… a problemática da alegoria erótica da liberdade.

(do artigo “Liberté, Liberté, Liberté – Fantasias Masculinas sobre a liberdade”, em “Terrenos Vulcânicos”, de Dolf Oehler)

[trecho inicial:]

Uma vez que a liberdade é mulher, e uma bela mulher, deveria ser fácil para nós amá-la. Isso supondo que seja fácil amar a uma mulher, a uma bela mulher, do modo como nós desejamos amar a liberdade: apaixonada, ilimitadae inquebrantavelmente. Mas como se concilia com a nossa liberdade o amor inquebrantável a uma só Dona Liberdade? E por que deveria ela mesma, a maravilhosa, amar somente a nós e a ninguém mais? Caso ela ame também nossos rivais e inimigos, como poderíamos ser felizes com ela? Se ela ama a todos, como podemos não lhe querer mal? Como não desesperar da liberdade, se ela é uma puta? Mas se ela não ama a todos, ainda será a liberdade? É claro: ela não ama seus inimigos, e os inimgos dela são também os nossos. Mas devemos assumir que todos os nossos inimigos sejam igualmente os dela, e que todos os seus adoradores se encontrem entre os nossos amigos, com os quais estamos prontos e a postos para partilhá-la sem ciúme? Ou não seria melhor deixar essas especulações de lado, já que a liberdade é sagrada, uma deusa ou mãe sublime, intocável e inacessível aos nossos desejos profanos? Contudo, se ela é uma pessoa tão altiva e extramundana, como nos permitimos dizer que a amamos? Não seria ela a mãe generosa, acolhedora e cheia de amor para conosco, seus filhos? Mas será que, em relação a liberdade, a imagem da infância, da menoridade e da passividade não seria despropositada, ou até humilhante para nós? Se a liberdade é santa ou maternal, não haveria o risco de sua proximidade sublime ser vazia? Entretanto, se ela não for um ser supra-sensível, mas sensível, não seria um perigo o seu abraço poderoso? Somos nós que temos de conquistar a liberdade ou é ela que vem nos libertar? Ela se entrega a nós ou espera, pelo contrário, que a venhamos tomar?

São perguntas sem fim sobre a liberdade, todas postas em forma de símile, mas não apenas isso. O radical dessa vontade de saber é erótico, uma vez que a liberdade é uma alegoria da amada ideal, daquela mulher que deve fazer da nossa vida um único coup de foudre.

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(coupe de foudre)

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“a verdade” e a pior tentativa de suicídio de brigitte bardot

 

Brigitte Bardot encontrava-se em uma casa isolada, a cerca de duas horas de Paris, com Mercédès, amiga da família, no dia 28 de setembro de 1960. Fazia um calor infernal, as cigarras estavam numa grande algazarra. Havia um jantar marcado na casa de amigos logo mais, às nove da noite. Brigitte estava triste. Mercédès serviu champanhe para as duas às seis da tarde, Brigitte pediu para ficar sozinha com sua taça e fez com que suas lágrimas caíssem dentro dela – e ficou observando como as borbulhas se agitavam. Depois, chamou a amiga e informou que não iria ao jantar, implorando para que ela fosse.

Assim que Mercédès saiu, Brigitte terminou o champanhe engolindo junto com cada gole um comprimido de Imménoctal, um barbitúrico poderoso. Toda caixa se foi. Cambaleante, ela foi até o banheiro e apanhou uma lâmina de barbear.  Avançou para a noite, parando próximo de um curral, onde se sentou. Com todas as forças, enfiou a lâmina primeiro no pulso esquerdo e depois no direito – e deitou-se, observando as estrelas. Não sentia dor, apenas o sangue jorrando em golfadas. Era sua quarta ou quinta tentativa de suicídio – e a mais séria. Era também seu aniversário de 26 anos.

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Cerca de um ano antes, ela recebera o convite para participar de um filme do temido cineasta Henri-Georges Clouzot, La Verité, no papel principal. Embora já tivesse trabalhado com René Clair e Autant-Lara, Clouzot estava um degrau acima deles: era um dos mais respeitados diretores do mundo, tendo vencido em Cannes em duas ocasiões. Embora todos conhecessem os métodos pouco ortodoxos de Clouzot em lidar e preparar os atores, muito agressivo, e obsessivo com a direção a ponto de ensaiar e filmar dezenas de vezes a mesma cena (coisa que Bardot odiava), ela não pôde recusar.

Clouzot procurava um ator para ser o par de Bardot no filme, para o personagem que ela iria negar, amar e depois matar. Belmondo, Hugues Aufray, Gérard Blain, Marc Michel, Jean-Pierre Cassel e Sami Frey fizeram testes com ela em uma cena de amor tórrido durante um dia inteiro. O semi-desconhecido Sami Frey foi o escolhido para o papel do aspirante a maestro que namora uma violinista e se apaixona pela irmã dela, a liberal Dominique Marceau, Bardot.

Bardot estava se recuperando de uma depressão pós-parto – da qual, na verdade, nunca se recuperou, já que nunca aceitou totalmente o filho. Seu marido, Jacques Charrier, estava internado em uma clínica com transtornos mentais. Ela administrava um caso com Alain Delon. E, agora, iria encarar o trabalho com Clouzot.

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Como se tudo isso fosse pouco, uma nova bomba explodia: seu secretário particular e confidente, Alain Carré, vendera informações sobre B.B. para o jornal popular France-Dimanche. Intimamente, a traição foi devastadora para ela. Publicamente, a França e o mundo conheciam as angústias, querelas, a recusa da maternidade, as correspondências, os estados de espírito, os suicídios fracassados, os amantes, a verdadeira Brigitte. O julgamento sobre ela acontecia nas esquinas.

As filmagens de La Verité tiveram início em dois de maio. A excitação natural de iniciar um novo filme deu lugar ao cansaço de ter que lidar com Clouzot. Ela o chamou de despótico. E havia os mexericos dos figurantes, as línguas compridas dos maquiadores e de todo staff do filme sobre o que aparecia nos jornais.

Um dia, em uma cena particularmente difícil, onde Brigitte deveria chorar histericamente, ela, descontrolada, teve uma crise de riso nervoso, um ataque de nervos. Clouzot aproximou-se dela, marchando firme e deu-lhe meia dúzia de bofetadas duras. Ela retribuiu. Furioso, diante de toda equipe, ele pisou, com o salto de seu sapato, nos pés desnudos de Brigitte, que soltou um urro, chorando copiosamente de dor, com o dedinho do pé direito esmagado. Clouzot apanhou a câmera e filmou a cena, que está no filme.

Brigitte registrou boletim de ocorrência contra Clouzot, pediu dias para se recuperar e o caso apareceu nos tabloides mais uma vez.

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Noutra vez, havia uma cena de suicídio e Clouzot queria Brigitte babando, espumando pela boca, respirando ruidosamente. Não estava bom. Brigitte tinha dor de cabeça e pediu duas aspirinas. Clouzot deu-lhe duas pílulas, que ela engoliu achando que fosse o remédio, mas eram dois soníferos potentes. Tentando se manter acordada, Brigitte revirava os olhos e babava – e Clouzot assim filmou, a cena também está no filme.

Com uma ameaça de processo, Clouzot foi mais cauteloso com a maior estrela francesa de então, a partir daí.

Sami Frey, jovem ator, também sofria com o diretor. Sensível, lia Brecht e ouvia Bach nos intervalos das gravações. Namorava a atriz Pascale Audret e era muito discreto. E Brigitte ficou tremendamente apaixonada por ele.

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As cenas entre os dois eram tórridas e Clouzot não queria beijos cênicos. Pudico, Sami teve que se superar para conseguir a intensidade sexual que o diretor exigia. Mesmo sendo rodado em preto-e-branco, em alguns momentos foi preciso utilizar maquiagem para esconder o rubor no rosto do ator. Mas ele também foi se apaixonando por Brigitte.

Na primeira vez em que estiveram juntos, amaram-se com enorme pudor, nas palavras de Brigitte. E juraram amor eterno.

Enquanto isso, Brigitte contratou uma pessoa para cuidar de sua correspondência, que se avolumava. A maioria das cartas era de propostas sexuais e até mesmo de fotos explícitas. Brigitte estava sendo assediada publicamente. Em várias das correspondências, era xingada por não ter aceitado a maternidade, por ter tido casos enquanto estava casada, por ter sonegado impostos. Um paralelo muito estranho se estabeleceu entre a “nova” Brigitte Bardot e sua personagem em La Verité, que também é julgada por conservadores menos pelo crime que cometeu e mais pela vida desairosa que levava.

Em meio ao caos, Sami deixou Pascale e alugou um apartamento para se encontrar com Brigitte. Eles escutavam discos de música clássica e se amavam discretamente. As últimas cenas filmadas de La Verité eram terríveis para Brigitte, já que todas se passavam com Marceau, sua personagem, no banco dos réus. Era como se estivesse sendo julgada de verdade. Clouzot, acompanhando as fofocas nos jornais, cuidava para que esse paralelo ficasse ainda mais claro, deixando a interpretação de Brigitte mais realista e, ao mesmo tempo, seus nervos em frangalhos.

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Havia ali um monólogo muito importante a ser dito por Brigitte/Marceau no entrecho final do filme – e a atriz se preparou para ele. Clouzot estava impaciente, achando que ela não fosse dar conta de transmitir o que deveria. No estúdio, na cena do tribunal, havia centenas de figurantes e alguns dos atores veteranos mais respeitados do cinema e do teatro francês. Era o momento de Brigitte brilhar.

Clouzot disse a ela que era preciso sinceridade, que a sinceridade deveria prevalecer sobre a técnica – e então Brigitte calaria todos os idiotas. “Luz, Câmera, Ação!”.

Ela esperou alguns segundos – e então sua voz se elevou. Rouca, soluçando, ela disse o que tinha para dizer. Chorando, ao final da fala, caiu sentada com a cabeça entre as mãos, numa crise real de desespero. Houve um momento de silêncio e… “Corta!”.

Toda sala a aplaudiu em pé. Não houve segunda tomada, não houve cena de fundo, não podia ser melhor. Brigitte não alcançaria mais tal altura como atriz.

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Mas havia ainda mais uma cena a filmar: a do suicídio da personagem em sua cela. A morte de Marceau significava que a humanidade era podre e que só através dela podia-se conseguir a paz. A personagem quebrava um espelho e enterrava uma parte pontiaguda em seu pulso. Brigitte sentia o sangue cenográfico escorrer pelo braço, pela mão, e achou que aquela era uma boa sensação.

Terminadas as filmagens, Brigitte e Sami foram flagrados por Jacques, marido de Brigitte, que havia deixado a clínica. Jacques agrediu seriamente Sami, que fugiu com Brigitte para a casa de amigos. Durante a fuga, ambos só falavam em morrer.

A vida de Sami, porém, teve um revés: ele teve que se apresentar ao exército. Se ele fosse obrigado a servir, jurou que se mataria. Brigitte também jurou. Foi na semana de 28 de setembro de 1960.

Naquela noite do dia 28, Mercédès foi jantar na casa dos amigos, conforme marcado. Mas, ainda nos aperitivos, sentiu remorso por ter deixado Brigitte sozinha. Ao voltar para casa mais cedo, não encontrando a amiga, chamou vizinhos que vasculharam o campo até a encontrarem. Ao contrário da personagem Dominique Marceau, ela tinha fracassado na tentativa de se matar.

Os jornais estavam satisfeitos com mais uma manchete sensacional envolvendo La Bardot.

Depois de algumas semanas, Sami foi dispensado do exército por causa de seu estado mental. Um amigo ajudou que ele se encontrasse com Brigitte em uma casa de campo afastada de Paris. Brigitte conta que “tínhamos medo de nos quebrar quando nos abraçávamos”: ambos estavam esqueléticos, ela tinha ainda as ataduras nos pulsos.

Eles moraram juntos por alguns meses até se recuperarem – e foram viver suas vidas. Sami ainda atua no cinema. Apesar de ter feito filmes com Louis Malle e Godard, Brigitte considera La Verité seu ápice. Ela deixou o cinema em 1973, antes de completar quarenta anos de idade.

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Em 2 de novembro de 1960, La Verité estreou com enorme sucesso. O crítico do Le Monde cravou: “Brigitte Bardot tal como realmente é, enfim”.

Clouzot não poderia ter escolhido melhor atriz para Dominique Marceau.

 

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… ‘donnie darko’ é sobre pulsões sexuais adolescentes

donnie 1A Darkside Books colocou no mercado mais um livro lindo, dessa vez sobre o filme “Donnie Darko” (2001). O livro traz um pequeno texto do ator Jake Gyllenhaal, que faz o personagem principal, uma looonga entrevista com o diretor, o último roteiro do filme (segundo o livro, o roteiro que foi entregue para os atores antes do início das filmagens) e as páginas do livro “A Filosofia da Viagem no Tempo”, que é citado no filme, escrito pela personagem Roberta Sparrow, a Vovó Morte. É interessante ler o conjunto, mas o mais revelador ali é mesmo a entrevista com o jovem Richard Kelly, realizada um ano e meio depois do filme ter sido lançado, quando começou a crescer no boca-a-boca. Kelly tinha 28 anos.

Então, Kelly escreveu o roteiro, produziu, filmou e finalizou o filme quando tinha entre 23 e 26 anos de idade, um jovenzinho cheio de som & fúria. E tesão, certo?

donnie 2Pois lendo a entrevista de Kelly no livro podemos perceber que é exatamente disso que o filme trata, embora ele desconverse e aponte para (vários) outros lados. Sob o pretexto de fazer um filme sobre viagem no tempo ou de criar um herói sombrio que salva a humanidade, “Donnie Darko” é um filme sobre a pulsão da sexualidade na adolescência; pulsão que faz com que todos os adolescentes queiram ser adultos, mas se sintam carentes e impelidos a negar o crescimento, desejando voltar à infância. Acontece com todo mundo, em graus diferentes, deve ser o que aconteceu com o próprio Kelly; o garoto sensível, criado por pais liberais e inteligentes, numa cidadezinha do interior, nos anos 1980 – ou seja: exatamente como Darko.

(Aliás, o clima oitentista do filme colaborou para transformá-lo em uma peça cult; justamente o que está acontecendo com “Stranger Things” – os trintões que viram o filme nos anos 2.000 são os mesmos quarentões que estão babando na série da Netflix agora.)

Voltando à entrevista: nela Kelly desconversa que toda história tem um pouco de autobiográfica, blá, blá, blá, mas quando perguntado sobre seus livros preferidos ou que o influenciaram, o diretor cita justamente os livros que aparecem e são citados no filme; seus pais são exatamente como os pais de Darko no filme; até o relacionamento que Darko tem com Gretchen parece ser igual ao que Kelly teve na adolescência. Enfim: o filme é totalmente autobiográfico! Então vamos pensar sobre como Kelly, consciente ou inconscientemente, materializou isso ao longo do filme:

  • Não há viagem no tempo: o buraco da minhoca é que as pessoas são num momento crianças e, no outro, adultas; transformam-se ao longo da vida, não são sempre as mesmas pessoas ao longo da vida, mas outras pessoas, diferentes, até com personalidades diferentes. A viagem no tempo é crescer.
  • Durante a palestra motivacional no filme, Darko faz uma intervenção praticamente explicando a intenção do filme: ser um elemento desestabilizador do status quo para que a sociedade avance, melhorando a próxima geração, sem se apegar ao modelo social vigente (os pais).
  • Durante o diálogo com Frank, o homem vestido de coelho, no cinema, quando Darko pergunta por quê ele veste a fantasia e Frank retruca perguntando por quê Darko está fantasiado de homem revela que Darko ainda não é homem, ele está posando de homem com aquela garota do lado, quando fuma cigarros, mas é um menino inseguro, querendo a atenção e o carinho da mãe. O coelho então tira a fantasia e diz que se chama Frank, que é o nome do pai dele e do pai do pai dele – como filhos que crescem e assumem, naturalmente, o lugar do pai na sociedade. Darko quer ocupar seu próprio lugar, mas, ao mesmo tempo, quer continuar a ser criança e tem medo do que pode lhe acontecer se tentar se impor.
  • O coelho representa a própria pulsão sexual e de morte súbita (do ego). Em algum momento do filme, alguém diz que “coelhos só querem foder” – que talvez seja, no fim, o que Darko quer (e, possivelmente, Kelly). Quando Darko apunhala o espelho (e o coelho) quer matar seu ego, que é o que faz ser tão diferente e desestabilizador. Será que ele não podia, afinal, ser como o seu pai e se casar e foder tranquilamente – ou seja, crescer enfim?donnie 3
  • Os adolescentes e até as crianças no filme têm comportamentos distorcidos, parecidos com os de adultos. Falam palavrão, fumam, são arrogantes, blasfemam e ofendem-se umas às outras. Parecem crianças imitando adultos – com o exagero característico da imitação. Querem ser ou não querem ser adultos? O filme é sobre isso.
  • Tudo se passa em Middlesex, o que não deixa de ser uma referência a um “sexo que ainda é só metade”, ainda não está pronto, maduro, formado.
  • O facho de água que sai do peito e conduz alguns personagens em algumas cenas é fálico e, possivelmente, aponta para o desejo do personagem, não exatamente o que ele faz ou quer conscientemente.
  • Há diálogos no filme sobre o que os adolescentes vão ser quando crescer, ou sobre o que querem ser, e essa indecisão, a solidão e a confusão da adolescência, com a pulsão sexual latente, conduzem o filme.
  • O ápice do filme se dá num Halloween, que é quando “os fantasmas saem do armário”, podendo significar “assumir o que realmente se é” – e aí acontecem várias mortes, afinal “morte é transformação”.
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[Darko com a Vovó Morte]

  • Não por acaso, a autora do livro sobre “viagens no tempo” é a belezinha aí de cima, a Vovó Morte.

Podia escrever mais sobre o filme, mas não sou o Slavoj Zizek.

🙂

 

“Cellar door” é mais uma referência truncada no universo Donnie Darko: teria sido J.R.R. Tolkien, não Edgar Allan Poe, quem disse que “Cellar door” é a expressão mais bela da língua inglesa – e aí podíamos fazer todo um comparativo entre “Donnie Darko” e “O Senhor do Anéis”, não?

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O diretor Kelly é grande fã de Spielberg, em especial de “E.T.”, então a fotografia de “Donnie Darko” copia a de “E.T.”, com o uso de lentes anamórficas. No filme de Kelly, os adolescentes também andam de bicicleta. E tem a Drew Barrymore.

Outra influência é Stephen King, a mãe de Darko lê “It” e um palhaço parecido como do livro/filme aparece em Darko. As mesmas referências que temos em “Stranger Things” – e, assim, “Donnie Darko” acaba sendo também uma referência ao seriado da Netflix.

Fãs temporões de “Stranger Things” podem se revelar uma nova legião de fãs de “Donnie Darko”. Isso seria legal.

Na entrevista de Kelly no livro ele diz que trabalhou rápido e com pouco dinheiro em “Donnie Darko” e caso lhe dessem muito dinheiro e liberdade total, ele possivelmente faria alguma merda. Ele fez no filme seguinte. E no próximo, “A Caixa”, até acertou no tom, mas esqueceu que um grande filme é feito com grandes personagens. Como cresceu e ganhou dinheiro, Richard Kelly teria deixado as pulsões de lado? Onde estaria seu tesão?

(Para quem quer insistir na coisa da Viagem no Tempo, tem esse vídeo em português que ilustra bem a teoria mais ampla e disseminada sobre o filme.)

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…Mais um romance policial satírico – e isso não é ruim.

[Repostando esta resenha, pois ela estava em um site que saiu do ar.]

“A Pedido do Embaixador – Um Caso Ordinário do Incorrigível Detetive Andrade”, de Fernando Perdigão, é uma delícia. Em tempos de romances brasileiros sisudos, cerebrais, experimentais, de elaboração linguística e quetais, em sinuosos jogos verbais e pessoais, de autoficção e realismos brutais, encontrar uma história rápida, engraçada e incrivelmente bem escrita é um alento.

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[Foto roubada do site literaturapolicial.com]

Acho que foi o Milan Kundera quem disse que os franceses têm problemas com o entretenimento – e que tudo que seja apenas diversão, no campo das artes, é ruim. Os franceses contaminaram o mundo com essa visão. Não há nada de errado com um livro – ou um filme – divertido e, muitas vezes, a simples diversão, aparentemente escapista, divertidamente tola, pode apontar para temas e reflexões colaterais muito mais sérios que muitas obras ditas  “inteligentes” ou “adultas” ou “e-la-bo-ra-das” ou, ainda, que são apresentadas para o público como “polêmicas”. É o caso do livro de Perdigão.

Mas não devemos nos ater tanto a essa profundidade. Esqueçamos os franceses.

Em “A Pedido do Embaixador” temos um crime que será investigado pelo tira e sua ajudante, num esquema inicial bastante próximo do romance policial padrão. Fica claro que se trata de um romance policial satírico, que é um sub-gênero com alguma tradição no Brasil – caso do Ed Mort de Luiz Fernando Veríssimo ou das emulações de Jô Soares. Mas o romance pega carona em um outro sub-gênero, que é o romance LGBT – o que o aproxima do meu “Elvis & Madona – Uma Novela Lilás”. Foi o que me levou a lê-lo.

O detetive Andrade é um desses tiras das antigas que acreditam na lei. É também preconceituoso e desagradável, mas canta no coral do bairro, tem uma namorada de profissão duvidosa, uma empregada a quem adora irritar e uma relação meio paternal com sua auxiliar meio macha, a policial Lurdes. O ambiente é a Copacabana degradada, cheia de gays. É no universo dos gays que um crime será cometido: a morte de Rubens – ou Ruba – um grande pegador. Entre os suspeitos, os dois sócios de Rubens numa agência de turismo sexual gay, ex-namorados e peguetes, paqueras, michês… Quem quer saber quem deu fim ao Rubens é o tal embaixador do título, grande “amigo” do sujeito. Andrade terá que se superar para chegar ao assassino em meio a tanta purpurina.

O resultado importa pouco. O que faz de “A Pedido do Embaixador” uma ótima pedida são as tiradas do policial Andrade e sua relação com suas mulheres (a namorada, a empregada e a auxiliar) e com os gays suspeitos. Os diálogos abundantes e ágeis garantem gargalhadas a cada página.

O preconceito do detetive Andrade não deve, porém, incomodar os politicamente corretos – o personagem é produto de uma era. Mas comenta a nossa própria era, essa de tantos saudosos dos comportamentos do século, digamos, XIX na taimelaine do feicebuk. Nesse sentido, o desenrolar do romance pode servir para que nós mesmos, leitores, pensemos um pouco sobre os nossos próprios preconceitos.

Mas isso, depois de rir bastante.

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60 Horas de Le Mãos na Cabeça

[Uma ego-trip-amarela para o Rio de Janeiro]

Meia-noite, domingo. Relógios não mentem. Só os relógios não mentem. Albino e Negão acabaram de partir. Tomei um banho e liguei o computador. É simplesmente inacreditável tudo o que aconteceu nas últimas 60 horas. Mil e trezentos kilômetros de estrada e muitas histórias. E o nosso velho amigo Snow, que morreu. Nada é perfeito. Mas preciso voltar no tempo um pouco para situar vocês.

FLASH BACK

Quinta-feira, Limeira, vou almoçar com EDV, velho amigo, o homem que sabe tudo de computadores e internet, o cérebro por trás do extinto blog Egotrip 3DV. O noticiário falava de chuvas feias e guerra entre gangues no Rio de Janeiro. Estava quase convicto de que não iria comparecer à comemoração do aniversário de Alex Castro, née, Alexandre Cruz Almeida, no bar Amarelinho, Cinelândia. Bad vibes.

Comento com EDV: queria ir ao Rio, mas a coisa lá tá braba! Ele responde: VAMOS! Um calafrio me percorre a velha e torta espinha. Ligamos para Gustavo Brigatti, companheiro  do site Tiro&Queda, de Americana. Ele cumpre dolorosas férias e achamos que talvez pudesse se interessar pela contenda. Ele aquiesceu.

Combinamos um encontro a noite para o arranjamento. Reunimo-nos em casa, munidos de várias bebidas para clarear a mente. Falamos de várias coisas, menos da tal viagem: ninguém acreditava que pudéssemos realmente cumpri-la. Fomos até um terrível local chamado Babuch para umas partidas de bilhar e ver se a CONFLUÊNCIA DAS BOLAS apontaria-nos um destino. Eu ganhei todas as partidas, o que significou que eu devia decidir. Lá encontramos Dênis, nosso amigo, sósia do Enrique Iglesias. Gostamos de sair com ele, pois ele cata mulheres e isso nos deixa muito orgulhosos.

Logo já chegou uma garota, Juliana, tetéia magrinha que ele catou e nos fez salivar por todo resto da noite. Esse resto, no caso, foi em um bar de Nova Odessa onde se apresentava a nossa banda preferida no momento, o Madame Butterfly. Houve um certo choque ao chegarmos, pois lá estavam A e B, ex-garotas minha e do Brigatti. Teve ali um ensaio de remember que logo foi abortado pelo Briga – um cara que tem dificuldades de lidar com coisas MORTAS. O consumo maciço de vários tipos de bebidas alterou nossa capacidade de discernimento e, quando vimos, já batiam as quatro da manhã. A viagem da sexta estava aparentemente sepultada.

UMA SEXTA DE PRIMEIRA

Foi estranho quando acordei na sexta, perto das dez, sentindo-me totalmente de aço. Meu cão, Nicolau Sevcenko, aguardava com aquela cara de pedinte que usa para me chantagear emocionalmente quando quer passear. O sol brilhava, o verão sorria um fim bonito e decidi que SUAR talvez fosse ainda melhor para as minhas sensações. Passeei com o indivíduo.

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Nicolau Sevcenko, RIP.

Estar no Amarelinho às 8 da noite era uma impossibilidade tão grande quanto eu casar novamente ou receber o que o PT me devia. Mas o Universo se move de maneira estranha e, enquanto preparava meu Froot Loops matinal, meu celular soou. Pensei em não atender, sou contra fazer grandes coisas às sextas. Sexta é meu dia de Débora, a massagista mais linda do mundo. Não, pensei. Foda-se tudo, não vou atender. Mas cometi o deslize de olhar para o visor e lá estava escrito “EDV – O LINDO”. Eu não acho o EDV lindo, longe disso. É que ele tem essa mania de pegar o celular dos outros e alterar as coisas de maneira que JAMAIS consigamos desfazer. Atendi.

“Bia, estranhamente acordei bem e disposto a ir ao Rio”. Disse que ia falar com o Briga e retornava a ele. “Vi na internet que parou de chover, talvez devêssemos ir”. Meu Froot Loops amolecia no leite e minha alma parecia querer se desgrudar do corpo. Não se passaram duas horas e estavam ambos em casa com parcas mochilas e sorrisos maliciosos nos lábios.
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Como não podia deixar de ser, o EDV trouxe para a viagem seus inseparáveis hamsters, Snow e Marrone. Não tinha com quem deixar os bichinhos – e eles se alimentam pelo menos 4 vezes ao dia. O Briga não gostou muito, ele tem COISAS com animais. Eu gostei, o Snow sempre me pareceu legal. Marrone é meio na dele e não come na minha mão. Carregamos o Astra do EDV e partimos para a estrada. Era uma da tarde. Eu estava com 50 reais no bolso. Brigatti tinha 70 e o EDV, mais CAPAZ, 120. Enchemos o tanque com um cheque meu, completamente sem fundos. Um cheque AIDS, como tantos outros que foram devidamente passados posteriormente, durante as próximas 60 horas.

O Briga foi no banco de trás com a gaiola dos hamsters. No som, Led Zeppelin. The songs remains the same.

PLANEJAMENTO EM CURSO IN LOCO

Não sabíamos onde iríamos dormir no Rio e muito menos onde ficava o catzo do Amarelinho. Não havia mapa nem GPS. Éramos somente nós e nossas mentes brilhantes. Para conseguirmos maior concentração e também para que a viagem fosse mais impessoal e engraçada decidimos adotar apelidos a partir daí. Brigatti virou o Albino, EDV era o Negão e eu era o Carvalhão. Lidando uns com os outros com nomes fictícios podíamos encontrar talvez mais honestidade em nossas palavras – lidar com amigos fica sempre uma coisa muito boiola em situações-limite como essa.

Rodamos um pouco e lembramos que não havia máquina fotográfica entre os nossos pertences. Rapidamente liguei para a minha irmã em Itatiba e ela nos emprestou. Esse interregno nos fez perder um valioso tempo. Negão decidiu então me passar o volante e se pôs a acariciar o Marrone no banco da frente. Até o Albino se soltou e entrou um pouco na brincadeira, dando comida na boca do bichinho. Seguíamos felizes o nosso destino.

Paramos no Frango Assado da Dutra para uma mijada básica e ingestão de carboidratos. Compramos água e eu achei estranho já que tinha uns 20 anos que não saboreava tal líquido. Negão riu. Albino fez certa cara de mistério, como convém a um jornalista cultural. Mantive o volante, suarento e crente. Faltavam apenas umas quatro horas de viagem.

Paramos, na sequência, num posto onde emiti mais um AIDS e lavamos o vidro do carro. Foi então que a ideia veio inteira à minha mente: podíamos ligar para a Helena Fialho, companheira de Tiro &Queda que mora no Rio e estava em férias em Volta Redonda. Estando nas buenas talvez cedesse seu apartamento-cubículo para esses tapados estradeiros. Fiz um drama, disse que tinha um amigo em fase terminal no Rio e estávamos indo dar o último abraço. Albino fez o nome do pai. Funcionou. Mas teríamos que passar em Volta Redonda e eu gostei: daria um beijo na minha criança, a filha mais bonita do mundo, a Belle Polenta.

Snow, no banco de trás, parecia irritado.

NEVERENDING DUTRA

Falávamos de mulheres quando passamos por Aparecida do Norte, Capital da Fé. Não lembro se foi Negão ou Albino quem fez algum tipo de blasfêmia. Acho que foi Albino, que fez BUNDÃO para uns romeiros de beira de estrada. E foi aí que, inexplicavelmente, nos vimos novamente no Frango Assado, de volta uns 150 kilômetros! Talvez Deus nos tenha colocado em alguma espécie de dobra espacial, nos fazendo perder tempo. Ou era alguma espécie de praga de nossas ex-mulheres, seres que malhávamos impiedosamente naquele momento. Foi como um raio – e pum, voltamos. Marrone soltou um guincho.

Negão considerou voltarmos definitivamente. Falei: não! Não seria Deus quem nos impediria de cumprir nossa determinada jornada. Não Ele!

Passamos novamente por Aparecida, dessa vez mudos. Negão desligou o som, calando o Lou Reed.

Chegamos à Volta Redonda, encontramos a Lena e a Belle, e houve uma explicação sobre como chegar até o apê e ao Amarelinho. O “Amarelinho não existe” foi uma teoria que começamos a desenvolver nesse momento. Devia ser uma peça de ficção do Alex.

Caímos novamente na estrada. Já tínhamos pelo menos onde dormir. Snow estava impaciente. E a noite fazia a pista escura de medo.

Foi quando Negão se animou em contar uma piada. Essa, em questão, virou uma espécie de emblema da viagem e terei que pedir permissão dos leitores para contá-la aqui:

A PIADA

Dois caipiras andam pelo pasto e avistam um buraco.
– Buraco fundo, cumpadi.
– Fundimais! Vamo jogá uma pedrinha pra ouví o baruio.
Jogam. Não ouvem.
– Nossa, mai esse buraco é fundimais memo.
– Vixe!
– Vamo jogá uma coisa mai pesada.
Pegam uma pedra enorme, jogam e ficam tentando ouvir. Nada.
– Ave Maria, esse buraco num tem fundo!
– Vamo pegá uma coisa enorme e jogá aí pra gente ouví o baruio e sabê o tamanho da fundura do buraco, cumpadi.
Encontram um dormente, apanham com dificuldade e jogam. Afinam os ouvidos.
– Nada!
– É!
De repente, do horizonte, vem uma cabra correndo e se atira no buraco!
– As coisa só comprica aqui, cumpadi!
– Esse poço num tem fundo.
Chega o terceiro caipira.
– Tarde.
– Tarde!
– Vocês viram uma cabra por aqui?
– Ói…
– Pode parecê estranho, mas a gente tava aqui vendo a fundura desse buraco e veio uma cabra correndo e se atirô aqui no buraco!
– Vixe!
O caipira chega perto do buraco, finge conseguir olhar alguma coisa lá dentro.
– Ah, num é ela não! Ela tava amarrada num dormente!

LINHA VERMELHA

Eu ainda continuava na direção quando a piada foi proferida. Considerei atirar o carro por um precipício na região de Seropédica e acabar de vez com toda essa farsa de existir. Íamos prum buraco e ninguém ia ouvir o barulho. O Albino tinha verdadeiras contrações de riso. A água escorria pelos meus olhos de tanto farfalhar. Quase não notamos quando entramos na Linha Vermelha. E então ficamos sérios.

Não são poucos os relatos de balas tracejantes de um lado para o outro na dita via. Esperávamos ser atingidos na cuca a qualquer momento. Imaginei uma bala passando pela cabeça do Negão e espalhando cérebro pelo painel. Mas não muito, já que ele não tem muito mesmo.

Considerei que apenas uma bala desse tipo seria o suficiente para exterminar eu e o Negão. Lá atrás o Albino ficou chateado: “E eu?”.

Até na morte ególatras contumazes praticam um certo egoísmo.

Snow dormia quando achamos as placas CENTRO e FLAMENGO. Passávamos por um elevado quando vi CINELÂNDIA e BIBLIOTECA NACIONAL. Vamos no tal Amarelinho primeiro, se é que ele existe. Aí a gente pede uma ajuda para alguém e encontramos o Largo do Machado, onde dormiríamos. Não no Largo em si, mas por ali.

Víamos várias coisas muito amarelas, como táxis e ônibus, mas não o tal bar. Foi quando pensei em ligar para o putão do Alex. “To-tou aqui com o Mauro Amaral, do Ca-carreira Solo”, disse o gago, visivelmente empolgado com o nossa chegada. E orientou-nos sobre como encontrá-los. Não contentes, paramos para falar com um policial na Cinelândia, que fervia de bares, bêbados e putas e então nos sentimos estranhamente EM CASA. O guarda explicou do jeito que cariocas explicam, sem dizer porra nenhuma com nada. Ele considerou que tomássemos cuidado com o carro: “tem uinx mininuix que roubam uix carruix”. Certamente, o policial devia ter um blog e praticava o miguxês.

Totalmente por conta do faro, dobrei uma esquina e vi a Biblioteca Nacional e um prédio grande. Era o bar em questã. Passava a sensação de lost in translation.

AMARELINHO É VERMELHINHO ou
ISSO SÓ COMPLICA, COMPADRE!

Muitas mesas e a gente procurando um gordo de gravata borboleta e com um braço só. Não foi difícil, ele estava lá com alguns amigos. Chegamos de supetão e eu berrei empolgado: “CADÊ O GORDO GAGO QUE ME DEVE DINHEIRO?”. Castro ficou um pouco perturbado com nossa chegada tão sopetina, mas logo se levantou e nos abraçou – com um braço só, obviamente.

Me dei por conta que estávamos no centro do Rio de Janeiro, lugar violento e marginal, com pessoas que não conhecíamos. Mesmo esse Alex Castro podia ser um assassino cruel que atrai vítimas através do seu site, vai dizer? Fiquei reparando isso bem e considerei com o Negão. Ele arqueou as sobrancelhas e disse que queria se mandar dali. Albino tomava chopes continuamente, meio embasbacado com o fato de ser apenas um caipira pobre e besta e estar ali, no Rio de Janeiro.

Nem havíamos começado a conversar quando Negão decidiu ver como estavam Snow e Marrone no carro. Voltou com péssimas notícias: o pneu estava furado, Marrone estava nervoso e Snow parecia ter entrado em algum tipo de colapso, estava duro como uma pedra, respirando com dificuldade.

Ficamos preocupados. Decidimos não contar aos outros presentes sobre a presença dos nossos amigos animais, já que eles podiam considerar seriamente nos abandonar ali aos pinotes. Ninguém viaja 600 kilômetros com dois hamsters para se encontrar com gente que nunca viu. Eu mesmo ficaria assustado se me contassem.

Fizemos um revezamento que durou toda noite: a cada meia hora alguém ia ver como estava o Snow.

Negão, num ímpeto de disposição, trocou o pneu do carro. Depois tirou a camisa e ficou tomando um ar fesco na pança em plena praça, sob a vista de cariocas e turistas estupefactos. Foi quando o Albino chamou a minha atenção para algo totalmente inusitado: o cardápio do Amarelinho trazia escrito CARDÁPIO DO BAR VERMELHINHO!

Minha cabeça fez tóim. O Amarelinho não existia mesmo. Mas o Alex Castro não conseguiu nos despistar; encontramo-lo mesmo tendo ele nos dado o nome errado. Albino coçou a parca barba e esse era apenas o início de uma noite que até seria bonita se tivesse direção do David Lynch e a música do Angelo Badalamenti.

O ALEX CASTRO É UM CARA BEM FEIO

Sentei bem na frente do homem. Ele tinha tomado meia garrafa de vinho branco Almadén Riesling e mantinha a calma. Por dentro devia estar em pânico por estarmos ali, três loucos do interior do estado de São Paulo, pedindo UM CHOPPS E DOIS PASTEL. Sei como é.

Mas havia decidido parar de se alcoolizar e passou, nesse instante, a demonstrar um perfil interessante de sua face doentia: consumiu durante toda a noite e todo o final de semana verdadeiros TONÉIS de FANTA LARANJA. Esse homem deve ser a razão de se fabricarem FANTAS LARANJAS hoje em dia. Um drogadicto irrecuperável, sem dúvida.

Em pequenos intervalos, enchia com dificuldade-de-um-braço-só seu cachimbo e dava fortes baforadas. Parecia o Pedro Paulo Sena Madureira com aquela gravata borboleta amarela. Amarela? O Rio é dominado por essa cor.

“Esse é o homem que escreveu Sexo Anal!”, bradou num momento, falando sobre minha pessoa – e umas garotas que estavam na mesa ao lado saíram correndo como se alguém tivesse gritado É UM ASSALTO! Desfizeram-se em éter. Fiquei com um pouco de vergonha e pensei em mudar o título do romance para “Tudo, desde que com carinho”.

A feiúra do Alex é compensada pelo seu brilhantismo de fala – apesar de trôpega e dos  so-qui-nhos. Ele se deu bem com o Albino que é tão gago quanto. Pensei: se chegar mulher aqui vou ter trabalho para dar conta. Negão estava bem preocupado com Snow e ia ao carro em intervalos de onze minutos. É um bom intervalo, sob quaisquer pontos de vista.

Os chopps eram consumidos vorazmente e eu decidi ousar. Pedi um Jack Daniels. Caiu bem. Chamei o garçom e falei: traz uma dose a cada onze minutos. Ele achou que eu tinha lido o Paulo Coelho. Fiz cara de sério, de quem não tinha entendido a piada. Não admito garçom metido a intelectual.

MU-MULHERADA

Até essa altura, passadas duas horas, estávamos eu e meus comparsas mais O FEIO e dois amigos blogueiros. O Mauro, com bom senso e medo, fugiu rápido quando ficou sabendo que, de fato, estávamos próximos. Uma noite de cuecas assustadoras, pensei. Negão também considerou. Albino tinha o olhar perdido num horizonte qualquer.

Eis que chegam duas minas e um cara. Minas interessantes. Todos os três fazem Cinema, seja lá o que isso signifique. Um tio-avô meu trabalhou na construção do Cine Cacique, em Americana. Também fez Cinema, ou não? Eu mesmo cortei o dedo num cartaz quando era criança e tenho Cinema no sangue. Ou não?

Uma das minas era de um dos caras e foi consenso que era um desperdício. A outra, magrinha e de piercing no beiço, devia ser boa de transa. Falou se a gente queria beber de graça no dia seguinte; era bartender num clube chamado Fosfobox. Dá pra imaginar o tamanho do lugar.

Cerrei as pálpebras e olhei friamente para ela. Será que ela realmente sabia o que estava nos oferecendo? Beber de graça num sábado? Não existe responsabilidade num convite assim. Pela idade e inconseqüencia da dita, disse secamente: “nós vamos, mas você aguenta o tranco!”. Ela ficou assustada.

Estava pelo sexto Jack Daniels quando Negão veio aflito do carro. Snow não estava bem. Uma coisa estranha também tinha acontecido: a máquina fotográfica da minha irmã tinha desaparecido. Fizemos uma força tarefa para tentar achá-la – a máquina, não a minha irmã. Mas não achamos.

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Alex Castro estava tentando impressionar a moça do piercing e ela reparou e foi embora correndo, levando o casalzinho púbere. A madrugada avançava, o Jack Daniels estava acabando e o velho bigodudo do Nietzsche parecia rondar meus pensamentos. O Albino acendeu um cigarro e isso não era um bom sinal. Ele só fuma para afugentar maus espíritos.

MU-MULHERADA DE FA-FATO

Parecia que realmente ia rolar umas mulheres, mas elas estavam trabalhando e só vinham mais tarde. Chegaram quase todas juntas: a Tata, a Bel e a Di. A Tata é do Globo, uma antiga paixão do blogueiro Rafael Galvão, e eu considerei não atacar de imediato em consideração a esse irmão que estava lá em Aracaju e vive de bronhas virtuais, coitado. Posso não ter moral, mas não sou um animal sem coração!

A Bel é amiga de infância do Alex – e isso justifica muita coisa. Linda e elegante, fez algumas anotações durante a estada ali e isso me deu calafrios. Pensei em falar com ela em francês, mas aí lembrei que eu não sei francês.

A Di é a primeira mulher do Alex e achei impressionante a semelhança dela com a minha ex. Isso me deixou um pouco melancólico, mas durou 3,7 segundos. Outro Jack chegou, o calor era bravo e essas mulheres maravilhosas podiam se interessar por mim ou por um dos meus amigos. Se o Dênis estivesse ali, catava uma delas. Ninguém resiste ao charme latino do Dênis.

Como não tenho charme tentei impressionar engatando um discurso pronto sobre a invenção do amor no século XV – história de um livro antigo do Octavio Paz. Se o amor foi inventado a gente pode fazer um monte de coisas sem amor, sacaram? Nove doses de Jack deixam a gente um pouco escroque.

A Bel gostou de me ver citando Paz e engatei um poema em espanhol do velho (e morto) bardo: “palabras? si de aire. en el aire perdidas… etc…”. Tentei manter o ar blasé mas o bourbon era mais forte e a língua enrolou algumas vezes. Estava quase teclando o foda-se; ia subir na mesa e gritar: EU SOU O HUNTER THOMPSON ou fazer algo mais cruel como jogar spray de pimenta na cara do garçom. Albino sabia que num determinado momento tudo podia acontecer, para o bem ou para o mal. “Não desembesta logo agora!”, falou em meu ouvido. Respirei fundo me sentindo perigoso como o Mano Brown.

briga e bia

Negão veio com água nos olhos dizer que Snow ia morrer. Falei para ele ficar calmo: quando chegasse no apartamento a gente descascava uns fios e aplicava um choque nele – esse tipo de coisa sempre funciona! Ele se acalmou.

Alex fez algumas fotos, nossa máquina havia mesmo desaparecido. E conversamos coisas tão profundas quanto um pires. É para isso que a gente se encontra, afinal. Quer ser profundo? Vá para Tulane, porra!

Eu achei que estava rolando um clima entre MIM e a ex do Alex. Não era como o caso da Tata com o Rafael. O Alex estava ali – e a gente podia competir honestamente, talvez até sair na porrada. Falei para o Albino: “a gente podia arrumar uma briga!”. Negão ouviu de longe e arregaçou as mangas da camisa para mostrar a tattoo. Fez cara de mau.

Se a gente soubesse onde tudo ia parar tinha dormido na praça, que nem na música do Bruno e Marrone. Por falar em Marrone, o nosso parecia começar a também se estressar.

A FELICIDADE É UM CARRO SEM GASOLINA

Vamos embora? Alguém deu a idéia e fechamos nisso. Negão ia dirigindo, Alex na frente em seu carro, com a Tata e a Di, nos guiaria até o apê da Helena. A Bel já tinha ido.

O Alex vai na frente e nós atrás. Tentei fazer massagem cardíaca em Snow, mas ele não respondia. Será que tinha ligação de 220w no apê?

Então aconteceu! O carro do Alex parou. Acabou a gasolina. Ele calculou mal e o tanque secou. As coisas estavam turvas para mim, achei que precisava de outro shot para atinar o que estava acontecendo. Então eu viajei até aqui para ser pego numa emboscada e esse Alex é o cabeça de algum tipo de associação obscura que rapta e sequestra novos autores para que SÓ ELE, com a ajuda das amigas Tata e Di, possa ser considerado um dos NOVOS LUMINARES DA NOVA GERAÇÃO LITERÁRIA? Minha cabeça era um turbilhão.

Alguém arrumou uma garrafa pet de dois litros de Fanta Laranja e a ideia era procurar um posto. No Astra do Negão entraram Albino, Tata e eu atrás. O Alex ia na frente com o Negão, para indicar o caminho, e a Di ficou para fora – definitivamente não cabia. Fiz o que qualquer cavalheiro faria; disse: VEM NO MEU COLO! Não havia saída: ou ela vinha no meu colo ou ficava na rua, à mercê dos terríveis bandidos e assassinos do Rio. Ciente dos perigos, aceitou cabisbaixa o oferecido. E partimos para o posto.

Um calor estranho se apoderou de mim. Acho que tem a ver com o poder do mar. Sentia-me Netuno, tridente pronto. A Tata, incomodada ao meu lado, sacou a mais poderosa das armas, o celular-que-tira-fotos – e colocou-se a disparar na direção minha e de Di. Brinquei que a beijava na face, só para sacanear o Alex. Albino disse, depois, que mordi-lhe a nuca. Mas acho que não.

Muito rápido chegamos ao posto, pegamos a gasolina, voltamos ao carro e, novamente, como numa nova dobra espacial, os cariocas tinham se mandado e estávamos os três no apê-cubículo da Lena.

SNOW IS DEAD

Albino tinha ficado incumbido da gaiola dos animais. Marrone estava incomodado com a presença solerte do amigo. Snow parecia dormir. Negão pensou tê-lo visto respirar. Falei: é agora, vamos ressuscitar!

Procuramos, mas não encontramos fios à mostra no apê. Foi quando Albino deu a idéia de enfiarmos as patas do bichinho em uma tomada.

Achamos um tapete de borracha e seguramos o bicho com aquilo. Quem operacionalizou tudo foi o Albino, eu estava meio alterado e Negão era só lágrimas. Devagar ele foi lá e… zap! Deu uma espécie de apagão rápido na luz e subiu um pequeno odor de carne assada. O bichinho não reagiu.

Pensei que talvez o curto tivesse atingido todo o prédio e era melhor a gente ficar na miúda. Negão se pôs a consolar Marrone, dormiu com a gaiola ao lado do colchão. Albino ficou um pouco na janela, acho que rezou pela alma de Snow. Eu a me perguntar o que significava tudo aquilo. Rosencrantz estava certo – seja lá quem for Rosencrantz!

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Albino triste com a morte de Snow.

Jogamos Snow no lixo da cozinha.

A TERRIVEL HISTÓRIA DO MACACO COM DUAS BUNDAS

O sábado de manhã estava nublado como uma missa fúnebre. Ao procurar a roupa para se vestir Albino encontrou a máquina fotográfica da minhã irmã. Menos mal, pensei.

Saímos para tomar café, eram dez e meia. Não achamos uma padaria sequer – ou PADOCA, como chamam os nativos. Acabamos indo parar num quiosque de Copacabana. É preciso tomar cuidado com essas dobras espaciais!

Uma porção de camarão frito, latas de Skol estupidamente geladas. O sol saiu. A gente não se sentia totalmente honestos contemplando aquela vista e se fartando enquanto gente de bem trabalhava ou mendigava. Essa sensação foi rápida, nem chegamos a comentar sobre isso.

bia e briga
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A famosa foto com o GUAXINIM no peito.

As pessoas mais estranhas passavam oferecendo as coisas mais estúpidas, de amendoim torrado a viseiras estapafúrdias feitas de pano barato. Albino considerou comprar uma dessas, mas Negão fez uma cara tão debochada que ele achou melhor não perder um amigo.

Um cara passou vendendo um copo de chope que não derrama a bebida, uma coisa bem estranha. Negão pensou em comprar e foi a nossa vez de dissuadi-lo. Foi então que aconteceu o evento do macaco com duas bundas.

Lá no horizonte um velho com camisa florida se aproximava. Um rapaz – talvez um anão? – o acompanhava. Ele tinha dois macaquinhos em coleiras. Os macaquinhos pareciam bastante normais, saudáveis e brincalhões. O velho veio em nossa direção.

– Oi. Meu nome é MacPhisto. Sou cientista. Vocês não querem me ajudar a continuar as pesquisas comprando um desses macaquinhos?

Os sagüis pulavam. Fazer o quê com um macaquinho?

– Esses bichos são especiais – disse.
– ?
– Eles têm duas bundas!

Pegou um dos bichos e virou para nos mostrar. Ele tinha realmente DUAS BUNDAS! Era algo estranho e asqueroso! Como alguém podia modificar geneticamente os bichinhos para que eles tivessem duas bundas? Onde estaria a Sociedade Protetora dos Animais?

Fiquei revoltado, não queria mais ver aquilo. Albino chegou a ensaiar um vômito. Negão demonstrava alguma curiosidade, movida talvez pela morte do animalzinho de estimação na noite anterior.

– E pra quê serviriam duas bundas, nobre homem? – questionei.
– Não sei. É por isso que tenho que continuar as pesquisas!

Declinamos do velho insano e ele saiu com os macaquinhos oferecendo para outros turistas. Albino considerou: esses macaquinhos devem cagar em dobro!

CAMARÃO PARECE BARATA, MAS É MAIS GOSTOSO

O sol ardia a pele desses paulistas. Não tínhamos protetor solar. Cogitamos levar coletes à prova de balas mas não protetores em nossa viagem. Não ia ser um solzinho que ia nos maltratar. Minha nova tattoo pulsava no sol, achei que ela ia virar um relevo.

Negão entrou num parafuso perigoso de ingerir camarões alucinadamente. Era só alguém passar oferecendo espetinhos e ele sacava a polpuda carteira. O dinheiro escorria como óleo pelos dedos. O cara do quiosque certamente não aceitaria um dos meus AIDS – nossas faces entregavam uma pobreza ancestral. As olheiras eram quase acintosas.

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O cheiro do mar batia e achamos que devíamos ligar para alguém, fazer inveja. Tocamos para o amigo Itamar Santos, em Americana. O poeta pareceu cético.

– Vocês estão em Copacabana e eu estou em Salvador.

A conversa ficou confusa e as cervejas alteraram nossa capacidade dialética. Alex estava trabalhando até duas da tarde, tínhamos que enrolar até que pudéssemos ligar para ele e providenciar um resgate.

Albino sugeriu voltarmos para o apê dar uma olhada em Marrone e descansar um pouco. Concordamos.

Fiz algumas ligações sem sucesso para a Bel, a Tata e a Di. Não ia beijar ninguém, uma certeza intrínseca se fez presente.

No apê, muitos discos bons da Lena. Mas havia também alguns discos dos Engenheiros e o Albino, numa demonstração de descontrole e demência, colocou um deles. Começamos a cantar as músicas, numa catarse de poesia ruim que se impregnaria em nossos cérebros durante o resto do dia.

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Quando olhei, Negão estava deitado no chão atrás do computador da Lena descascando fios com os dentes.

– O quê você tá fazendo?
– Vou ligar esse computador na internet. Eu PRECISO conectar um pouco senão enlouqueço.

Logo estávamos na rede vendo os e-mails, checando os blogs e buscando indecências no Google.

Não demorou até que apagássemos.

DEZ BOLINHOS DE BACALHAU POR 26 REAIS

A fome bateu tão forte lá pelas 17h que mal conseguíamos ficar em pé. Por sorte havia um restaurante português no Largo do Machado. Passaríamos um AIDS.

Pedimos chopes e olhamos o cardápio absurdamente caro. Bom, o bolinho de bacalhau custava R$ 2,20 cada. Um para cada era tudo o que podíamos pagar. Pedi. Uns minutos se passaram e o garçom veio com uma porção com 10 bolinhos – R$ 26,00.

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Negão quis aloprar, Albino pensou em virar a mesa e eu amenizei a situação mostrando o talão AIDS. Já que era para praticar um estelionato consciente, vamos nos entupir aqui. Pedimos uma porção de carne seca com cebolas. Tomamos uns 20 chopes cada um. Não lembro quanto ficou a conta e tomei o cuidado de fazer uma assinatura bem rabiscada e não anotar o valor no canhoto.

Foi quando conseguimos contato com Alex.

– Que faremos à noite?
– Vocês me encontram na Barra da Tijuca.
– Ok.

Fomos alimentar Marrone e tomar banho.

VIDIGAL, ROCINHA, TRÊS ANIMAIS NUM CARRO ou
O FRIO DA METRALHADORA NA NUCA

À essa altura o celular de Negão não parava de receber ligações de suas amantes. Era noite de sábado e o rapaz é bem requisitado por uma série de admiradoras de negões altos e bem-dotados. É ele quem diz, observe. Não fiz constatação.

Isso gerava um certo mal-estar em mim e no Albino.

Sem qualquer noção sobre que rumo tomar, começamos a seguir placas em direção a Ipanema. Quando vimos estávamos subindo a favela do Vidigal. Negão, no celular, não tinha a mínima ideia do perigo que corríamos. O coração batia descompassado. Tivemos que fazer uma manobra rápida para sair dali.

Vimos uma placa apontando BARRA e começamos a descer o morro. No pé, um comando policial. Respiramos fundo, tentamos fazer cara de gente decente… Mas não funcionou, os guardas deram sinal para parar.

A partir daí tudo começou a se passar em câmera lenta. Descemos do carro. Eu decidi não dizer nada. O Albino suava frio. Negão tentava tirar os documentos da carteira, tremendo as mãos. Pensei em dizer ao policial que éramos ex-drogadictos em recuperação, e tremíamos pela falta das substâncias. Não deu tempo.

– Encostem aí no carro.

Um deles encostou o cano da metralhadora na nuca do Albino, que começou a ter uma pequena crise de choro.

Por sorte, Negão teve uma presença de espírito.

– Não temos drogas nem armas, somos turistas, esse cara é escritor…

Fiz cara de escritor.

– Abre o porta malas.

Eu comecei a rezar, o creio-em-deus-pai me veio totalmente à memória – e eu não o rezava desde que era coroinha na paróquia de São Domingos.

O policial revistou o carro todo. De um lado o Albino com o cano na cabeça. Eu segurando a cara de escritor honesto. Negão tentando parecer um turista marroquino.

– Podem ir.

Albino foi com a cabeça para fora da janela do carro gritando “quero mamãe!”. Negão quase não podia respirar. Eu cogitava que podia ter espirrado spray de pimenta nos guardas.

Quando vimos, estávamos na Rocinha. Talvez fosse o caso de voltar para casa naquele mesmo instante. Mas ali estavam três homens com nervos de aço!

O CASO DA BARATA GIGANTE KAMIKASE

Encontramos o caminho da Barra. Vimos uma placa RIOCENTRO e fugimos para o lado oposto. Foi o Albino quem lembrou:

– No Riocentro os caras estouram bombas!

Concordamos.

Estávamos quase abortando o encontro com Alex, mas ele ligou.

– Peguem a avenida da praia e vão até o último quiosque. Encontro vocês lá em 40 minutos.

Achamos o local. Ufa, respiramos. Pegamos latinhas e sentamos nas cadeiras de plástico. Foi quando se sucedeu o caso da barata gigante kamikase.

Apesar de toda carne seca e bolinhos de bacalhau uma estranha fome tomou conta de Negão. Ele foi pedir um cachorro quente que, no Rio, é feito com lingüiça – e eu acho isso hilário!

Albino e eu ainda tentávamos nos recuperar do trauma da blitz quando senti algo atingir meu peito. Achei que fosse uma bala perdida e pulei. Em um segundo Albino estava debaixo da mesa. Bati a mão no peito e a encontrei: uma barata de cerca de 25 centímetros, algo que eu nunca tinha visto em toda minha vida! O inusitado não era apenas ela ser enorme: ela estava com um CAPACETE! Eu olhei para ela por menos de um segundo e pensei ter visto a bandeira japonesa no capacete. Bati nela com força e saí tendo um verdadeiro chilique pela praia da Barra, para espanto dos nativos.

Eu corria e abanava os braços como se estivesse sendo atacado por um enxame, ou como se fosse uma bicha velha sofrendo um ataque maciço de oxíuros. Albino deitado no chão mantinha os olhos fechados. Negão segurava o lanche com os olhos vidrados e a boca semi-aberta, escorrendo um pouco de saliva e mostarda pelo queixo. Foi quando Alex chegou.

“Esse cara acha que eu sou sério, tenho que me controlar”, pensei. Tenho certeza que ele considerou voltar para o carro e voar para casa, desligar telefones e nunca mais se aproximar de qualquer coisa que pudesse conter o nome Biajoni pelo resto da vida. Mas a gente já o tinha visto, ele não ia poder escapar.

O SEGUNDO ALEXANDRE, ESSE MAIS BONITO

Não sei bem como o reconhecemos, parecia outra pessoa. Estava com uma camisa vermelha folgada e tinha os dois braços. Deve ser uma prótese, pensei. Ele quis saber o que tinha acontecido e eu deixei o Albino contando enquanto fui buscar uma caipirinha. Não tinha Jack Daniels no quiosque.

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Sentei para papear tentando manter o foco. Depois de comer e de ter baixado a adrenalina, Negão dormiu na mesa. Só eu e Albino dávamos atenção ao Alex.

Mas foi por pouco tempo. Estávamos ali falando de nova literatura, dos novos autores, do mercado editorial, dos cadernos de cultura e etc… quando se aproximou um senhor moreno, cerca de 45 anos. Um carioca visível.

– Posso participarrr da converrrsa? – pediu exalando cachaça e com aquele sotaque incompreensível.

Sentou ao lado do Albino.

Nas próximas duas horas esse cara ficou falando com nosso amigo. Albino deixou-se levar pelo som da voz do homem como quem entra num transe mântrico e monocórdio, sem entender niente do que o cidadão dizia. “Ele vai ficar bem”, comentei com Alex.

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Pois então aí se desenrolou a conversa de fato entre esses dois novos luminares da literatura brasileira contemporânea. Falamos de “Mulher de um Homem Só”, o livro do Alex, e de “Sexo Anal”, minha novela-marrom, ainda não publicada. Malhamos alguns dos principais autores da nossa geração. Elogiamos alguns blogueiros. Falei do maravilhoso e-mail que recebi do Inagaki. E que o Rafael Galvão não tinha lido ainda nossos livros porque certamente não sabe ler em português. Alex considerou seriamente a possibilidade. Afinal ninguém faz um post em francês!

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A noite estava agradável, a barata parecia ter sumido e o Albino, catatônico. Acordamos o Negão e eu voltei dirigindo para o apê, encontrando fácil e inexplicavelmente o caminho.

ALGUMAS VEZES UM SÁBADO NÃO ACABA

Negão não queria deixar seu possante na rua. Procuramos um estacionamento e era ao lado de uma pizzaria. Guardamos o carro e alguém falou:

– Vamos comer uma pizza?

Eram mais de 3 da manhã e tínhamos ingerido quantidades absurdas de álcool, coisa de fazer Hemingway se achar um maricas.

“O cheque AIDS tá aqui”. Fomos.

E então aconteceu o caso das PIZZAS ABSURDAS MAIS DELICIOSAS DA VIDA.

Pedi um baldinho de gelo e meia dúzia de SKÓIS – já que era pra chapar, seria com classe, com baldinho. As pizzas tinham nomes estranhos como ASSENTAMENTO ou INVASÃO ou REFORMA AGRÁRIA. E levavam ingredientes bem estranhos. Fui pelo faro e pedi. Veio uma pizza mezzo gorgonzola, mezzo aliche. O cheiro era bom.

Pois esses três paulistas acostumados a comer no Nonno Giorgio ou no Beppo Giovanni comeram aquilo que foi consenso: A MELHOR PIZZA DE SUAS VIDAS! Tivemos que ir ao Rio para considerar a supremacia paulista na confecção de massas. Sinceramente, essa pizzaria do Largo do Machado merece uma visita, nem que seja para viajar 600 km.

Buchos cheios, rumamos a pé para o apê. Negão lembrou-se das divertidas histórias de Snow – é duro quando a gente perde um ente querido.

O QUE FAZ UMA TROCA DE BATERIAS DE CELULAR

Na sexta, no Amarelinho, tinha acabado a bateria do celular do Albino. E pudemos ver que era do mesmo modelo da do celular de Alex. Eles trocaram as baterias – que deviam ser destrocadas no sábado.

Estávamos quase chegando na Barra, no sábado, e o Albino se deu por conta que havia esquecido o celular no apê.

Queríamos deixar o Rio no domingo pela manhã e esse incidente da bateria nos faria ter que voltar à Barra para o terceiro encontro com Alex – íamos perder um pouco de tempo mas, diabos, estávamos passeando!

Marcamos o encontro para onze da manhã defronte a um condomínio fino da Barra com o estranho nome de O CHANFRÃO. Esses ricaços são excêntricos, pensei.

O domingo levantou simpático. Carregamos o carro, alimentamos Marrone e tomamos café num bar de esquina, rumando para a Barra.

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CALCINHA À MOSTRA É COMO UMA MELANCIA NO SOL

Sentamos no quiosque dO CHANFRÃO e pedimos Skóis. Os fígados doíam, 600 kilômetros nos esperavam. No Universo, a matéria se decompunha. No passeio muitas gostosas cheias da grana com seus iPods, iPoodles e iGnorâncias. Aviões riscavam o céu. Magnatas na mesa ao lado jogavam pôquer. Lembrei que fazia um ano que não visitava um dentista.

A vida não prestava, isso era um consenso entre nós três. “A cabra pulou no buraco”, disse o Albino.

melancia

Foi nesse bar da Barra que aconteceu o episódio VOU ACABAR DE LER A MATÉRIA, que se segue:

Acabou a rodada de cervejas e não aparecia ninguém para nos atender. Fui até o balcão. O atendente lia a página de esportes.

– Me dá três Skol.
– Você sabe quanto foi o Real Madrid ontem?
– Não tenho nem ideia.

E ele voltou-se para o jornal. Ele me ignorou totalmente, voltando para sua leitura! Achei que não tivesse me ouvido.

– Me vê três Skol aí, por favor.

Ele me apontou o indicador, como quem pede um segundo. E TERMINOU DE LER A MATÉRIA, para minha total revolta! Cerrei as pálpebras fazendo minha cara de Clint-Eastwood-mau-pra-caralho mas não adiantou.

– Foi um a um -, como se eu quisesse saber!

Voltei para a mesa revoltado e continuamos esperando Alex e vendo as gostosas. Passou uma morena que tinha sido feita no photoshop. Em seguida passou a nêga mais gostosa de todas até aquele momento. Ela tinha um top (eu entendo de vestimentas femininas) e um shortinho amarelo agarrado, com uma calcinha de renda que marcava bem. A calcinha de renda aparecia um pouco em cima.

– Uma calcinha de renda aparecendo assim é como um pedaço de melancia no sol – proferiu Negão.
– ?
– Tá louca pra fazer mal pra alguém!

UM ENSOLARADO ALEXANDRE E MIJANEIRAS

O Alexandre chegou muito alegre, de boné, solto na manhã dominical. Sentou e contou piadas ótimas fazendo com que tivéssemos colapsos de riso. Ele é um comediante.

Solícito e querendo mostrar sua cidade, levou-nos para conhecer a reserva biológica da Barra, falou sobre os rios e canais da cidade, mostrou o autódromo e a Cidade do Rock. Passamos pelo Riocentro precavidos contra as bombas.

A viagem estava chegando ao fim na Cidade Maravilhosa. Demos abraços e tiramos últimas fotos. Ficou uma promessa de volta em abril, mas tudo ia depender da grana.

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Ele ensinou como pegar a Linha Amarela e ganhar a Dutra. Faltam banheiros nos quiosques e mijamos numa arvorezinha bem à vista de todos os transeuntes. Eu não vi, mas uma garota parece que se assustou com a ferramenta do Negão.

UM FUSCA COM AS QUATRO PATAS PARA O ALTO

Estávamos na Linha Amarela e agora era questão de tempo para estarmos em casa. Negão dirigia confiante. Mas era um engano.

– Vou fazer uma merda!

É incrível que mesmo quando as pessoas estão convictas de que vão fazer merda acabem realmente fazendo. Negão virou repentino e caiu numa pista que nos levou diretamente para a ponte Rio-Niterói. Era inacreditável. Albino novamente estava com a cabeça para fora gritando por mamãe. Achei nunca mais veria meu cão, o Nicolau.

O lance era ir até o fim da ponte e encontrar um retorno. Paramos no pedágio. Negão quis fazer uma gracinha para a caixa do pedágio.

– Você é uma graça! A caixa de pedágio mais bonita dos últimos 600 kilômetros.

Ela não respondeu, manteve a cara séria. Aí eu reparei no crachá: “PROGRAMA DE INTEGRAÇÃO DE DEFICIENTES AUDITIVOS”. Por isso ela estava com aquela cara de quem tinha perdido a chave da bunda!

De volta à pista, vimos a placa de retorno. Negão fez uma manobra radical e derrubou dois cones para garantir a saída. Achava que a polícia, em breve, estaria em nosso encalço. Ouvíamos um cd do Pavement que roubamos da Lena.

No pé da ponte, sentido contrário, vimos uma movimentação estranha, carros parados. Ao nos aproximar, demos conta: um fusca estava com as quatro patas para cima. Ele CAPOTOU NA SUBIDA DA PONTE RIO NITERÓI e isso gerou um congestionamento que ia nos atrasar ainda mais!

Paramos num posto e compramos mais três latinhas. Eram duas e meia da tarde e a fome batia – mas fizemos um pacto de comer só depois de Volta Redonda.

Passaram os carros dos bombeiros e do resgate. Entramos no congestionamento enquanto o carro era retirado. Suspeitamos que o motorista tivesse batido as botas.

Num momento pensei no Galvão. Estávamos na cidade dele, certo? Ele não era de Niterói? Num muro, algo pichado: VIVA O MAOÍSMO. Sim, o Galvão era de Niterói, estava comprovado!

O ASTRA É UM ÓTIMO CARRO PARA CURVAS

Quando chegamos na Dutra um alívio nos acometeu. Negão quis dormir e o Albino desmaiou atrás. Sobrou para o marmita aqui conduzir pelas curvas ouvindo Suede até Volta Redonda.

Numa entrada para São João do Meriti, uma saudação para o prefeito local em um outdoor: SAUDAMOS O PREFEITO UZIAS MOCOTÓ. Reparem bem a poesia do nome do cara. Vocês não acreditam que alguém possa ter esse nome político, não é?

Mal paramos na cidade do aço, entregamos a chave e não demos brecha para perguntas. Estávamos bêbedos e sonolentos. Faltavam 400 kilômetros ainda. Na saída da cidade, um novo comando policial. Ainda nem havíamos sido parados e o Albino começou a chorar, agitando Marrone que soltava guinchos.

– Calma Albino.

O policial chegou e não desci do carro, dei a habilitação enquanto Negão sacava os documentos. O spray estava na porta e pensei em esguichar nele. Negão leu meus pensamentos e balançou a cabeça negativamente. Fazia uns três dias que não espirrava o spray de pimenta em alguém e isso me incomodova.

– Podem ir.

Albino cobriu a cabeça com uma toalha e chorou até Penedo.

TRUTAS FRESCAS E PEIDOS EM PENEDO

A fome era um tigre em nossos estômagos. Passei a entrada de Penedo por engano e voltamos uns 5 kilômetros de ré. A adrenalina bateu no caracol e meu ouvido fez tóim de novo. Comecei a socar o próprio peito numa auto-massagem cardíaca. Achava que o bicho ia explodir.

Entramos na colônia finlandesa, muitas mulheres pelas ruas. Foi a vez do Negão surtar, botando a cabeça pra fora da janela. “Eu quero chegar em casa, eu quero chegar em casa!”. A gagueira tomou conta totalmente do Albino e a interlocução era impossível; tínhamos que ler seus pensamentos.

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Fui até o Rei da Truta, meu local preferido de Penedo. Os dois foram ao banheiro se recompor. Pedi truta com amêndoas e o negão achou fresco.

– Gosto mesmo é de buchada de bode, comida de macho.

Pedimos Bohemia, o cheque AIDS estava pronto para entrar em ação novamente.

A comida chegou e o Albino a absorveu como um presidiário faminto de cinco dias de solitária passados à água. Eu e Negão ficamos impressionados que tal tísico pudesse ingerir tanto alimento e tão rapidamente – realmente incrível!

O combinado foi que Negão tocasse até a via Dom Pedro, quando passaríamos o automóvel para o Albino. Até então Albino não tinha tocado no volante, o início de nossa jornada ainda guardava algum senso de precaução. Agora era jogar nas mãos de Deus.

Tomamos café e o Albino decidiu comprar chocolates caseiros para a mamãe – achamos bonito isso. Negão pensou em chorar de emoção.

O sol era inclemente e os gringos de Penedo se assustaram quando decidimos fazer um pequeno campeonato de peidos em frente à fábrica de chocolates. Albino, cujo cu é caipira, não cagava há três dias e venceu com facilidade.

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Uma garota demonstrou alguma curiosidade pela peleja, mas não tínhamos testosterona para tocar qualquer abordagem adiante. Ganhamos a Dutra novamente.

O SONO DOS JUSTOS E OS FARÓIS APAGADOS

Por uma dessas razões inexplicáveis, própria de gênios, o Albino decidiu dirigir até Itatiba com os faróis apagados. Pensei: nada pode piorar. Eram quase sete da noite, estava escuro. Entramos na Rodovia Dom Pedro e eu dormi. Marrone parecia um guaxinim raivoso e o Negão achou melhor acender os faróis. Os dois brigaram.

Eu tirei um bom cochilo deitado no banco de trás. “Tenho os melhores amigos do mundo”, pensei.

Frank Black and the Catholics tocava e me veio uma idéia para um poeminha:

POEMA DA ADORAÇÃO

Eu adoro playmobil
Eu adoro filmes loucos
Eu adoro quadrinhos e gibis
Eu adoro cantores roucos

Eu adoro você!

Eu adoro torta de banana
Eu adoro deitar no chão frio
Eu adoro camisa sem manga
Eu adoro passear no Rio

Eu adoro você!

Eu adoro meu amigos
Eu adoro escrever sem parar
Eu adoro adular meu umbigo
Eu adoro me masturbar

Eu adoro você!

Eu adoro spray de pimenta
Eu adoro não trabalhar
Eu adoro bala de menta
Eu adoro ser seu par

Eu adoro você!

(Mas achei que o poema não ficou muito bom, então ele não vai entrar na coletânea que eu tou montando)

MINHA IRMÃ É A CARA DA JENNIFER ANISTON

Chegamos na casa da minha irmã para devolver a máquina fotográfica. Eram mais de nove da noite. Meu sobrinho de quatro anos, o Théo, ficou contente de nos ver e foi buscar seu bonequinho do Batman para nos mostrar.

Conversamos um pouco, mijamos e minha irmã perguntou se não queríamos beber alguma coisa.

– Melissa, não oferece nada para esses caras, por favor.

Eles ficaram bravos comigo.

Na saída os dois comentaram sobre a parecença da minha irmão com a ex do Brad Pitt. “Na minha família só tem lindo”, avaliei.

Às dez, saímos de Itatiba e o Albino continuou na direção. Negão botou um CD do Mötley Crüe para nos irritar. Três dias com esses caras acabam com os nervos de qualquer um.

Marrone dormia, o céu estava estrelado e não faltava muito para chegarmos em casa.

HOME, SWEET HOME E MAIS BARATAS

Já estávamos bem perto de casa quando veio a lembrança que não havia nada pra beber lá. Um conhaque fecharia com chave de ouro a viagem. Fomos até uma loja de conveniência, mas não tinha conhaque. Compramos um Martini Bianco gelado por R$ 9,98 – era tudo o que havia restando da grana.

Ao abrir a porta de casa, um susto: três baratas estavam com as pernas para cima, como o fusca de Niterói. E estavam tão mortas quanto o motorista do fusca. A visão das baratas mexeu comigo. Sapequei SBP por toda a casa e o cheiro do veneno deu um pequeno barato na gente.

Negão tomava o Martini como se fosse suquinho de uva. Albino estava tão agitado que não conseguia sentar; pegou uma revista velha e ficou andando e lendo. Eu peguei minha mala e liguei o computador. Não ia conseguir dormir.

Eles se foram, eu fui pro banho. Dei comida para o Nicolau e brinquei um pouco com ele. Sentei para escrever esse relato. Agora são 4h27. A cabra pulou no buraco.

Segunda, 7 de Março de 2005 – 4h27.
 

 

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…a bio de cohen por sylvie simmons, mais lou reed e adjacências

A biografia escrita por Sylvie Simmons, “I´m Your Man – A Vida de Leonard Cohen” é um espetáculo em vários sentidos. Diferente da bio de Lou Reed escrita por Victor Bockris, que destrói qualquer resquício humano do líder do Velvet Underground, o trabalho de Simmons é de fã que adora seu biografado – e a recíproca parece ser verdadeira – chegando a ser meio condescendente em alguns momentos. Mas isso não tira o monumento que lemos: ela teve acesso ao próprio Cohen, que entrevistou várias vezes, e também aos amigos, mulheres, amantes, músicos, parceiros e até os (pouquíssimos) desafetos, e escreveu a vida de um sujeito com mais de 80 anos do alto de sua integridade como poeta, músico, ser humano, monge budista juramentado – um santo perverso, retrato do nosso tempo.

livro

As semelhanças entre Reed e Cohen são diversas, porém. Ambos foram rebeldes, cada um de seu jeito, e “criados soltos” – Reed fugia de casa, Cohen passava noites em companhia de poetas com a anuência da mãe (o pai morre quando ele tinha 9 anos). Ambos montaram bandas country no colégio e escreveram para publicações estudantis. Ambos descobriram a poesia cedo, Reed tinha Delmore Schwartz e Poe, Cohen tinha Irving Layton e Garcia Lorca. Ambos foram apaixonados por Nico e por anfetaminas (e por drogas em geral) – há quem defenda que Cohen usou mais anfetaminas que Reed durante os anos 1960. Ambos acreditavam-se predestinados a fazer algo grandioso – Cohen era mais convicto. Ambos viviam com pouco: Cohen tinha uma casinha sem água e energia elétrica em uma ilha grega, Hidra, onde passava vários períodos; Reed tinha um apartamento pequeno e sem fogão, com uma geladeira cheia de sorvete de café, seu maior vício. Ambos vinham de famílias judias. Enquanto Reed foi parar em um hospital psiquiátrico para tomar choques elétricos, Cohen fazia concertos de graça neles. Ambos gostavam de jejuar (“Mas até o jejum de Cohen era elegante. Enquanto jejuava, ele bebia suco de uva branca com limão e água com gás”, conta o amigo Brian Cullman). E os dois amavam a voz de Antony.

Mas as diferenças entre os dois também são gigantes: Cohen fora educado no judaísmo e nos modos dos anos 1930: vestia-se com roupas costuradas para ele, levantava-se quando alguém entrava ou saía de um recinto, falava baixo e só quando solicitado, e nunca, jamais, podia ser cruel com alguém. Com ele, não havia jogos mentais de poder e dominação, diferente de Reed. Embora Reed e Cohen preferissem a companhia de homens, Cohen nunca teve uma relação homossexual. Nas críticas aos seus discos, Cohen era comparado a Dylan, Reed não. Cohen não estava interessado no reconhecimento de seus pares, queria fazer sucesso, atingir o público. Reed não queria holofotes, queria ser reconhecido como o Poe ou o Chandler do rock, pretensioso até os ossos. Interessante notar que Cohen conseguiu todas as grandes honrarias possíveis a um poeta-cantor ao redor do mundo – e Reed passou longe desse reconhecimento uniforme. Reed tem uma identidade com os EUA e, em especial, com New York; Cohen tem um apelo mundial maior, falando de temas mais universais. No ingresso de Cohen no Rock´n´Roll Hall of Fame quem o apresentou foi Reed, que leu, extasiado, um poema de Cohen concluindo que era bom viver no mesmo momento que alguém como ele. Era um Reed mais velho e (um pouco) mais humano, mas uma ponta de inveja podia ser detectada ali.

cohen e reed rock n roll hall of fame

As drogas mexeram com os dois, isso é certo. Enquanto Reed virou um paranoico com tara por espezinhar e foder com a vida dos outros, Cohen desenvolveu uma depressão que o levou para o budismo, a reclusão, o silêncio, o trabalho obsessivo e, mais tarde, para o monastério – uma saída que só pode ser o ápice do desespero de alguém muito sensível jogado no mundo cruel da música, do marketing, do entretenimento e da perversão. Mas isso foi quando ele estava com 60 anos, então vamos com calma.

Fã de Bukowski

“O único homem que vi capaz de atrair mulheres mais lindas que Leonard Cohen provavelmente foi Charles Bukowski”, Paul Body, porteiro do clube mais quente de música folk de Hollywood, onde estreiaram Joni Mitchell e Tom Waits.

Interessante como Cohen conseguiu atingir picos sublimes da poesia e da emoção tendo como referência poetas sujos, mundanos e rebeldes; os beatniks, os santos renegados e Charles Bukowski. “Escritores que não estiveram doidões ou sentiram o gosto da loucura nunca saberiam do que se trata”, escreveu enquanto terminava seu romance “Beautiful Losers” – considerado seu melhor trabalho em prosa e nunca traduzido no Brasil – consumindo haxixe, ácido e speed. Quando terminou, mandou para seu editor dizendo que aquele era o livro mais importante já escrito no Canadá. Depois, disse: “As duas qualidades mais importantes para um escritor são arrogância e inexperiência”. “Beautiful Losers” foi o livro que Lou Reed leu, seu primeiro contato com Cohen, que ainda não cantava. A soberba de Reed fez com que ele fizesse a incrível declaração, anos depois:

’Beautiful Losers’ é um livro incrível, um livro maravilhoso, e, acima de tudo, incrivelmente engraçado e muito ardiloso. Eu me lembro de Leonard me falar que começou a compor canções após ouvir ‘Ill be Your Mirror´. Quem diria…”

Um babaca, esse Lou Reed, vai dizer?

O que Cohen ouvia? Ray Charles. Para relaxar, fazia a barba – dica da mãe. Às vezes, fazia a barba algumas vezes no dia.  Com um público restrito na poesia e na prosa, decidiu cantar. Foi pros EUA já velho – com 30 anos você já era bem velho em 1960.

cohen safadão

O fato é que Cohen foi descoberto por Judy Collins, uma das maiores vendedoras de discos à época, que ficou apaixonada pelas canções do canadense bonitão. Ela gravou e transformou “Suzanne” em um hit e deu uma declaração que “não haviam canções como a dele. Nem de Dylan”. Quando começou a aparecer, Cohen foi morar no endereço dos descolados, o Chelsea Hotel. Conheceu Nico e se apaixonou por ela, mas ela não deu pra ele, segundo a biógrafa Simmons – ela tinha um princípio de não se relacionar com homens mais velhos que ela, depois que engravidou de Alain Delon. Cohen era 4 anos mais velho que ela.

Podemos dizer que Nico foi uma das maiores musas dele. Em quantidade de canções, acho que Nico foi a mais inspiradora. O que nos leva a questionar se a grande arte, no fim, não é apenas a projeção de um grande amor não consumado.

Com Janis Joplin não se sabe com certeza se rolou um sexo completo, mas que houve um boquete dos deuses, isso é inquestionável. É do que trata a canção “Chelsea Hotel #2”.  A outra namorada famosa na fila foi Joni Mitchell – que durou pouco; ela disse algo como “uma coisa é você amar Cohen, outra é viver com ele”. Muitos anos depois, ela estava em um show de Cohen e foi até o camarim, quando disse: “Sou groupie apenas para Picasso e Leonard”.

Leonard Cohen & Joni Mitchell, NFF 1967, R19-15, NFF67, Edit

NEWPORT, R.I. – Singer-songwriters Leonard Cohen and Joni Mitchell meet backstage before separately performing at the Newport Folk Festival in July 1967 in Newport, Rhode Island. (Photo by David Gahr/Getty Images)

O primeiro disco foi bem, o segundo foi mais ou menos, o terceiro não teve a repercussão esperada e a depressão de Cohen ia aumentando e ele ia bebendo e fumando mais e todo esse turbilhão o levou à… Cientologia. Puxa, essa informação me desanimou bastante – mas parece que o caso de Cohen com a seita durou pouco e serviu para que ele ficasse convicto de que o caminho era o budismo.

Só que nessa fase, ainda antes do budismo, o caminho era o LSD. Eles tomavam tanto ácido que, em uma ocasião, o gerente da turnê fez toda a trupe andar de mãos dadas no aeroporto para não perder ninguém no caminho para o avião, de tão loucos que todos estavam!

Um coisa interessante sobre esse início e os primeiros discos é que muitas músicas eram gravadas e, no final, algumas eram escolhidas para entrar no disco – e a grande maioria das outras está INÉDITA ATÉ HOJE! Isso mesmo: existem dezenas de músicas antigas de Cohen guardadas, inéditas, fechadas, fresquinhas, jamais divulgadas! Algumas poucas entraram em caixas e edições de aniversários de discos, mas MUITAS estão inteiramente intactas! Não é incrível?

(É outra diferença com Reed, que lançou tudo o que pôde, todas as gravações, todos os bootlegs, todas as merdas, tudo, tudo…)

Apesar dos discos estarem saindo e recebendo críticas eles não estavam vendendo. Ao redor de Cohen começou-se a formar um grupo de admiradores que tentavam decifrar o que ouviam. Nessa primeira fase, Cohen se apresentava como “um misto de Charles Aznavour e Bob Dylan”.

cohen in hidra

Mas os fãs eram bons e envolvidos na causa da divulgação do mestre. Foram discos tributos (com Nick Cave e The Pixies, por exemplo) e um disco de uma de suas backing vocals, Jennifer Warnes, que fizeram com que Cohen ficasse mais conhecido.

Enquanto sua fama aumentava e ele ia ficando mais famoso e requisitado, fez algumas façanhas de respeito, como negar um pedido de Dylan para tocar na apresentação da turnê Rolling Thunder em Montreal. Dylan, reconhecendo a firmeza e a postura de um igual cantou “Isis” (uma música sobre casamento, que tem o verso: “what drives me to you is what drives me insane”) e disse: “Esta é para o Leonard. Se ele ainda estiver aqui”.

A merda desse primeiro período é que Cohen, assim como a maioria dos artistas nos anos 60, foi vítima de contratos leoninos que beneficiaram gravadoras e agentes e tiraram das mãos dos compositores a propriedade de algumas canções. Cohen mal tinha consciência disso, nunca deu muita importância para dinheiro, até porque ele nunca lhe faltou. Para piorar um pouquinho, Cohen caiu nas mãos de Phil Spector, um crápula charmoso que produziu um disco que fez mais fama e publicidade do que acrescentou algo ao cancioneiro de Cohen. As canções de “Death of a Ladies´ Man” pertencem a Cohen/Spector e o produtor nunca autorizou regravações ou a inclusão de canções desse disco em coletâneas. Um grandessíssimo filho da puta.

cohen phil

Perdi o controle da minha família, do meu trabalho, da minha vida. Foi um período muito, muito sombrio”, disse Cohen sobre o processo com Spector. Ao New York Times, Cohen disse que não gostava de nada no disco. “Este álbum é um lixo”. Tirando a canção “Memories”, eu também acho – tenho todos os discos de Cohen, menos esse, que dei para um amigo. Ele publicou um ótimo livro de poemas em prosa com o mesmo título do disco, produzidos durante os 10 anos do casamento com Suzanne. Tanto o livro quanto o disco encerram uma espécie de primeira fase do Cohen.

(Um belo dia Suzanne simplesmente foi embora. Ele fez um belo acerto financeiro com ela e, um pouco depois, ela pediu para morar por um tempo na casa de Hidra com o novo namorado e Cohen deixou, de boas)

Os anos 1970 estavam chegando ao fim, Cohen estava cada vez mais envolvido com o budismo, Dylan veio a público dizer de sua conversão ao cristianismo. Cohen ficou inconformado: “Por que ele procuraria Jesus tão tarde assim? Não entendo essa coisa de Jesus!”.

Cohen rapidamente lançou outro disco, “Recent Songs”, para sepultar o “disco de Spector”. É o seu preferido entre todos. E cinco anos depois, “Various Positions” que tem “Hallelujah”, um grande hit, considerada uma das melhores canções já gravadas, uma das músicas com mais versões registradas, centenas delas. Ela levou quatro anos para ser composta e tinha dois finais, um otimista (que está no disco) e um pessimista (que ele cantou em alguns shows). John Cale gravou uma versão com mais versos, os que foram desprezados da versão original.

Quando tomaram um café em Paris, Dylan mostrou “I and I” a Cohen, que adorou e perguntou quanto tempo Dylan tinha levado para compo-la. “15 minutos”, respondeu Dylan, que perguntou quanto tempo Cohen havia demorado para compor “Hallelujah”. Cohen respondeu “alguns anos” com vergonha de dizer o tempo correto.

Embora seja a música mais conhecida e de maior sucesso de Cohen, não é sua preferida. Quando perguntado sobre que música gostaria de ter composto, ele respondeu: “’If It Be your Will’. E eu a fiz.”.

“Hallelujah” é uma canção de amor e Cohen vivia sozinho. “Não há quem consiga viver comigo”. Foi uma fase em que ele teve casos com mulheres maravilhosas como a fotógrafa francesa Dominique Issermann. Ele também achava que estava terrivelmente velho com 50 anos e queria realizar alguns desejos, como conhecer o criador dos Muppets, Jim Henson. E também foi ver um show de Stevie Ray Vaughan.

cohen muppets

Os vários anos de cigarros e bebidas tinham feito a voz de Cohen baixar quatro semitons. Com essa voz amaciada e noturna ele gravaria seu álbum mais diferente, com bases de teclados e sintetizadores, mudando a linha inicial dos violões de corda de aço. Era “I´m Your Man”, álbum do ano do New York Times. A brincadeira com os eletrônicos se intensificou no disco seguinte, “The Future”, que teve músicas usadas em “Natural Born Killers” e apresentou Cohen para toda uma nova geração.

Foi quando ele entrou em colapso e foi prum monastério.

O hipnotizador

Cohen tinha lido um livro sobre hipnotismo quando era criança e gostava de hipnotizar animais. Algumas pessoas o viram hipnotizar animais domésticos e até formigas. É possível que esse dom estivesse presente em suas conquistas amorosas e até no palco, no lidar com a plateia. No show na Ilha de Wigh, em 1970, seu dom de hipnotizador pode ser observado. Apesar de chapado até o cerebelo num show alta madrugada com um público hostil, ele conseguiu acalmar e enredar todas as milhares de pessoas em seu encanto. O show todo pode ser visto no Vimeo.

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Mas o hipnotizador também era hipnotizado: seu mestre budista Roshi era seu deus particular. Ele era chofer de Roshi, cozinhava para Roshi, tocava para Roshi, bebia com Roshi… Subiu o Monte Baldy para ficar com Roshi e escapar do mundo musical, dos paparazzi, das mulheres, dos problemas. Acabou ficando por quase 10 anos numa rotina mais ou menos assim:

“…a chamada para o despertar às 3 da manhã dava aos residentes dez minutos para se vestirem e caminharem penosamente pela escuridão (no inverno, abrindo caminho através da neve com uma pá) rumo à sala de refeições, onde o chá era servido de maneira formal e bebido em silêncio. 15 minutos depois, o gongo indicava a hora de irem silenciosamente até a sala de meditação e assumirem o lugar atribuído a eles nos bancos de madeira voltados para o centro. Uma hora de meditação cantada (“cantos muito longos, todos de uma nota só”) era seguida do primeiro de seis períodos diários de zazen – uma hora ou mais de meditação sentados, com pernas cruzadas em posição de lótus, costas rígidas e olhos fitando o chão. Monges carregando bastões patrulhavam o recinto em busca de eventuais dorminhocos, a quem devolviam à consciência com uma pancada forte no ombro. Após a meditação, mais meditação: kinhin, a meditação andando ao ar livre, independente do clima. Sendo no alto da montanha, o clima era de extremos, e às vezes, caíam granizos do tamanho de limas-da-Pérsia. Depois vinha o primeiro de vários sanzens diários, encontros individuais com Roshi para introduções e prática de koan (enigmas). Havia pausas curtas para refeições às 6h45, ao meio dia e às 17h45 para o jantar, durante o qual todos iam para a sala de jantar, pegavam da prateleira a tigela plástica atribuída a eles embalada em um guardanapo e ocupavam uma das sete longas mesas em que comiam silenciosamente. Após o almoço vinha uma pausa para o banho e um horário reservado para o trabalho. Após o jantar, havia gyodo (meditação praticada enquanto se caminhava e cantava), além de mais zazen e sanzen até às nove, dez, talvez onze da noite, dependendo da disposição de Roshi.”

cohen roshiE Roshi tinha muita energia, morreu em 2014 com 107 anos.

Cohen só dava uma escapada do monastério para comer um McFish acompanhado de uma taça de vinho francês. Ele também tinha um hábito enraizado que não conseguia deixar de lado: a primeira coisa do dia era um café e um cigarro.

E há quem diga que ele tenha passado a mão em umas monjas.

A verdade é que esses anos no monastério serviram para que ele tivesse um profundo entendimento sobre questões que envolvem a criação (“Deus, segundo o Gênese, usa o caos e a desolação para criar a ordem no universo, então cais e desolação podem ser entendidos como o DNA de toda a criatividade“), para saber como lidar com sua depressão profunda e para ser completamente roubado por uma das pessoas em que mais confiava, sua agente Kelley Lynch. Ele estava falido e teve que voltar à ativa, gravando discos e fazendo shows. Assim, conseguiu em 10 anos de atividade mais do que em 70 anos de vida.

A partir daí se desenvolvem as últimas 100 páginas e as mais emocionantes da biografia de Cohen escrita pela Sylvie Simmons. Um amigo disse que era melhor não contar algumas das incríveis cenas e peripécias que são relatadas ali, por motivo de: spoiler profundo. Basta dizer que Cohen reencontra a Anjani, que tinha sido sua backing vocal. Aparece uma nova e importante musa, 25 anos mais jovem que ele.

anjani cohen

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… “transformer – a história completa de lou reed” por victor bockris

Estão vendendo Victor Bockris, autor de “Transformer”, como amigo de Lou Reed. Se algum amigo meu escrever uma biografia minha com as tintas que Bockris pinta Reed, eu volto do além para infernizar a vida do sujeito até o fim! Bockris trabalhou para Andy Warhol na Factory e na revista Interview, mais ou menos no período que Warhol e Reed romperam, no fim do Velvet Underground, e Warhol escrevia constantemente em seu diário que odiava Lou Reed. Bockris escreveu uma boa biografia de Warhol como insider. Bockris também era próximo de Gerard Malanga, secretário de Warhol e dançarino no espetáculo que Warhol tinha criado para o Velvet tocar. Bockris e Malanga escreveram um livro sobre o Velvet. Bockris era mais amigo, na verdade, de John Cale, a outra metade criativa do Velvet, e alguém que também odiava Lou Reed. Bockris ajudou Cale a escrever sua autobiografia. Ou seja: Bockris é amigo de gente que odiava Reed.

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Como jornalista, Bockris diz ter entrevistado Reed e falado com ele várias vezes por telefone, mas em “Transformer” ele publica, como um apêndice, uma breve e algo desconexa entrevista com Reed, coisa de uma única página, falando sobre Sinatra. E também um papo que ele, Bockris, promoveu entre William Burroughs (de quem era amigo) e Reed, um pouco mais interessante, mas que apenas comprova boa parte da tese do livro de que Reed era mesmo um cuzão.

Aliás, toda a segunda metade do livro parece um grande apêndice, parece ter sido escrita apressadamente e sem fontes sólidas e confiáveis. A segunda metade do livro é, na verdade, um desastre.

A impressão que tive é que Bockris estava fazendo um bom trabalho de pesquisa e escrevendo com esmero durante muitos anos o que seria a biografia definitiva de Lou Reed. Os editores quiseram publicar uma versão para aproveitar uma repentina popularidade que Reed alcançou no início dos anos 1990 com os lançamentos de “New York” e “Magic and Loss” e a biografia inacabada escrita por Bockris saiu em 1994.

Bockris sabia que teria tempo para trabalhar melhor e rechear lacunas do que havia sido publicado e tentar entrevistar pessoas que realmente tivessem tido contato mais direto e íntimo com o músico. Em 1994, Reed estava com 52 anos, limpo de álcool e drogas há um bom tempo, praticando Tai Chi Chuan, iria durar muito.

Mas certamente Bockris foi fazer outras coisas e o tempo passou e vinte anos depois, Lou Reed morto, os editores quiseram que ele corresse para lançar a biografia definitiva, mas ele tinha 40 anos da vida de Lou Reed para pesquisar, entrevistar pessoas e escrever e… O resultado é o livro que temos aí: um requentado de histórias conhecidas, compiladas de entrevistas de personagens do segundo time, curiosidades tiradas da internet, algumas opiniões esquisitas do autor (como, por exemplo, “Esse é o melhor álbum que Lou já fez”, ao se referir ao “Lulu”), pensatas de mau gosto do autor no meio da narrativa (ex: “O ato de amor é dar seu tempo para o ser amado”), além de nomes simplesmente encurtados ou escritos errado (a primeira vez que o autor se refere ao disco “Set the Twilight Reeling” ele o chama apenas de “Twilight”; em uma mesma página, ele chama o disco “Live in New York”, de Laurie Anderson, também de “New York Live”).

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A primeira metade do livro, que trata dos primeiros 30 anos de Reed, sua adolescência, o início na música, o início e o fim do Velvet, o início da carreira solo, é melhor e mais empolgante, com informações interessantes. Por exemplo: ficamos sabendo que os pais de Reed não eram aqueles monstros que estão nas músicas. Sempre achamos que os pais encaminharam o garoto para os choques elétricos para curar sua homossexualidade, mas eles ficaram compadecidos da experiência e também desenvolveram traumas sobre isso. O encaminhamento foi feito por um médico maluco e os choques eram dados com o garoto desacordado. (Não há dúvida que a experiência foi terrível, mas Reed faturou em cima dessa história, inclusive justificando, já no futuro, seu comportamento  autoritário e abusivo).

Nesta primeira metade ficamos conhecendo a namorada de Reed, Shelley Albin, para quem ele compôs “I´ll be Your Mirror” (não foi para Nico) e “Pale  Blue Eyes” (quando ela se casou com outro) e sua primeira esposa, Bettye Kronstad (abaixo), uma garota quadrada, que era constantemente abusada por Reed – ele gostava de socar a cara dela, aparentemente gostava das marcas roxas que os socos causavam.

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Também ficamos sabendo que Reed se considerava melhor guitarrista que Jimi Hendrix (quando caiu sua ficha, deixou de tocar por um tempo, não tocou guitarra no seu primeiro disco solo). Também que o primeiro disco solo teve capa desenhada pelo “artista responsável pelas capas dos livros de Raymond Chandler”, uma informação interessante, mas não diz o nome do artista – defeitos desse tipo permeiam o livro. O artista é Tom Adams. Engraçado: tirando a capa do disco “Transformer”, que foi clicada pelo amigo Mick Rock, Bockris não fala mais nada sobre as capas ou projetos gráficos dos discos de Reed, infelizmente.

Tem besteiras nessa primeira parte também. Quando vai comentar a associação de Reed com Bowie, Bockris escreve que Bowie era um colaborador tão importante quanto Warhol, só que “mais comercial”. O disco produzido por Bowie vendeu mais mas não sei se a abordagem de Bowie pode ser chamada de comercial. E a parceria terminou nesse disco, depois Reed foi lamentar o colapso de seu casamento com Bettye em “Berlin”, produzido por Bob Ezrin. Sobre “Berlin”, achei interessante a informação que o guitarrista Jack Bruce escreveu boa parte da parte musical do álbum – sempre achei que musicalmente, “Berlin” destoava demais de toda obra reediana.

Com o fim do casamento, Reed passa a se relacionar com Barbara Hodes e eu mesmo me questionei, neste ponto, sobre o ícone homossexual que Reed tinha se transformado sendo tão… heterossexual.  Bockris filosofa sobre isso: “Desde a faculdade, ele era bissexual praticante. Contudo, amigos que o conheceram bem durante o final dos anos 1970 e começo dos anos 1980, provavelmente o período mais vulnerável de sua carreira diante do público, acreditavam que ele fosse gay, mas como vinha do mundo dos anos 1950, no qual as pessoas desprezavam as bichas, Lou também desprezava as bichas e odiava ser uma bicha” (pág. 302).

Em meio a todas as informações já bastante conhecidas pelos fãs, Bockris conta sobre a adição de Reed em sorvete de café, sobre dois tapas que Reed deu em Bowie em um restaurante (Bowie fez um comentário sobre as composições de Reed estarem muito cruas) e sobre como Reed ficava dias sem comer, apenas a base de metanfetaminas.

lou rachel

O meio do livro de Bockris, quando descamba para a falta de fontes confiáveis e informações interessantes, é justo quando Reed se junta a Rachel, sua companheira que “seria” transsexual. Uma investigação mínima sobre Rachel seria importante, penso eu. O que realmente era Rachel? Afinal, depois de Rachel, Reed se casa com Sylvia Morales, uma mulher com o biótipo de Rachel…

Num ponto, no início da segunda metade do livro, Bockris faz duas alegações complicadas: 1) “Como conjunto da obra, os discos solos de John [Cale] são indiscutivelmente superiores aos de Lou”; 2) “A influência de Cale no punk também foi sem dúvida mais forte que a de Reed” (páginas 284 e 285). Obviamente, trata-se da opinião de Bockris, que é amigo de John Cale e muita gente boa terá argumentos para dizer o contrário.

(Embora eu ache que o primeiro disco solo de Cale é infinitamente superior ao primeiro disco de Reed)

Fiquei bastante chocado – mas pode ter sido o peso da mão de Bockris – com o trecho que fala da relação de Reed com Robert Quine, o guitarrista que moldou o som de reed nos anos 1980 e fez com que Reed voltasse com tudo para a guitarra. Quine foi um dos entrevistados de Bockris para o livro. Reed foi incrivelmente filho-da-puta com Quine, um sujeito amável e gentil, usando-o para desenvolver uma sonoridade que abraçou como sua, dispensando-o na sequência. Enciumado das críticas (positivas) que seus discos vinham tendo destacando Quine, Reed abafou o som da guitarra dele no disco “Legendary Hearts”, por exemplo. Na turnê de divulgação do disco, encrencava com Quine por besteiras; uma vez proibiu o guitarrista de usar óculos escuros no palco – o que era uma marca registrada dele.  E proibia o pessoal da trupe a sair, beber ou usar drogas. A turnê seguinte, de “New Sensations” foi apelidade de “No Sensations” pelos músicos.

Lou Reed Robert Quine 1984

O Lou Reed adorador de dinheiro também aparece nesta segunda metade do livro de Bockris: ele divide as contas nos restaurantes, vende direitos das músicas para comerciais e até aparece em alguns deles, coloca advogados graúdos para ser e continuar sendo o único detentor dos direitos das músicas do Velvet.

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Duas informações curiosas fizeram essa segunda parte do livro valer a pena para mim: 1) o motivo da segunda e definitiva separação de Reed e Warhol foi um comentário levemente sarcástico de Warhol, enquanto faziam uma viagem de carro por um campo nevado. Reed achou que o motorista ia muito rápido e pediu para que fosse mais devagar. Warhol, com voz afetada, superior e aguda, disse: “você não teria dito isso alguns anos atrás”. Foi o suficiente para um melindroso Lou Reed nunca mais falar com o homem que o descobriu e, inicialmente, o patrocinou; 2) Mike Rathke, ora veja, o grande guitarrista de sua super banda, que moldou a nova dinâmica sonora reediana a partir de “New York”, só foi chamado por Reed por ser seu concunhado, casado com a irmã de Sylvia! (Achei que Reed tivesse feito uma grande audição para encontrar o seu novo super guitarrista, mas não…)

Os dois momentos mais importantes da, digamos, fase final da vida de Reed, a reunião do Velvet e o casamento com Laurie Anderson, são tratados de maneira rasteira. A reunião do Velvet serve para reforçar o perfil maníaco por controle, o cuzão autoritário, que continuou sendo Lou Reed. Na avaliação de Bockris, “separar a banda outra vez era uma guinada tão forte na carreira [de Reed] quanto reuni-la” – ou seja: a opção de Reed de implodir a banda mais uma vez, não abraçar a turnê mundial ou o especial que a MTV preparava foi uma decisão estratégica para fazê-lo ficar na mídia, no topo. Acho bem discutível, tem outros fatores que Bockris não pesquisou ou não quis colocar.

Credit: Leon Morris / RedfernsAgency: Redferns

Credit: Leon Morris / Redferns Agency: Redferns

O casamento com Laurie parece algo idílico demais no livro. Bockris fala, por alto, em traições e num cara “negro e mais velho, um guarda do Museu de História Natural” que Reed via desde o fim do casamento com Sylvia. Teria mesmo existido tal caso? Quem é esse sujeito? Uma relação relativamente duradoura não teria reflexo na obra do músico, em alguma canção?

Aí, nesse entrecho final onde Reed, aos 50 e poucos anos, descobre o amor, a lealdade, a amizade, a escrita de Bockris fica constrangedora, ele começa a fazer análise dos discos de Reed e Anderson, estabelecendo conexões estranhas entre as músicas para suprir o trabalho de entrevistas e pesquisas que ele devia ter feito para escrever aquela parte. O tempo urgia, os editores estavam cobrando e, então, ele deve ter resolvido “deduzir” os últimos 10 ou 15 anos de Reed com Anderson através das músicas que ambos colocaram em seus discos. As últimas 100 páginas do “Transformer” de Bockris não devem ser consideradas.

LOU ANDERSON

Há uma anedota que envolve Bob Dylan, no livro de Bockris: Lou, Sylvia e o guarda costas deles, Big John Miller, caminhavam por um campo nos bastidores do Farm Aid quando viram Dylan indo na direção deles. De repente, Dylan abriu os braços e um sorriso e correu em direção a eles. Reed ficou emocionado, abriu os braços e esperou o abraço do ídolo. Mas Dylan passou direto por Reed e abraçou seu querido amigo e ex-guarda-costas Big John. Reed ficou inconsolável, olhando para os próprios sapatos.

Do jeito que Bockris pinta Reed é o momento que a gente pensa: “bem feito, seu filho da puta!”

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