The Post & arredores reais do filme de Spielberg

Em 1976, Pakula dirigiu o filme “Todos os Homens do Presidente” dando as caras de Dustin Hoffman e de Robert Redford para os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward e de Jason Robarts para o editor-chefe Ben Bradlee, criando um The Washington Post incrível, um jornal tremendamente combativo. A imagem que temos do The Post é essa; toda uma geração do auge do jornalismo impresso pensa sempre no jornal com essa ideia romântica desses caras e desse ambiente de trabalho foda.

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Sim, essa foi a matéria que colocou o jornal no cenário e, agora, Spielberg dá um passo atrás para contar o que aconteceu antes de Watergate. O foco do filme é a viúva do dono do jornal, Katharine, que não aparece no filme de Pakula, mas teria sido essencial para que o jornal afrontasse o governo. O marido de Katharine, Phil, não aparece no filme de Pakula nem no de Spielberg, onde é levemente citado. Vamos falar um pouco sobre ele e sua época como presidente do The Washington Post.

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Phil Graham e John Kennedy estiveram no exército durante a segunda guerra. Depois, Phil já à frente do The Washington Post, ficaram grandes amigos. Phil ajudou o JFK na política e já estava casado há vinte anos com Katharine quando o amigo venceu as eleições presidenciais. Phil e próximos do presidente conheciam bem suas virtudes e problemas – patriotismo e mulheres, respectivamente. Os amigos, porém, acreditavam que a responsabilidade do novo desafio ia fazer crescer a virtude e afastar os problemas. Aconteceu o contrário mas isso, aos olhos de seu staff, não foi um mau negócio: a popularidade do presidente vinha crescendo, seu carisma o aproximava de todos, o homem era um imã, e as mulheres vinham e iam facilmente, sem causar problemas. Às vezes, até sobrava uma ou outra para os amigos. Até que aconteceu Marilyn.

E a Guerra do Vietnã, que o presidente iniciou com apoio da mídia, inclusive do amigo Phil.

Foram dois anos complexos, do início da guerra até a morte de Marilyn – e de Kennedy, na sequência. Foram dois anos que provocaram a necessidade de um reboot na história dos EUA, o que o jornalista François Forestier chamou de “a grande limpeza” em seu livro “Marilyn e JFK”.

Logo após a inexplicável mas anunciada morte de Marilyn, Phil deixa a esposa e assume o romance com a jovem jornalista Robin Webb, da Newsweek. Talvez prevendo que algo ruim pudesse acontecer a ele por conta de tudo o que sabia – a conivência com a gestão Kennedy, os pedidos do presidente para que o Post não escrevesse sobre a guerra, os planos dos Kennedy para matar Diem e Fidel -,  Phil aceita o convite para um seminário da Associated Press em Phoenix, Arizona, onde pretende fazer um discurso devastador. Fecha-se por dois dias no quarto do hotel com Robin preparando o discurso – mas consome doze garrafas de champanhe no período e alguns comprimidos.

Quando chega ao evento, antes mesmo de chegar o seu momento de falar, sobe ao palco e começa a atacar o público. Ele está fora de si. Chama os jornalistas de “imbecis sujos e inúteis”. Depois de vociferar um pouco sem sentido, mira a Casa Branca: “Por que ninguém nunca solta a informação? JFK passa o tempo trepando! Não tem um só que diga isso! Vocês não tem colhões? São uns merdas!”. Diz, ainda, que o presidente, seu amigo, faz orgias na piscina e que “está comendo uma amiga minha, uma ótima artista chamada Mary Pinchot Meyer”. Depois que Marilyn se foi, ele diz que essa é a nova favorita do presidente.

Phil fala mais uns minutos e, inesperadamente, arranca a própria roupa.

Tiram-no do palco.

Ainda segundo Forestier, informado sobre o incidente, JFK envia um avião da presidência para transportar o louco. Ben Bradlee, fiel a Kennedy e ao patrão, vai ajudar.

Depois de um tempo trancafiado em um hospital psiquiátrico, Phil rompe com Robin, pede desculpas à Katharine e volta para casa. Pouco tempo depois, na véspera do aniversário de um ano da morte de Marilyn, Phil coloca um disco de Beethoven, entra no banheiro de casa, senta-se na beira da banheira e dá um tiro no queixo com um rifle de caça, calibre 28. Forestier diz que ele fez isso para não sujar o quarto – “ele era muito cuidadoso”. Bradlee estava lá para ajudar a viúva Kay.

Não há fotos de Graham na conferência da imprensa, nem com Robin, tudo foi apagado a pedido de Ben Bradlee.

Uma onda de “apagamento” da relação Kennedys-Marilyn havia acabado de acontecer, segundo o jornalista Anthony Summers no seu relato biográfico de Marilyn. O FBI foi a todas as agências fotográficas e confiscaram fotos, o Washington Post entregou as fotos que tinha. Um executivo do Globe contou que os homens apareceram e disseram que estavam “colhendo material para a biblioteca presidencial. Pediram para ver tudo o que tínhamos sobre Monroe. […] mais tarde descobrimos que tinham levado tudo o que tínhamos, até os negativos”. É incrível que Marilyn e os Kennedy, com os Lawford e Sinatra, tenham estado em tantas festas, com tantos fotógrafos paparazzi em cima deles e não existam fotos! Forestier conta que uma única foto de John com Marilyn se salvou: a que está na capa do livro que ele escreveu, feita no dia do aniversário de John, quando Marilyn cantou o fatídico e sensual “Happy Birthday” para ele.

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Um ano depois da morte de Marilyn e logo depois da morte de Phil, JFK decide visitar várias cidades do país para testar sua popularidade e preparar sua reeleição. O casamento ia mal, Jackie ficou puta com a exposição que a morte de Marilyn deu ao caso deles, ela tem se encontrado com Onassis, John tem um boneco vodu do armador grego – não é figura de linguagem: JFK tem mesmo um boneco de vodu de Onassis. John e Jackie viajam juntos, mas dormem em quartos separados.

Antes de Dallas, John deve ir a Chicago, mas a viagem é cancelada por causa de uma denúncia de atentado. Thomas Artur Vallee, ex-fuzileiro com distúrbios mentais, é preso com um fuzil com mira telescópica no último andar de um depósito, na trilha do caminho que o cortejo presidencial deveria percorrer. Preso, ele diz: “sou apenas uma isca”.

JFK é morto em Dallas em 22 de novembro de 1963. Lee Harvey Oswald é preso e diz: “sou apenas uma isca”.

Não houve tempo para Oswald dizer mais: foi morto dois dias depois pelo mafioso Jack Ruby. Preso, julgado, Jack teve pena de morte, apelou mas morreu de câncer de pulmão em 1967 sem explicar o que o teria motivado o crime. Mas deu uma série de entrevistas para uma jornalista, Dorotthy Kilgallen, que preparava uma longa matéria e, quem sabe, um livro, com a história bombástica.

Um ano depois da morte de Kennedy, sua ex-namorada, alardeada por Phil Graham como a “nova preferida” depois de Marilyn, Mary Pinchot Meyer, enquanto caminhava por Georgetown, recebe um tiro na cabeça, por trás, e outro na homoplata enquanto cai. Coisa de profissional. Um negro foi preso, dizendo que era apenas uma isca, e o crime é considerado não solucionado até hoje.

Mary Pinchot era irmã de Tony Pinchot que era casada com Ben Bradlee, editor chefe do Washington Post, o chupa-saco de Phil, o amigão de Kennedy.

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Ben Bradlee, Jackie, Tony Pinchot, JFK

Segundo Forestier, Tony e Ben vão à casa de Mary para arrumar as coisas depois da morte dela e encontram James J. Angleton, número dois da CIA, vasculhando cartas, papéis e documentos. O agente tinha simplesmente arrombado a casa e pede que nada seja divulgado no The Washington Post. Bradley não só foi omisso como escondeu, ele mesmo, um diário da cunhada. Separou-se de Tony pouco mais de dez anos depois, casando com uma jornalista vinte anos mais jovem. Em sua biografia, tenta um mea-culpa e diz que o Post fez várias matérias sobre a morte da cunhada. É verdade, mas uns vinte anos depois apenas.

Três anos após a morte de Marilyn, a jornalista Dorothy Kilgallen morre exatamente igual à atriz, misturando álcool e barbitúricos (sic). Kilgallen tinha feito aquela série de entrevistas com Jack Ruby e preparava a matéria e o livro, que nunca apareceram.

Robert Kennedy, em campanha presidencial em 1968, estava no Ambassador Hotel, em Los Angeles, quando um palestino, calma e tranquilamente, saiu da cozinha do hotel e foi ao seu encontro com um revólver, crivando-o de balas. Uma morte bem besta para quem combateu a máfia, tinha um séquito de seguranças e teve o irmão assassinado.

Possivelmente, o fim da “limpeza geral”.

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Spielberg e Ben Bradlee era vizinhos em Long Island. Ambos eram, claro, fãs do filme de Pakula e Spielberg teve a ideia de fazer um filme que se conectasse com “Todos os Homens do Presidente” e homenageasse o amigo. A cena final de “The Post” é a cena inicial do filme de Pakula sobre Watergate.

Fim de The Post

cena final do filme de Spielberg é idêntica à inicial do filme de Pakula

No final, no meu entender, “The Post” é um filme sobre um jornal conivente com o governo até que o presidente que eles acobertavam morre assassinado e o dono do jornal se mata, possivelmente pela pressão de saber um monte de merda oficial, aquela bem fedorenta. Aí a esposa do dono (que era uma dondoca e se torna a mulher mais influente do país) e o chefe de redação (que era um pau mandado), depois de tomar um furo homérico do jornal concorrente, decidem correr atrás do prejuízo para que o jornal não fique ainda mais desvalorizado. Quase dez anos antes dos chamados Pentagon Papers os principais jornais americanos cobriam a Guerra do Vietnã com repórteres em campo, mas o The Washington Post parecia preferir o jornalismo de gabinete, com informações oficiais.

Bem, Lyndon Johnson vinha fazendo muita merda e era fácil criticar um vice que assume e, depois, Nixon era um bom alvo, republicano, anti-democrata, anti-Kennedy, velho, feio, recalcado; aconteceu Watergate, obra de um denunciante que seria amigo de Ben Bradlee, e da obstinação dos dois repórteres meio hippies que estavam por ali. Quase um acidente que botou os holofotes sobre o Post como “o jornal que derrubou um presidente”.

Eles podiam ter feito isso antes, caso quisessem.

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em música, o novo é sempre ruim

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais – Belchior

Quando surgiu, João Gilberto dividiu opiniões. Para boa parte dos apreciadores de música popular, ele não cantava nada. Aquela voz miúda, aquele batuque no violão… Aquilo era só uma modinha que logo ia passar. Bom mesmo era Ataulfo Alves, Francisco Alves, Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Ivon Cury, Elizeth Cardoso… Mas João era uma novidade e conseguiu espaço na mídia – no rádio, especialmente forte na época -, pois a mídia precisa sempre de novidades para chamar a atenção e provocar reações.

Depois, com a bossa nova se firmando a partir de João, apareceu outra novidade, o rock de Roberto Carlos e Cely Campelo, entre outros, e a música e figuras estranhas de Tim Maia e Raul Seixas, que desagradavam os pais de adolescentes que já estavam se acostumando com egressos mais avançados da bossa, como Nara, Elis e mesmo Chico Buarque (“você não gosta de mim, mas sua filha gosta”). Os fenômenos tinham espaço na TV, que se popularizava, pois, como disse, eram novidades e a mídia é como o circo, precisa sempre de um número novo, chamativo, atrativo, polêmico.

Depois…

Depois, eu me lembro do Programa Flávio Cavalcanti, que assistia com meus avós e com meus pais, esperando para ver o apresentador apresentar a nova atração bizarra da música, espinafrar e quebrar seus discos. Meus avós achavam uma delícia a espinafração. Meus pais achavam meio constrangedor. Eu geralmente ficava muito interessado em ouvir mais daquele artista que os velhos acham ruim – se os velhos achavam ruim devia ser mesmo muito legal.

Depois, meus avós assistiam ao Festa Baile com Agnaldo Rayol e eu assistia também, achando chato.

Agnaldo Rayol

Hoje, a gente vê alguns artistas como Ney Matogrosso e Milton Nascimento entronizados na MPB e acha que apareceram com essa moral. Mas não foi assim: o espalhafatoso Ney era apresentado com deboche e visto como bizarrice, gay e excêntrico, inclassificável; Milton era um mineiro (é carioca, na verdade, mas…) negro e de voz fina, de figura também excêntrica e muito diferente para o padrão da MPB da época, quase um anti-João Gilberto.

O que quero dizer é que as gerações sempre acham que o gosto médio delas é o norteador e sempre melhor que a novidade. Há uma resistência em todos pela novidade. E a mídia usa a novidade para angariar o público dividido: uns vão amar, outros detestar; essa polêmica gera audiência – que é do que vive a mídia.

Isso, falando em termos de Brasil, mas basta dar uma olhada na música internacional para ver que as ondas de novidade geracional são ainda mais divisórias.

Em 2012, o presidente Barack Obama prestou uma homenagem ao Led Zeppelin com um evento na Casa Branca. Quando apareceu com seu blues eletrificado, rápido e de alta potência, o Led era uma banda tão estranha, tão incrivelmente barulhenta, que até os fãs das bandas de origem do Led, o Cream e o Yadbirds, estranharam. O sucesso veio por conta da estranheza e novidade, confundindo os amantes do rock psicodélico e do rock pesado. O mesmo aconteceu com o punk, com o pós-punk, com a new age, com o grunge, etc… Sessentões, hoje, acham que rock é Beatles e Rolling Stones. Cinquentões amam o Led. Quarentões vão de Nirvana. Trintões, de Gorillaz.

Recentemente, na festa de aniversário de um amigo, o DJ começou seu set com três ou quatro músicas jazz-funky interessantes e dançantes que eu não reconheci, mas adorei. Achei que o restante da noite seria assim, de boas descobertas, mas estávamos em uma festa de 39 anos então a maioria dos convidados tinha essa faixa de idade, nascidos ali por 1980, e logo as músicas foram se encaixando no que o dono da festa tinha pedido e proposto e hits dos anos 1990 começaram a tocar para a alegria da maioria dos presentes. “Candy”, do Iggy Pop, levou mais gente pra pista, com todo mundo cantando junto. “Debaser”, do Pixies, tocou duas vezes. Um pessoal no fundão queria músicas mais novas, queria mais agito e menos barulho. Os DJs se negaram a tocar aquelas não-músicas atuais.

Quando os Stooges apareceram, foi um choque e quase ninguém gostou. Aquilo não parecia música e a performance de Iggy não se encaixava em nada visto antes. Poucos sabiam que ele estava antenado com movimentos artísticos de vanguarda que faziam releitura do Grand Guignol. Não por acaso, o primeiro disco dos Stooges foi produzido por John Cale, do Velvet Underground, outra banda de art-rock que ia contra a corrente e que ninguém entendeu no primeiro momento. Tanto Iggy quanto Lou Reed, do Velvet, foram “popularizados” por David Bowie nos anos 1970 – e a performance artística teatral-glitter do Bowie serviu para justificar o que Iggy e Reed vinham fazendo. É bom que se diga que quando Bowie apareceu, apenas jovens se identificaram e se interessaram.

Quando os Pixies apareceram com um EP de 8 músicas e 20 minutos de duração e letras com palavras em espanhol, todo mundo achou que fosse uma banda colegial querendo chamar a atenção com barulho. Ninguém deu importância ou levou a sério. O primeiro disco, lançado por uma gravadora pequena, fracassou nos EUA, mas fez sucesso na Europa – o que fez a banda acontecer. A crítica especializada se dividiu, os mais velhos dizendo que aquilo era ruim – A Rolling Stone deu três estrelas para “Surfer Rosa” quando foi lançado e, depois, reavaliou o disco, em 2004, dando 5 estrelas. Hoje é considerado um clássico.

Depois apareceu o Nirvana, que foi mal quando apareceu, ratificou o Pixies e depois…

O que quero dizer é que quando alguém diz que isso ou aquilo “não é música” está repetindo o que os pais deles disseram quando os músicos que eles gostam apareceram.

Os pais dos quarentões que estavam na festa do meu amigo não devem curtir muito o que tocou lá. Música de verdade pra eles é os Beatles, Bee Gees, Ike e Tina Turner e, olhe lá, um Cream ou, depois, um Led Zeppelin. Afinal, o que é o baixo de Kim Deal perto de John Paul Jones ou a voz de Iggy diante da de Robert Plant? Os pais estão errados? Todos os pais estão errados.

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A música pop é geracional e está ligada ao emocional de certa faixa etária: esses quarentões ouviram essas canções que tocaram na festa quando estavam na adolescência e elas foram seu hino de rebeldia, amor e “estar no mundo”. Os quarentões da festa podem até ouvir e gostar, conhecer a importância musical e histórica daqueles que vieram antes, mas têm dificuldade de ouvir algo que os adolescentes amam agora pois estão em outra fase e nada pode ser melhor que os hinos de sua fase de crescimento emocional.

Se você é adulto, tem mais de trinta anos, pense em algo que ouviu recentemente e que realmente amou.

Isso também funciona em outras áreas.

O fato é que muita gente diz: “Pabllo canta mal” ou “Anitta não me representa” tendo como referências artistas que, quando apareceram, seus pais também achavam que cantavam mal e/ou que não os representavam. Estamos reproduzindo as falas de um coro antigo de descontentes pois só estamos velhos, como nossos pais.

É preciso parar e pensar um pouco. E não se meter muito no que as novas gerações gostam e querem ouvir. E não sermos os Flávios Cavalcantis de hoje.

 

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o novo disco da Jambow Jane

A Jambow Jane é uma banda de pop rock composta pela família do brasileiro Flavio Prada – ele, a mulher e filhos + músicos agregados -, formada despretensiosamente há alguns anos, sediada na cidade onde eles moram, Riva Del Garda, Itália. No primeiro disco, eles musicaram um poema meu, “Fogo Aceso” e, depois, musicaram uma letra minha inspirada no meu livro “A Comédia Mundana”. Flávio é de Limeira, somos amigos, escrevemos para um mesmo condomínio de blogs nos primórdios da internet e agora, quando saiu o segundo disco da sua banda, o recebi como recebemos a obra de um brother: querendo muito gostar, mas com aquela desconfiança de não ser algo que atenda ao nosso gosto.

O fato é que me surpreendi pois gostei demais.

“Worlds and Bridges” é um disco de rock com muita pegada. E comento abaixo, um faixa a faixa para dar uma ideia do que pode esperar quem se interessar em ouvir no Spotify.

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“Worlds and Bridges” começa com uma cacofonia e a gente não sabe bem o que esperar. Em seguida vem um piano solene – eu pensei que a Jambow Jane tinha enveredado pela erudição, mas logo vem a bateria, o baixo e a guitarra com a voz do Flavio de maneira progressiva e, uau, é um rock clássico com pé no Metallica! Mas aos três minutos, volta a cacofonia, com frases em várias línguas e dá pra ver que a referência é o Pink Floyd. A segunda vez que a guitarra volta com força, nos leva para “In The Flesh” do PF. Esperamos por mais.

A segunda canção, “Music Makes you a Stronger Person” segue na mesma vibração, com pegada bluesy hipnótica, e lá pelos três minutos queria que não entrasse vocal. A bela linha de baixo que me lembrou Geddy Lee e seu Rush. Mas entra o jogral que canta o título da canção no minuto final, desnecessariamente. Só a música já estava ótimo.

A terceira faixa é “Medo”, em português, algo engraçadinha e com refrão pegajoso. Mais uma vez, a beleza maior está no instrumental – esse pessoal está afiado mesmo. Rápida, intensa, me lembrou a banda Joelho de Porco em seus momentos mais pesados, “Medo” prepara as expectativas para o que possa vir depois. E vem “Science Guy”, única música do disco com vocal exclusivo da Bea, mostrando talento incrível sobre base de piano, com coro também de rock progressivo, ok, Pink Floyd de novo, “The Great Gig in the Sky” está ali, e o piano que vira um sintetizador antigo. Acho que é a faixa mais curta do disco, infelizmente. (Lembrei que a banda já tinha gravado essa do PF com a Bea)

Nova cacofonia na abertura da grunge “Run Over the City”, que tem clipe no Youtube (veja abaixo). Acho que é a faixa de trabalho do disco e pode ser boa isca para os mais jovens e vai fazer os tiozões lembrar de Nirvana. Tem um lance de Pavement ali também, acho que na gritaria da parte final, o que gostei.

As próximas três faixas são exercícios de estilo. “Única” brinca com a bossa nova, uma bossa´n´roll, com violões e mais uma letra em português, engraçadinha-existencial, bem elaborada. “Wasting my Time” é uma atualização de “Oh Sweet Nuthin´” do Velvet Underground, onde o título da canção, vocalmente retorcido, serve de base para o exercício musical da banda – até que entra uma participação da Bea, mostrando que tem real potencial blues. E “Fuck Stasera” é a minha preferida, uma canção louca, com palavras em português, inglês, italiano e até francês, uma canção multilingual, multicultural, multisonora, dinâmica e engraçada, que pode bem indicar o caminho para o futuro da Jambow Jane. E é a canção com o melhor posicionamento de voz do Flavio – ele está solto, sem querer parecer afinado.

A oitava faixa é climática, com violões, encerrando o disco, como se as duas próximas canções fossem bônus. “It´s Hot In Summer” é um blues rápido, Stevie Ray Vaughn, bem solto e descontraído. E a última canção de “Worlds and Bridges” é a única em italiano, romântica, chamada “Sì e No”, que tem uma faixa pesada e uma fala meio brega, como se fosse uma canção dos Scorpions, que só gostei por ser em italiano e acho muito legal que a Jambow Jane tenha essa diversidade lingual.

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Bom, vão lá ouvir.

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os filmes de heróis estão salvando o cinema

Personagens com capacidades extraordinárias sempre chamaram a atenção.

Inicialmente, pelos “poderes” excepcionais que têm, mas, nas boas narrativas, por serem obrigados, APESAR dos poderes, a tomar decisões morais, emocionais, humanistas e humanitárias, de justiça e sacrifício. Os exemplos são vários, de heróis mitológicos, das narrativas clássicas todas, das histórias fundamentais das religiões, passando por Prometeu e Cristo, chegando a personagens mais humanos mas ainda extraordinários, tidos como reais, como Sherlock Holmes ou Dom Quixote, e seus derivados, até os chamados “super-heróis”, cujos principais representantes mesclam características de outros, que vieram antes, numa espécie de “atualização” para o principal público dessas histórias: o adolescente em formação.

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Joseph Campbell falou sobre isso no “Herói de Mil Faces” – e sobre a importância desses heróis, reais ou não, na formação, educação, apreensão do mundo, auxílio no conceitual de bem e mal, justiça e injustiça, das pessoas – em especial de jovens. E escreveu sobre isso em vários outros livros, como em “O Poder do Mito”.

Esses heróis sempre estiveram por aí, encantando jovens. Meu pai conta sobre as idas ao cinema nos sábado à tarde para acompanhar as séries de Flash Gordon, Tarzan, Zorro e muitos outros, além das trocas de gibis do Fantasma e Mandrake. Fui apresentado aos gibis cedo e essa foi minha porta de entrada para os livros. Na ocasião, acompanhávamos séries na TV, muitas com heróis, algumas bem toscas, mas era o que tinha. O filme que vi no cinema e que me fez gostar da sétima arte deriva de um gibi: “Conan – O Bárbaro”. Eu tinha doze anos, uma coleção de quadrinhos em PB do cimério, e saí do cinema boquiaberto com o que vi: Thulsa Doom dizendo a Conan que tinha matado seus pais e transformado ele no que ele era. Uau. Roteiro do John Millius e do Oliver Stone.

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Já ali, tinha ficado claro a mim que o herói é um personagem catalisador, central, extraordinário, onde orbitam outros personagens, dramas humanos, questões filosóficas, que podem ser muito mais interessantes e atraentes do que, bem, histórias que são puro drama humano com personagens super humanos.

Dramas humanos com personagens super humanos podem realmente ser atraentes? Me pergunto isso quando citam, em detrimento de “filmes de super heróis”, os filmes de, por exemplo, Bergman, Tarkovski, Antonioni, Buñuel ou sei lá quem, como superiores. Como comparar um filme de Bergman (ele fala de pessoas normais, reais?) com um Batman de Nolan? É como comparar água e vinho. Dostoiévski e Agatha Christie. Mas às vezes precisamos de água, às vezes de vinho. Às vezes chegamos a Dostoiévski através de Agatha Christie.

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~ arte real ~

Outra questão que envolve os chamados “filmes de herói” é que eles têm ação e efeitos demais, como se isso fosse um defeito. Ora, a ação E o efeito estão na gênese do cinema: quando os irmãos Lumiére decidiram filmar algo foram logo filmar o que existia de mais rápido no momento: um trem! Isso para mostrar que, sim, algo estava em movimento, e a câmera era capaz de captar! Quando tivemos o primeiro corte, talvez na saída dos empregados da fábrica, também dos irmãos Lumiére, tivemos o primeiro efeito. A elipse é um efeito. Citam os efeitos como defeitos, mas elogiam o estado-da-arte dos efeitos em “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, filmado por Kubrick, que era fanático por quadrinhos.

E apesar do cinema ter origem com os Lumiére, quem fez o negócio ir adiante foi um mágico, Mélies, que criou impressionantes efeitos especiais. São raros, muito raros, os filmes que não contam com efeitos hoje em dia, mesmo alguns dos mais baratos. O retoque em filmes acontece até em filmes ditos realistas – e não há nada de errado com isso. Vejam esse feature de “Garota Exemplar” (Fincher, 2014).

Quando eu lia as aventuras dos heróis nos quadrinhos, lá em meados dos anos 1980, e assistia na TV aos seriados do Batman e do Homem-Aranha, com aqueles efeitos toscos, ficava imaginando se algum dia conseguiríamos ter, nos cinemas ou na TV, as aventuras coloridas de Thor ou do Demolidor ou do Doutor Estranho. Demorou trinta anos para termos aqueles heróis nas telas. Mas os temas – e não apenas os efeitos, ora vejam – também evoluíram e as tramas ficaram melhores, mais interessantes, densas, inteligentes. Os personagens ganharam – em boa medida, quase todos – envergadura, personalidade marcante e ótimos intérpretes (vejam os atores que estão nos filmes) e roteiros que são escritos considerando os fãs antigos (eu) e os mais novos (minhas filhas de 25 e 11 anos) – dentro do que é possível em termos de adaptação. Isso não é pouco.

Loucos imbecis, fanáticos puristas, brigam por qualquer merda, sejam quadrinhos, religião ou futebol. Não perco tempo com malucos.

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Cores são para os coloristas de quadrinhos, ok?

Na adaptação de X-Men pelo Singer, em 2000, quando fãs encresparam com os uniformes, por exemplo, ficou claro que fãs puristas não entendem que a visão do diretor – ou da equipe – equivale, nos quadrinhos, às linhas de interpretação que roteiristas e desenhistas fizeram dos personagens ao longo da História. Personagens canônicos eram diferentes antes de Jim Starlin, Frank Miller e Mazzucchelli ou Mark Waid botar as mãos neles, por exemplo. Mas as essências dos personagens estão ali.

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E são esses personagens catalisadores de dramas humanos, potencializados muitas vezes pela impotência, apesar de seus superpoderes, diante de forças maiores que as deles – o mal, o poder, a política, o dinheiro, a ganância, a doença, a loucura, a soberba, a desilusão… – que os fazem tão atraentes e importantes.

Um dos melhores filmes de 2017 é “Logan”, a última aventura de Wolverine no cinema. Um filme de super-herói que discute configurações de família, um tema atual; imigração e fronteiras (era Trump); velhice e demência; infância e rejeição; experiências médicas e tecnológicas com humanos; laços de amizade e superação de limites. Tudo num subtexto não-didático, com roteiro exemplar. Os efeitos estão ali em favor da história. É cinema pleno, em especial na sequência do cassino, com o desequilíbrio mental do professor Xavier, fazendo o espectador cerrar os dentes de tanta tensão.

Quando “Mad Max – Estrada da Fúria” (uma série de herói) foi indicado ao Oscar de melhor filme e levou seis estatuetas, muitos saudaram a volta do cinema em sua forma plena: ação, montagem, beleza estética. (Quem ganhou naquele ano? Você se lembra?) Infelizmente, ainda há quem renegue esse tipo de filme, em favor de dramas humanos & reais. No ano seguinte, o filme premiado, ao invés de “La La Land”, maravilha emocionante de som, imagem e roteiro, foi um “drama humano comovente”, do qual poucos sem lembram ou se lembrarão – enquanto “La La Land” vai ficar (não é um filme de herói, ok, mas explora a emoção com as ferramentas do cinema, é isso que quero dizer com esse exemplo).

Antes mesmo de X-Men, como bem observou o Roberto Sadovski, houve “Matrix”, talvez um dos melhores filmes já feitos, seja de herói ou não. Um filme com referências pop que discute “A Caverna” de Platão, ora vejam. Ele nem concorreu aos principais Oscars de 2000 e o drama humano que ganhou, bem, ninguém se lembra ou fala sobre ele.

Os filmes de heróis estão salvando o cinema porque permanecem. Gostem deles ou não.

Para os mais jovens, pode ser uma porta de entrada para obras mais profundas e densas, com mais simbolismos, leituras e quetais. Vendo esses filmes, talvez eles consigam extrair ainda mais que os estudiosos de “O Sétimo Selo”, por exemplo.

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Meus filmes preferidos de 2017

Só agora no finalzinho do ano vi “Guimme Danger” do Jarmusch, documentário sobre Iggy Pop & The Stooges que adorei, principalmente por mostrar que Iggy e a banda tinham consciência do que faziam, da cena musical, da teatralidade do espetáculo, dos aspectos artísticos e musicais profundos e não eram apenas garotos descerebrados fazendo barulho. Muita imagem de arquivo interessante, ótima edição e som.

Acho que o filme de ficção que mais me deu prazer em 2017 foi “Monsieur & Madame Adelman”, que não vejo em nenhuma lista de melhores. Estreia do ator francês Nicolas Bedos na direção (ele ainda escreveu o roteiro, compôs a música e atua), o filme emula um Woody Allen sem medo de ser feliz. É a história do relacionamento de um escritor e sua mulher ao longo de 45 anos. Um espetáculo.

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Também meu deu grande prazer ver “Já não me sinto em casa neste mundo”, estréia do ator Macon Blair na direção, contando essa história de humor negro à la Saulnier, onde uma mulher deprimida e ansiosa se une ao seu vizinho esquisito para combater criminosos. Não tão interessantes, mas imaginativos e ótimos de ver, foram “A Morte te dá Parabéns”, espécie de “Feitiço do Tempo” de terror, mas com bom-humor e ótima direção; e “A Babá”, arroubo do diretor McG para a Netflix, um avanço em tema e terror para “Stranger Things” com muito sangue. Di-ver-ti-dís-si-mo!

Ainda em termos de “prazer”, “Em Ritmo de Fuga” é um abuso de cool, direção alucinante, música incrível e ótimos atores, com destaque para o Ansel Elgort, que pode ser um dos grandes. Filme de cinema.

Me deu prazer e me fez pensar ver “Logan”, acho que o melhor “filme de herói” já produzido. Há tantas questões nesse filme, é tão complexo, fala de imigração, direitos humanos, novas configurações de família, paternidade, velhice, sanidade, morte… Não por acaso, o roteirista é o mesmo de “Blade Runner 2049”, Michael Green. Muitos têm preconceito com os tais “filmes de heróis” – estão perdendo a oportunidade de ver filmes como “Logan” e discutir coisas importantes com seus filhos. Isso não tem nada a ver com “Deadpool”.

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Nesse sentido, “Mulher Maravilha” também é um grande filme. O roteiro pode não ser uma maravilha (sic), esquemático, com o turning point do vilão e o final caracteristicamente over de explosões, que virou lugar comum desses filmes e é um saco. Mas, sim, temos ali uma heroína tratada com atenção e os que se preocupam mais com a falta de pelos nas axilas ou o posicionamento político de Gal Gadot não percebem que isso está fora do radar das crianças e adolescentes e, no final, esse tipo de filme é para eles. Nós, adultos, podemos curtir, perceber camadas de subtexto que foram pensadas pelos roteiristas, conversar com os filhos sobre eles e, assim, “Mulher Maravilha” é um ótimo gancho para falar de feminismo e quetais. E é, também, ótima diversão.

Os novos filmes do Homem Aranha e dos Guardiões da Galáxia também são ótimos, ótima diversão, mas passáveis, certo? Assim como os novos do Thor ou da Liga da Justiça – que não vi, mas não estou com nenhuma pressa.

Ainda divertidos, dois dos melhores filmes que vi esse ano tem a relação de casais com a aceitação de famílias em seus enredos. “Corra!” é um ótimo exercício de terror e está em quase todas as listas de melhores do ano. Gosto, mas acho exagero. Principalmente pelo papel da namorada, que se mostra apaixonada demais, com muito brilho nos olhos pelo personagem de Daniel Kaluuya, para a virada do terceiro ato. Mesmo em filmes com os pés no nonsense, o universo ficcional deve fazer sentido. Em “Doentes de Amor” temos a história real do relacionamento do comediante paquistanês Kumail Najiani com uma americana diagnosticada com uma rara doença enquanto a família dele não aceita o namoro. Parece açucarado e mais uma “comédia romântica com doentes”, mas é um belo filme sobre relações humanas, com um personagem carismático e uma revelação, essa Zoe Kazan, que parece a Marisa Orth.

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Também gostei de dois filmes violentos e de cenário hostil: “Terra Selvagem” e “O Estranho que nós amamos”. O primeiro tem uma dupla inusitada de policiais investigando um crime na neve e é o trabalho de estréia do diretor Taylor Sheridan. Baseado em fatos reais, tem personagens bem construídos, sólidos, cenas de ação que eu chamaria de complacentes, diferente do ritmo alucinante das cenas dos filmes americanos. Vale muito a pena, fiquei impressionado com esse filme. Também diferente é o filme da Sofia Coppola, refilmagem do clássico de Don Siegel com o Clint Eastwood. Com ótimo elenco e ritmo lento, percebi uma adequação do filme aos novos tempos, diferente do original, que era mais sujo e imoral, sem a preocupação com a correção política. Basta dizer que no filme original, logo nos primeiros minutos, Eastwood beija uma menina de uns 10 anos na boca. Imagina que Sofia bota isso num filme nos dias de hoje… Mas, no final, é um filme bem feito, amarrado, que envolve e levanta questões.

Talvez os filmes que mais impressionaram, tanto a mim quanto a minha mulé, dona Raquel Cabral, tenham sido os esquisitões. Aqui vão eles: “A Ghost Story”, um exercício visual sobre o tempo, com um fantasma clássico tentando entender a vida que já não tem mais – lento, atmosférico, hipnotizador, é um filme que fica na memória; “Lady Macbeth”, outro filme de diretor estreante, sobre uma mulher que é vendida a um homem rico na Inglaterra vitoriana e arruma um amante – o que vai desencadear uma onda de violência e mostrar que os imorais e cínicos têm mais chance de sobrevivência; e “Ao Cair da Noite”, filme de terror onde faltam explicações, se estabelece na faixa da interferência que pessoas estranhas a nós têm em nossas vidas, apesar das boas intenções. Três filmes diferentes e que estão em nossa lista de melhores do ano, sem dúvida.

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Vi os dois alucinantes “A Região Selvagem”, do mexicano Amat Escalante, que não é para todos os gostos, sobre uma criatura alienígena sexual – mas o filme não tem nada a ver com ela, hahaha. E “O Bar”, mais uma colorida metáfora visual para a atual situação da Espanha, pelo Álex de La Iglesia, onde um grupo fica preso dentro de um bar e um atirador do lado de fora mata quem se atrever a sair. Gostei de ambos.

Raquel gostou também do esquisito “Personal Shopper”, mas dormi e não vi e ela me contou então acho que não verei e não gostarei.

Vimos juntos e nos divertimos com “Colossal” e “Bingo – O Rei das Manhãs“.

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Minha lista de Top 10 de 2017, então, até o momento, seria mais ou menos essa:

  1. Guimme Danger
  2. Monsieur & Madame Adelman
  3. Já Não Me Sinto em Casa neste Mundo
  4. Em Ritmo de Fuga
  5. Logan
  6. Corra!
  7. Doentes de Amor
  8. Terra Selvagem
  9. A Ghost Story
  10. Lady Macbeth

Até janeiro espero ver “Marjorie Prime”, “Dunkirk”, “Blade Runner 2049”, “I Called Him Morgan”, “Good Time”, “The Square”, “Lady Bird”, “Me chame pelo seu nome”, “Shape of Water”, “HHhH”, “Detroit”, “The Post”, “Três anúncios para um crime” e “Projeto Flórida”.

Update 11/12: Vimos “Good Time” (Bom Comportamento aqui) e… que merda de filme! Vai de nenhum lugar a lugar nenhum! Por que está em várias listas de melhores? Tem esse clima Winding Refn, com essa trilha sonora eletrônica retrô, com a fotografia escura-colorida, mas nenhuma história – a menos que você considere mil reviravoltas em um filme de duas horas um ótimo achado. Scorsese, que parece ter gostado do filme, já fez isso com “Depois de Horas” – e não é um dos seus melhores. Caia fora desse.

Update 15/01: Vimos “Blade Runner 2049”, “A Forma da Água” e “Três Anúncios para um crime”. Gostei dos três, mas BR não entra na minha lista de melhores pela impressão que me deu de pedir por uma continuação, achei meio desleal. “A Forma da Água” é mais Cinema que o “Doentes de Amor”, então entrou no lugar dele na minha lista. E “Três Anúncios…” é um dos grandes filmes dos últimos anos, vai para o topo da minha lista – é o filme que os irmãos Coen não entregam faz tempo. Delícia. Então minha lista ficou assim:

  • 01 – Três Anúncios para um Crime
  • 02 – Guimme Danger
  • 03 – Monsieur & Madame Adelman
  • 04 – Já Não Me Sinto em Casa neste Mundo
  • 05 – Em Ritmo de Fuga
  • 06 – Logan
  • 07 – Corra!
  • 08 – A Forma da Água
  • 09 – Terra Selvagem
  • 10 – A Ghost Story

 

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uma história real com roger vadim

 

Roger Vadim 27

Roger trabalhando duro

Roger Vadim filmava La Ronde na primavera de 1960, em Paris, com Jane Fonda. A segunda esposa dele, Annette, estava de passagem pela cidade e foi visitá-lo no set. Em uma das cenas, o diretor foi mostrar ao ator Serge Marquand como ele devia cair de uma janela, em um take de briga. Roger caiu e quebrou o ombro.

Jane foi chamada no camarim, alguém ligou para uma ambulância. Roger estava caído no chão, procurando não se lamentar, enquanto um segurança pedia que ele ficasse quieto até que o levassem para o hospital. A notícia da queda circulou pelos estúdios da Paramount em Saint-Maurice, uma das três unidades que a empresa mantinha na França. E a terceira mulher de Roger, Catherine Deneuve, estava ensaiando em um set ao lado e ouviu sobre o acidente – e foi ver o que tinha acontecido. A ambulância finalmente chegou, colocaram Roger numa maca e dentro da viatura e as três mulheres quiseram ir junto, espremendo-se no compartimento minúsculo da van.

A porta já ia se fechando quando, extraordinariamente, Brigitte Bardot entrou com seu carro no estacionamento do estúdio e viu a cena. O segurança pediu que ela desse passagem à ambulância e, então, ela soube que se tratava de seu ex-marido. E a primeira esposa de Roger Vadim pulou dentro da ambulância, fazendo questão de ir junto para o hospital.

E, assim, foram todas, Brigitte, Annette, Catherine e Jane com Roger Vadim e seu ombro quebrado para o hospital. Ele e suas quatro ex-mulheres.

No caminho, Brigitte achou que Roger estava ficando verde.

E Catherine disse que isso era normal, já que Roger era um marciano.

Todas riram.

O fato que realmente tenha escapado é que Roger realmente era um marciano.

E que apenas Catherine sabia disso, deixando pular de sua boca o segredo, num momento de tensão, num ato falho.

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Roger Vadim, de cigarro na mão, chegando ao hospital, feliz da vida.

As quatro beldades se reuniriam apenas mais uma vez, no enterro de Roger, 40 anos depois. A elas, se juntou a última esposa dele, Marie-Christine Barrault.

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… escrever ficção hoje – minha palestra no IEL/Unicamp em 01-06-17

 

Introdução:

Inicialmente, devo dizer que tenho mais dúvidas que respostas para apresentar.

A ficção, mais especificamente o romance, sempre esteve na berlinda, sempre foi questionada: seu papel, sua importância, sua finalidade.

Por que escrever – e ler – ficção?

Fazem essa pergunta desde Homero.

Milhares de anos antes do desenvolvimento das formas escritas, contavam-se histórias, transmitiam-se ensinamentos religiosos ou mágicos, casos, aventuras, mitologias mais ou menos elaboradas e saberes naturais e tradicionais em toda sorte de comunidades étnicas. Não raro, essa tradição oral era acompanhada de música – ou sob a forma de canto ou de execução de um instrumento musical. A música parece ser uma linguagem universal para comunicar sentimentos e significados, que foi sendo construída pela humanidade através da História. Quem faz essa consideração é o professor George Steiner, de quem falaremos adiante. Segundo ele, não há um ser humano neste planeta que não tenha uma relação qualquer com a música. Segundo ele, a maior parte da humanidade não lê livros, mas canta e dança. (serrote 17)

A consideração sobre a música aqui passa por duas observações: o neurologista Oliver Sacks diz, em um de seus textos, que se extraterrestres chegassem a Terra eles possivelmente entenderiam boa parte do que se passa por aqui, inclusive nossas artes, mas é possível que não entendessem a música. A se pensar sobre isso. Outra consideração diz respeito a forma do texto escrito. Não são poucos os escritores que burilam o texto ao ponto de atingirem certa “musicalidade”, certa satisfação com a “condição oral” do texto e é certo que editores e revisores trabalham o texto antes da publicação à procura de palavras repetidas, cacófatos e rimas involuntárias que “atrapalhariam” ou “prejudicariam” o texto durante a leitura – e na maioria dos casos, creio que a evidência desses problemas só ocorreria caso os textos fossem lidos em voz alta. Ou seja: a oralidade ancestral e certa musicalidade intrínseca estão contempladas no texto elaborado – ou, mais precisamente aqui, no escrito de ficção.

Através da transmissão oral muitas histórias e visões chegaram até nós a posteriori, pelos filtros de outros escritores. Basta pensar que dois dos mais influentes personagens da História não escreveram uma única linha: Sócrates e Jesus Cristo.

Será que precisamos mesmo escrever, ainda mais algo que não existe, algo que está apenas dentro da nossa cabeça, personagens que inventamos, situações que criamos, mundos que elaboramos?

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Escrever, pontualmente, significa atingir certo grau de autoridade sobre um assunto, uma história. Não por acaso, quem escreve é o autor, palavra que nasce na AUTORIDADE. Assim como os xamãs em alguma aldeia africana nos primeiros anos da civilização criava um canto ou uma mágica impressionante, tendo sobre sua tribo uma AUTORIDADE MÍSTICA, o autor do texto ficcional, de maneira secular, reivindica para si algo de magistral, divino e até mesmo canônico (em vários sentidos).

Segundo o professor Steiner ainda, todo escrito é contratual. O texto liga o autor e seu leitor à promessa de um sentido. Ou de suspensão de sentido, acrescento.

Não por acaso, livros foram considerados perigosos, proibidos por religiões: há uma perturbadora forma de Verdade nos livros – ou, pelo menos, nos bons livros.

Nesse sentido, parece realmente ser bom escrever e ler livros. Mas será que os livros propiciam algum benefício à humanidade sofredora?

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Durante um tempo, eles foram os principais veículos de encantamento, elevação, epifania, emoção, transmissão cultural, (re)organização da vida, instrumento social, interação social… Mas, e hoje, com o avanço da informação, com os instrumentos todos novos dos veículos, a internet com tudo o que se pode ver e saber nela, com Netflix e quetais?

Em meados do século XIX, o russo Píssarev dizia que “para o homem do povo, um par de botas vale mais que toda obra de Shakespeare”. Faremos botas ou escreveremos livros?

Vamos iniciar com a primeira parte, conhecendo os passos da escrita através de alguns escritores que questionam seu ofício: Umberto Eco, David Mamet e Salman Rushdie. Vamos ver o que apontam sobre essa questão, relacionando Eco com o papa do roteiro americano de cinema, Robert Mckee; ver o que diz o dramaturgo Mamet sobre a consagrada estrutura da história em três atos, e, depois, sugerindo uma atividade, através de um ponto do crítico James Wood sobre a escrita de ficção hoje.

Na segunda parte, vamos colocar um ponto de discussão que Rushdie teve recentemente com Steiner sobre a morte do romance.

Vamos nos ater a escrita de ficção no romance, considerando que nesses tempos de pós-verdade, quase tudo é ficção, até mesmo as notícias, o telejornal – com seu roteiro editado para terminar com a satisfação do leitor, preparando-o para a novela (mais ficção) e as postagens do Facebook cheias de não-verdades, que são ficção da pior qualidade.

Primeira parte:

  1. Umberto Eco e Robert Mckee – maturidade e insight

O professor de roteiros de cinema e papa do cinema americano, Robert Mckee ensina técnicas de desenvolvimento de tramas, especialmente dentro dos três atos, e como desenvolver personagens, plot twists, e toda série de artimanhas para segurar o espectador em sua poltrona ou para dar a ele uma experiência completa de existência ao ver um filme. Mckee diz duas coisas interessantes que tem paralelo ao que diz Eco. A primeira delas é: “Escrever é para adultos”.

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É preciso ter algum grau de maturidade para escrever bem. É preciso ter lido bastante, pensado demais sobre a vida, o universo e tudo o mais. Há, é claro, as exceções que confirmam a regra. Mas o adulto idiossincrático é o melhor autor – em especial, aquele que não tem um credo específico, uma religião, ou defende uma ideologia muito clara. Ele tem que conhecer boa parte da zona cinza da humanidade. É bom que tenha viajado, se relacionado com pessoas diferentes. E que não conheça o mundo e apenas através da ficção e personagens de ficção.

Eco escreveu seu primeiro romance, O Nome da Rosa, em 1980, com mais de 45 anos. Ele repete o que diz um de seus personagens de ficção: há dois tipos de poetas: os bons, que queimam seus poemas aos dezoito anos, e os ruins, que continuam produzindo poesia por toda a vida.

Ratificando Mckee, Eco diz que “num poema ou num romance, a intenção é representar a vida em toda a sua incoerência”. A “representação” dessa incoerência encontra ressonância na incoerência da vida do leitor e o alivia, num processo que Steiner chama de “”, citando inclusive que um livro chama outro livro, responde a ele, o rebate, o contradiz, o complementa, o contextualiza, num monólogo sem fim dentro do leitor.

Eco diz que “a narrativa é, para início de conversa, uma questão cosmológica. Para narrar algo, você começa como uma espécie de demiurgo criador de um mundo – um mundo que precisa ser o mais fiel possível, de modo que você possa locomover-se nele com total segurança”. Nesse sentido, o mundo pode ser o real ou o inventado, mas ele tem que ser muito completo, fechado, inteligível (com suas leis, geografia, geologia, topografia, etc…) para que o autor narre os fatos e acontecimentos nele e coloque nele os seus personagens.

Se você for escrever sobre o mundo real e atual, precisa conhece-lo muito bem.

A maturidade do autor e seu relacionamento com o mundo sobre o qual vai escrever são essenciais para Mckee e Eco, mas para que o romance tenha início é preciso algo fundamental.

Mckee chama de insight. Eco chama de ideia seminal. Basicamente, trata-se da mesma coisa.

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Para Mckee, o insight para o início da escrita de uma trama envolve muita leitura. Ele diz que se você quer ser um músico, vai estudar música, tanto teoria quanto prática, e tocar e ensaiar e improvisar até conseguir compor. “Escrever uma boa história é tão difícil quanto compor uma sinfonia”, diz. Ler, pensar e tentar. “Autoconhecimento é a chave – a vida mais uma reflexão nas nossas reações à vida”. O novato confunde técnica com habilidade; habilidade é o que você consegue fazer coma absorção inconsciente dos elementos das estórias que você já leu, viu, experimentou – segundo ele.

Para Mckee não existe o bloqueio criativo – se você não está conseguindo escrever, vá a uma biblioteca. E também não existe o “gênio irreconhecido” – mais uma vez, exceções confirmam a regra.

O insight de Mckee pode aparece a qualquer momento e para o escritor, ele pode aparecer várias vezes num único dia – mas apenas aquele que permanece na memória é o insight que pode render uma história realmente boa: a sensibilidade do escritor, sua antena geracional, captou algo que merece ser escrito.

Para Eco, é mais ou menos assim também, embora ele ache que a “ideia seminal” que vai germinar um romance pode partir de uma simples imagem ou até de uma brincadeira. Ele diz que escreveu O Nome da Rosa porque foi convidado a escrever um conto policial e pensou em “envenenar um monge”. O conto não deu certo, mas a imagem de um monge envenenado numa biblioteca na Idade Média (que ele conhecia bem, ou seja, era um universo cosmológico que ele dominava), ficou em sua memória e tornou-se a “ideia seminal” para o romance, que escreveu em dois anos.

Para seu próximo livro, O Pêndulo de Foucault, a ideia seminal surgiu quando ele conheceu o pêndulo original em Paris. Ele ficou deslumbrado, mas não pensou num livro. A imagem que o fez pensar n´O Pêndulo foi de um garoto tocando uma trombeta em um cemitério. Ele demorou 8 anos para relacionar o pêndulo à imagem, construindo o romance.

Enfim, maturidade e insight constituem o início de algo que se pode escrever e que tenha certa relevância, ecoando na vida do leitor, resultando em algo “válido a dizer e que o mundo queira ouvir”, nas palavras de Mckee.

(Em “Sobre a Escrita”, Stephen King diz mais ou menos a mesma coisa: “as ideias para boas histórias parecem vir, quase literalmente, de lugar nenhum, navegando até você direto do vazio do céu: duas ideias que até então não tinham qualquer relação,se juntam e viram algo novo sob o sol. Seu trabalho não é encontrar essas ideias, mas reconhece-las quando aparecem”.)

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  1. David Mamet – estrutura antes da forma

Com maturidade para escrever a história nascida de um insight captado pela nossa antena geracional, devemos começar. Mas… por onde? Como contar essa história? Qual o incipt?

McKee diz que “o público quer o trivial bem contado” e que não há nada de mal nisso. Entretenimento? Para ele, “ser entretido é ser imerso na cerimônia da estória através de uma trama e personagens que te conduzam a um final intelectual e emocionalmente satisfatório. Para o público do cinema, entretenimento é o ritual de sentar-se no escuro, concentrado no significado da história, em todas as nuances, naquilo que não é dito diretamente, e sentir despertar emoções fortes, às vezes até dolorosas. Quando esse significado se aprofunda, o público é levado à satisfação suprema dessas emoções”. E na literatura também, já que a leitura é o consumo de arte mais solitário que existe. Em sua solidão de expectador daquela trama, o leitor experimenta muitas vezes emoções que não seriam alcançadas na vida real exceto em momentos extremos. É por isso, diz Eco, que todos choram diante do terrível fim de Ana Kariênina, de Tolstoi: mesmo sabendo que se trata de um personagem que não existe – a não ser na literatura – tomamos por ele um afeto e uma compreensão tão grande que a experiência da morte do personagem muitas vezes ultrapassa a emoção real da perda de um ente querido e real. A leitura nos prepara para a vida e nos ensina a lidar com esse tipo de situação também.

De qualquer maneira, não estamos falando de personagens ainda, mas da forma. Aliás, antes ainda da forma, estamos falando da estrutura. Como contar a história?

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É comum que autores – ainda mais os jovens – queiram exercitar alguma estrutura inovadora a partir da história sen-sa-cio-nal que estão prestes a narrar. Pode ser um erro descomunal. McKee: “não confunda excentricidade com originalidade. A diferença pela diferença é tão vazia quanto seguir servilmente imperativos comerciais. […] Originalidade é a confluência de conteúdo e forma – a escolha distinta de temas com uma forma única de moldar a narração”. Desde Ulysses de James Joyce, diariamente aparecem vários candidatos a Joyce. Paulo Coelho diz que James Joyce fez mais mal que bem à literatura moderna – e aí está um tema de boa discussão talvez para concordarmos com o mais odiado autor brasileiro.

O fato é que, para além de McKee, há uma certa compreensão de que “a construção do universo narrativo determina o estilo do romance”, sintetiza Eco. Ele conta que quando decidiu contar a história de Baudolino na primeira pessoa, um camponês do século XIII em Constantinopla, rapidamente a estrutura e a forma apareceram.

Mas, antes da forma, foquemos na estrutura para chegarmos a David Mamet.

Eco (como McKee) era entusiasta de uma estrutura levemente inovadora mas que garantisse, antes de mais nada, a satisfação do leitor.

(Há esse mito de que o leitor satisfeito não leu uma grande obra. Será?)

David Mamet exemplifica como podemos atender às expectativas de um leitor através do seu exemplo chamado “A Partida Perfeita”. Vamos a ele, caminhando com Aristóteles, que diz que todos querem “começo, meio e fim”:

A Partida Perfeita – o exemplo dos três atos de uma peça – por David Mamet:

            O que desejamos numa partida perfeita?

            Desejamos que nosso time entre em campo e surre os adversários desde o primeiro momento, emplacando uma goleada até o apito final?

            Não. Desejamos uma partida arduamente disputada, que contenha muitas reviravoltas satisfatórias mas que também possa ser vista, em retrospecto, como tendendo sempre para uma conclusão inevitável e satisfatória.

            Desejamos, na verdade, uma estrutura em três atos.

            No primeiro ato nosso time entra em campo, de fato prevalece sobre os adversários e nós, seus partidários, ficamos orgulhosos. Mas antes que esse orgulho possa amadurecer e se tornar arrogância, ocorre uma coisa nova: nosso time comete um erro, o outro lado se inspira e avança com força e imaginação até então insuspeitada. Nosso time fraqueja e recua.

            No segundo ato dessa partida perfeita, nosso time, abalado e confuso, esquece os rudimentos de coesão, estratégia e destreza em que se baseava sua força. Afunda cada vez mais no lodaçal do desalento. Todos os esforços contra isso parecem inúteis; e quando achamos que a maré talvez tenha virado a nosso favor de novo, uma penalidade ou decisão adversa é marcada, anulando o ganho obtido. O que poderia ser pior?

            Mas esperem: logo quando tudo parece irremediavelmente perdido, o socorro vem (terceiro ato) de uma fonte inesperada. Um jogador até então reputado como de segunda categoria surge com um bloqueio, uma corrida ou um passe e oferece um vislumbre (o vislumbre, atentem) da possibilidade de vitória.

            Sim, apenas um vislumbre, mas que é suficiente para animar o time a algo semelhante a seus melhores esforços. E o time, de fato, desperta, empata o placar e, mirabile dictu, realiza aquela jogada que iria coloca-lo em vantagem…

            Apenas para vê-la anulada, mais uma vez, pelo destino ou seu lugar-tenente: um árbitro equivocado, ignorante ou mal-intencionado.

            Mas vejam: as lições do segundo ato não foram desperdiçadas pelo nosso time. Este ou aquele pode dizer que é tarde demais, que o relógio está adiantado demais, que nossos heróis estão cansados demais, mas ainda assim eles se unem em um último esforço, uma última tentativa. E eles prevalecem? Chegam a triunfar, restando poucos segundos no relógio?

            Eles quase triunfam.”

Essa estrutura de três atos é perfeita não apenas nessa partida perfeita, mas na estrutura do romance, do filme ou da peça de teatro – ou no episódio da série. McKee diz que se o time ganhar, a estrutura tem um final “positivo”, se perder “contraditório” e se empatar, “neutro”. Nos três casos, a história, os personagens, seus dramas, o espírito de uma época, os dilemas levantados, as dúvidas existenciais, tudo pode ser bom dentro da ideia clara da história – não moralmente clara: honesta e fiel com seu insight, dentro da sua visão madura de mundo.

Mamet, McKee e Eco parecem conservadores ao defender a estrutura de três atos, mas vejam o que disse recentemente em livro sobre escrita, DBC Pierre, escritor vencedor do Man Booker Prize com Vernon God Little:

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McKee, na verdade, não é tão elástico: ele prefere finais pessimistas (ou contraditórios), que dão uma visão mais realista da condição humana, segundo ele. Não por acaso, entre seus filmes preferidos estão: Casablanca, Chinatown, As Diabólicas (de Clouzot), Seven – Os Sete Crimes Capitais – filmes sem finais felizes.

Mamet também prefere os heróis puros e irascíveis, que não dizem que “o fim justifica os meios” – o herói é puro, não mente, se sacrifica pelo outro (logo, pela humanidade) e isso dá um certo caráter utilitarista para a trama, segundo alguns. Mas diz Mamet:

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“Efeito cumulativo!” – a pensar.

O que se está defendendo aqui, no final, é a estrutura clássica, algo influenciada pelo cinema e pelo teatro, de três atos. Mas não é por ser em três atos sequenciados dentro de uma forma clássica que ela precisa uma forma formal.

“Quando pessoas talentosas escrevem mal (não adequando a forma ao conteúdo, basicamente), é geralmente por um desses dois motivos: elas ou foram cegadas por uma ideia a qual se sentem compelidas a provar, ou são guiadas por uma emoção que precisam expressar. Quando pessoas talentosas escrevem bem, geralmente é por esse motivo: elas são movidas por um desejo de tocar o público”, disse McKee.

Isso diz muito sobre o desejo de escrever de pessoas intelectualizadas: geralmente elas têm tanta informação e tanto a dizer e querem expressar tanta coisa, ideias, tudo de maneira tão inovadora que… não tem um desejo real de tocar o público. O público não existe, é um elemento distante e, na análise dessas pessoas, ignorante e não-merecedor de sua arte. Quantos escritores esnobes encontramos, dizendo que o público ainda não está pronto ou que sua arte (sic) é muito avançada para o público?

A forma é o que faz a arte chegar ao público. Um forma verdadeiramente inovadora, com frescor e originalidade, com Verdade e emoção, vai encontrar seu público apesar da dificuldade. Foi assim com o Ulysses. E, aliás, é por isso que não apareceu um novo Ulysses.

Com tudo estabelecido, diante do início do romance, você vai colocar os seus personagens em pé. Eles precisam ser sólidos e enormes. McKee diz que “um personagem não é um ser humano”, ele deve ser algo mais. Gosto da imagem de Frankenstein – aquele monstro sui-generis, construído com partes de outras pessoas e que é ao mesmo tempo horrível e assassino e doce, delicado e amante da poesia. Alguém que quer ser amado e mata. Alguém incrível – mas perfeitamente crível naquele universo da ficção. Quando forem construir personagens, lembrem-se de Frankenstein.

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  1. James Wood – A finalidade

Umberto Eco cita trecho de Os prazeres da imaginação (1712) de Joseph Addison: “as palavras, quando bem escolhidas, têm tamanha Força dentro delas que uma Descrição em geral nos oferece Ideias mais vívidas do que a Visão das Coisas em si”.

Ou seja: O ficcional pode não apenas emular o real ou lhe servir de espelho ou paradoxo, mas traduzir-lhe.

Em um artigo recente, o crítico de literatura James Wood usa um momento real de extrema dor e desalento, o funeral de um homem de cinquenta e poucos anos, que deixava duas filhas pequenas, para questionar sobre o papel da literatura como uma versão laica do funeral religioso, onde pode ser enfeixada, entre a primeira e a última página, a história de toda uma vida – real ou ficcional.

O que é a vida real e o que é a ficcional?, pergunta ele. Tendo crescido em família cristã e se sentindo ateu desde jovem, viu-se um grande mentiroso na flor da idade, dizendo que acreditava em Cristo e nas bobagens da Igreja. Mentia que acreditava na ficção da Igreja. E percebia que seus pais também eram assim.

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A literatura permitia a ele uma fuga das mentiras – mesmo sendo, ela mesma, uma mentira. Para Wood, ele usava um “mundo livresco no qual se usavam ficções para proteger verdades significativas”. Wood diz que aprendeu tudo com os livros. Nos romances os “espaços eram totalmente livres, onde tudo podia ser pensado, tudo podia ser pronunciado. Nos romances, podiam-se encontrar ateus, esnobes, libertinos, adúlteros, assassinos, ladrões, loucos cavalgando pelas planícies de Castela ou vagueando em torno de Oslo ou São Petersburgo, rapazes batalhando em Paris, moças batalhando em Londres, cidades sem nome, países sem lugar, terras de alegoria e surrealismo, um ser humano transformado em barata, uma história narrada por um gato, cidadãos de muitos países, místicos, fidalgos e mordomos, conservadores e radicais, radicais que também eram conservadores, intelectuais e simplórios, bêbados e padres, padres que também eram bêbados, os vivos e os mortos” – ou seja: havia nos livros um universo muito mais interessante que a realidade. Mas que, ao mesmo tempo, traduzia a realidade para ele.

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Mas não só isso.

Segundo ele, a literatura “muitas vezes nos dá essa visão estruturante da forma da vida de uma pessoa: vemos o começo e o fim de muitas vidas ficcionais; seus desdobramentos e erros, a estagnação e a deriva. A ficção faz isso de muitas formas – mediante o simples escopo e tamanho (o romance longo, com muitos personagens, cheio de muitas vidas, muitos começos e fins), mas também por compressão e brevidade (a novela que compacta radicalmente uma única vida, do começo ao fim). E também, em parte, pela transformação do presente em passado: embora avancemos num conto, toda história já está completa – nós a seguramos em nossas mãos. Nesse sentido, a ficção, a grande vivificadora, também mata, não só porque as pessoas muitas vezes morrem em romances e contos, mas, e isso é o mais importante, mesmo que não morram, porque elas já aconteceram. A forma ficcional é sempre uma espécie de morte.”

Para ele, a vida em um escrito ficcional, é uma vida “furiosamente determinada”, já está construída ali e não pode ser modificada. A não ser na interpretação individual de cada leitor, fazendo com que uma única peça seja capaz de traduzir questões para cada um que a ler de uma forma distinta.  A letra fria e morta do escrito ficcional revive cada alma em cada leitura.

Atividade:

Depois disso tudo, a atividade simples: descrevam, do alto da maturidade de cada um, através dos insights que vocês tiveram ao longo dessa palestra, usando uma estrutura padrão de começo, meio e fim, mas com um conteúdo o mais incrível possível, mais contemporâneo e atual, com a finalidade de emocionar ou mesmo fazer o mais duro leitor chorar – esse ápice do pieguismo, podem pensar, mas só conseguido por grandes autores como Goethe e Tolstoi. E tudo isso em até 60 linhas.

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Segunda parte:

  1. Salman Rushdie VS George Steiner – o romance morreu?

O professor e crítico da The New Yorker George Steiner e o escritor e ensaísta Salman Rushdie entraram em uma discussão no início deste século (já faz tempo), sobre um assunto que geralmente reaparece: o fim do romance.

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Steiner disse em uma conferência: “Estamos cansados de nossos romances […] Gêneros sobem, gêneros caem […] Qual romance pode hoje competir realmente com o melhor da reportagem, com o melhor da narrativa imediata” E citou Píndaro (cerca de 400 a.C.), que depois de escrever um poema, disse: “este poema será cantado quando a cidade que o encomendou tiver deixado de existir”, arricando que “dizer isso hoje […] deixaria até o maior poeta profundamente envergonhado”.

Rushdie não concordou e escreveu uma “Em defesa do romance, mais uma vez”. Mas antes da argumentação de Rushdie, vale a pena dar uma olhada nos últimos dois vencedores do Nobel de Literatura para dizer que Steiner erra e acertaSvetlana Alexijevich, vencedora de 2016, trabalha literariamente o que de mais impactante pode existir na realidade – acho que sua obra pode ser definida assim. E Bob Dylan, vencedor controverso deste ano, pode ser o “nosso Píndaro”: suas canções serão cantadas quando algumas cidades deixarem de existir.

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~ nosso Píndaro ~

Rushdie escreveu seu artigo em 2000 e cita V. S. Naipaul, que tinha deixado de escrever romances e teria dito que “o romance viveu além de seu momento histórico, não desempenha mais nenhum papel útil (grifo meu) e será substituído pela escrita factual”. Nem Rushdie, nem Naipaul e, decerto, Steiner esperavam que Naipaul ganhasse o Nobel de Literatura em 2001 e, em 2005, publicasse um romance (contrariando a própria promessa), “Meia Vida”, que tem recorte memorialístico. Interessante notar que vários dos autores vencedores do Nobel neste século tem obras com recortes memorialísticos, como Mo Yan, Imre Kertész, Orhan Pamuk, Le Clezio, Tomas Tranströmer e Patrick Modiano. Steiner não previu que as narrativas com recorte memorialístico podiam fazer frente ao melhor da “reportagem com narrativa imediata”.

No levantamento histórico sobre o alardeado fim do romance, ao longo da História, por vários autores, Rushdie cita George Orwell, que escreveu, em 1936, que:

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Não é de hoje que se diz sobre o fim ou a (citando meu grifo acima na fala de Naipaul) inutilidade do romance. Mas Rushdie observa algo interessante a esse respeito: Steiner, Naipaul e Orwell, britânicos, têm uma visão eurocentrista e, não por acaso, os grandes novos nomes da literatura mundial, inclusive vencedores do Nobel, que pode ser usado aqui como um termômetro, estão em países considerados periféricos em termos de literatura. Ok, britânicos levaram três prêmios Nobel neste século, mas quando esperariam uma bielorrusa, uma canadense, uma austríaca, uma romena, um húngaro, um peruano, um sujeito das ilhas Maurícia, e dois chineses?

(Rushdie diz que considera a produção norte-americana muito boa no momento, Roth, Pynchon, Cormac MacCarthy, Michael Cunningham, Gay Talese, entre vários outros, ainda estão vivos e uma nova geração está se saindo muito bem.)

O fato é que talvez um novo romance esteja emergindo, segundo Rushdie: um romance pós-colonial, um romance descentralizado, transnacional, interlingual, multicultural – e ele está em fase de gestação ampla, muitas vezes dentro de grandes centros, como a França, que gerou um “Submissão”, polêmico livro de Michel Houellebecq, ou mesmo em Londres ou nos EUA com autores imigrantes que escrevem em inglês – e os exemplos são os mais diversos. Temos indianos e japoneses escrevendo em inglês. Não há um centro para essa produção: o centro, agora, é a margem. Nesse sentido, Rushdie destaca, em seu artigo, o perigo que a literatura enfrenta, em especial em redutos ditatoriais ou com ampla censura política e/ou religiosa – e isso ele conhece bem. Mas vamos nos ater ao que se pode produzir e onde se pode produzir:

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O novo romance não é mais a visão do Velho Mundo burguês.

A visão de Steiner, com a lanterna de Rushdie apontada para ela, nos dá, porém, uma ideia muito específica deste “novo romance”. Mas coloca, talvez, que “todo talento criativo é do mesmo tipo” – quando, obviamente, não é.

Temos, então, “narrativas realistas imediatas e/ou memorialísticas, transnacionais, multilinguais, apontando para uma (des)ordem mundial; abordando problemas contemporâneos e/ou apontando para eles pela ótica história da experiência já vivida” como o modos de fazer do novo romance, certo?

Parece que sim.

Vamos ver dois casos recentes, de dois prêmios tradicionais de obra em língua inglesa, o Pulitzer e o Man Booker Prize.

O Pulitzer deste ano foi dado a um vietnamita de 46 anos residente nos EUA. Viet Thanh Nguyen venceu com seu romance de estreia, O Simpatizante, que conta a história de um espião comunista meio francês meio vietnamita, nos Estados Unidos, levando uma vida dupla entre a América e o Vietnã e se lembrando da Guerra.

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O segundo, é Marlon James que venceu o Man Booker Prize de 2015 com Uma Breve História de Sete Assassinatos – e estará na multicultural edição da FLIP neste ano. Inspirado em fatos reais que retratam a história da Jamaica ao longo de quase 700 páginas, o livro tem inúmeros personagens de várias etnias, um cantor inspirado em Bob Marley, é repleto de gírias e palavrões e tem um capítulo escrito inteiramente em jamaicano. Esse é o terceiro romance de James, que tem 44 anos. Os outros foram mal, o primeiro foi rejeitado 78 vezes, por diversas editoras.

Quando finalmente saiu, James recebeu vários exemplares como forma de pagamento de direitos e jogou várias cópias fora por não ter onde colocar, decidindo abandonar a carreira de escritor.

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Esses dois casos comprovam, de certo modo, a teoria de Rushdie.

Mas e todo o resto, como romance? Não há espaço para a ficção científica, o romance de estilo, a sátira, enfim, tudo o que não tem esse viés real, memorialístico, multiétnico?

Com a resposta, os escritores e seus novos livros, esses que eles escreveram a partir de hoje.

Adendo:

Dentro de toda essa discussão, devo colocar um ponto em que Steiner e Rushdie concordam: publica-se livros demais.

Diz Steiner: “Atravessando as estantes labirínticas, os depósitos de milhões de livros, a alma se apequena numa insignificância desesperadora. Afinal, o que é possível acrescentar a tudo isso. Como um escritor pode pretender rivalizar com as estátuas de mármore dos grandes clássicos canonizados? Tudo o que vale a pena ser imaginado, pensado e dito, já não o foi? (Quem ainda seria capaz de escrever numa página branca a palavra “tragédia”? – perguntava Keats com angústia, tendo Hamlet ou o Rei Lear atrás de si)

Diz Rushdie: “Nos Estados Unidos, em 1999, foram publicados mais de 5 mil novos romances. 5 mil! Seriam um milagre que 500 romances publicáveis fossem escritos em um ano. Seria extraordinário que 50 deles fossem bons. Seria causa de celebração se 5 deles – se um deles! – fossem geniais. As editoras estão editando demais pq uma após outra, elas foram despendindo seus bons editores que não foram substituídos e com essa rotatividade perdeu-se a capacidade de distinguir bons livros de maus livros. Que o mercado decida – parecem pensar muitos editores. Vamos simplesmente lançar o material, alguma coisa há de dar certo. E lá se vão para as lojas, para o vale da morte, os 5 mil, com a máquina publicitária fornecendo inadequado fogo de cobertura. Essa abordagem é fabulosamente autodestrutiva. Como disse Orwel em 1936, como se vê, não há nada de novo sob o sol: “O romance está sendo enxotado da existência”. Os leitores incapazes de abrir seu caminho pela floresta de ficção-lixo, transformados em cínicos pela linguagem aviltada da hipérbole com que cada livro é engalanado, acabam desistindo. Compram um ou dois livros premiados por ano, talvez um ou dois livros de escritores de nomes que conhecem – e fogem. Excesso de publicações e de publicidade criam deficiência de leitura. Não é apenas questão de romances demais perseguindo leitores de menos, mas a questão de romances demais afastando os leitores.”

Milan Kundera concorda com os dois.

FIM.

 

 

 

 

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