… borges e o amor

Perguntado por Roberto D´Ávila, num antigo “Conexão Internacional”, sobre “Que conselho você daria a quem deseja se casar?”, Jorge Luis Borges respondeu em inglês: “Don´t”. Não case, enfim.

Em Buenos Aires encontrei um interessante livro, na verdade um apanhado e costurado de entrevistas que Borges deu antes de morrer  (Dos Palabras Antes de Morir – y otras entrevistas, compilación de Fernando Mateo, 1994, LC Editor). Relendo-o recentemente, encontrei o trecho abaixo que tomo a licença de traduzir:

“Pergunta – O senhor (Borges) fala que só é possível uma relação entre iguais. Isso significa que é uma condição necessária uma similiar formação cultural entre os amantes?

Borges – Bom, isso ajuda a ver a vida da mesma maneira. É importante que cada um possa expressar-se dentro do universo cultural que é seu, que pertence aos dois. Assim, o diálogo é profundo. Eu me enamorei algumas vezes de pessoas culturalmente muito limitadas e essas relações foram desastrosas. Quando estive na Espanha, por exemplo, as mulheres eram terrivelmente ignorantes. Era o ano de 1920 e uma garota espanhola só havia lido dois livros, dois livros do padre Colombo: “Pequeñeces” e “Por un piojo”. Você percebe que o diálogo só pode ser difícil com pessoas cujas leituras estão limitadas a esses textos, não? Posso recordar uma frase de Nietzsche, escritor que não tem minha admiração, certamente… mas disse uma frase muito linda: “O matrimônio é uma larga conversação”.

Entrevistador – Quando existe uma conversação!

Borges – Se não existe o diálogo, não existe o amor.”

Kodama-Borges

A partir desse pequeno trecho, lembrei da definição platônica de diálogo: argumentação, contrargumentação e conclusão. O matrimônio talvez fosse então uma larga conversação sem conclusão.

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