… o melhor disco de lou reed

No início da internet eu já não era exatamente jovem e escrevi algumas coisas sobre Lou Reed e seus discos – e alguns jovenzinhos que estavam começando a baixar coisas no Napster acabaram conhecendo Reed e tals. Por essas e aquelas, acabei virando uma espécie de divulgador do Reed pruma galera e quando ele morreu, uma semana depois do meu aniversário, em 27 de outubro de 2013, muita gente me marcou em postagens no Facebook. Recentemente, um amigo disse que conhecia pouco e perguntou por onde devia começar e eu tasquei a resposta padrão, Transformer e New York, seus dois melhores discos. Ele ouviu e pediu mais e eu fui mais fundo, com Berlin e Magic and Loss, dois discos que não são fáceis. Foi o que ele disse, e me perguntou qual era o meu preferido. E eu tive que pensar um pouco.

Os discos de Reed são desiguais, todos têm uma ou duas músicas que não gosto. Começo o Transformer sempre pela segunda faixa, já que não gosto de Vicious. Sempre pulo Last Great American Whale, do New York. E acho o lado B do Magic and Loss muito deprê e sem inspiração. Berlin tem uma continuidade de disco conceitual, é para ser ouvido integralmente, e nem sempre estamos dispostos a essa experiência, certo? O mesmo acontece com o ótimo Songs for Drella, que ele gravou com o John Cale. Mas acho que todos os outros discos têm faixas terríveis.

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Fui dar uma pesquisada sobre que disco de Reed a crítica especializada acredita ser o melhor e vi que alguns citam o inaudível Metal Machine Music (Lester Bangs faz escola), outros falam do onipresente Transformer (que eu já disse que é mais um disco de Bowie que de Reed, mas enfim…), o New York e… Rock´n´roll Animal.

Sim, Rock´r´roll Animal é um discaço, um dos melhores discos ao vivo de todos os tempos, mas… o repertório ali é do Velvet Underground e as atrações de fato do disco são as guitarras de Dick Wagner e Steve Hunter, Reed apenas canta. Aliás, foi aí que Reed se tocou que devia escolher muito bem seus guitarristas, já que ele era um intuitivo do barulho e não necessariamente um grande músico – ocupa a posição número 81 dos 100 maiores guitarristas do rock da Rolling Stone. Michael Fonfara, Robert Quine e Mike Rathke acabaram moldando o som de Lou Reed nas décadas seguintes, esses sim, grandes guitarristas.

Esses prolegômenos (epa!) servem apenas para que eu diga sobre essa constatação de qual meu disco preferido de Reed e que eu considero o melhor de toda a sua discografia, inclusive melhor porta de entrada para quem quiser, depois, se aprofundar mais: é o Perfect Night Live in London, disco ao vivo onde Reed brilha cantando canções que não costumava cantar ao vivo e também tocando guitarra (!!!). Sim, ele decidiu lançar o disco depois que o ouviu a gravação pois “nunca sua guitarra havia soado tão lindamente clara”, conforme disse. Não por acaso, o disco tem esse nome, Noite Perfeita.

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O disco começa com Reed dedilhando e cantando I´ll Be Your Mirror, a música que ele fez para Nico e que está no primeiro disco do Velvet – e é a única música do Velvet no set. Reed parece surpreso com a clareza do som da guitarra. Só depois, pelo meio da canção, é que entram seus comparsas, Thunder Smith, gigante das baquetas; Fernando Saunders, com seu baixo sempre com o volume um tanto acima do esperado; e Mike Rahtke, o homem que moldou o “novo” Reed a partir de New York. É uma cozinha clássica, funcional e quase minimalista.

Perfect Day vem perfeita na sequencia. Aí surge The Kids, do disco Berlin, numa versão inusitada, que chama outras três canções também inusitadas: Vicious, Busload of Faith e Kicks, canção pouco conhecida do disco Coney Island Baby. A surpresa prossegue com duas canções inéditas em disco: Talking Book e Into the Divine, compostas para o espetáculo Time Rocker, de Robert Wilson.

Mas a sequencia realmente fantástica começa agora, com Coney Island Baby seguida de New Sensations em sua melhor versão, em ritmo vertiginoso. Culmina em outra canção de Time Rocker, Why do You Talk, que desacelera, preparando para uma ótima versão de Riptide, do subestimado disco Set the Twilight Reeling. Depois tem duas canções chatinhas, meio raps, Original Wrapper e Sex with your Parents, que podem ser puladas, fechando com Dirty Blvd.

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Sim, é um discaço.

Perfect Night Live in London foi vendido como um disco acústico, mas não é totalmente. Gravado em 1997, após o lançamento de Set the Twilight Reeling, mostra Reed em seu auge. Ele só lançaria outro disco em 2000, o bom Ecstasy (que muita gente não gostou, mas tem algumas de minhas canções preferidas da fase pós-New York, como Baton Rouge ou Modern Dance). Os discos que vieram depois não fazem jus ao que Reed sempre ofereceu.

Assim, tudo isso foi para indicar esse disco.

Procure e ouça no volume máximo.

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