… millôr, resumindo

“O livro Todo homem é minha caça, nome inspirado num poema do inglês Pope, mostra a minha profunda descrença no ser humano – que eu sou. E olhem que jamais procurei um homem perfeito. Nunca tive admiração pelo”If”, de Kipling – poema fascistóide em que o genial propagandista do Império Britânico esculpe um homem de mármore, com “qualidades” que fariam desse ser, se existisse, um chato perfeito. E não me espanta que Alekos Panagulis, o Homem de Oriana Fallaci, o super-herói dessa mulher em geral tão dura, fosse um admirador do “If”. Tinha esse poema enquadrado, como qualquer executivo (vi, através da vida, inúmeras cópias emolduradas em escritórios de luxo) mediocremente mercantil. Heróis nunca me iludiram.

Quando caço o homem, como Nemrod na Bíblia, e procuro alvejar individualmente o mesquinho, o covarde, o hipócrita, o corrupto, o incompetente, e, coletivamente, a medicina, a política, a psicanálise, o jornalismo, o economismo, com suas pretensões falsas, falhas, fraquezas, egoísmo e sandices (que são as minhas, eu nunca esqueço; só que eu nunca esqueço, a maior parte das pessoas nem se lembra) não estou preocupado com essas falhas e defeitos insanáveis, mas com o inevitável fim a que isso leva – a desumanidade do homem para com o homem. Mas ai!, não resta alternativa – nada me interessa mais do que o ser humano. A partir de um certo momento da vida minha maior diversão passou a ser conversar, longa, lenta, interessadamente com alguém. Mas uma pessoa só. Quantas vezes, na calma do meu estúdio, atravesso a tarde e penetro pela noite, falando a alguém que veio me procurar. Interrompo o trabalho mais premente – a princípio aborrecido com a intromissão – e de repente me vejo profundamente ligado a uma pessoa que nunca vi, num psicanalismo bifronte e gratuito (o único válido; o unilateral e com guichê na porta é uma contrafação) arte pela arte no seu melhor momento. E, vejam bem, essas conversas são, indiferentemente, – honni soit qui mal y pense – com homem ou mulher, jovens ou velhos. Daí vem muito o meu conhecimento do outro lado, a certeza que ninguém quer ser mesmo torturador, todo mundo gostaria de ser generoso, não há quem não tenha uma justificativa absolutamente correta pro seu erro, seu mau-caratismo, seu péssimo humor, sua violência. Mas as justificativas não eliminam o fato de que todos nós só queremos a nós mesmos; o irmão que se rompa. Mesmo o mais humilde, o “sacerdote” mais “santo”, a sua vanglória o arrasta, pelo menos, a querer ser “o mais humilde do ano”. Estão aí Dom Hélder e Madre Teresa de Calcutá que não me deixam mentir. Humildes, sim, mas que ninguém duvide disso!

Mesmo o herói indubitável, aquele que tirou alguém do incêdio – e quantas vezes me digo: “bem, aí está um entre as chamas, aí está a salvação”, – quando o conheço melhor, descubro que é, na vida diária, usurário de pequenos empréstimos ou mercador de remédios falsificados. É só ler uma enciclopédia com olhos abertos para ver que não houve exceção – todos os “libertadores” foram posteriormente tiranos, quase sempre “Salvadores Perpétuos” da pátria a ferro e fogo (e muito pau-de-arara); as sociedades filantrópicas se transformam sempre, quando já não eram assim em intenção, em fontes de suborno e locupletação; as ideologias, feitas em nome do homem, logo servem à glorificação e/ou gozo material de ideólogos, e a conseqüente exploração da coletividade. Humorismo é a visão cética no seu mais profundo sentido. Redentora. Aquela que nos permite, honestamente, variar sobre a imagem cansada e repetir: “O homem está nu!” É a única que vê o herói César depilando seu corpo para – cito Suetônio – ser “O homem de todas as mulheres e a mulher de todos os homens”, e não o herói shakesperiano. Que vê Napoleão sabendo se proteger muito bem nos campos de batalha porque, naturalmente, isso importava muito mais para a glória da França do que qualquer preocupação com (outras) vidas humanas. Que vê Baden Powell, o do escotismo, produzindo um “heróico” extermínio de negros na Guerra dos Boers. Que vê todos os grandes experts em pintura da Europa depondo num tribunal holandês contra o pintor falsário Van Meegerem – aqueles mesmos que, durante anos, impuseram aos europeus as falsificações dele como peças autênticas – até que ele desmascarasse tudo e todos, falsificando um quadro diante de seus próprios juízes. Que sabe que os grandes negócios escusos (há outros?) internacionais são feitos em camas milionárias, resolvidos em Iates de luxo, decididos em banquetes filantrópicos, planejados em todos os lugares dourados do mundo. É aí que, impunemente, se decide a morte de milhões de miseráveis que jamais saberão que sua fome e sua degradação foram negociadas a milhares de quilômetros de distância, num Mediterranée ensolarado. Só a descrença total pode trazer alguma solução.

Só o ceticismo integral pode começar a produzir um mínimo de verdade, criar um sentimento de maior aproximação com o outro ser humano assim mesmo como ele é; quer dizer, a partir do conhecimento de sua crapulice, de sua mentira, de sua quase-absoluta incapacidade de corresponder. Só a aceitação desse ser centralizado definitivamente em seu próprio umbigo (religiões e idelogias, uma tentativa comercial de apresentá-lo de maneiras diversa, só tem feito criar monstros sagrados, cada vez maiores à medida que as populações aumentam e, com elas, os recursos da tecnologia da comunicação) pode nos conduzir a um suportável convívio. Por mim, acho que já aprendi a conhecer o ser humano que sou eu mesmo, meu irmão homem. Já sei até seu nome – Caim. Não adianta toda minha racionalização, não adianta eu olhar no olho de todo e qualquer interlocutor e saber que cada palavra dele – um imenso código sempre mais complicado – não corresponde a nada do que ele é.

O sentido de humor, que me faz ver sempre falho – porque a mim não me vejo de outro modo – me mostra toda a complexidade das relações humanas com uma coisa extraordinariamente engraçada, mesmo quando dramática, mesmo quando odiosa, mesmo quando mesquinha. Pois fora do ser humano a vida não tem enredo. Fora do ser humano não há salvação. Não resisto a um ser humano.”

millôr fernandes, últimas palavras na “bíblia do caos”

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… juliana frank sobre ‘a comédia mundana’

“Luiz Biajoni livra a literatura do pastoso, do permissivo, do casto. As três novelas desta ‘A Comédia Mundana’  têm a mesma linguagem ágil, trash, pop, elétrica. Cheiram a novidade. Mostram personagens inteligentes e espirocados. E sexo. O leitor que pare de ler pra bater uma punheta ou uma siririca. E depois retome de onde parou. O leitor que levite num texto cru que ora morde, ora flutua. Qual o problema em narrar o hórrido, o nojento? Ora, são personagens feitos de carne. Há, por acaso, algo mais palpável que bocetas, cus e caralhos? É obsceno dizer isso e aquilo? Principalmente aquilo?

Biajoni odeia o cabecismo literário. As histórias começam com problemas banais e vão crescendo, crescendo, até atingir proporções avassaladoras. O Bia domina muito bem a narrativa contemporânea, é um escritor perigosamente atento a tudo, numa época definitivamente fora de foco. Suas bizarrices fisicalizadas vestem-se de vida comum. Vem à tona uma prosa ora oral, ora policial, ora vaginal. E do marrom, passa ao cor-de-rosa, até chegar no vermelho. O autor rima hemorroidas com gargalhadas. Seus folhetins alucinam mas jamais derrapam ou perdem o sentido. A maquiagem suja esconde sanidade e limpeza que tem tudo para salvar a literatura do ‘ formalismo chato do escritor criado por vó, na biblioteca do pai, tomando leite de pêra’ . Já as fêmeas dos livros não são eróticas nem são neuróticas.  Assim como essas três noveletas também não podem ser tidas nem lidas como pornográficas ou policiais. Por que tudo tem que ter gênero? Por que pra tudo um norte? Isso, Biajoni, entra sem bater, por trás, pela frente, pelo oeste e nordeste dessas bocetas desses cus e caralhos. Assim, sem lubrificante nem nota de rodapé.

Juliana Frank

Há dez anos, negaram Luiz Biajoni em 16 editoras. Por que negaram? Por que não tava escrevendo sobre frutas? Só porque não contava histórias de velhos verruguentos alimentando pombos? O que é isso que tem hoje? Por que todos querem o bonito? Esgarça esse cu de rapariga, opera essa desdita, sangra essa mandíbula. Corta seco a frase e bota uma vírgula aqui e ali, vai contando desse jeito pop, decadente, o que fervilha na mulher indecente até o pelo do pente; fotografias cruéis; perguntas que insistem e berimbam; figuras bastante deterioradas; saias alçadas; bocas cheias de sangue e porra.

Agora a Língua Geral lança, corajosamente, os três volumes, como deve ser, num só. E nos tira da situação miserável e paupérrima dessa literatura normalíssima, que funciona como um guia para o bom-mocismo! Lançaram o cu, a buceta e o boquete! Mas que notícia! Bom dia, Biajoni. Esgarça as pregas do leitor. Ah, eu gosto tanto de te ler!”

juliana frank, autora de “meu coração de pedra pomes”

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