… o erotismo, por octavio paz

“amor e erotismo – a dupla chama”, de octavio paz, é um dos melhores livros que já li. está fora de catálogo no brasil – e, pelo jeito, quem tem não vende, já que existem poucos em sebos. se achar por aí, compra; se não gostar, eu compro de você. Como o título diz, ele fala sobre amor e erotismo, no trecho abaixo discorre sobre a banalização do corpo, o que diminui o erotismo.

Octavio Paz

A modernidade dessacralizou o corpo e a publicidade o utilizou como um instrumento de propaganda. Todos os dias a televisão nos apresenta belos corpos seminus para anunciar uma marca de cerveja, um móvel, um novo modelo de carro ou meias femininas. O capitalismo converteu Eros em um empregado de Mammon. À degradação da imagem temos de acrescentar a servidão sexual. A prostituição é uma vasta rede internacional que trafica com todas as raças e todas as idades, sem excluir, como sabemos, as crianças. Sade sonhava com uma sociedade de leis fracas e paixões fortes, na qual o único direito seria o prazer, por mais cruel e mortífero que fosse. Nunca se imaginou que o comércio suplantaria a filosofia libertina e que o prazer se transformaria num departamento da indústria da publicidade e num ramo do comércio. No passado a pornografia e a prostituição eram atividades artesanais, por assim dizer; hoje são parte essencial da economia de consumo. Não me alarma sua existência, mas sim as proporções que assumiram e a natureza que têm hoje, ao mesmo tempo mecânica e institucional. Deixaram de ser transgressões.

Para compreender nossa situação nada melhor que comparar duas políticas de aparências opostas, mas que produzem resultados semelhantes. Uma é a estúpida proibição das drogas, que longe de eliminar seu uso, multiplicou-o e fez do narcotráfico um dos grandes negócios do século XX; um negócio tão grande e poderoso que desafia a polícia e ameaça a estabilidade política de algumas nações. Outra, a permissão sexual degradou Eros, corrompeu a imaginação humana, ressecou a sensibilidade e fez da liberdade sexual a máscara da escravidão dos corpos. Não estou pedindo a volta da odiosa moral das proibições e castigos: enfatizo, isso sim, que os poderes do dinheiro e a moral do lucro fizeram da liberdade de amar uma servidão. Nesse domínio, como em tantos outros, as sociedades modernas enfrentam contradições e perigos que não conheceram no passado.

A degradação do erotismo corresponde a outras perversões que foram e são, eu diria, o tiro pela culatra da modernidade.

Octavio Paz, 1993.

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