paulo francis, sobre si, josé serra e políticos.

[Trecho de um Diário da Corte de 2.1.1988)

“Eu me considero não só um intelectual, como um artista, e nesta última condição capaz de me colocar no lugar de outras pessoas, de qualquer pessoa. Lembro o entusiasmo febril com que li as discussões de Vronski, Ana Karenina e Karenin, como Tolstoi (ele teria consciência disso?) estabelece um diálogo harmonioso entre Vronski e Karenin, apesar de estarem disputando a mesma mulher, diálogo de que Ana fica fora, e ter dito a mim mesmo ‘esta é a única verdade’ e, romântico, um Stephen Dedalus dos pobres, haver imaginado que algum dia eu também seria capaz de escrever assim.

Mas, com políticos, embatuco. José Serra. Nos conhecemos no apartamento que Brizola alugava de Magalhães Pinto no Leblon, em cima do cinema Miramar, mas, quanto menos for dito sobre esse encontro, melhor. Éramos jovens. Acreditávamos que, se sacudíssemos a bananeira com bastante força, haveria fruta para todos.

O outro Serra que conheci foi aqui, acho que em 1978, com dois exílios nas costas, do Brasil, em 1964, e do Chile, em 1973. Ele era tristíssimo. Como já sou deprimido pela própria natureza, eu bebia demais para ficar alegre e não me deixar contaminar pelos olhos de Theda Bara do Serra. Mas em momentos sóbrios, conversamos muito. A tristeza dele é que estava havia catorze anos fora do Brasil. Disse que tinha pai velho e queria revê-lo. Corajosamente, se foi para o Brasil antes da abertura, anistia etc. Deu tudo certo.

Mas, note, Serra não estava mal de vida. Connaisseurs diriam, como eu disse a ele, que, pelo contrário, estava muitíssimo bem de vida. Economista, ele trabalhava com Albert Hirschman, economista que acredita em soluções econômicas para a América Latina (hum…) muito conceituado, e, mais importante, no Instituto de Estudos Avançados de Princeton. Uma explicação talvez se faça necessária. Esse instituto é a maior boca rica da vida acadêmica dos EUA. Foi o lar intelectual de gente como Einstein, Oppenheimer e George Kennan. Só aceita cobras. E só exige dos cobras que pensem e, se possível, deem uma luz ao mundo em livros (Kennan escreveu toda sua obra de história diplomática, indispensável a compreensão da política externa dos EUA, no instituto).  O instituto é o equivalente de All Souls, em Oxford. Não há o inferno de alunos. Os professores ganham muito bem, têm moradia de graça e uma atmosfera de saber e cultura, em que podem se banhar até a morte.

Eu disse a meu amigo: ‘Serra, não volta praquela merda, aquilo não tem jeito. Fica aqui, faz um doutorado em economia, escreve uma análise comparativa da economia mundial, escreve o que você quiser, mas não se mete naquilo. Você está tendo a chance de ser um observador privilegiado do contraste entre civilização e barbárie’.

Não me deu a menor atenção. Se foi para o heart of darkness…, de que não há retorno, como Conrad escreve.

Tempos depois, indo domir num hotel de São Paulo, revi Serra num programa de televisão, aparentemente não comercial, porque se falava sem parar, ou melhor, Serra falava sem parar para um sujeito gordinho e, talvez, careca. Baixava o chanfalho no Delfim. É uma fase.

Depois eu soube que ele foi deputado, candidato a ministro da fazenda, meu pasmo não tinha limites. Como é que aguenta essa gente? A classe política brasileira, desculpem o carioquismo, é pura Lapa ou praça Mauá, ou seja, gente que só víamos no Rio nesses locais sórdidos de longe e o mais rápido possível. É preciso ter um estômago rabelaisiano para ouvir tanta besteira. E, agora, quem quer ser prefeito, encontrar aquela “gente incrível”, como diz Tom Wolfe, a quem uma vez faltaram adjetivos mais claros para definir o que estou falando. Não, não sou Tolstoi, não entendo pura e simplesmente.”

francis

 

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filmes vistos na convalescença do melanoma – primeira semana

Do Oscar:

Vi Perdido em Marte, sessão da tarde, mas que está na mesma categoria de O Regresso e Mad Max: são experiências cinéticas-estéticas, o auge das possibilidades do atual cinema de sensações. Os três filmes formam um bloco oposto ao outro no Oscar, composto por Ponte de Espiões, Spotlight, O Quarto de Jack, A Grande Aposta e Brooklyn (ainda não vi esses três últimos), exemplares do cinema clássico. Gostei bastante de Spotlight, um filme que devia ser mais divulgado, deviam dar um nome apelativo pra ele no Brasil, tipo “O Padres Pedófilos de Boston”, isso seria bom. Vi na convalescença, junto com Steve Jobs. Tanto Spotlight como Jobs fazem parte daquele tipo de filme de interiores, com ótimos diálogos e montagem. Spotlight acaba com a Igreja Católica, Jobs acaba com a Apple e com a figura mítica de seu chairman.

Também do Oscar, vi Carol e A Garota Dinamarquesa, dois bons filmes no estilo clássico, com bons roteiros e conjunto, que tratam da questão de gênero. Gostei dos dois e acho que também deviam ter títulos mais chamativos. Tou com esse negócio de título chamativo na cabeça.

Vi Sicario que me deixou irritado por um detalhe: cumé que aqueles PUTAS carros do governo naquela missão especial no México não eram BLINDADOS?

Vi também Trumbo, que me pareceu um recorte rápido da vida do roteirista comunista, mas achei bom até mesmo por isso, por ser um filme curto e que vai ao ponto.

Assim, nos últimos sete dias, vi oito filmes do Oscar.

Sem ser do Oscar, mas novos:

Vi A Vênus das Peles do Polanski, gostei demais, vi no mesmo dia do Garota Dinamarquesa, então fiz uma anotação mental de jamais experimentar uma roupa ou sapatos da Karen, nem por brincadeira.
;>)

Gostei também de The Cat´s Meow, do Bogdanovich, que conta essa história interessante do assassinato do produtor Thomas Ince pelo magnata Randolph Hearst. Ótima reconstituição de época, ótimos atores, trilha, fotografia… reclamaram demais desse bom filme, gostei.

Mais velhos:

Interessado em filmes de horror camp dos anos 70, vi os bons And Soon the Darkness (dirigido pelo Fuest, do meu adorado Dr. Phibes, esse And Soon é um filme de baixo orçamento, com meia dúzia de atores desconhecidos e duas ou três locações, uma aula de cinema puro), e The Blood of Satan´s Claw, um semi-clássico que se passa no século XVII – bem assustador.

Interessado em filmes que se passam no século XVII, terminei de ver checo O Martelo das Bruxas, um estudo sobre O PODER, usando como exemplo os júris da “santa” Inquisição. Devia passar nas escolas, nesses tempos de Operação Lava Jato.

Estava na fila há tempos para assistir o A Noiva estava de Preto, a homenagem que Truffaut fez a Hitchcock e que Tarantino homenageou em Kill Bill. Ótimo film noir, mas achei Jeanne Moreau meio deslocada e um tanto envelhecida. Desculpem.

Também vi Non ci Resta Che Piangere, o filme que Massimo Troisi e Roberto Benigni fizeram juntos, quase todo na base da improvisação com piadas italianas e muito exagero – como convém. É um filme cultuado, com um final em aberto, eles queriam fazer outro depois, mas acabou não rolando e Troisi morreu, logo depois de completar O Carteiro e o Poeta.

Em doses homeopáticas, estou vendo o estranho Dom Quixote de Orson Welles, já que estou lendo a versão integral do romance de Cervantes.

Assim, em sete dias em casa com a perna para o alto vi 15 filmes, sem contar alguns capítulos do novo Arquivo X e O Agente da Uncle e Esquadrão Classe A, que vimos por diversão de novo.
:>)

Dom Quixote Welles

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