uma piada de clarice lispector

no delicioso ENTRE LEITOR E AUTOR do AFFONSO ROMANO DE SANT´ANNA (17 reals no submarino) tem a CLARICE LISPECTOR contando a seguinte piada:

“Vocês sabem a diferença entre um neurótico e um psicótico? O psicótico diz: dois e dois são cinco, e o neurótico afirma: dois e dois são quatro, mas eu não aguento!”

clarice

 

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decadência da literatura brasileira

por Graciliano Ramos.

Em “Garranchos”, volume de inéditos de Graciliano Ramos, há o artigo “Decadência do Romance Brasileiro”, escrito em 1941, publicado em espanhol e inglês antes de sair no Brasil, em 1946. O artigo começa com Graciliano citando Prudente de Morais Neto, que teria dito, em 1930, que a má qualidade da literatura de ficção no Brasil se devia a falta de material romanceável. Graciliano não concorda: ele acha que há temas e material, mas faltam romancistas.

Graciliano, então, faz troça dos romances do começo do século e dos modernistas, dizendo que aqueles publicados nas primeiras décadas do século XX eram “causadores de enxaqueca ao mais tolerante dos gramáticos”.

Ferino, o autor escolhe quatro autores para analisar: Rachel de Queiróz, Jorge Amado, José Lins do Rego e Amando Fontes – e desce o pau neles, dizendo que observa uma curva na carreira deles, como se “tivessem perdido o fôlego”. Rachel publicara “O Quinze” em 1930, aos 18 anos, e depois fez pouco. Jorge chegara ao ápice com o terceiro livro, “Jubiabá”, em 1935, e depois foi decaindo. José Lins tem os quatro romances do Ciclo da cana-de-açúcar, entre 1932 e 1936, e, depois, segundo Graciliano, foi apenas “descendo degraus”. Amando lançara “Os Corumbás” em 1933, que nem é tudo isso segundo Graciliano, e depois escreveu um romance com prostitutas que não trepam, chamado “Rua do Siriri” (aliás, acho que vem desse título o termo vulgar para masturbação feminina), que espelha o estado da literatura de então: certinha demais, recatada demais. Diz Graciliano, afinal:

Os nossos melhores romancistas  viviam na província, miúdos e isentos de ambição. Contaram o que viram, o que ouviram, sem imaginar êxitos excessivos. Subiram muito – e devem sentir-se vexados por terem sido tão sinceros. Não voltarão a tratar daquelas coisas simples. Não poderiam recordá-las. Estão longe delas, constrangidos, limitados por numerosas conveniências. Para bem dizer, estão amarrados. Certamente ninguém lhes vai mandar que escrevam de uma forma ou de outra. Ou que não escrevam. Não senhor. Podem manifestar-se. Mas não se manifestam. Não conseguem recobrar a pureza e a coragem primitivas. Transformaram-se. Foram transformados. Sabem que a linguagem que adotavam não convêm. Calam-se. Não tinham nenhuma disciplina, nem gramática, nem na política. Diziam às vezes coisas absurdas – e excelentes. Já não fazem isso. Pensam no que é necessário dizer. No que é vantajoso dizer. No que é possível dizer.

Pouco depois, em 1942, Graciliano recebe um prêmio literário e faz um discurso meio Thomas Bernhard, onde diz:

Fui agora obrigado a ler perto de uma centena de romances inéditos.  Meia dúzia regular, meia dúzia péssima, uns quase sofríveis, outros maus. O resto pertence a esse gênero de composição que injustamente consideramos ruim, porque de fato não tem qualidade nenhuma: não é nada. Se muitos autores absurdos não tivessem tido a ideia de jogar no papel frases inúteis, a minha leitura forçada seria muito menos penosa.

É intuitivo que só devemos escrever se qualquer coisa nos vem do íntimo, qualquer coisa que nos chega sem provocação e quer sair. Pode ser que isso nos apareça uma vez, muitas vezes, e pode não aparecer nunca. […]

Geralmente, contudo, certos cavalheiros hábeis se julgam no dever de engendrar um razoável número de volumes, que lhes proporcionam ‘as honrarias, as viagens, os proventos’”

E finaliza dizendo que a ficção é uma mentira que devemos aceitar, pois sem ela a vida seria um horror.

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meus melhores livros de 2015

Tenho visto listas com os melhores livros nacionais de 2015 e devo confessar que não li a maioria – o que devo fazer em breve, já que me interessa a produção dos meus contemporâneos. Mas também digo que li alguns que aparecem nessas listas e que me decepcionaram. Dos que li, quero destacar dois autores que fizeram suas estreias na ficção e que são do interior do estado de SP: o primeiro é “A imensidão íntima dos Carneiros”, romance de Marcelo Maluf, barbarense que vive em São Paulo, e que foi indicado ao prêmio APCA. De tom intimista, Maluf investiga a história de sua família de imigrantes libaneses através do medo. O outro é “Larva”, de Verena Cavalcante, que vive em Limeira, livro de contos de horror narrados por crianças. Verena tem a capacidade de criar um gênero literário nessa sua estreia, com seus narradores ingênuos e claudicantes, contando histórias aparentemente simples, mas cheias de suspense e pavor. Recomendo muito ambos.

Também muito bom e original é a narrativa “Terno de Reis”, de Daniel Brazil. À primeira vista, parece um romance histórico, onde o autor pretende contar a saga de um jovem nascido em Amparo (SP) que pretende se dar bem na  capital, em meados dos anos 60. O tom regional é substituído pelo tom urbano e, na sequência, pelo fantástico. Mudando de tom, mas mantendo incrível coerência narrativa, Brazil conta boa parte da história do país nos últimos 50 anos. Escrevi brevemente sobre ele aqui: http://panoramaliterario.com.br/resenha-terno-de-reis-de-daniel-brazil-por-luiz-biajoni/

Creio, porém, que o livro que mais me impressionou neste ano foi o “Fernando Pessoa – O Cavaleiro de Nada”, da Elisa Lucinda. Ele foi lançado no final de 2014, mas parece que ainda não foi descoberto pelos leitores. Lucinda faz nada menos que uma “autobiografia de Fernando Pessoa”. Isso mesmo: ela conta, na primeira pessoa, a vida do grande poeta português. Ousado, substancioso, divertido, amargo, o livro tem tudo o que se espera de uma grande obra.

Também tendo um poeta como tema, Lucia Bettencourt publicou “O Regresso – A última viagem de Rimbaud”, ótimo lançamento de 2015, em que também assume a voz do poeta. Mas tem outro tom, mais lírico e contido. Não é leitura para todos, mas considero um dos melhores livros não só do ano, mas dos últimos tempos escrito por um autor nacional.

Para finalizar, alguns livros que me deram grande diversão: “Eu, Cowboy”, de Caco Ishak; “A Pedido do Embaixador”, de Fernando Perdigão; “Que fim levou Juliana Klein”, de Marcos Peres; “Biofobia”, de Santiago Nazarian e “Carne de Canhão”, de Agustín Arosteguy.

Com esses, fecho 10 livros nacionais que recomendo, sem esquecer a transcriação de Alex Castro para o clássico cubano “A Autobiografia do Poeta-Escravo Juan Francisco Manzano”, uma das mais importantes publicações do ano no Brasil.

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