… paulo coelho busca borges

o post abaixo saiu em dezembro de 2005 no blog ‘sublinhado’ e foi por ocasião do lançamento do livro “o aleph”, de paulo coelho – fiquei indignado pelo fato de, mais uma vez, coelho roubar um título de conto de borges para dar a um livro (o primeiro tinha sido “o zahir”). o texto aponta a obsessão de coelho por borges desde a época da parceria com raul seixas.

“Em Buenos Aires, o Zahir é uma moeda comum, de vinte centavos; marcas de navalha ou canivete riscam as letras N e T e o número dois; 1929 é a data gravada no anverso. (Em Guzerat, em fins do século XVIII, um tigre foi Zahir; em Java, um cego da mesquita de Surakarta, que os fiéis apedrejaram; na Pérsia, um astrolábio que Nadir Shah mandou atirar no fundo do mar; nas prisões do Mahdi, por volta de 1892, uma pequena bússola que Rudolf Carl von Slatin tocou, envolta numa dobra de turbante; na mesquita de Córdova, segundo Zotenberg, um veio no mármore de um dos mil e duzentos pilares; entre os judeus do Tetuan, o fundo de um poço.)[…]“

esse trecho é o início de “o zahir”, conto de meia dúzia de páginas, incluído em “o aleph” (1949), de jorge luis borges. paulo coelho lançou um livro com o mesmo nome do conto. coelho jamais escreveria algo sequer próximo desse início de “o zahir” de borges. mas não é sobre isso que quero falar. o anúncio desse livro do “mago” fez cair uma série de fichas aqui na minha cabeça: não é de hoje que Coelho está na “cola” do maior escritor argentino. e aí chegamos ao ponto.

pc embuste e borges genio

nosso “mais vendido escritor” foi jornalista nos 60s, esteve várias vezes na Argentina e, certamente, conheceu e se deslumbrou com a obra de borges. foi parceiro de raul seixas em várias canções e, naquelas, aponta o dedo borgeano em alguns pontos:

1) Utilização de oxímoros: Borges gostava muito de oxímoros, assim como de metáforas e de super-metáforas como as “kenningar”. Em “O Zahir” diz: “Na figura que se chama oxímoro, aplica-se a uma palavra um epíteto que parece contradizê-la; assim os gnósticos falaram de luz obscura, os alquimistas de um sol negro.”. Aí vamos ver o que dizem algumas das parcerias Coelho/Raul, especialmente nas canções “Gita” e “Eu Nasci há 10 Mil Anos Atrás” – para citar duas ultra-conhecidas… e cheias de oxímoros!

2) Fluxo contínuo narrativo, especialmente para dar impressão de fantástico: o início de “O Zahir” de Borges tem um exemplo; aquela sequência de descrições sobre o que é o Zahir. Mas o melhor exemplo dessa “técnica borgiana” está no conto “O Aleph”. Um trecho: “Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto roto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando-me como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi num pátio…” . Compare novamente com as duas canções da dupla, citadas acima. Em “Gita” temos: “Eu sou o início, o fim e o meio” e o que é isso senão o PRÓPRIO Aleph do conto?

3) Citações a temas clássicos da literatura antiga, como as Mil e Uma Noites ou “As Minas do Rei Salomão” (título de outra canção da dupla). Coelho/Raul sempre colocaram citações de clássicos em canções, recurso utilizado por Borges, principalmente de maneira fictícia.

como se não bastasse, um conto de borges, “a loteria da babilônia”, do livro “ficções”, virou nome de música da dupla coelho/seixas.

assim está provado que o escritor paulo coelho persegue o escritor argentino há muito. depois de empregar algumas de suas técnicas em músicas pseudo-místicas com o maluco-beleza, dirige-se para a literatura – e sabe lá Deus o que fez com o “zahir” já que não li. a verdade é que não importa o que ele fez: aquelas seis ou sete páginas do conto de borges serão sempre lidas e sempre mais sensacionais do que qualquer linha de coelho.

em “ficções” (1941), talvez o melhor livro de borges, existe um pequeno conto chamado “exame da obra de herbert quain”. em quatro ou cinco páginas o argentino antevê boa parte das experimentações da literatura contemporânea. ao final, escreve o mestre: “Quain costumava argumentar que os leitores eram espécie já extinta. […] Também afirmava que das diversas felicidades que pode ministrar a literatura a mais alta era a invenção. Já que nem todos são capazes dessa felicidade, muitos terão de contentar-se com simulacros. Para esses ‘imperfeitos escritores’, cujo nome é legião, Quain redigiu as oito narrativas do livro Statements.[…]“.

em sua genialidade, borges anteviu também paulo coelho.

PS – sacanagem: cada pessoa que buscar “o aleph” ou mesmo “o zahir”em livrarias, a partir de agora, o primeiro resultado será os livros de coelho. isso é uma apropriação inadmissível.

PS – em anos diferentes, é claro, mas coelho e borges nasceram no MESMO DIA.

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3 thoughts on “… paulo coelho busca borges

  1. já caí no embuste da “magia”, mas saí ileso ou quase, borges é um universo onde a mágica é a inteligência e o domínio da palavra. legal esse blog, bom de ler, se atém ao essencial e tem mt humor. parabéns!

  2. Pingback: Paulo Coelho, escritor de Irmãos Karamazov | marcosperesdotcom

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