decadência da literatura brasileira

por Graciliano Ramos.

Em “Garranchos”, volume de inéditos de Graciliano Ramos, há o artigo “Decadência do Romance Brasileiro”, escrito em 1941, publicado em espanhol e inglês antes de sair no Brasil, em 1946. O artigo começa com Graciliano citando Prudente de Morais Neto, que teria dito, em 1930, que a má qualidade da literatura de ficção no Brasil se devia a falta de material romanceável. Graciliano não concorda: ele acha que há temas e material, mas faltam romancistas.

Graciliano, então, faz troça dos romances do começo do século e dos modernistas, dizendo que aqueles publicados nas primeiras décadas do século XX eram “causadores de enxaqueca ao mais tolerante dos gramáticos”.

Ferino, o autor escolhe quatro autores para analisar: Rachel de Queiróz, Jorge Amado, José Lins do Rego e Amando Fontes – e desce o pau neles, dizendo que observa uma curva na carreira deles, como se “tivessem perdido o fôlego”. Rachel publicara “O Quinze” em 1930, aos 18 anos, e depois fez pouco. Jorge chegara ao ápice com o terceiro livro, “Jubiabá”, em 1935, e depois foi decaindo. José Lins tem os quatro romances do Ciclo da cana-de-açúcar, entre 1932 e 1936, e, depois, segundo Graciliano, foi apenas “descendo degraus”. Amando lançara “Os Corumbás” em 1933, que nem é tudo isso segundo Graciliano, e depois escreveu um romance com prostitutas que não trepam, chamado “Rua do Siriri” (aliás, acho que vem desse título o termo vulgar para masturbação feminina), que espelha o estado da literatura de então: certinha demais, recatada demais. Diz Graciliano, afinal:

Os nossos melhores romancistas  viviam na província, miúdos e isentos de ambição. Contaram o que viram, o que ouviram, sem imaginar êxitos excessivos. Subiram muito – e devem sentir-se vexados por terem sido tão sinceros. Não voltarão a tratar daquelas coisas simples. Não poderiam recordá-las. Estão longe delas, constrangidos, limitados por numerosas conveniências. Para bem dizer, estão amarrados. Certamente ninguém lhes vai mandar que escrevam de uma forma ou de outra. Ou que não escrevam. Não senhor. Podem manifestar-se. Mas não se manifestam. Não conseguem recobrar a pureza e a coragem primitivas. Transformaram-se. Foram transformados. Sabem que a linguagem que adotavam não convêm. Calam-se. Não tinham nenhuma disciplina, nem gramática, nem na política. Diziam às vezes coisas absurdas – e excelentes. Já não fazem isso. Pensam no que é necessário dizer. No que é vantajoso dizer. No que é possível dizer.

Pouco depois, em 1942, Graciliano recebe um prêmio literário e faz um discurso meio Thomas Bernhard, onde diz:

Fui agora obrigado a ler perto de uma centena de romances inéditos.  Meia dúzia regular, meia dúzia péssima, uns quase sofríveis, outros maus. O resto pertence a esse gênero de composição que injustamente consideramos ruim, porque de fato não tem qualidade nenhuma: não é nada. Se muitos autores absurdos não tivessem tido a ideia de jogar no papel frases inúteis, a minha leitura forçada seria muito menos penosa.

É intuitivo que só devemos escrever se qualquer coisa nos vem do íntimo, qualquer coisa que nos chega sem provocação e quer sair. Pode ser que isso nos apareça uma vez, muitas vezes, e pode não aparecer nunca. […]

Geralmente, contudo, certos cavalheiros hábeis se julgam no dever de engendrar um razoável número de volumes, que lhes proporcionam ‘as honrarias, as viagens, os proventos’”

E finaliza dizendo que a ficção é uma mentira que devemos aceitar, pois sem ela a vida seria um horror.

graça

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