… juliana frank sobre ‘a comédia mundana’

“Luiz Biajoni livra a literatura do pastoso, do permissivo, do casto. As três novelas desta ‘A Comédia Mundana’  têm a mesma linguagem ágil, trash, pop, elétrica. Cheiram a novidade. Mostram personagens inteligentes e espirocados. E sexo. O leitor que pare de ler pra bater uma punheta ou uma siririca. E depois retome de onde parou. O leitor que levite num texto cru que ora morde, ora flutua. Qual o problema em narrar o hórrido, o nojento? Ora, são personagens feitos de carne. Há, por acaso, algo mais palpável que bocetas, cus e caralhos? É obsceno dizer isso e aquilo? Principalmente aquilo?

Biajoni odeia o cabecismo literário. As histórias começam com problemas banais e vão crescendo, crescendo, até atingir proporções avassaladoras. O Bia domina muito bem a narrativa contemporânea, é um escritor perigosamente atento a tudo, numa época definitivamente fora de foco. Suas bizarrices fisicalizadas vestem-se de vida comum. Vem à tona uma prosa ora oral, ora policial, ora vaginal. E do marrom, passa ao cor-de-rosa, até chegar no vermelho. O autor rima hemorroidas com gargalhadas. Seus folhetins alucinam mas jamais derrapam ou perdem o sentido. A maquiagem suja esconde sanidade e limpeza que tem tudo para salvar a literatura do ‘ formalismo chato do escritor criado por vó, na biblioteca do pai, tomando leite de pêra’ . Já as fêmeas dos livros não são eróticas nem são neuróticas.  Assim como essas três noveletas também não podem ser tidas nem lidas como pornográficas ou policiais. Por que tudo tem que ter gênero? Por que pra tudo um norte? Isso, Biajoni, entra sem bater, por trás, pela frente, pelo oeste e nordeste dessas bocetas desses cus e caralhos. Assim, sem lubrificante nem nota de rodapé.

Juliana Frank

Há dez anos, negaram Luiz Biajoni em 16 editoras. Por que negaram? Por que não tava escrevendo sobre frutas? Só porque não contava histórias de velhos verruguentos alimentando pombos? O que é isso que tem hoje? Por que todos querem o bonito? Esgarça esse cu de rapariga, opera essa desdita, sangra essa mandíbula. Corta seco a frase e bota uma vírgula aqui e ali, vai contando desse jeito pop, decadente, o que fervilha na mulher indecente até o pelo do pente; fotografias cruéis; perguntas que insistem e berimbam; figuras bastante deterioradas; saias alçadas; bocas cheias de sangue e porra.

Agora a Língua Geral lança, corajosamente, os três volumes, como deve ser, num só. E nos tira da situação miserável e paupérrima dessa literatura normalíssima, que funciona como um guia para o bom-mocismo! Lançaram o cu, a buceta e o boquete! Mas que notícia! Bom dia, Biajoni. Esgarça as pregas do leitor. Ah, eu gosto tanto de te ler!”

juliana frank, autora de “meu coração de pedra pomes”

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