… poema novo

para o escritor morto.

 

Não choraminguem o escritor morto,

por favor. Antes tivessem comprado seus livros

para lhe proporcionar algum conforto

durante a vida. Agora são tempos idos;

 

como diria o grande poeta, a Inês é morta,

e ele, mais do que imagina, como diria Pessoa.

Sua mão, antes produtiva, está inerte e torta,

a criatividade, dentro de seu crânio, não mais ressoa.

 

Em seu estúdio, entreaberta está a porta,

mas só há ausência lá, um espaço desocupado.

Nas estantes, porém, o escritor está físico

 

e ainda pode ser visto, apalpado e considerado.

No caixão, está amarelo e tísico,

E não há o que se chorar se ele ainda pode ser lido.

J.-Borges-e-Ariano-Suassuna

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um poema antigo

conversa existencial num bar fino em mato grosso

– o que vai ser, doutor?
– ora, me vê aí uma dose de torpor,
coloque gelo para descer melhor,
e não se esqueça do chorinho!

– tá na mão! o chopp é com colarinho?
– pouco. o preço tá bem carinho!
– não vai beliscar nada, que tal uma panceta?
– não tem nada que rime com essa palavra horrenda?

– aqui é bar de respeito, quer chuleta?
– meu coração não anda bem, bate, bate e pára…
veja uma porção de carne de capivara.

– desculpa a pergunta… o senhor não tem família?
– não, nessa vida sou só eu e minha velha brasília.
(querem que homens assim sejam como eu e você?)

(algumas coisas, definitivamente, não dá pra se escolher)

dialogo

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