… a inutilidade de viver.

O lugar insignificante que ocupo é tão minúsculo em comparação com o resto do espaço em que não estou e onde não se importam comigo. A parcela de tempo que hei de viver é tão ridícula em face da eternidade, onde nunca estive e nunca estarei… Neste átomo, neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro trabalha e quer alguma coisa… Que estupidez! Que inutilidade!

Bazárov, personagem de “Pais e Filhos”, de Turgueniev, refletindo sobre a inutilidade da vontade de viver.

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… quarentanos

(a propósito de não mais ter 20 anos e lendo o livro de David Shields)

*

Eu vi em “A única certeza da vida é que um dia você vai morrer”:

Coma primeiro a sobremesa – a vida é incerta!

Essa frase, colhida em um para-choque de caminhão, é a propósito de outra,

De Leonard Michaels:

“A vida não é boa o bastante para que deixemos de fumar”.

E, como na piada da cabra,

A vida só piora.

Neil Young, um sobrenome a pesar nas costas,

Disse que aos 20 anos, você e o mundo são as coisas mais importantes –

E tudo gira em torno disso.

Batendo nos 60 anos, Neil percebeu que é apenas uma folha

Boiando na superfície de um rio.

Tackeray:

“Aos 20 anos, muito bem;

Mas aos 47, Vênus poderia surgir do mar

E eu apenas colocaria os óculos para dar uma olhada”.

Mesmo que tenhamos um vocabulário três vezes maior aos 45,

É com 20 anos que conseguimos formular melhor nossos pensamentos.

Os melhores velocistas têm cerca de 20 anos.

Recordistas de maratonas têm entre 25 e 35 anos.

Joseph Campbell era maratonista com 20 anos,

Graduou-se em literatura inglesa com 21,

Concluiu o mestrado em literatura medieval com 23.

Baudelaire lançou-se na poesia

Aos 22 anos.

Se mostramos uma lista de 24 palavras para uma pessoa de 20 anos

Ela irá se lembrar de 14.

Aos 40 anos, com sorte, apenas de 11.

Quarentanos é perder mais de metade da memória.

É esquecer mais da metade das mulheres,

Dos amigos,

Das canções que antes cantávamos de cor.

Blonde on Blonde é o sétimo álbum de Bob Dylan,

Que tinha 24 anos quando compôs “Visions of Johanna”,

Obra-prima do disco.

Nosso QI é mais alto entre os 18 e 25 anos.

Aos 25 anos, o cérebro atinge seu tamanho máximo.

Quem não for famoso aos 28 anos, é melhor esquecer!

Foi Goethe quem disse. Ele publicou Werther aos 25.

Mais de 30 anos depois, veio o Fausto. Mas ele já era famoso.

E o Fausto é uma obra de depressão.

É uma obra invernal.

Chico Buarque tinha 27 quando lançou Construção.

Tinha lançado dez discos antes.

Jimmi Hendrix morreu com 27.

Janis Joplin também.

Jim Morrison também.

Robert Johnson também.

Brian Jones também.

Kurt Cobain também.

Morreram antes de ter que apelar a qualquer pai.

A qualquer misericórdia.

Nicholas Murray, um escritor semi-conhecido,

Assim como tantos,

Disse que na lápide de muita gente devia estar escrito:

“Morto aos 30, enterrado aos 60”

Rousseau:

“O homem é sempre o mesmo:

Aos 10 anos, é atraído por doces;

Aos 20 anos, por uma amante;

Aos 30 anos, pelo prazer;

Aos 40 anos, pela ambição;

Aos 50 anos, pela avareza.

Depois disso, o que lhe resta senão a sabedoria?”

E para precoces, a sabedoria não viria

Talvez num ano bissexto aos 30, quando já estivesse sem ambição

E sem prazer?

Kafka lançou A Metamorfose

Alcançando os 30 anos.

Emerson disse que após os 30 anos

Um homem – exceto talvez uns cinco ou seis -,

Acorda triste todas as manhãs,

Até o dia da sua morte.

Lou Reed gravou Transformer aos 30 anos.

Tolstoi achava deprimente ter 31 anos,

Tinha uma noção clara da inutilidade e da impossibilidade

Do ser.

Antes de morrer na guilhotina,

Camille Desmoulins mentiu a idade.

Líder jovem da Revolução Francesa, tinha 34 anos.

Comparou-se a Jesus e disse que 33 é uma idade fatal para revolucionários.

Jesus devia estar cansado aos 33,

Ou não teria se entregue à cruz.

Invocaria uma tempestade.

Coppola lançou O Poderoso Chefão com 33 anos.

Dos 25 aos 35, Shakespeare escreveu suas principais peças.

A artrite reumatóide começa entre os 35 e os 45 anos.

Foi com 35 que Vincent Van Gogh cortou um pedaço da própria orelha

E embrulhou num lenço como presente

Para a prostituta Raquel.

Morreu dois anos depois.

Mozart morreu aos 35.

Byron aos 36.

Rafael aos 37.

Púchkin morreu num duelo aos 37

Depois de ter fundado a literatura russa.

Scorsese fez Taxi Driver com 34

Touro Indomável com 38 anos.

O lutador mais velho a conquistar um título profissional de boxe tinha 38 anos.

Quando faz 40 anos,

Os tecidos da glândula da próstata atrofiam

E o músculo degenera.

O homem produz menos sêmem

E com menos pressão.

Schopenhauer disse:

“Os primeiros 40 anos da vida nos dão o texto;

Os 30 restantes, o comentário do texto”.

Fazendo de sua vida a sua própria obra,

E colocando as coisas no papel de maneira aleatória,

Henry Miller conseguiu juntar e publicar algo,

Com ajuda financeira de sua amante, Anais Nin,

Apenas com 43 anos,

Numa espécie de gozo retardado.

Decadente,

Elvis Presley morreu com 42 anos.

F. Scott Fitzgerald, também decadente, com 44.

Cícero disse que a velhice começa aos 46 anos.

John Kennedy morreu com 46 anos.

Foi morto.

Mas talvez não quisesse viver muito mais.

Tardio,

Da Vinci pintou a Última Ceia

Com 48.

Bukowski lançou seu primeiro livro com 50 anos

E não imaginava que fosse viver mais 24 anos ainda:

Já se considerava velho com 30.

(Temos aí esses longevos maravilhosos,

Saramago, Woody Allen, Leonard Cohen,

Manoel de Oliveira, Manoel de Barros,

Esses porras, que apenas confirmam a regra)

Chaucer informa:

“Se o ouro enferruja, o que dizer do ferro?”

E eu? Que sou de lata?

Quando me perguntam:

“O que tem feito?”

Eu respondo:

“Estou ocupado em envelhecer”

E reitero:

Não é uma ocupação que me dê prazer.

bia-h2

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… como ser um grande escritor, por charles bukowski

você tem mais é que comer muitas mulheres

mulheres bonitas

e escrever uns poemas de amor decentes.

não se preocupe com a idade

e/ou novos talentos.

apenas beba mais cerveja

mais e mais cerveja

e vá às corridas ao menos uma vez por

semana

e ganhe

se possível.

aprender a ganhar é difícil –

qualquer porcão pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça de Brahms

e de Bach e de sua

birita.

não faça muito exercício.

durma até o meio dia.

evite cartões de crédito

ou pagar qualquer coisa no

dia.

lembre-se que não existe um cu

nesse mundo que vale mais que $50

(em 1977)

e se você tiver a capacidade de amar

primeiro ame a si mesmo

mas sempre tenha em mente a possibilidade de

derrota total

ainda que a razão dessa derrota

pareça certa ou errada –

um gostinho de morte cedo não é necessariamente

uma coisa ruim.

fique longe de igrejas e bares e museus,

como a aranha seja

paciente –

o tempo é a cruz de todo mundo,

mais

solidão

derrota

traição

toda essa sujeira.

fique com a cerveja.

cerveja é o sangue contínuo.

um amor contínuo.

pegue uma boa máquina de escrever

e enquanto os passos vêm e vão

além da sua janela

bata nela

bata nela com força

como se fosse uma luta de pesos pesados

faça como o touro em sua primeira investida

e lembre-se dos velhões

que lutaram tão bem:

Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você acha que eles não enlouqueceram

em quartos minúsculos

assim como você faz agora

sem mulheres

sem comida

sem esperança

você então não está no ponto.

beba mais cerveja.

há tempo.

e se não houver

está tudo bem

também.

tradução de fernando koproski.

buko

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… burroughs e o teclado qwerty

qual o motivo dos teclados terem esta esquisita disposição LETRAL?

ou: por quê os teclados, desde minha época de DATILOGRAFIA APLICADA no colégio dom pedro II, com a dona lollobrigida, têm a seguinte disposição horizontal, de cima para baixo:

1234567890-=

qwertyuiop

asdfghjklç;

zxcvbnm,./

 hein?

pois vou explicar o que aconteceu na GÊNESE da configuração atual de nosso teclado. e a explicação é muito simples, embora estranha.

burroughs

o primeiro homem a formatar o teclado foi o escritor beatnik william burroughs. ele era um cara muito inteligente e se cansava muito de escrever à mão. mas era também um junkie maluco. um dia ele estava cheirando veneno para baratas e com uma puta preguiça de escrever – enquanto seu editor ligava insistentemente para seu celular – quando surgiu a idéia: uma máquina de escrever: bateríamos os dedos e as palavras se IMPRIMIRIAM em folhas de papel.

burroughs, como todos os beatniks e os hippies, gostava muito de artes manuais, macramê, papel machê, cola, tesoura… ele pegou uns papéis, recortou o alfabeto, colocou em ordem, montou sobre a mesa e chamou seu assessor, mr. mugwum.

mr. mugwum era um indiano viciado em ópio e devia levar a idéia do patrão até a fábrica de calculadoras que a família de burroughs tinha. mas ele e bill ficaram conversando e cheirando pó de matar barata misturado com ópio e, quando menos esperavam, bateu um vento e as letrinhas recortadas caíram no chão.

burroughs estava chapado demais para organizá-las de novo e mugwum nada conhecia do alfabeto romano. “arruma de qualquer jeito isso aí”, disse bill. e mugwum, sem nenhuma noção, arrumou as letras do jeito como conhecemos hoje, levando-as à fábrica onde foi construída a primeira máquina de escrever.

mugwum e burroughs

foi assim.

a história foi contada pelo próprio burroughs no livro “almoço nu”, mas ninguém entendeu, já que esse livro também teve as palavras reorganizadas pelo senhor mugwum.

passem bem.

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… o erotismo, por octavio paz

“amor e erotismo – a dupla chama”, de octavio paz, é um dos melhores livros que já li. está fora de catálogo no brasil – e, pelo jeito, quem tem não vende, já que existem poucos em sebos. se achar por aí, compra; se não gostar, eu compro de você. Como o título diz, ele fala sobre amor e erotismo, no trecho abaixo discorre sobre a banalização do corpo, o que diminui o erotismo.

Octavio Paz

A modernidade dessacralizou o corpo e a publicidade o utilizou como um instrumento de propaganda. Todos os dias a televisão nos apresenta belos corpos seminus para anunciar uma marca de cerveja, um móvel, um novo modelo de carro ou meias femininas. O capitalismo converteu Eros em um empregado de Mammon. À degradação da imagem temos de acrescentar a servidão sexual. A prostituição é uma vasta rede internacional que trafica com todas as raças e todas as idades, sem excluir, como sabemos, as crianças. Sade sonhava com uma sociedade de leis fracas e paixões fortes, na qual o único direito seria o prazer, por mais cruel e mortífero que fosse. Nunca se imaginou que o comércio suplantaria a filosofia libertina e que o prazer se transformaria num departamento da indústria da publicidade e num ramo do comércio. No passado a pornografia e a prostituição eram atividades artesanais, por assim dizer; hoje são parte essencial da economia de consumo. Não me alarma sua existência, mas sim as proporções que assumiram e a natureza que têm hoje, ao mesmo tempo mecânica e institucional. Deixaram de ser transgressões.

Para compreender nossa situação nada melhor que comparar duas políticas de aparências opostas, mas que produzem resultados semelhantes. Uma é a estúpida proibição das drogas, que longe de eliminar seu uso, multiplicou-o e fez do narcotráfico um dos grandes negócios do século XX; um negócio tão grande e poderoso que desafia a polícia e ameaça a estabilidade política de algumas nações. Outra, a permissão sexual degradou Eros, corrompeu a imaginação humana, ressecou a sensibilidade e fez da liberdade sexual a máscara da escravidão dos corpos. Não estou pedindo a volta da odiosa moral das proibições e castigos: enfatizo, isso sim, que os poderes do dinheiro e a moral do lucro fizeram da liberdade de amar uma servidão. Nesse domínio, como em tantos outros, as sociedades modernas enfrentam contradições e perigos que não conheceram no passado.

A degradação do erotismo corresponde a outras perversões que foram e são, eu diria, o tiro pela culatra da modernidade.

Octavio Paz, 1993.

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… poema, de joan brossa

o poeta e artista catalão joan brossa escreveu um poema para sua amada, pepa, sobre sua incapacidade em ganhar dinheiro. achou-o tão perfeito que chamou-o simplesmente de… “poema”.

é verdade

que não tenho dinheiro

e evidente que a maioria das

moedas  é de chocolate;

mas se você pega essa folha,

dobra de comprido

em dois retângulos,

depois em quatro,

faz então um vinco

em diagonal nas quatro

abas e separa

em duas partes,

_______________ obtém

um pássaro que moverá

as asas.

a tradução é de joão bandeira.

Brossa

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… millôr sobre futebol

“E a hipertrofia do futebol? Sempre acho inacreditável que jogadores pagos a peso de ouro, alimentados a pão-de-ló, tratados como odaliscas, cuidados como peças raras, não consigam marcar um gol em 90 minutos de jogo, botem os bofes pela boca depois de 15 minutos de corrida e não tenham o menor problema de consciência por causa disso. Eu, se fosse pago e tratado da mesma maneira, ficaria com um tremendo sentimento de culpa se não pintasse pelo menos duas capelas Sistinas por semana.”

(1979)

millor-fernandes

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