…o teatro, por nelson rodrigues

Como o Vianinha, o nosso Zé Celso acha que só a platéia existe. Em suma: — para ele e o Libero o mistério teatral reduz-se a duzentas senhoras gordas comendo pipocas.

Dirá o leitor: — “É uma idéia”. E eu concordo. “É uma idéia”. Mas aí começa o cavo e afetuoso abismo entre mim e o Zé Celso, entre mim e o Ripoli. Assim como o Zé Celso acha que o espetáculo nada tem a ver com o autor, eu entendo que o teatro nada tem a ver com a platéia. Só reconheço na platéia uma função estritamente pagante. Não devia ter nem o direito do aplauso. O aplauso já me parece uma exorbitância.

Vou um pouco mais longe: — também acho que, por causa da platéia, o teatro é a mais incriada das artes. Mesmo os maiores poetas dramáticos escrevem para a platéia. A rigor, não existe o autor dramático absoluto, já que todos aceitam a co-autoria das duzentas senhoras gordas. Elas não sabem de nada, não entendem de nada, não pensam nada. Mas o espetáculo é feito para elas e, repito, feito à sua imagem e semelhança. E, porque existe uma co-autoria bastarda, o teatro ainda não conseguiu ser arte.

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