… apresentação de hugo gonçalves para a edição de “a comédia mundana” em portugal

“Li a novela que abre este livro, pela primeira vez, numa viagem para São Paulo. No aeroporto, peguei no livro e não mais o larguei, esquecendo-me rapidamente do pudor que, entre tantas pessoas na sala de embarque, poderia suscitar uma capa com o título “Sexo Anal”. Aquela história tinha sido descarregada dez mil vezes na internet, mas tivera apenas uma pequena edição em papel, que esgotara e merecera boas críticas. Mesmo assim, Biajoni não encontrara uma editora para publicar a totalidade da sua trilogia sacana – “Sexo Anal”, “Buceta” e “Boquete”.

Na altura, o mundo editorial atravessava o esplendor de vendas dos romances eróticos que prometiam arrojo e libertação, especialmente para mulheres. Talvez se esperasse dos títulos de Biajoni alguma coisa do mesmo género. Ele próprio reconhecia que, provavelmente, vários downloads não tinham motivações literárias: “Muita gente só estava procurando sacanagem”.

À medida que avançava na história, experimentei o mesmo orgulho dos adolescentes quando descobrem uma banda que soa como algo nunca antes escutado e que, por ser ainda marginal e pouco conhecida do público, garante ao ouvinte um sentimento de singularidade. Tendo em conta os títulos das três novelas, eu esperava talvez uma espécie de “Sodoma e Gomorra”, versão brasileira e contemporânea. Rapidamente percebi que, apesar dos títulos, as histórias de Biajoni não eram sobre sexo, ou seja, ele não usa o sexo como se fosse a música da flauta encantada, a sua escrita não oferece um voyeurismo seguro de poltrona. O sexo, excecionalmente narrado, é abundante porque – como diria Philip Roth quando lhe perguntaram sobre a omnipresença dessa temática nos seus livros – “as pessoas têm sexo, e porque é uma parte importante da vida de todos”.

No regresso de São Paulo, também no aeroporto, peguei na segunda novela com a sofreguidão de um esfomeado. Sim, os livros, como sugeriam os títulos, eram capazes de incendiar virilhas, provocar aceleração cardíaca e fazer palpitar decotes, mas essas eram apenas algumas das regalias da leitura. São três novelas sacanas, mas podia ser um romance, porque a habilidade criativa de Biajoni constrói um retrato completo e fiel dos exageros, paixões e relações de poder numa cidade grande do interior. Esqueça-se o Brasil das canções românticas com violão e das praias decoradas com coqueiros. O que este livro oferece é muito mais do que o catálogo de uma agência de viagens.

Em “A Comédia Mundana”, Luiz Biajoni empurra-nos para as ruas, bordéis, redações e delegacias de uma das muitas urbes do interior, uma dessas cidades que engordou com a recente prosperidade brasileira, mas que não tem uma livraria ou um cinema, e onde a modernidade se mistura perversamente com o legado obsoleto do país dos coronéis, um lugar desajustado onde se define com vigor quem triunfa e quem perde repetidamente. O Brasil dos ricos e dos fodidos, dos espertos e dos otários, dos impunes e dos amaldiçoados.

São histórias policiais, que alternadamente cativam e inquietam o leitor, mas o género é apenas o pano de fundo, a trama, a atmosfera, porque Biajoni, com uma escrita tão desenvolta como visceral, tão engraçada como implacável (por vezes parece que levamos um murro no estômago, noutras sentimos o sangue mais lascivo ou rimos desalmadamente), revela as costuras dessa cidade, ao longo de vários anos e gerações, através de histórias (muitas delas baseadas em factos reais) e de pessoas (muitas delas existem) que se comem, se digladiam, se traem, se apaixonam e se matam: o repórter justiceiro, o travesti redentor, a mulher fatal ou a Lolita que sonha recuperar o hímen da sua virgindade para casar com um pastor gay.

Por mais pulp que, por vezes, pareçam as personagens e enredos deste livro, elas apenas ressoam uma verdade, talvez estranha para os portugueses, mas que faz parte do quotidiano de milhões de brasileiros. Quando começámos o trabalho de edição, toldado pelo etnocentrismo típico dos humanos, coloquei algumas reticências a certos detalhes e acontecimentos no livro, justificando a improbabilidade de, por exemplo, um jornalista poder participar dos abusos durante um interrogatório policial. Se fosse português, Biajoni teria-me chamado “tenrinho”. Não só isso acontecera, como é prática comum. Seguiu-se uma troca de emails e de encontros em que o autor foi revelando os bastidores do livro, as personagens inspiradas em pessoas reais, as histórias que deixara de fora, enfim, um manancial romanesco que precisava de um narrador, o avesso de um Brasil que, embora dificilmente seja convidado para a ilha da Caras, vale a pena conhecer.

Desde então, todas as semanas recebo um email do Biajoni com o link para uma notícia bizarra da sua região. Muito mais do que uma lição de moral passada ao portuga ingénuo, trata-se de uma piada que, pelo teor rocambolesco e improvável das notícias, funciona sempre. O humor, aliás, é um traço indelével do Biajoni, tanto cara a cara como naquilo que escreve. E é por causa desse humor – além da sua escrita ágil, precisa e empolgante – que melhor suportamos a crueldade, o egoísmo e a ganância que mancham e motivam os protagonistas destas novelas.

Um dia perguntei-lhe por que deixara de ser repórter de crime, desaproveitando uma fonte inesgotável, que daria livros e mais livros. “Porque tive uma filha”, disse ele. Sempre suspeitei que Biajoni, que nos seus tempos de repórter foi testemunha de algumas das histórias deste livro, se livrara sagazmente desse universo obscuro a tempo de não ser engolido e de poder escrever sobre ele sem estar ainda danificado pelo cinismo e pela indiferença. E é por isso que, em vez de uma tragédia ou um melodrama, temos uma comédia em três atos.”

aaaaaaaa

*Hugo Gonçalves é jornalista e escritor português, autor de “Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo”, e foi editor deste livro no Brasil.

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