disco encerram uma espécie de primeira fase do Cohen.

(Um belo dia Suzanne simplesmente foi embora. Ele fez um belo acerto financeiro com ela e, um pouco depois, ela pediu para morar por um tempo na casa de Hidra com o novo namorado e Cohen deixou, de boas)

Os anos 1970 estavam chegando ao fim, Cohen estava cada vez mais envolvido com o budismo, Dylan veio a público dizer de sua conversão ao cristianismo. Cohen ficou inconformado: “Por que ele procuraria Jesus tão tarde assim? Não entendo essa coisa de Jesus!”.

Cohen rapidamente lançou outro disco, “Recent Songs”, para sepultar o “disco de Spector”. É o seu preferido entre todos. E cinco anos depois, “Various Positions” que tem “Hallelujah”, um grande hit, considerada uma das melhores canções já gravadas, uma das músicas com mais versões registradas, centenas delas. Ela levou quatro anos para ser composta e tinha dois finais, um otimista (que está no disco) e um pessimista (que ele cantou em alguns shows). John Cale gravou uma versão com mais versos, os que foram desprezados da versão original.

Quando tomaram um café em Paris, Dylan mostrou “I and I” a Cohen, que adorou e perguntou quanto tempo Dylan tinha levado para compo-la. “15 minutos”, respondeu Dylan, que perguntou quanto tempo Cohen havia demorado para compor “Hallelujah”. Cohen respondeu “alguns anos” com vergonha de dizer o tempo correto.

Embora seja a música mais conhecida e de maior sucesso de Cohen, não é sua preferida. Quando perguntado sobre que música gostaria de ter composto, ele respondeu: “’If It Be your Will’. E eu a fiz.”.

“Hallelujah” é uma canção de amor e Cohen vivia sozinho. “Não há quem consiga viver comigo”. Foi uma fase em que ele teve casos com mulheres maravilhosas como a fotógrafa francesa Dominique Issermann. Ele também achava que estava terrivelmente velho com 50 anos e queria realizar alguns desejos, como conhecer o criador dos Muppets, Jim Henson. E também foi ver um show de Stevie Ray Vaughan.

cohen muppets

Os vários anos de cigarros e bebidas tinham feito a voz de Cohen baixar quatro semitons. Com essa voz amaciada e noturna ele gravaria seu álbum mais diferente, com bases de teclados e sintetizadores, mudando a linha inicial dos violões de corda de aço. Era “I´m Your Man”, álbum do ano do New York Times. A brincadeira com os eletrônicos se intensificou no disco seguinte, “The Future”, que teve músicas usadas em “Natural Born Killers” e apresentou Cohen para toda uma nova geração.

Foi quando ele entrou em colapso e foi prum monastério.

O hipnotizador

Cohen tinha lido um livro sobre hipnotismo quando era criança e gostava de hipnotizar animais. Algumas pessoas o viram hipnotizar animais domésticos e até formigas. É possível que esse dom estivesse presente em suas conquistas amorosas e até no palco, no lidar com a plateia. No show na Ilha de Wigh, em 1970, seu dom de hipnotizador pode ser observado. Apesar de chapado até o cerebelo num show alta madrugada com um público hostil, ele conseguiu acalmar e enredar todas as milhares de pessoas em seu encanto. O show todo pode ser visto no Vimeo.

chapado

Mas o hipnotizador também era hipnotizado: seu mestre budista Roshi era seu deus particular. Ele era chofer de Roshi, cozinhava para Roshi, tocava para Roshi, bebia com Roshi… Subiu o Monte Baldy para ficar com Roshi e escapar do mundo musical, dos paparazzi, das mulheres, dos problemas. Acabou ficando por quase 10 anos numa rotina mais ou menos assim:

“…a chamada para o despertar às 3 da manhã dava aos residentes dez minutos para se vestirem e caminharem penosamente pela escuridão (no inverno, abrindo caminho através da neve com uma pá) rumo à sala de refeições, onde o chá era servido de maneira formal e bebido em silêncio. 15 minutos depois, o gongo indicava a hora de irem silenciosamente até a sala de meditação e assumirem o lugar atribuído a eles nos bancos de madeira voltados para o centro. Uma hora de meditação cantada (“cantos muito longos, todos de uma nota só”) era seguida do primeiro de seis períodos diários de zazen – uma hora ou mais de meditação sentados, com pernas cruzadas em posição de lótus, costas rígidas e olhos fitando o chão. Monges carregando bastões patrulhavam o recinto em busca de eventuais dorminhocos, a quem devolviam à consciência com uma pancada forte no ombro. Após a meditação, mais meditação: kinhin, a meditação andando ao ar livre, independente do clima. Sendo no alto da montanha, o clima era de extremos, e às vezes, caíam granizos do tamanho de limas-da-Pérsia. Depois vinha o primeiro de vários sanzens diários, encontros individuais com Roshi para introduções e prática de koan (enigmas). Havia pausas curtas para refeições às 6h45, ao meio dia e às 17h45 para o jantar, durante o qual todos iam para a sala de jantar, pegavam da prateleira a tigela plástica atribuída a eles embalada em um guardanapo e ocupavam uma das sete longas mesas em que comiam silenciosamente. Após o almoço vinha uma pausa para o banho e um horário reservado para o trabalho. Após o jantar, havia gyodo (meditação praticada enquanto se caminhava e cantava), além de mais zazen e sanzen até às nove, dez, talvez onze da noite, dependendo da disposição de Roshi.”

cohen roshiE Roshi tinha muita energia, morreu em 2014 com 107 anos.

Cohen só dava uma escapada do monastério para comer um McFish acompanhado de uma taça de vinho francês. Ele também tinha um hábito enraizado que não conseguia deixar de lado: a primeira coisa do dia era um café e um cigarro.

E há quem diga que ele tenha passado a mão em umas monjas.

A verdade é que esses anos no monastério serviram para que ele tivesse um profundo entendimento sobre questões que envolvem a criação (“Deus, segundo o Gênese, usa o caos e a desolação para criar a ordem no universo, então cais e desolação podem ser entendidos como o DNA de toda a criatividade“), para saber como lidar com sua depressão profunda e para ser completamente roubado por uma das pessoas em que mais confiava, sua agente Kelley Lynch. Ele estava falido e teve que voltar à ativa, gravando discos e fazendo shows. Assim, conseguiu em 10 anos de atividade mais do que em 70 anos de vida.

A partir daí se desenvolvem as últimas 100 páginas e as mais emocionantes da biografia de Cohen escrita pela Sylvie Simmons. Um amigo disse que era melhor não contar algumas das incríveis cenas e peripécias que são relatadas ali, por motivo de: spoiler profundo. Basta dizer que Cohen reencontra a Anjani, que tinha sido sua backing vocal. Aparece uma nova e importante musa, 25 anos mais jovem que ele.

anjani cohen

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… “transformer – a história completa de lou reed” por victor bockris

Estão vendendo Victor Bockris, autor de “Transformer”, como amigo de Lou Reed. Se algum amigo meu escrever uma biografia minha com as tintas que Bockris pinta Reed, eu volto do além para infernizar a vida do sujeito até o fim! Bockris trabalhou para Andy Warhol na Factory e na revista Interview, mais ou menos no período que Warhol e Reed romperam, no fim do Velvet Underground, e Warhol escrevia constantemente em seu diário que odiava Lou Reed. Bockris escreveu uma boa biografia de Warhol como insider. Bockris também era próximo de Gerard Malanga, secretário de Warhol e dançarino no espetáculo que Warhol tinha criado para o Velvet tocar. Bockris e Malanga escreveram um livro sobre o Velvet. Bockris era mais amigo, na verdade, de John Cale, a outra metade criativa do Velvet, e alguém que também odiava Lou Reed. Bockris ajudou Cale a escrever sua autobiografia. Ou seja: Bockris é amigo de gente que odiava Reed.

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Como jornalista, Bockris diz ter entrevistado Reed e falado com ele várias vezes por telefone, mas em “Transformer” ele publica, como um apêndice, uma breve e algo desconexa entrevista com Reed, coisa de uma única página, falando sobre Sinatra. E também um papo que ele, Bockris, promoveu entre William Burroughs (de quem era amigo) e Reed, um pouco mais interessante, mas que apenas comprova boa parte da tese do livro de que Reed era mesmo um cuzão.

Aliás, toda a segunda metade do livro parece um grande apêndice, parece ter sido escrita apressadamente e sem fontes sólidas e confiáveis. A segunda metade do livro é, na verdade, um desastre.

A impressão que tive é que Bockris estava fazendo um bom trabalho de pesquisa e escrevendo com esmero durante muitos anos o que seria a biografia definitiva de Lou Reed. Os editores quiseram publicar uma versão para aproveitar uma repentina popularidade que Reed alcançou no início dos anos 1990 com os lançamentos de “New York” e “Magic and Loss” e a biografia inacabada escrita por Bockris saiu em 1994.

Bockris sabia que teria tempo para trabalhar melhor e rechear lacunas do que havia sido publicado e tentar entrevistar pessoas que realmente tivessem tido contato mais direto e íntimo com o músico. Em 1994, Reed estava com 52 anos, limpo de álcool e drogas há um bom tempo, praticando Tai Chi Chuan, iria durar muito.

Mas certamente Bockris foi fazer outras coisas e o tempo passou e vinte anos depois, Lou Reed morto, os editores quiseram que ele corresse para lançar a biografia definitiva, mas ele tinha 40 anos da vida de Lou Reed para pesquisar, entrevistar pessoas e escrever e… O resultado é o livro que temos aí: um requentado de histórias conhecidas, compiladas de entrevistas de personagens do segundo time, curiosidades tiradas da internet, algumas opiniões esquisitas do autor (como, por exemplo, “Esse é o melhor álbum que Lou já fez”, ao se referir ao “Lulu”), pensatas de mau gosto do autor no meio da narrativa (ex: “O ato de amor é dar seu tempo para o ser amado”), além de nomes simplesmente encurtados ou escritos errado (a primeira vez que o autor se refere ao disco “Set the Twilight Reeling” ele o chama apenas de “Twilight”; em uma mesma página, ele chama o disco “Live in New York”, de Laurie Anderson, também de “New York Live”).

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A primeira metade do livro, que trata dos primeiros 30 anos de Reed, sua adolescência, o início na música, o início e o fim do Velvet, o início da carreira solo, é melhor e mais empolgante, com informações interessantes. Por exemplo: ficamos sabendo que os pais de Reed não eram aqueles monstros que estão nas músicas. Sempre achamos que os pais encaminharam o garoto para os choques elétricos para curar sua homossexualidade, mas eles ficaram compadecidos da experiência e também desenvolveram traumas sobre isso. O encaminhamento foi feito por um médico maluco e os choques eram dados com o garoto desacordado. (Não há dúvida que a experiência foi terrível, mas Reed faturou em cima dessa história, inclusive justificando, já no futuro, seu comportamento  autoritário e abusivo).

Nesta primeira metade ficamos conhecendo a namorada de Reed, Shelley Albin, para quem ele compôs “I´ll be Your Mirror” (não foi para Nico) e “Pale  Blue Eyes” (quando ela se casou com outro) e sua primeira esposa, Bettye Kronstad (abaixo), uma garota quadrada, que era constantemente abusada por Reed – ele gostava de socar a cara dela, aparentemente gostava das marcas roxas que os socos causavam.

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Também ficamos sabendo que Reed se considerava melhor guitarrista que Jimi Hendrix (quando caiu sua ficha, deixou de tocar por um tempo, não tocou guitarra no seu primeiro disco solo). Também que o primeiro disco solo teve capa desenhada pelo “artista responsável pelas capas dos livros de Raymond Chandler”, uma informação interessante, mas não diz o nome do artista – defeitos desse tipo permeiam o livro. O artista é Tom Adams. Engraçado: tirando a capa do disco “Transformer”, que foi clicada pelo amigo Mick Rock, Bockris não fala mais nada sobre as capas ou projetos gráficos dos discos de Reed, infelizmente.

Tem besteiras nessa primeira parte também. Quando vai comentar a associação de Reed com Bowie, Bockris escreve que Bowie era um colaborador tão importante quanto Warhol, só que “mais comercial”. O disco produzido por Bowie vendeu mais mas não sei se a abordagem de Bowie pode ser chamada de comercial. E a parceria terminou nesse disco, depois Reed foi lamentar o colapso de seu casamento com Bettye em “Berlin”, produzido por Bob Ezrin. Sobre “Berlin”, achei interessante a informação que o guitarrista Jack Bruce escreveu boa parte da parte musical do álbum – sempre achei que musicalmente, “Berlin” destoava demais de toda obra reediana.

Com o fim do casamento, Reed passa a se relacionar com Barbara Hodes e eu mesmo me questionei, neste ponto, sobre o ícone homossexual que Reed tinha se transformado sendo tão… heterossexual.  Bockris filosofa sobre isso: “Desde a faculdade, ele era bissexual praticante. Contudo, amigos que o conheceram bem durante o final dos anos 1970 e começo dos anos 1980, provavelmente o período mais vulnerável de sua carreira diante do público, acreditavam que ele fosse gay, mas como vinha do mundo dos anos 1950, no qual as pessoas desprezavam as bichas, Lou também desprezava as bichas e odiava ser uma bicha” (pág. 302).

Em meio a todas as informações já bastante conhecidas pelos fãs, Bockris conta sobre a adição de Reed em sorvete de café, sobre dois tapas que Reed deu em Bowie em um restaurante (Bowie fez um comentário sobre as composições de Reed estarem muito cruas) e sobre como Reed ficava dias sem comer, apenas a base de metanfetaminas.

lou rachel

O meio do livro de Bockris, quando descamba para a falta de fontes confiáveis e informações interessantes, é justo quando Reed se junta a Rachel, sua companheira que “seria” transsexual. Uma investigação mínima sobre Rachel seria importante, penso eu. O que realmente era Rachel? Afinal, depois de Rachel, Reed se casa com Sylvia Morales, uma mulher com o biótipo de Rachel…

Num ponto, no início da segunda metade do livro, Bockris faz duas alegações complicadas: 1) “Como conjunto da obra, os discos solos de John [Cale] são indiscutivelmente superiores aos de Lou”; 2) “A influência de Cale no punk também foi sem dúvida mais forte que a de Reed” (páginas 284 e 285). Obviamente, trata-se da opinião de Bockris, que é amigo de John Cale e muita gente boa terá argumentos para dizer o contrário.

(Embora eu ache que o primeiro disco solo de Cale é infinitamente superior ao primeiro disco de Reed)

Fiquei bastante chocado – mas pode ter sido o peso da mão de Bockris – com o trecho que fala da relação de Reed com Robert Quine, o guitarrista que moldou o som de reed nos anos 1980 e fez com que Reed voltasse com tudo para a guitarra. Quine foi um dos entrevistados de Bockris para o livro. Reed foi incrivelmente filho-da-puta com Quine, um sujeito amável e gentil, usando-o para desenvolver uma sonoridade que abraçou como sua, dispensando-o na sequência. Enciumado das críticas (positivas) que seus discos vinham tendo destacando Quine, Reed abafou o som da guitarra dele no disco “Legendary Hearts”, por exemplo. Na turnê de divulgação do disco, encrencava com Quine por besteiras; uma vez proibiu o guitarrista de usar óculos escuros no palco – o que era uma marca registrada dele.  E proibia o pessoal da trupe a sair, beber ou usar drogas. A turnê seguinte, de “New Sensations” foi apelidade de “No Sensations” pelos músicos.

Lou Reed Robert Quine 1984

O Lou Reed adorador de dinheiro também aparece nesta segunda metade do livro de Bockris: ele divide as contas nos restaurantes, vende direitos das músicas para comerciais e até aparece em alguns deles, coloca advogados graúdos para ser e continuar sendo o único detentor dos direitos das músicas do Velvet.

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Duas informações curiosas fizeram essa segunda parte do livro valer a pena para mim: 1) o motivo da segunda e definitiva separação de Reed e Warhol foi um comentário levemente sarcástico de Warhol, enquanto faziam uma viagem de carro por um campo nevado. Reed achou que o motorista ia muito rápido e pediu para que fosse mais devagar. Warhol, com voz afetada, superior e aguda, disse: “você não teria dito isso alguns anos atrás”. Foi o suficiente para um melindroso Lou Reed nunca mais falar com o homem que o descobriu e, inicialmente, o patrocinou; 2) Mike Rathke, ora veja, o grande guitarrista de sua super banda, que moldou a nova dinâmica sonora reediana a partir de “New York”, só foi chamado por Reed por ser seu concunhado, casado com a irmã de Sylvia! (Achei que Reed tivesse feito uma grande audição para encontrar o seu novo super guitarrista, mas não…)

Os dois momentos mais importantes da, digamos, fase final da vida de Reed, a reunião do Velvet e o casamento com Laurie Anderson, são tratados de maneira rasteira. A reunião do Velvet serve para reforçar o perfil maníaco por controle, o cuzão autoritário, que continuou sendo Lou Reed. Na avaliação de Bockris, “separar a banda outra vez era uma guinada tão forte na carreira [de Reed] quanto reuni-la” – ou seja: a opção de Reed de implodir a banda mais uma vez, não abraçar a turnê mundial ou o especial que a MTV preparava foi uma decisão estratégica para fazê-lo ficar na mídia, no topo. Acho bem discutível, tem outros fatores que Bockris não pesquisou ou não quis colocar.

Credit: Leon Morris / RedfernsAgency: Redferns

Credit: Leon Morris / Redferns Agency: Redferns

O casamento com Laurie parece algo idílico demais no livro. Bockris fala, por alto, em traições e num cara “negro e mais velho, um guarda do Museu de História Natural” que Reed via desde o fim do casamento com Sylvia. Teria mesmo existido tal caso? Quem é esse sujeito? Uma relação relativamente duradoura não teria reflexo na obra do músico, em alguma canção?

Aí, nesse entrecho final onde Reed, aos 50 e poucos anos, descobre o amor, a lealdade, a amizade, a escrita de Bockris fica constrangedora, ele começa a fazer análise dos discos de Reed e Anderson, estabelecendo conexões estranhas entre as músicas para suprir o trabalho de entrevistas e pesquisas que ele devia ter feito para escrever aquela parte. O tempo urgia, os editores estavam cobrando e, então, ele deve ter resolvido “deduzir” os últimos 10 ou 15 anos de Reed com Anderson através das músicas que ambos colocaram em seus discos. As últimas 100 páginas do “Transformer” de Bockris não devem ser consideradas.

LOU ANDERSON

Há uma anedota que envolve Bob Dylan, no livro de Bockris: Lou, Sylvia e o guarda costas deles, Big John Miller, caminhavam por um campo nos bastidores do Farm Aid quando viram Dylan indo na direção deles. De repente, Dylan abriu os braços e um sorriso e correu em direção a eles. Reed ficou emocionado, abriu os braços e esperou o abraço do ídolo. Mas Dylan passou direto por Reed e abraçou seu querido amigo e ex-guarda-costas Big John. Reed ficou inconsolável, olhando para os próprios sapatos.

Do jeito que Bockris pinta Reed é o momento que a gente pensa: “bem feito, seu filho da puta!”

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