… lendo livros de terror.

O escritor e amigo Santiago Nazarian perguntou no Facebook quais os melhores livros de terror que seus amigos e seguidores já tinham lido. Nazarian, assim como eu, tem interesse no assunto, gosta também de filmes de terror, interagiu em uma postagem minha no Face  sobre filmes do gênero, e fiquei pensando nesses livros perturbadores. Ah, sim, Nazarian escreve livros fantásticos e é autor de um ótimo livro de terror, o Biofobia, que recomendo.

Quando eu tinha uns 14 anos, frequentava muito a biblioteca pública de Americana. Isso foi entre 1984, não tinha videocassete ou TV a cabo (apenas 3 ou 4 canais de TV aberta) e, claro, nada de internet. Americana ainda tinha dois cinemas (hoje não tem nenhum) e nós ficávamos ligados na programação, torcendo para que passassem filmes interessantes entre um ou outro filme dos Trapalhões. As parcas informações que nos chegavam vinham através de jornais e das conversas com o pessoal mais velho e assim nasciam lendas envolvendo filmes – e livros.

Falavam sobre “O Exorcista”, filme e livro malditos, sobre como pessoas passavam mal no cinema ou até mesmo ao ler as páginas do romance. Fiquei intrigado e retirei o livro na biblioteca e li antes de ver o filme – e foi realmente assustador. Movido um pouco pelas histórias, passei dias meio estranhos lendo o livro, sugestionado: senti minha cama levitar e tremer, ficava arrepiado ao entrar na igreja (na época, eu era coroinha) e senti um alívio tremendo quando terminei a leitura, em poucos dias, e devolvi o livro.

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Eu já gostava de histórias de terror, lia gibis nacionais de terror, via filmes na TV, adorava, em especial, a série “Kolchak e os demônios da noite”, que, fiquei sabendo depois, era a série preferida de Chris Carter, o criador do Arquivo X. Mas nada tinha sido como aquele “O Exorcista”.

Coincidentemente, logo depois que li o livro, teve uma única exibição (pelo que me lembro) do filme na cidade – era uma cópia de aniversário de 10 anos do filme de William Friedkin. A censura era de 18 anos, mas eu consegui entrar com minha namoradinha, e foi uma experiência realmente chocante.

Veja: uma coisa é você ver “O Exorcista” hoje, na TV ou no BluRay, depois de ter visto trocentos filmes de terror e com 20 ou 30 anos nesses 2017. Outra coisa é você ver “O Exorcista” em 1984 ou 1985, com 15 anos, no cinema, com a namoradinha.

Ela também gostava, e entramos numas de ler livros de terror, um lia e indicava para o outro e foi assim que li os três livros de “A Profecia” – cada um escrito por um autor diferente, já que cada um deles morria imediatamente após ter escrito cada livro (era o que dizia a lenda). E lemos outros livros B, coleções de mistério, Edgar Allan Poe, depois Agatha Christie, e caímos, inevitavelmente, nos livros esotéricos de Carlos Castaneda e Lobsang Rampa, que faziam sucesso na época. Viajei e perdi muito tempo com eles.

AS_POSSUIDAS_1239490524BUm desses livros, lido ao acaso, me marcou: o “As Possuídas” – que foi publicado também como “As Esposas de Stepford” e, atualmente, como “Mulheres Perfeitas” -, de Ira Levin. Levin escreveu “O Bebê de Rosemary”, que não li, vi só o assustador filme do Polanski, um tempo depois, no início da explosão do videocassete, que afastou a gente um pouco da biblioteca. Mas o “Mulheres Perfeitas” foi uma experiência marcante para mim. Li também o “Meninos do Brasil” dele e gostei – o filme é marromenos.

O filme que vi em vídeo e me aterrorizou como nenhum outro antes – acho que nem mesmo “O Exorcista” – foi “O Iluminado”; e aí fui atrás do romance do Stephen King que li devagar e com muito prazer. Era diferente do filme, uma outra experiência. Não me lembro de ter ficado tão chocado ou aterrorizado; era como se tivesse sido transportado para outro universo, aquele do Hotel Overlook.

À época, não me interessava pelos chamados clássicos; já tinha visto muitos filmes com vampiros e frankensteins na televisão, aqueles filmes da Hammer, não achava que os livros pudessem ser bons ou assustadores… Mas um tempo depois achei que valia a pena tentar, e li, de uma só vez, os romances do Bram Stoker e da Mary Shelley e, uau, percebi que não era nada daquilo que tinha visto nas telas. Depois li também “O Médico e o Monstro” do Stevenson e adorei – se tornou um dos meus livros preferidos.

Dois filmes de terror me levaram, então, para dois livros que entraram em minha lista de preferidos de todos os tempos: “Coração Satânico”, de William Hjortsberg, e “O Silêncio dos Inocentes”, do Thomas Harris.

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Fiquei obcecado com o “Coração Satânico”, assisti dezenas de vezes, e o livro é ainda melhor – e bem diferente. Escrevi sobre ele aqui. Pena que o Hjortsberg não escreveu mais nada à altura, tudo o que li dele depois é chato. O livro está sendo relançado no Brasil pela Darkside. Diferente do Harris: “Dragão Vermelho” é ainda melhor que “O Silêncio dos Inocentes” – e o filme do Michael Mann (Manhunter, aqui “Caçador de Assassinos”, 1986, primeira adaptação de Harris para o cinema), é sensacional; e “Hannibal” é igualmente ótimo, mais violento que os outros dois – e também gosto do filme do Ridley Scott.

(Aliás, por onde anda Thomas Harris?)

Por essa época, final dos anos 1990, comecei a escrever e fui ler livros de meus contemporâneos, me interessei por livros policiais e pors Joseph Campbell, e deixei de lado a literatura de terror, focando mais nos filmes. Li “As Ruínas”, de Scott Smith”, e depois vi o filme – que gosto muito – e o incluo nesta lista para completar os 10.

Recentemente, li e ajudei na publicação deste pequeno livro de contos da amiga Verena Cavalcante (Bruna Oliveira Gonçalves), “Larva” (Editora Oitoemeio) – e considero uma das coisas mais aterrorizantes que já encontrei. São narrativas de crianças sobre coisas reais que elas vivem e veem e entendo que a autora conseguiu algo novo, inusitado e diferente na literatura de terror. Coloco na lista como “livro bônus” por ser um livro de contos e a lista é de romances.

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Taí:

  • 1 – O Exorcista – William Peter Blatty
  • 2 – A Profecia – David Seltzer
  • 3 – Mulheres Perfeitas – Ira Levin
  • 4 – O Iluminado – Stephen King
  • 5 – Drácula – Bram Stoker
  • 6 – Frankenstein – Mary Shelley
  • 7 – O Médico e o Monstro – R. L. Stevenson
  • 8 – Coração Satânico – William Hjortsberg
  • 9 – Dragão Vermelho – Thomas Harris
  • 10 – As Ruínas – Scott Smith
  • 11 – Larva – Verena Cavalcante

🙂

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O que escrever quando o romance está morrendo?

O professor e crítico da The New Yorker George Steiner e o escritor e ensaísta Salman Rushdie entraram em uma discussão no início deste século (já faz tempo), sobre um assunto que geralmente reaparece: o fim do romance.

Steiner disse em uma conferência: “Estamos cansados de nossos romances […] Gêneros sobem, gêneros caem […] Qual romance pode hoje competir realmente com o melhor da reportagem, com o melhor da narrativa imediata” E citou Píndaro (cerca de 400 a.C.), que depois de escrever um poema, disse: “este poema será cantado quando a cidade que o encomendou tiver deixado de existir”, arricando que “dizer isso hoje […] deixaria até o maior poeta profundamente envergonhado”.

Rushdie não concordou e escreveu uma “Em defesa do romance, mais uma vez”. Mas antes da argumentação de Rushdie, vale a pena dar uma olhada nos últimos dois vencedores do Nobel de Literatura para dizer que Steiner erra e acerta. Svetlana Alexijevich, vencedora de 2016, trabalha literariamente o que de mais impactante pode existir na realidade – acho que sua obra pode ser definida assim. E Bob Dylan, vencedor controverso deste ano, pode ser o “nosso Píndaro”: suas canções serão cantadas quando algumas cidades deixarem de existir.

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~Nosso Píndaro~

Rushdie escreveu seu artigo em 2000 e cita V. S. Naipaul, que tinha deixado de escrever romances e teria dito que “o romance viveu além de seu momento histórico, não desempenha mais nenhum papel útil (grifo meu) e será substituído pela escrita factual”. Nem Rushdie, nem Naipaul e, decerto, Steiner esperavam que Naipaul ganhasse o Nobel de Literatura em 2001 e, em 2005, publicasse um romance (contrariando a própria promessa), “Meia Vida”, que tem recorte memorialístico. Interessante notar que vários dos autores vencedores do Nobel neste século tem obras com recortes memorialísticos, como Mo Yan, Imre Kertész, Orhan Pamuk, Le Clezio, Tomas Tranströmer e Patrick Modiano. Steiner não previu que as narrativas com recorte memorialístico podiam fazer frente ao melhor da “reportagem com narrativa imediata”.

No levantamento histórico sobre o alardeado fim do romance, ao longo da História, por vários autores, Rushdie cita George Orwell, que escreveu, em 1936, que “neste momento, o prestígio do romance é extremamente baixo, tão baixo que as palavras ‘eu nunca leio romances’, que cerca de doze anos atrás eram pronunciadas com um toque de pedido de desculpas, agora são sempre pronunciadas num tom de orgulho”.

Não é de hoje que se diz sobre o fim ou a (citando eu grifo acima na fala de Naipaul) inutilidade do romance. Mas Rushdie observa algo interessante a esse respeito: Steiner, Naipaul e Orwell, britânicos, têm uma visão eurocentrista e, não por acaso, os grandes novos nomes da literatura mundial, inclusive vencedores do Nobel, que pode ser usado aqui como um termômetro, estão em países considerados periféricos em termos de literatura. Ok, britânicos levaram três prêmios Nobel neste século, mas quando esperariam uma bielorrusa, uma canadense, uma austríaca, uma romena, um húngaro, um peruano, um sujeito das ilhas Maurícia, e dois chineses?

(Rushdie diz que considera a produção norte-americana muito boa no momento, Roth, Pynchon, Cormac MacCarthy, Michael Cunningham, Gay Talese, entre vários outros, ainda estão vivos e uma nova geração está se saindo muito bem.)

O fato é que talvez um novo romance esteja emergindo, segundo Rushdie: um romance pós-colonial, um romance descentralizado, transnacional, interlingual, multicultural – e ele está em fase de gestação ampla, muitas vezes dentro de grandes centros, como a França, que gerou um “Submissão”, polêmico livro de Michel Houellebecq, ou mesmo em Londres ou nos EUA com autores imigrantes que escrevem em inglês – e os exemplos são os mais diversos. Temos indianos e japoneses escrevendo em inglês. Não há um centro para essa produção: o centro, agora, é a margem. Nesse sentido, Rushdie destaca, em seu artigo, o perigo que a literatura enfrenta, em especial em redutos ditatoriais ou com ampla censura política e/ou religiosa – e isso ele conhece bem. Mas vamos nos ater ao que se pode produzir e onde se pode produzir:

O novo romance não é mais a visão do Velho Mundo burguês.noviolet.jpg

A visão de Steiner, com a lanterna de Rushdie apontada para ela, nos dá, porém, uma ideia muito específica deste “novo romance”. Mas coloca, talvez, que “todo talento criativo é do mesmo tipo” – quando, obviamente, não é.

Temos “narrativas realistas imediatas e/ou memorialísticas, transnacionais, multilinguais, apontando para uma (des)ordem mundial; abordando problemas contemporâneos e/ou apontando para eles pela ótica história da experiência já vivida” como o modos de fazer do novo romance, certo?

Parece que sim.

Mas e todo o resto? Não há espaço para a ficção científica, o romance de estilo, a sátira, enfim, tudo o que não tem esse viés?

Com a resposta, o escritor.

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o primeiro mandamento do pretenso escritor

Antes de pensar em escrever um livro, alguém que se considera um ESCRITOR deve se portar como UM ESCRITOR. Um escritor inventa personagens, enredos, situações e mundos e, portanto, é bom que ele conheça uma grande galeria de personagens, enredos, situações e mundos. Quanto maior o seu repertório, neste sentido, mais vai conseguir criar, desenvolver e encontrar multiplicidade em personagens, enredos, situações e mundos. Para tanto, uma maneira um pouco artificial mas importante (também por outro motivo, que explicarei adiante) – é: LER. Esse é o primeiro mandamento.

O escritor deve ler muito, sistematicamente, e de tudo. Se ele quer ser um escritor de tramas policiais deve ler todos os textos importantes da categoria, mas não apenas eles. Deve ler os livros que os autores de romances policiais liam e acham importantes. Deve ler as biografias e autobiografias dos autores. Mas não pode ficar fechado nesse universo, ou vai apenas reescrever e emular o que já foi escrito: deve ler coisas diametralmente opostas, como dramas, comédias, ensaios, entrevistas… O escritor deve saber que para uma pequena situação, digamos, dramática, do seu romance, a resposta pode estar naquele conto que leu na adolescência. Ou na entrevista que um jogador de futebol concedeu à revista Playboy. Ou até num programa de TV. Aconteceu comigo: em uma entrevista que assisti na TV, por acaso, do ator e cantor Tony Tornado, me veio a ideia para um conto que foi traduzido para três idiomas. Eu não estava procurando um tema para um conto: uma simples cena da história que Tornado contou durante a entrevista disparou a ideia para o conto, que se chama ME AND JANIS ALI.

Essa é outra coisa intrínseca do escritor: estar aberto e preparado para saber que uma história pode nascer de uma epifania, de um momento simples, de uma frase, de uma imagem. Umberto Eco conta que decidiu escrever O Pêndulo de Foucault a partir de duas imagens: a exibição do pêndulo original, que ele viu e achou incrível, e a imagem de um garoto solitário tocando uma trombeta num cemitério. Ele diz que entre as duas imagens ele desenvolveu seu romance.

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Eu participava do Seminário Genre, de Robert Mckee, no Rio de Janeiro, em 2013, e uma das palestras era sobre o filme Carnal Knowledge, de 1971, de Mike Nichols, com Jack Nicholson e Art Garfunkel. Mckee adora esse roteiro e começou a discorrer sobre o filme, mostrando algumas imagens. Eu estava com um pouco de sono… Tinha visto o filme, tinha uma lista de filmes para assistirmos antes do seminário… E recentemente eu tinha visto a nova versão do Grande Gatsby e lido o livro do Fitzgerald… De alguma maneira, enquanto Mckee falava sobre os personagens e a história, eu me lembrei do Grande Gatsby, que também é uma história sobre o relacionamento de dois homens, assim como o filme do Nichols, e me veio a ideia quase completa para a trama de A VIAGEM DE JAMES AMARO. Num sentido amplo, posso dizer que meu livro é um amálgama de CARNAL KNOWLEDGE e O GRANDE GATSBY.

(Aí, ao pesquisar sobre Carnal Knowledge, fiquei sabendo um pouco sobre a carreira de Garfunkel no cinema e que ele abandonou as telas depois que a namorada se matou. Ela se chamava Laurie Bird e tinha feito apenas dois filmes e então eu fui lá ver os filmes dela e saber um pouco sobre ela e acabei escrevendo um conto sobre o que descobri. Foi publicado no blog de Estudos Lusófonos da Sorbonne Paris IV, chamado “Two-Lane Blacktop”. Então veja como as coisas podem se revelar para um escritor.)

É também importante – e Mckee ressalta isso – que o escritor seja idiossincrático (fico sabendo que em Portugal se diz “idiossincrásico”). O que seria isso, basicamente? É ter uma personalidade forte, mas aberta, encarar o mundo de maneira pessoal, sem abraçar correntes. O grande autor não deve ter uma religião, nem uma grande ideologia, ou ser místico ou nitidamente de uma corrente política. O engessamento das ideologias geralmente leva o escritor a querer defender suas ideias ou ideais em seus romances. Salvo honrosas exceções, poucos dos grandes autores são religiosos fanáticos ou têm uma cor partidária clara. Os idiossincráticos trabalham melhor personagens diferentes de si e entre si mesmos, conseguem entrar na mente de personagens cujo comportamento e ações desaprovam, mas não o julgam (o personagem). Pessoas que não acreditam em nada são mais livres.

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Ler também faz o escritor apreender sobre ritmo. Amplia seu vocabulário. É importante ler poesia. Dicionários. Ser curioso para com as palavras.

E, por que não?, livros sobre livros, livros sobre edição de livros, sobre processos criativos de escritores… Já indiquei, mas não me canso, de “A Hora Terna do Crepúsculo – Paris nos anos 1950, Nova York nos anos 1960 – Memórias da era de ouro da edição de livros”, de Richard Seaver, que editou Beckett e Burroughs, entre vários outros, lindamente escrito, e “Max Perkins, um editor de gênios”, que atuou no início do século XX nos EUA e editou Fitzgerald e Hemingway, entre centenas. Lendo esses livros entendemos um pouco sobre o processo criativo dos autores, sistemas da indústria e o funcionamento do mercado – além de descobrirmos figuras incríveis por trás dos processos. Após ler esses livros e convidado para debater o cenário mercadológico, também escrevi um texto para o blog de Estudos Lusófonos.

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Depois, e finalmente, antes de se dizer escritor, o pretenso artista nesses tempos de tantas histórias e tanta literatura e filmes e séries de TV, deve ler o DOM QUIXOTE de Cervantes. O livro fundador da literatura moderna, pouco lido, aponta os caminhos da construção literária de maneira mais direta que a maioria dos cursos de escrita criativa e quetais.

Talvez exista uma certa pressão nessa insistência para que o escritor leia. Ele não deve se forçar – na verdade, ler deveria ser um ato natural e prazeroso para ele. Ninguém deve, na verdade, se forçar a ler. Deve haver, claro, um incentivo à leitura nas primeiras fases escolares, já que LER é a primeira premissa para o estudo e para a interpretação dos fatos -, então é fundamental que todos SAIBAM LER… E literatura, em especial, é um gosto que se adquire, mas são poucos os verdadeiramente apaixonados. É relativamente fácil que um leitor apaixonado se torne um escritor – ele vai conhecendo os caminhos enquanto lê. Os caminhos não são ensinados em salas de aula ou cursos de escrita. Quando se quer ser um atleta, deve-se treinar. O treino para escrever é ler.

Assim, sem pressa, vai o escritor lendo e acumulando ideias e projetos. São muitos; às vezes mais de uma ideia e um projeto por dia. Poucos vão adiante – e isso é natural. Às vezes pedaços de ideias e projetos se juntam. A mente do escritor fica em constante processo de imaginação.

E em determinado momento, ele decide escrever. E que história ele define? Quais personagens quer desenvolver? Que pergunta ele se faz quando abre o arquivo no computador? Ele escolhe um título para o livro antes ou depois? Ele vai escrever um romance, um roteiro para cinema, uma peça de teatro ou uma série de TV? Por onde começar?

Mckee, em seu Story, diz que “Uma boa história significa algo válido a dizer que o mundo queira ouvir”. Depois de todos esses séculos de histórias, depois da Bíblia, de Shakespeare, das Mil e Uma Noites, de Roth e Borges, e de todos esses vencedores do Nobel e do Pulitzer e do Man Booker Prize e de todos os autores que estiveram nas listas de mais vendidos, e de todos os filmes e séries de TV, ainda teremos histórias importantes, interessantes, relevantes e que podem ser contadas de maneira sensacional, impactante? E que possa interessar ao leitor? E com personagens sólidos, originais?

Responda, escritor.

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william hjortsberg, autor de “coração satânico”, morre aos 76.

Fico sabendo da morte de William Hjortsberg, autor de um dos meus romances preferidos, que deu origem a um dos meus 10 filmes preferidos de todos os tempos, “Coração Satânico” (Parker, 1987). Fiquei sabendo através de uma postagem de Fábio Fernandes no Facebook, onde alguém comentou que o livro será reeditado pela Darkside. Aleluia! É um grande romance – e bem diferente do filme. Há quase 10 anos escrevi o texto abaixo sobre o livro e o filme em algum lugar, e republico aqui, caso alguém se interesse:

Coração Satânico: o livro & o filme.

Quando assisti “Coração Satânico” pela primeira vez, fiquei alucinado. Ali estava um dos meus diretores preferidos, dois dos meus atores preferidos, cenas impressionantemente fotografadas por um dos melhores fotógrafos do cinema contemporâneo, uma trilha arrebatadora e – principal – personagens incríveis em uma história sensacionalmente original.

Pois fui atrás do livro e encontrei um romance policial ainda melhor, um dos melhores que já li, melhor ainda que o filme. O autor era William Hjortsberg, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Pois é um escritor cultuado de contos e narrativas de ficção, um dos seus contos foi transformado no filme “A Lenda”, de Ridley Scott.

Quem pediu que o próprio Hjortsberg trabalhasse no roteiro de sua novela “Falling Angel” foi o lendário produtor Robert Evans. John Frankenheimer e Robert Redford se interessaram pelo projeto. Mas a pergunta que todos faziam era: não dá pra ter um final feliz? Felizmente o autor brigou para manter o final e ofereceu o roteiro para Brian DePalma, que se interessou. Foi DePalma quem sugeriu que parte da trama fosse transferida para New Orleans – no livro, a história se passa toda em New York.

Hjortsberg comentou sobre a idéia com Alan Parker que abraçou a produção. A entrada de DeNiro e Mickey Rourke, dois dos melhores atores de suas gerações, criou a perspectiva para um grande filme.

Parker chamou seu habitual fotógrafo, Michael Seresin, que tinha feito um excelente trabalho em “O Expresso da Meia-Noite” e “Asas da Liberdade” – e ele se superou nas luzes estouradas, trabalhadas com ventiladores, que geram sempre sombras duras e tenebrosas durante o filme. Aliás, discussões sem fim aconteceram por conta da presença excessiva de ventiladores do filme. Alguém arrisca alguma teoria?*

Seresin ficou amigo de Mickey Rourke e ambos encabeçaram o projeto “Homeboy”, único filme dirigido por Seresin. É um bom filme sobre um lutador de boxe decadente, personagem que Rourke reencarnou depois no ótimo “O Lutador”.

A trilha ficou a cargo de Trevor Jones, que voltaria a trabalhar com Parker na excelente trilha de “Mississipi em Chamas”. O trabalho de Jones não seria tão brilhante se não fosse pela presença do saxofonista-sensação do momento, Courtney Pine. Jones fez uma projeção do filme enquanto Pine improvisava no sax – e assim a trilha foi mixada. Um outro filme teve trilha composta da mesma maneira: “Ascensor para o Cadafalso” (Malle, 1958), com o trumpete de Miles Davis.

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O filme ficou bárbaro, assustador. Mas é um filme imperfeito, algumas sequências parecem desconexas. Quando Parker viu a trilha que tinha em mãos, experiente após “Pink Floyd – The Wall”, deixou de lado a lógica e deu preferência para a sensação. Funciona. Depois de assistir a várias vezes, as deficiências de montagem vão ficando evidentes. Mas o filme funciona completamente no que se propõe na(s) primeira(s) audiências.

Apesar de Parker ter sido indicado ao Oscar por “O Expresso da Meia Noite” – e, depois, por “Mississipi em Chamas” -, “Angel Heart”  foi solenemente ignorado pelo Oscar. Seu maior sucesso de bilheteria foi na Alemanha – talvez não por acaso, existe um eco de tragédia faustiana nele.

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Sobre o filme, escreveu Horst Peter Koll, na film-dienst: “[…] uma estratégia narrativa muito bem calculada: os acontecimentos são precedidos de ruídos, visões de sonho assustadoras encontram em estado de pesadelo seu remate em diversos níveis da ação, personagens com o contorno muito bem definidos perdem a identidade, porque as imagens não são compostas segundo as leis da razão e da lógica, mas nascem de uma realidade sintética, que só pode ter validade no cinema”.

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*Sobre os ventiladores no filme, Parker disse à revista Première: “[…] no filme aparecem muitos ventiladores. Sempre indicam a próxima morte. Verificamos que esse elemento funcionou muito bem como imagem e símbolo, mas a intenção não foi essa. Naturalmente a maior parte dos jornalistas não acredita nisso, mas, é verdade, não fotografei os ventiladores para produzir qualquer efeito. Introduzi-os no filme porque em toda parte em que chegava, em Nova Iorque ou Nova Orleans, enquanto trabalhava no roteiro, vi esse tipo de ventilador – com os mesmos tipos de pás, que sempre pareciam fazer parte das minhas costas. Isso me perseguiu e entrou naturalmente no roteiro, como algo que se tivesse imposto a mim”.

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… a problemática da alegoria erótica da liberdade.

(do artigo “Liberté, Liberté, Liberté – Fantasias Masculinas sobre a liberdade”, em “Terrenos Vulcânicos”, de Dolf Oehler)

[trecho inicial:]

Uma vez que a liberdade é mulher, e uma bela mulher, deveria ser fácil para nós amá-la. Isso supondo que seja fácil amar a uma mulher, a uma bela mulher, do modo como nós desejamos amar a liberdade: apaixonada, ilimitadae inquebrantavelmente. Mas como se concilia com a nossa liberdade o amor inquebrantável a uma só Dona Liberdade? E por que deveria ela mesma, a maravilhosa, amar somente a nós e a ninguém mais? Caso ela ame também nossos rivais e inimigos, como poderíamos ser felizes com ela? Se ela ama a todos, como podemos não lhe querer mal? Como não desesperar da liberdade, se ela é uma puta? Mas se ela não ama a todos, ainda será a liberdade? É claro: ela não ama seus inimigos, e os inimgos dela são também os nossos. Mas devemos assumir que todos os nossos inimigos sejam igualmente os dela, e que todos os seus adoradores se encontrem entre os nossos amigos, com os quais estamos prontos e a postos para partilhá-la sem ciúme? Ou não seria melhor deixar essas especulações de lado, já que a liberdade é sagrada, uma deusa ou mãe sublime, intocável e inacessível aos nossos desejos profanos? Contudo, se ela é uma pessoa tão altiva e extramundana, como nos permitimos dizer que a amamos? Não seria ela a mãe generosa, acolhedora e cheia de amor para conosco, seus filhos? Mas será que, em relação a liberdade, a imagem da infância, da menoridade e da passividade não seria despropositada, ou até humilhante para nós? Se a liberdade é santa ou maternal, não haveria o risco de sua proximidade sublime ser vazia? Entretanto, se ela não for um ser supra-sensível, mas sensível, não seria um perigo o seu abraço poderoso? Somos nós que temos de conquistar a liberdade ou é ela que vem nos libertar? Ela se entrega a nós ou espera, pelo contrário, que a venhamos tomar?

São perguntas sem fim sobre a liberdade, todas postas em forma de símile, mas não apenas isso. O radical dessa vontade de saber é erótico, uma vez que a liberdade é uma alegoria da amada ideal, daquela mulher que deve fazer da nossa vida um único coup de foudre.

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(coupe de foudre)

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“a verdade” e a pior tentativa de suicídio de brigitte bardot

 

Brigitte Bardot encontrava-se em uma casa isolada, a cerca de duas horas de Paris, com Mercédès, amiga da família, no dia 28 de setembro de 1960. Fazia um calor infernal, as cigarras estavam numa grande algazarra. Havia um jantar marcado na casa de amigos logo mais, às nove da noite. Brigitte estava triste. Mercédès serviu champanhe para as duas às seis da tarde, Brigitte pediu para ficar sozinha com sua taça e fez com que suas lágrimas caíssem dentro dela – e ficou observando como as borbulhas se agitavam. Depois, chamou a amiga e informou que não iria ao jantar, implorando para que ela fosse.

Assim que Mercédès saiu, Brigitte terminou o champanhe engolindo junto com cada gole um comprimido de Imménoctal, um barbitúrico poderoso. Toda caixa se foi. Cambaleante, ela foi até o banheiro e apanhou uma lâmina de barbear.  Avançou para a noite, parando próximo de um curral, onde se sentou. Com todas as forças, enfiou a lâmina primeiro no pulso esquerdo e depois no direito – e deitou-se, observando as estrelas. Não sentia dor, apenas o sangue jorrando em golfadas. Era sua quarta ou quinta tentativa de suicídio – e a mais séria. Era também seu aniversário de 26 anos.

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Cerca de um ano antes, ela recebera o convite para participar de um filme do temido cineasta Henri-Georges Clouzot, La Verité, no papel principal. Embora já tivesse trabalhado com René Clair e Autant-Lara, Clouzot estava um degrau acima deles: era um dos mais respeitados diretores do mundo, tendo vencido em Cannes em duas ocasiões. Embora todos conhecessem os métodos pouco ortodoxos de Clouzot em lidar e preparar os atores, muito agressivo, e obsessivo com a direção a ponto de ensaiar e filmar dezenas de vezes a mesma cena (coisa que Bardot odiava), ela não pôde recusar.

Clouzot procurava um ator para ser o par de Bardot no filme, para o personagem que ela iria negar, amar e depois matar. Belmondo, Hugues Aufray, Gérard Blain, Marc Michel, Jean-Pierre Cassel e Sami Frey fizeram testes com ela em uma cena de amor tórrido durante um dia inteiro. O semi-desconhecido Sami Frey foi o escolhido para o papel do aspirante a maestro que namora uma violinista e se apaixona pela irmã dela, a liberal Dominique Marceau, Bardot.

Bardot estava se recuperando de uma depressão pós-parto – da qual, na verdade, nunca se recuperou, já que nunca aceitou totalmente o filho. Seu marido, Jacques Charrier, estava internado em uma clínica com transtornos mentais. Ela administrava um caso com Alain Delon. E, agora, iria encarar o trabalho com Clouzot.

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Como se tudo isso fosse pouco, uma nova bomba explodia: seu secretário particular e confidente, Alain Carré, vendera informações sobre B.B. para o jornal popular France-Dimanche. Intimamente, a traição foi devastadora para ela. Publicamente, a França e o mundo conheciam as angústias, querelas, a recusa da maternidade, as correspondências, os estados de espírito, os suicídios fracassados, os amantes, a verdadeira Brigitte. O julgamento sobre ela acontecia nas esquinas.

As filmagens de La Verité tiveram início em dois de maio. A excitação natural de iniciar um novo filme deu lugar ao cansaço de ter que lidar com Clouzot. Ela o chamou de despótico. E havia os mexericos dos figurantes, as línguas compridas dos maquiadores e de todo staff do filme sobre o que aparecia nos jornais.

Um dia, em uma cena particularmente difícil, onde Brigitte deveria chorar histericamente, ela, descontrolada, teve uma crise de riso nervoso, um ataque de nervos. Clouzot aproximou-se dela, marchando firme e deu-lhe meia dúzia de bofetadas duras. Ela retribuiu. Furioso, diante de toda equipe, ele pisou, com o salto de seu sapato, nos pés desnudos de Brigitte, que soltou um urro, chorando copiosamente de dor, com o dedinho do pé direito esmagado. Clouzot apanhou a câmera e filmou a cena, que está no filme.

Brigitte registrou boletim de ocorrência contra Clouzot, pediu dias para se recuperar e o caso apareceu nos tabloides mais uma vez.

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Noutra vez, havia uma cena de suicídio e Clouzot queria Brigitte babando, espumando pela boca, respirando ruidosamente. Não estava bom. Brigitte tinha dor de cabeça e pediu duas aspirinas. Clouzot deu-lhe duas pílulas, que ela engoliu achando que fosse o remédio, mas eram dois soníferos potentes. Tentando se manter acordada, Brigitte revirava os olhos e babava – e Clouzot assim filmou, a cena também está no filme.

Com uma ameaça de processo, Clouzot foi mais cauteloso com a maior estrela francesa de então, a partir daí.

Sami Frey, jovem ator, também sofria com o diretor. Sensível, lia Brecht e ouvia Bach nos intervalos das gravações. Namorava a atriz Pascale Audret e era muito discreto. E Brigitte ficou tremendamente apaixonada por ele.

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As cenas entre os dois eram tórridas e Clouzot não queria beijos cênicos. Pudico, Sami teve que se superar para conseguir a intensidade sexual que o diretor exigia. Mesmo sendo rodado em preto-e-branco, em alguns momentos foi preciso utilizar maquiagem para esconder o rubor no rosto do ator. Mas ele também foi se apaixonando por Brigitte.

Na primeira vez em que estiveram juntos, amaram-se com enorme pudor, nas palavras de Brigitte. E juraram amor eterno.

Enquanto isso, Brigitte contratou uma pessoa para cuidar de sua correspondência, que se avolumava. A maioria das cartas era de propostas sexuais e até mesmo de fotos explícitas. Brigitte estava sendo assediada publicamente. Em várias das correspondências, era xingada por não ter aceitado a maternidade, por ter tido casos enquanto estava casada, por ter sonegado impostos. Um paralelo muito estranho se estabeleceu entre a “nova” Brigitte Bardot e sua personagem em La Verité, que também é julgada por conservadores menos pelo crime que cometeu e mais pela vida desairosa que levava.

Em meio ao caos, Sami deixou Pascale e alugou um apartamento para se encontrar com Brigitte. Eles escutavam discos de música clássica e se amavam discretamente. As últimas cenas filmadas de La Verité eram terríveis para Brigitte, já que todas se passavam com Marceau, sua personagem, no banco dos réus. Era como se estivesse sendo julgada de verdade. Clouzot, acompanhando as fofocas nos jornais, cuidava para que esse paralelo ficasse ainda mais claro, deixando a interpretação de Brigitte mais realista e, ao mesmo tempo, seus nervos em frangalhos.

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Havia ali um monólogo muito importante a ser dito por Brigitte/Marceau no entrecho final do filme – e a atriz se preparou para ele. Clouzot estava impaciente, achando que ela não fosse dar conta de transmitir o que deveria. No estúdio, na cena do tribunal, havia centenas de figurantes e alguns dos atores veteranos mais respeitados do cinema e do teatro francês. Era o momento de Brigitte brilhar.

Clouzot disse a ela que era preciso sinceridade, que a sinceridade deveria prevalecer sobre a técnica – e então Brigitte calaria todos os idiotas. “Luz, Câmera, Ação!”.

Ela esperou alguns segundos – e então sua voz se elevou. Rouca, soluçando, ela disse o que tinha para dizer. Chorando, ao final da fala, caiu sentada com a cabeça entre as mãos, numa crise real de desespero. Houve um momento de silêncio e… “Corta!”.

Toda sala a aplaudiu em pé. Não houve segunda tomada, não houve cena de fundo, não podia ser melhor. Brigitte não alcançaria mais tal altura como atriz.

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Mas havia ainda mais uma cena a filmar: a do suicídio da personagem em sua cela. A morte de Marceau significava que a humanidade era podre e que só através dela podia-se conseguir a paz. A personagem quebrava um espelho e enterrava uma parte pontiaguda em seu pulso. Brigitte sentia o sangue cenográfico escorrer pelo braço, pela mão, e achou que aquela era uma boa sensação.

Terminadas as filmagens, Brigitte e Sami foram flagrados por Jacques, marido de Brigitte, que havia deixado a clínica. Jacques agrediu seriamente Sami, que fugiu com Brigitte para a casa de amigos. Durante a fuga, ambos só falavam em morrer.

A vida de Sami, porém, teve um revés: ele teve que se apresentar ao exército. Se ele fosse obrigado a servir, jurou que se mataria. Brigitte também jurou. Foi na semana de 28 de setembro de 1960.

Naquela noite do dia 28, Mercédès foi jantar na casa dos amigos, conforme marcado. Mas, ainda nos aperitivos, sentiu remorso por ter deixado Brigitte sozinha. Ao voltar para casa mais cedo, não encontrando a amiga, chamou vizinhos que vasculharam o campo até a encontrarem. Ao contrário da personagem Dominique Marceau, ela tinha fracassado na tentativa de se matar.

Os jornais estavam satisfeitos com mais uma manchete sensacional envolvendo La Bardot.

Depois de algumas semanas, Sami foi dispensado do exército por causa de seu estado mental. Um amigo ajudou que ele se encontrasse com Brigitte em uma casa de campo afastada de Paris. Brigitte conta que “tínhamos medo de nos quebrar quando nos abraçávamos”: ambos estavam esqueléticos, ela tinha ainda as ataduras nos pulsos.

Eles moraram juntos por alguns meses até se recuperarem – e foram viver suas vidas. Sami ainda atua no cinema. Apesar de ter feito filmes com Louis Malle e Godard, Brigitte considera La Verité seu ápice. Ela deixou o cinema em 1973, antes de completar quarenta anos de idade.

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Em 2 de novembro de 1960, La Verité estreou com enorme sucesso. O crítico do Le Monde cravou: “Brigitte Bardot tal como realmente é, enfim”.

Clouzot não poderia ter escolhido melhor atriz para Dominique Marceau.

 

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… ‘donnie darko’ é sobre pulsões sexuais adolescentes

donnie 1A Darkside Books colocou no mercado mais um livro lindo, dessa vez sobre o filme “Donnie Darko” (2001). O livro traz um pequeno texto do ator Jake Gyllenhaal, que faz o personagem principal, uma looonga entrevista com o diretor, o último roteiro do filme (segundo o livro, o roteiro que foi entregue para os atores antes do início das filmagens) e as páginas do livro “A Filosofia da Viagem no Tempo”, que é citado no filme, escrito pela personagem Roberta Sparrow, a Vovó Morte. É interessante ler o conjunto, mas o mais revelador ali é mesmo a entrevista com o jovem Richard Kelly, realizada um ano e meio depois do filme ter sido lançado, quando começou a crescer no boca-a-boca. Kelly tinha 28 anos.

Então, Kelly escreveu o roteiro, produziu, filmou e finalizou o filme quando tinha entre 23 e 26 anos de idade, um jovenzinho cheio de som & fúria. E tesão, certo?

donnie 2Pois lendo a entrevista de Kelly no livro podemos perceber que é exatamente disso que o filme trata, embora ele desconverse e aponte para (vários) outros lados. Sob o pretexto de fazer um filme sobre viagem no tempo ou de criar um herói sombrio que salva a humanidade, “Donnie Darko” é um filme sobre a pulsão da sexualidade na adolescência; pulsão que faz com que todos os adolescentes queiram ser adultos, mas se sintam carentes e impelidos a negar o crescimento, desejando voltar à infância. Acontece com todo mundo, em graus diferentes, deve ser o que aconteceu com o próprio Kelly; o garoto sensível, criado por pais liberais e inteligentes, numa cidadezinha do interior, nos anos 1980 – ou seja: exatamente como Darko.

(Aliás, o clima oitentista do filme colaborou para transformá-lo em uma peça cult; justamente o que está acontecendo com “Stranger Things” – os trintões que viram o filme nos anos 2.000 são os mesmos quarentões que estão babando na série da Netflix agora.)

Voltando à entrevista: nela Kelly desconversa que toda história tem um pouco de autobiográfica, blá, blá, blá, mas quando perguntado sobre seus livros preferidos ou que o influenciaram, o diretor cita justamente os livros que aparecem e são citados no filme; seus pais são exatamente como os pais de Darko no filme; até o relacionamento que Darko tem com Gretchen parece ser igual ao que Kelly teve na adolescência. Enfim: o filme é totalmente autobiográfico! Então vamos pensar sobre como Kelly, consciente ou inconscientemente, materializou isso ao longo do filme:

  • Não há viagem no tempo: o buraco da minhoca é que as pessoas são num momento crianças e, no outro, adultas; transformam-se ao longo da vida, não são sempre as mesmas pessoas ao longo da vida, mas outras pessoas, diferentes, até com personalidades diferentes. A viagem no tempo é crescer.
  • Durante a palestra motivacional no filme, Darko faz uma intervenção praticamente explicando a intenção do filme: ser um elemento desestabilizador do status quo para que a sociedade avance, melhorando a próxima geração, sem se apegar ao modelo social vigente (os pais).
  • Durante o diálogo com Frank, o homem vestido de coelho, no cinema, quando Darko pergunta por quê ele veste a fantasia e Frank retruca perguntando por quê Darko está fantasiado de homem revela que Darko ainda não é homem, ele está posando de homem com aquela garota do lado, quando fuma cigarros, mas é um menino inseguro, querendo a atenção e o carinho da mãe. O coelho então tira a fantasia e diz que se chama Frank, que é o nome do pai dele e do pai do pai dele – como filhos que crescem e assumem, naturalmente, o lugar do pai na sociedade. Darko quer ocupar seu próprio lugar, mas, ao mesmo tempo, quer continuar a ser criança e tem medo do que pode lhe acontecer se tentar se impor.
  • O coelho representa a própria pulsão sexual e de morte súbita (do ego). Em algum momento do filme, alguém diz que “coelhos só querem foder” – que talvez seja, no fim, o que Darko quer (e, possivelmente, Kelly). Quando Darko apunhala o espelho (e o coelho) quer matar seu ego, que é o que faz ser tão diferente e desestabilizador. Será que ele não podia, afinal, ser como o seu pai e se casar e foder tranquilamente – ou seja, crescer enfim?donnie 3
  • Os adolescentes e até as crianças no filme têm comportamentos distorcidos, parecidos com os de adultos. Falam palavrão, fumam, são arrogantes, blasfemam e ofendem-se umas às outras. Parecem crianças imitando adultos – com o exagero característico da imitação. Querem ser ou não querem ser adultos? O filme é sobre isso.
  • Tudo se passa em Middlesex, o que não deixa de ser uma referência a um “sexo que ainda é só metade”, ainda não está pronto, maduro, formado.
  • O facho de água que sai do peito e conduz alguns personagens em algumas cenas é fálico e, possivelmente, aponta para o desejo do personagem, não exatamente o que ele faz ou quer conscientemente.
  • Há diálogos no filme sobre o que os adolescentes vão ser quando crescer, ou sobre o que querem ser, e essa indecisão, a solidão e a confusão da adolescência, com a pulsão sexual latente, conduzem o filme.
  • O ápice do filme se dá num Halloween, que é quando “os fantasmas saem do armário”, podendo significar “assumir o que realmente se é” – e aí acontecem várias mortes, afinal “morte é transformação”.
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[Darko com a Vovó Morte]

  • Não por acaso, a autora do livro sobre “viagens no tempo” é a belezinha aí de cima, a Vovó Morte.

Podia escrever mais sobre o filme, mas não sou o Slavoj Zizek.

🙂

 

“Cellar door” é mais uma referência truncada no universo Donnie Darko: teria sido J.R.R. Tolkien, não Edgar Allan Poe, quem disse que “Cellar door” é a expressão mais bela da língua inglesa – e aí podíamos fazer todo um comparativo entre “Donnie Darko” e “O Senhor do Anéis”, não?

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O diretor Kelly é grande fã de Spielberg, em especial de “E.T.”, então a fotografia de “Donnie Darko” copia a de “E.T.”, com o uso de lentes anamórficas. No filme de Kelly, os adolescentes também andam de bicicleta. E tem a Drew Barrymore.

Outra influência é Stephen King, a mãe de Darko lê “It” e um palhaço parecido como do livro/filme aparece em Darko. As mesmas referências que temos em “Stranger Things” – e, assim, “Donnie Darko” acaba sendo também uma referência ao seriado da Netflix.

Fãs temporões de “Stranger Things” podem se revelar uma nova legião de fãs de “Donnie Darko”. Isso seria legal.

Na entrevista de Kelly no livro ele diz que trabalhou rápido e com pouco dinheiro em “Donnie Darko” e caso lhe dessem muito dinheiro e liberdade total, ele possivelmente faria alguma merda. Ele fez no filme seguinte. E no próximo, “A Caixa”, até acertou no tom, mas esqueceu que um grande filme é feito com grandes personagens. Como cresceu e ganhou dinheiro, Richard Kelly teria deixado as pulsões de lado? Onde estaria seu tesão?

(Para quem quer insistir na coisa da Viagem no Tempo, tem esse vídeo em português que ilustra bem a teoria mais ampla e disseminada sobre o filme.)

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