… 10 livros que me marcaram

conforme brincadeira no facebook, abaixo alguns livros que me marcaram e me fizeram querer escrever:

1 – O Gênio do Crime – João Carlos Marinho

2 – Fabulário Geral do Delírio Cotidiano – Charles Bukowski

3 – Trópico de Câncer – Henry Miller

4 – O Estrangeiro – Albert Camus

5 – Tanto Faz – Reinaldo Moraes

livros

6 – Baudelaire – Henri Troyat

7 – A Dupla Chama – Amor e Erotismo – Octavio Paz

8 – Ficções – Jorge Luis Borges

9 – Crime e Castigo – Dostoiévski

10 – O Enigma da Pedra – Jim Dodge

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… o que é limerick?

basicamente: são poemas geralmente satíricos, muitas vezes eróticos, compostos de simples 5 versos, onde os dois primeiros e o último rimam, assim como os versos 3 e 4 (esquema aabba).

o poeta paraíbano bráulio tavares criava o que ele chamava de “limeiriques”:

Havia uma moça chamada Virginia
que foi trepar com um crioulão da Abissínia.
Muito vaidoso ele ficou
pensando que a deflorou…
mas apenas esqueceu de tirar-lhe a calcinha!

nos anos 80 alguns tradutores e poetas passaram a verter limericks para o português, como luiz roberto guedes:

Uma mulher de Itaparica
Nasceu também com uma pica.
E como tem chavasca,
Ela mesma se tasca —
Soca a piroca na crica.

o original:

There was a young woman named Lily
Who chanced to be born with a willy.
Since she had a cunt too,
When she felt like a screw,
She could lie back and fuck herself, silly.

o grande divulgador do limeirique é glauco mattoso, que compilou a produção brasileira no livro “limeiriques & outros debiques glauquianos”. alguns dos melhores limeiriques são de glauco:

Toda vez que ele fica de pau duro,
pirulita-se pra lugar seguro.
Vaso sanitário,
vício solitário.
Nunca sofreu de gozo prematuro.

ou

Uma atriz, no Tocantins,
diz: “Que fiz nestes confins?
Cansei! Quero mais!
Ribaltas globais!”
Hoje é puta nos Jardins.

glauco

daqui (e com mais).

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… morrer tudo bem) mas Morte, de e.e. cummings

morrer tudo bem) mas Morte

? ah
meu bem
eu

não gostaria da

Morte se a Morte
fosse boa: pois

quando (em vez de parar de pensar) se

sente chegar, morrer
é um milagre
por quê? é

que morrer é

perfeitamente natural; perfeitamente
para dizer
o mínimo vívido(mas a

Morte

é rigorosamente
científica
& artificial &
maligna & jurídica)
agradecemos-te
deus
todo-poderoso por morrer
(perdoai-nos,ó vida! o pecado da Morte

.tradução de gil pinheiro

ee cummings

dying is fine)but Death

?o
baby
i
wouldn’t like
Death if Death
were
good:for
when(instead of stopping to think)you
begin to feel of it,dying
‘s miraculous
why?be
cause dying is
perfectly natural;perfectly
putting
it mildly lively(but
Death
is strictly
scientific
& artificial &
evil & legal)
we thank thee
god
almighty for dying
(forgive us, o life! the sin of Death

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… três livros que eu queria ter escrito

bom, tem aqueles livros que, putz, jamais daria para escrever; só mesmo tendo vivido algumas coisas específicas. tipo “moby dick” ou “trópico de câncer” ou “misto quente”. tem coisas que não dá pra almejar, como “ulisses” ou “grande sertão: veredas” ou “ficções”. e eu nem sei se, na minha infinita pretensão, eu realmente gostaria de ter escrito esses livros.

mas tem três livros, aos quais voltei recentemente, que eu realmente gostaria de ter escrito. e, interessante, eles têm algo em comum.

o primeiro é “belas maldições – as belas e precisas profecias de agnes nutter, bruxa”, viagem de terry pratchett e neil gaiman. apesar da genialidade desses dois malucos, o livro é até simples: conta a história de dois anjos, um “do mal” e um “do bem” (mas não tão definidos assim), que devem impedir o fim do mundo, que está nas mãos de uma criança de onze anos chamada adam e que tem um cão chamado cão e uma amiguinha briguenta chamada pimentinha. as confusões malucas nas quais eles se envolvem dão o ritmo.

belas-maldições

o segundo é “o enigma da pedra”, de jim dodge. conta a história de daniel pearse, um garoto mais interessante que holden caufield. nascido de uma jovem e louquinha mãe de 16 anos, ele cresce mantido por uma organização internacional de foras-da-lei, a AMO, que tem como líder um ex-mágico que tem a capacidade de se desmaterializar. pearse vai passar por treinamentos para decifrar o tal enigma da pedra que é, na última instância, o sentido da vida.

o terceiro é “o mundo segundo garp”, de john irving. filho de uma feminista, garp é um observador arguto do estranho mundo em que vive. o filme, de 1982, com robin williams, é bom – mas o livro é sensacional. os seis primeiros parágrafos transmitem tantas informações – e de maneira tão incrível – que podiam estar em um manual sobre como começar um romance (se existisse um manual assim). minha edição é de 1988, do círculo do livro, e tem tradução de luiz corção. o trecho em que a mãe, jenny, é fecundada pelo moribundo tenente sargento garp, está assim:

“Sentia-se mais receptiva que um solo bem arado, que uma terra bem adubada, e sentira bem quando Garp ejaculara dentro dela com tanta generosidade como se fosse uma mangueira de água num verão (como se lhe fosse possível irrigar um gramado).”

john irving

com imagens assim, irving constrói um livro leve, alegre, amargo na medida, como uma boa vida, como a plena e boa vida de garp.

em comum, os três livros tem crianças, conta a história de meninos que se transformam em homens. nunca pensei em escrever um livro todo a partir de um único personagem, criar uma história a partir de uma pessoa. ao pensar nesses livros, fiquei com uma vontade assim. quem sabe?

e você? quais os três livros que gostaria de ter escrito?

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… trecho de ‘homem comum’

Em todo o estado, naquele dia, tinha havido quinhentos funerais como este, rotineiros, normais e, tirando os trinta segundos inesperados proporcionados pelos filhos – e tirando a ressurreição efetuada por Howie, com tamanha precisão, do mundo inocente que existia antes da invenção da morte, a vida perpétua naquele éden criado pelo pai, um paraíso com apenas cinco metros de fachada e doze de profundidade, disfarçado de joalheria tradicional -, nem mais nem menos interessante que os outros. Por outro lado, é justamente o que há de normal nos funerais o que os torna mais dolorosos, mais um registro da realidade da morte que avassala tudo.

Minutos depois, todos já haviam ido embora – cansados, chorosos, deixando para trás a atividade menos atraente a que se entrega a espécie humana – e ele ficou só. É claro que, tal como ocorre quando qualquer pessoa morre, embora muitos estivessem sofrendo, outros permaneciam indiferentes, ou se sentiam aliviados, ou então, por motivos bons ou maus, estavam na verdade satisfeitos.

Philip Roth em “Homem Comum”

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