meus filmes preferidos do século XXI até agora :)

2001:

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01 – Frailty (A Mão do Diabo) – Paxton

02 – The Royal Tenenbaums (Os Excêntricos Tenenbaums) – Anderson

03 – Lord of the Rings – The Fellowship of the Ring (O senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel) – Jackson

04 – A.I. Artificial Intelligence (Inteligência Artificial) – Spielberg

05 – Amélie Polain – Jeunet

06 – The Others (Os Outros) – Amenábar

07 – Donnie Darko – Kelly

08 – Ali – Mann

 

2002:

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09 – Bubba Ho-Tep – Coscarelli

10 – The Pianist (O Pianista) – Polanski

11 – Gangs of New York (Gangues de Nova Iorque) – Scorsese

12 – Signs (Sinais) – Shyamalan

13 – Irreversible (Irreversível) – Noe

14 – Adaptation (Adaptação) – Jonze

15 – About Schmidt (As Confissões de Schmidt) – Payne

16 – Spider Man (Homem Aranha) – Raimi

17 – Cidade de Deus – Meirelles/Lund

2003:

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18 – Oldboy – Chan-wook

19 – Dogville – Von Trier

20 – Kill Bill – Volume I – Tarantino

21 – Mystic River (Sobre Meninos e Lobos) – Eastwood

22 – O Homem que Copiava – Furtado

23 – X-Men 2 – Singer

2004:

24 – Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças) – Gondry

25 – Kill Bill Volume II – Tarantino

 

2005:

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26 – A History of Violence (Uma História de Violência) – Cronenberg

27 – Sin City – Miller/Rodriguez

28 – Match Point – Allen

2006:

29 – Pan’s Labyrinth (O Labirinto do Fauno) – Del Toro

30 – The Departed (Os Infiltrados) – Scorsese

31 – The Host (O Hospedeiro) – Joon-ho

32 – O Cheiro do Ralo – Dhalia

 

2007:

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33 – – Atonement (Desejo e Reparação) – Wright

34 – Eastern Promisses (Senhores do Crime) – Cronenberg

35 – Planet Terror (Planeta Terror) – Rodriguez

36 – The Mist (O Nevoeiro) – Darabont

37 – 30 Days of Night (30 Dias de Noite) – Slade

38 – Saneamento Básico – O Filme – Furtado

39 – Não Por Acaso – Barcinski

40 – Zodiac (Zodíaco) – Fincher

 

2008:

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41 – Synecdoche, New York – Kaufman

42 – Let the Right One In (Deixe Ela Entrar) – Alfredson

43 – Gran Torino – Eastwood

44 – Iron Man (Homem de Ferro) – Favreau

45 – The Dark Knight (O Cavaleiro das Trevas) – Nolan

46 – Lake Mungo – Anderson

47 – Tropical Thunder (Trovão Tropical) – Stiller

 

2009:

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48 – Get Low (Segredos de um Funeral) – Schneider

49 – Watchmen – Snyder

50 – District 9 (Distrito 9)– Blomkamp

51 – Drag me to Hell (Arrasta-me para o Inferno) – Raimi

2010:

52 – Sound of Noise (O Som do Ruído) – Simonsson-Nilsson

53 – Audition (Audição) – Miike

54 – Shutter Island (Ilha do Medo) – Scorsese

 

2011:

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55 – Kill List – Wheatley

56 – Headhunters – Tyldum

57 – Attack the Block (Ataque ao Prédio) – Cornish

58 – Midnight in Paris (Meia-Noite em Paris) – Allen

59 – Source Code (Contra o Tempo) – Jones

 

2012:

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60 – Berberian Sound Studio – Strickland

61 – The Avengers (Os Vingadores) – Whedon

62 – Relatos Salvajes (Relatos Selvagens) – Szifron

63 – Final Cut, Ladies and Gentlemen (Senhoras & Senhores, Corte Final) – Pálfi

 

2013:

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64 – Blue Ruin (Ruína Azul) – Saulnier

65 – Upstream Color – Carruth

66 – La Grande Bellezza (A Grande Beleza) – Sorrentino

67 – About Time (Questão de Tempo) – Curtis

68 – Blue Jasmine – Allen

69 – Las Brujas de Zagarramurdi (As Bruxas de Zagarramurdi) – Iglesia

70 – Big Bad Wolves – Keshale-Papushado

2014:

71 – The Grand Budapest Hotel (O Grande Hotel Budapeste) – Anderson

72 – Whiplash (Em Busca da Perfeição) – Chazelle

73 – Captain America – Winter Soldier (Capitão América – Soldado Invernal) – Russo

74 – Guardians of the Galaxy (Guardiões da Galáxia) – Gunn – 2014

75 – It Follows (Corrente do Mal) – Mitchell

76 – What we do in the Shadows (O Que Fazemos nas Sombras) – Waititi

 

2015:

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77 – Mad Max: Fury Road (Mad Max: Estrada da Fúria) – Miller

78 – Star Wars – Episode VII: The Force Awakens (Star Wars: O Despertar da Força) – Abrams

79 – The Gift (O Presente) – Edgerton

80 – Jurassic World (O Mundo dos Dinossauros) – Trevorrow

81 – Que Horas Ela Volta – Muylaert

82 – O Lobo Atrás da Porta – Coimbra

 

2016:

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83 – La La Land (La La Land: Cantando Estações) – Chazelle

84 – Nocturnal Animals (Animais Noturnos) – Ford

85 – Doctor Strange (Doutor Estranho) – Derrickson

 

2017:

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86 – First Reformed – Schrader

87 – I, Tonya (Eu, Tonia) – Gillespie

88 – I Don’t Feel at Home in This World Anymore (Eu Não Me Sinto mais em Casa neste Mundo) – Blair

89 – Wonder Woman (Mulher Maravilha) – Jenkins

90 – Logan – Mangold

91 – Baby Driver – Wright

92 – Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (Três Anúncios para um Crime) – McDonaugh

93 – Wind River (Terra Selvagem) – Sheridan

94 – Lucky – Lynch

95 – Mr & Mme Adelman (Monsieur & Madame Adelman) – Bedos

2018:

96 – The Guilty (A Culpa) – Moller

97 – BlackKlansman (Infiltrado na Klan) – Lee

98 – Black Panther (Pantera Negra) – Coogler

2019:

99 – Parasite – Bon-ho

100 – Joker – Philips

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20 livros preferidos & influentes

Cresci em uma casa sem livros. Um primo de meu pai tinha uma oficina mecânica e gostava de desenhar e de histórias em quadrinhos, na oficina dele, nos fundos, tinha uma saleta com alguns gibis, eram gibis antigos, suplementos de jornais, com histórias em quadrinhos em preto e branco, eu não sabia o que era aquilo direito, mas foi algo marcante e eu rezava pro carro do meu pai quebrar só para ir naquele pequeno paraíso de imagens e histórias. A oficina não era muito longe de casa e, depois, um pouco mais crescidinho, com 12 ou 13 anos, eu ia até lá de bicicleta e ficava umas horas na saleta lendo aquilo: HQs do Príncipe Valente, Flash Gordon, O Fantasma, Homem Borracha, Mandrake, Nick Holmes, Recruta Zero, entre vários outros. Começava a paixão pelos quadrinhos e por ler. Às vezes o primo Fleury me emprestava alguns exemplares, e eu levava para casa. Alguns poucos estão comigo até hoje – e guardo como tesouro.

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Depois, meu pai comprava gibis pra mim, a turma da Mônica, Heróis da TV e quadrinhos nacionais de terror. Depois a revista Mad.

Eventualmente, eu ia dormir na casa de um tio e ele tinha livros. Alguns eram de ocultismo e eu gostava de folhear aquilo, embora me desse um pouco de medo. Também havia livros de bolso, da série ZZ7, com as capas do Benício da Fonseca e as aventuras sensuais da agente Brigitte Montfort. Se eu escrevesse um livro um dia, pensava, gostaria de ter uma capa como aquela – foi um sonho conquistado, Benício faria a capa do meu A Comédia Mundana, para minha grande satisfação. Creio que foi sua última capa desenhada.

Os livros de ocultismo de meu tio foram a porta de entrada para os livros de terror e mistério, que abracei na sequência, frequentando a biblioteca municipal. Li Agatha Christie, Conan Doyle e Maurice Leblanc. E depois Stephen King e os similares. Na escola, davam os livros da Coleção Vagalume – acho que li quase todos – até que chegou o momento de O Gênio do Crime, do João Carlos Marinho, pelo qual me apaixonei.

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Acho interessante como O Gênio do Crime me influenciou a escrever; vejo muito dele nos meus livros, que foram escritos mais de vinte anos depois. Em Elvis & Madona fiz uma homenagem ao Marinho, recriando a famosa cena da perseguição ao contrário do Gênio.

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Aí, então, já mais crescidinho, a escola pediu que lêssemos O Cortiço, do Aluísio Azevedo, e aquilo foi um choque pois, claro, era literatura de adulto. Eu devia ter uns quinze anos.

De Azevedo, passei para Machado de Assis e seu Dom Casmurro e, depois, para alguns clássicos que eram adaptados – eram muito comuns, não li Moby Dick ou Os Três Mosqueteiros nas versões integrais, mas as adaptações resumidas que saíam, muitas delas feitas pelo Carlos Heitor Cony. Também procurava por adaptações em quadrinhos e havia uma coleção que trazia vários títulos de Shakespeare e Dickens com desenhos elaborados. Eu estava pronto para leituras mais densas e então lembro de ter lido três livros que gostei muito e que me mostraram o poder da literatura: O Exorcista, do William Peter Blatty; O Apanhador no Campo de Centeio, do Salinger; e Crime e Castigo, do Dostoiévski.

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Um amigo de colégio gostava muito de ler e me apresentou Herman Hesse e o Lobo da Estepe e achei aquilo interessante mas não me bateu. Gostava – e ainda gosto muito mais – dos romances mais lineares e menos viajandões, menos experimentais. Minha escrita vai muito por esse caminho, acho. Mas esse amigo me apresentou algo completamente novo e incrível: Henry Miller e seu Trópico de Câncer. Uau.

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Achava que aquilo era um passo além de O Cortiço e li todos os livros de Miller com grande interesse e depois sua biografia e fiquei fascinado por ele. Lia alguns dos autores que ele citava, procurei por referências, fiquei um bom tempo com Miller. Aí, então, eu fui trabalhar no Unibanco e – incrível! – o banco contava com uma grande biblioteca em sua sede e os funcionários podiam solicitar os livros para ler e eles chegavam via malote! Li vários títulos através desse sistema e um deles, que peguei pelo título, entrou em minha lista de favoritos: Fabulário Geral do Delírio Cotidiano – Ereções, Ejaculações e Exibicionismos, de Charles Bukowski.

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O título, assim como o texto, bastante explícito, me influenciaria bastante. Li muita coisa de Bukowski e, hoje, acho Misto Quente melhor que O Apanhador no Campo de Centeio.

Por essa época, comecei a escrever e me achava poeta. Até participei, com patrocínio do Unibanco, de um concurso nacional e tirei uma menção honrosa com uma juntada de poemas – nem os tenho mais, para benefício da humanidade. Foi quando passou na TV Cultura a série O Poder do Mito, do Joseph Campbell com o Bill Moyers, e eu assisti por acaso, simplesmente mudando minha vida. Comprei o livro depois e me posicionei como ateísta, simplificando minha vida consideravelmente.

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De Campbell, fui para algumas leituras de mitos e acho que aí cheguei a Jorge Luis Borges. Acho que o primeiro foi O Aleph. Mas foi o Ficções que me pegou. Ficava relendo o livro, tentando imaginar o que ali podia ser verdade, o que não era, e de onde aquele sujeito tirava aquelas coisas todas. Li tudo o que pude de Borges, a biografia catatau do Williamson, mas aquilo tudo me enfastiou um pouco e, hoje, acho que gosto mesmo só do Ficções e um pouco menos do Aleph.

Aí eu já tinha saído do banco e ido trabalhar em uma pequena emissora de TV local, tendo contato com o jornalismo. Pensava em ser jornalista – acabei me tornando, pelo ofício, e trabalhei mais de vinte anos em televisão, mas me via sempre mais como um escritor e comunicador do que jornalista. Ainda me vejo. Mas, quando se está em um meio profissional, é meio inevitável que literatura relacionada lhe caia no colo e, então, eu estava lendo livros com reportagens, um tipo pelo qual criei grande gosto. E então teve A Sangue Frio, do Truman Capote.

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Eu queria escrever igual e um livro igual. O que consegui, misturando O Gênio do Crime, Miller e Bukowski e Capote, foi meu A Comédia Mundana, depois. Foi o que eu realmente queria ter feito. Fico feliz pelo que consegui.

O jornalismo literário me pegou e fui ler Gay Talese e toda a turma e gostei do experimentalismo louco do Wolfe do primeiro momento, a arrogância do Mailer, a classe do Joseph Mitchell, mas o que bateu forte foi a demência de Hunter Thompson. Era o momento em que a internet nascia e eu comecei a experimentar alguns textos, algumas reportagens, críticas e alguns relatos de viagem emulando Thompson. Foi interessante descobrir que mais gente estava interessada por ele. Durante muito tempo me diverti lendo Thompson e acho que ele teve influência em algumas coisas da minha escrita – há um pouco dele no meu A Viagem de James Amaro, mas não há um Grande Livro dele para constar aqui. Do jornalismo literário, hoje, prefiro a Janet Malcolm, que conheci há pouco.

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Eu escrevia meu primeiro romance, Virgínia Berlim, e estava lendo sobre mitos do amor, relendo Campbell, até que me deparei com A Dupla Chama – Amor e Erotismo, do Octavio Paz, que logo entrou na minha lista de preferidos de todos os tempos.

Acho que o livro está fora de catálogo no Brasil, o que é uma pena. Meu volume está todo anotado, todo riscado, e é um dos poucos que não empresto, absolutamente. Paz simplesmente conta a história do Amor. É um livro que me posicionou na vida também.

E aí chegamos a Philip Roth, talvez meu ideal de escrita. Existem todos esses livros maravilhosos do Roth, mas o que realmente me pegou foi Homem Comum, que inicia sua terceira fase, de livros curtos e rápidos e contundentes. Eu já tinha escrito alguns livros, estava me preparando para Elvis & Madona (acho) e Homem Comum mudou uma percepção minha sobre livros caudalosos, com muitos personagens, mostrando que a coisa toda pode se concentrar em alguns poucos personagens.

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Acho que depois de Homem Comum e da escrita de Elvis & Madona, direcionei-me para histórias menores, menos personagens e mais concisão. Foi a meta de A Viagem de James Amaro. E de meu recente Quatro Velhos.

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Um dia, em um sebo, vi um livro do Jim Dodge, de Fup, com uma capa horrível, e decidi levar. Entrava na minha vida um livro que acho incrível, não só pela história e a sua forma – é um livro de formação – mas pelo que ele tem de sobrenatural. Acho que também está fora de catálogo no Brasil, mas pode ser encontrado em sebos por bagatela. É O Enigma da Pedra.

Não sabemos porque alguns livros no batem tão fortemente, mas esse é um que me bateu. Escrevi brevemente sobre ele uma vez. Queria escrever algo parecido, um dia.

Também, às vezes, uma resenha nos chama a atenção para um livro. Li num jornal, um dia, sobre Tanto Faz, do Reinaldo Moraes. Decidi ir atrás do livro, justo em um momento em que entrava no mundo do jazz, começava a ouvir jazz com mais atenção e a ler e pesquisar sobre o estilo. Vi um livro totalmente jazzístico, a começar pelo título. Achei incrível, fiquei fascinado e fui atrás de todos os livros do Reinaldo – e foi uma satisfação, depois, estar com ele em alguns eventos literários e saber que ele conhecia minha Comédia Mundana.

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Um pouco do estilo do Reinaldo também está em A Viagem de James Amaro, minha tentativa de estruturar um livro a partir do jazz de formação clássica e tonal.

Sempre gostei também de biografias e queria citar quatro das muitas que li, que me influenciaram e me encheram de prazer. A primeira, lida há muitos anos, é a de Baudelaire, escrita por Henri Troyat, e que mostra de maneira muito clara a formação psicológica de um autor comprometido psicoticamente com o que acredita. Troyat teve acesso a correspondência de Baudelaire e é tudo muito incrível. A segunda, é a de Balzac, curta, sintética, escrita pelo Paulo Rónai, tradutor do francês no Brasil, que dá um panorama geral do momento histórico e da personalidade do autor de A Comédia Humana, inspiração colateral para minha Comédia Mundana. A terceira é A Deusa – As Vidas Secretas de Marilyn Monroe, de Anthony Summers, espécie de protótipo de investigação do que viriam a ser as biografias no Século XX. Summers fala com centenas de pessoas, investiga profundamente a história da atriz e nos entrega uma nova realidade sobre ela, diferente da história oficial, ajudando a criar um novo mito – o livro foi base para tudo o que se conjecturou sobre ela depois, sobre a morte da atriz, sobre o envolvimento dos Kennedy, etc… Recomendo muito.

O quarto, é a bio de Leonard Cohen, o cantautor e poeta canadense, escrita pela Sylvie Simmons, que nos dá uma dimensão incrível da cabeça de uma pessoa criativa e sensível. Escrevi sobre o livro aqui.

Para encerrar… Nelson Rodrigues. Por tudo, pelo conjunto da obra, não dá pra indicar uma. Fui lendo Nelson ao longo dos anos e é impressionante o que ele criou. É referência e influência pra mim.

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É isso.

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Um guru necessário: Atenção. de Alex Castro

Há uns sete anos, eu almoçava com Alex Castro num restaurante em Copacabana, quando tive uma espécie de visão antecipatória. Ok, não vamos exagerar: conhecia Alex há mais de dez anos, quase desde o início do seu blog Liberal Libertário Libertino, quando ele falava do projeto As Prisões; sabia que ele tinha a intenção de transformar aquelas ideias em um livro, estava tateando sobre como fazer, e percebia a resistência que ele de certa forma se impunha: não queria que aquelas dissertações coloquiais soassem como cagação de regra, como se ele fosse alguém, bem, iluminado, algum tipo de pensador muito certo de suas conclusões, dizendo como as pessoas deviam pensar & se comportar. Ele não queria ser um guru. Ele não estava convicto de que enfaixar aqueles textos num livro fosse resultar em algo dinâmico, duradouro e que seria lido da maneira correta; mais como linhas de pensamento para pensar junto com o leitor que linhas estabelecidas e inflexíveis sobre a vida, o universo e tudo o mais. Eu, puro e besta, forçava-o ao contrário, dizia que ele devia publicar o quanto antes, antes que alguém fizesse algo parecido, antes que surgisse algum espertalhão que ousasse ir contra os padrões estabelecidos, as verdades e pressões sociais da tradição & da História sobre o indivíduo, aquilo que ele questionava e levava o leitor a pensar nos textos dAs Prisões.

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Surgiram pessoas questionando o formato do planeta, a gravidade, negando a ditadura, dizendo que o nazismo é de esquerda, enfim, o mundo da pós-verdade se estabeleceu sem questionar as mentiras mais duradouras e evidentes que aprisionam o ser humano, a saber, o dinheiro, o trabalho, a monogamia, o sucesso, a felicidade, as bolas de ferro mentais e emocionais que o indivíduo arrasta pela vida, como diz Alex – ok, os temas foram tratados pontualmente por um autor ou outro, por um filósofo desta ou daquela linha, por coachs (maldição!), por psicólogos, mas, aí é que está, não de maneira geral e ampla, com linguagem para o cidadão comum e, importante!, partindo de um conceito original, esse, criado por Alex, o da Outroajuda.

Touché.

Voltando ao almoço daquele dia lindo e ensolarado, falei a Alex que não importava se ele queria ou não ser visto como guru da geração, isso era algo que estava ligado ao ego dele, o que se pode querer ou não… Ele devia fazer o que ele devia fazer, independente de como seria visto ou chamado. Ele não me deu bola, disse que não era hora – e voltou para o seu peixe frito.

Mas eu estava certo.

Ele então ingressou no zen-budismo e burilou seus textos dAs Prisões em uma série de encontros de Outroajuda, uma espécie de instalação artístico-literária, que acabou ajudando-o na definição de conceitos e na criação de termos únicos e exclusivos para a sua literatura e para entender o Brasil e o mundo de hoje: a outrofobia e a outroajuda. A outrofobia foi tratada em livro com mesmo título e, agora, sai “Atenção.”, o livro que trata da outroajuda. Alex conseguiu alcançar um estado tal de desprendimento de ego que já não se importa como vai ser chamado – e já há quem ache que seus livros são algum tipo de “autoajuda com outro nome, para enganar o pobrezinho do leitor”. Mas ele já não liga: os textos de “Atenção.” são carregados de autossuficiência e posição, energia e direção, conceito e fato concreto, análise e conclusão certeiras, sem que ele se importe se vão achar que está cagando regras.

Não está, mas não se pode controlar o leitor mais despreparado.

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É preciso dizer: é um livro para leitores preparados para receber esse tipo de informação, de raciocínio. É preciso querer pensar – algo raro nos nossos dias. É preciso ler com atenção, esse livro chamado “Atenção.”.

Estou feliz pelo Alex, por esse livro e por ele ser o guru certo, neste momento certo. Um guru necessário.

Alex estará em Americana (SP) dia 31 de março para a palestra Atenção como Commodity, na Semana de Tecnologia da FAM – Faculdade de Americana, 19h. Entrada gratuita, patrocínio da Vegas Card.

E no dia seguinte, 1 de maio, nós dois lançamos nossos novos livros na Flipoços. Vai rolar um bate-papo com o público sobre os primórdios da internet. Eu e Alex somos uns dos primeiros a lançar e-books no Brasil.  Vamos lá? 🙂

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desafio dos 10 discos que mais ouvi na vida

tive que pensar bastante sobre isso. não são os meus discos preferidos de todos os tempos (alguns são), mas sim aqueles discos que eu ouvi muito mesmo, sei a ordem das músicas, conheço as canções de coração (de cor), por um motivo ou outros esses discos estão incorporados à minha vida. então:

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duplo, né? minha tia rita tinha na casa dos meus avós e eu ficava ouvindo e acompanhando as letras. depois comprei o vinil e ainda ouço. devo ter ouvido umas mil vezes e amo.

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quando esse disco saiu eu tinha 17 anos e comprei na única loja de discos da cidade e tenho até hoje. esse disco e 17 anos, rapaz…

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quase não conheço nada do marillion antes ou depois desse disco, mas acho que é o disco que levaria para uma ilha deserta se pudesse levar só um.

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também comprei quando saiu e acho que meio que me introduziu no jazz, em tudo o que fui gostar depois. ouço muito, muito, até hoje.

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então, esse é o disco que está no prato neste momento, acho que é o meu preferido do jazz.

6

esse é um disco pop considerado menor do RC, mas eu o amo. ele estava em uma pilha de descarte em uma emissora de rádio onde trabalhei, lá por 1990 e eu levei pra casa e está aqui ❤

9

o disco do LR que mais ouvi foi o primeiro, um best of, mas acho que esse foi o segundo. esse ou transformer…

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um dos primeiros discos que comprei na vida, assim que foi lançado, e eu ficava trancado no quarto ouvindo as canções estranhas e me achando muito gótico 🙂

8

primeiro disco do EC que comprei, quase que pela capa… tava passando na loja e vi essa capa extravagante e comprei. depois ouvi tudo dele.

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bom, o VC produzido pelo michael stipe é um dos meus discos preferidos de todos os tempos, comprei o cd em digipack quando ninguém fala do vic…

menção honrosa para esse que não tenho mais, ouvi demais, ainda quero comprar de novo para ouvir em vinil só:

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em breve penso nos nacionais. quer dizer, o NOUVELLE CUISINE é nacional, mas vai nessa lista mesmo.

😉

 

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Essa geração de escritores brasileiros tem personagens odiosos?

[A propósito deste texto de Tiago Germano]

A principal questão levantada no artigo de Tiago Germano, que abre e fecha seu texto, é:como é possível que, com personagens tão antipáticos, a narrativa de nossa geração não pareça tão profundamente odiosa para o leitor do futuro?”. Durante o artigo, porém, Tiago não investiga os tais “personagens” da atual “narrativa geracional”, a não ser um odioso escritor, chamado propositalmente Graciliano, personagem principal do livro de Paulo Scott, “O Ano em que Vivi de Literatura”, que é, como o próprio artigo explica, uma paródia do escritor brasileiro contemporâneo, mais ou menos da geração de Scott. Ou seja: a questão de Germano está contaminada pela metalinguagem, pela confusão que ele mesmo criou ao escolher um único personagem, odioso, que é escritor e que emula escritores de uma geração, como parâmetro, tornando todo escritor desta geração, odioso e, por consequência, todos os seus personagens.

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Desenhos de Fabio Zimbres, utilizados na capa do livro de Scott

Apesar de talvez todos os escritores desta geração serem meio odiosos (hehehe) talvez os seus personagens não sejam. É, mais uma vez, a confusão de autor/criação, amplificada pelo exemplo pinçado por Germano.

Mais adiante, em seu texto, Germano cita um dos escritores mais bem-sucedidos desta geração, Daniel Galera (Galera não concorda com essa epítome, que usei em uma facilitação que fiz com ele no SESC Campinas há pouco tempo). Galera teria dito que “O que distancia minha geração das anteriores é o narcisismo e a carência elevados a ethos predominante”. Interessante: talvez a chave esteja no “ethos” que pode ser o âmbito da internet – e mais especificamente, das redes sociais, atualmente – que foi de onde surgiu praticamente toda a geração de Galera e Scott. Acompanhamos, como leitores deste tempo, não o surgimento deste ou daquele autor mas a sua construção. E isso nos dá muita informação sobre esse autor, a ponto de quase não conseguirmos dissociar o autor da obra, confusão intrínseca no texto de Germano.

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Voltando ao caso de Galera: eu o leio há vinte anos, antes de ele se tornar romancista; lia no CardosOnline, fanzine em .txt enviado por e-mail em fins dos anos 1990. Vi o jovem e seu interesse por coisas específicas, falando de sua vida e da interação com amigos e sua cidade, dos livros, discos e filmes que consumia e, depois  vi nascer o contista a partir de seus textos no fanzine e, depois, o romancista a partir dos contos. Esse tipo de coisa quase não se tinha há vinte anos: você não tinha muitas informações a respeito do novo autor, cujo livro encontrava na estante da livraria, além do que havia na orelha (se havia) ou de alguma resenha no jornal (impresso, diga-se) – para quem tinha acesso a jornal.

Hoje, essa construção é ainda mais exposta, através das redes sociais. É difícil que um escritor dessa geração não esteja ali, no Facebook – e Galera não está, o que talvez comprove minha tese que ele, sendo o mais bem-sucedido autor de sua geração (hehehe), está um passo acima de todos os outros, sem a necessidade de exposição e segurando seu narcisismo e carência (hehehe) em detrimento de uma escrita que não se contamine com sua personalidade. Mas o que sobra a todos os outros, reles mortais, senão a exposição de si mesmo nessa grande rede para se fazer visto, lembrado, conhecido, para fazer contatos com outros escritores, editores, críticos e todo o mundo da literatura?

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Dois de centenas de grupos de escritores no Facebook. Só os 2, mais de 40 mil escritores.

Assim, prosseguindo aquela incrível lógica daquele meme que diz que “Jesus só te ama porque não convive com você”, os escritores seguem expondo diariamente suas referências, angústias, carências, medos, humanidade, no fim, construindo uma imagem antes de uma obra, que acaba contaminada, fazendo com que potenciais leitores só se interessem por ela (a obra) a partir da ideia que têm do autor – essa pessoa narcisista e carente, inserida no ethos predominante que expõe e amplia essas características. Nesse meio todo, existem os incríveis ruídos de comunicação, mas essa é outra história.

Seria preciso uma leitura das obras contemporâneas para além dos autores, sem essa contaminação, para detectar o perfil de seus personagens e verificar se são realmente odiosos. É certo que temos muitos livros cujos personagens são escritores, mas essa também é outra história.

Talvez a pergunta que Germano tenha formulado seja: “como é possível que, com escritores tão carentes e narcisistas (ou, talvez, jovens e muito expostos), a narrativa da nossa geração não pareça tão imatura (ou, talvez, umbiguista e desinteressante) para o leitor do futuro?”. Colocado assim, penso que não há saída: poucos, muito poucos, produzem algo de relevante e que vai sobreviver no futuro. E sempre foi assim, independente dos níveis de carência, narcisismo ou deslumbramento, sempre restam poucos autores realmente relevantes em cada geração e, como Germano diz em seu artigo, alguns personagens são realmente odiosos e interessantíssimos. Assim como alguns autores.

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Entre em um sebo e veja os nomes completamente desconhecidos de uma legião de autores nacionais; muitos foram lidos e reverenciados em seu tempo, por um motivo ou outro, e entraram para a lista dos esquecidos completamente; outros produziram uma ou outra obra que pode aparecer em alguma lista, mas nunca conseguiram repetir a façanha do livro um pouco acima do mediano; poucos, estão ali com obras de 50 anos atrás e que ainda são razoavelmente lembradas e muito, muito poucos, podem ser colocados na lista de autores que construíram uma obra relevante, coesa, para além de seu tempo, seu ego, seu narcisismo, sua carência, seu umbiguismo.

Não é fácil.

E não há como prever, neste instante. Somente a próxima geração vai eleger o que vai sobreviver mais um pouco. E assim sucessivamente. Muitas variáveis atuam sobre esse cenário, desde prêmios a momentâneas ondas que reverberam neste ou naquele tema, sexo, doença, espiritualidade, crime… Um ponto interessante, para ampliar o debate, é o papel das editoras na avaliação do original, que antes parecia ser mais rígido, até mais invasivo, na intenção de melhorar o resultado final. Mas essa também é outra história.

The Academic Dr. George Steiner at his home in Cambridge, England. 6th May 2013

George Steiner, que acha que existem livros demais sendo publicados – sem critério.

 

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Uma obscura influência musical de Nick Drake e Nick Cave

É possível que você nunca tenha ouvido falar em Jackson C. Frank. Autor de um único disco nos anos 1960, o cantor/compositor praticamente sumiu gerando curiosidade, indignação e lendas sobre sua figura loura, meio etérea, fantasmagórica. O sujeito era azarado, deprimido, meio doido, traumatizado e alcoólatra. Foi a maior influência de Nick Drake. No disco em que Nick Cave mostra algumas de suas influências (incluindo um Chitãozinho e Xororó rápido), “The Boatman´s Call”, chupa a capa do único disco de Frank.

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O disco de Frank foi produzido por Paul Simon, que achava que o maluco seria o novo Dylan; junto com o parceiro Garfunkel, gravou “Blues Run the Game”, a canção. Nick Drake também a gravou, em uma sessão de “Five Leaves Left”, além de outras canções de Frank. Uma busca pela canção no YouTube mostra que diversos artistas a gravaram, entre eles Sandy Denny, Laura Marling, John Mayer, Bert Jansch, Mark Lanegan entre outros – e existem vários covers. Al Stewart e Lou Reed eram fãs de Frank. E a atenção ao músico cresceu nos últimos anos por conta de uma biografia elogiada, de um documentário que está sendo produzido, e da utilização de suas canções em filmes como “Inside Llewyn Davis” (que pode ter Frank como inspiração para o personagem), “Martha Marcy May Marlene”, além de séries de TV, como “This Is Us“.

Antes de contar rapidamente sua história, vale a pena ouvir sua melhor e emblemática canção em sua própria voz:

Pois é. Nascido em Buffalo, New York, em 1943, Frank era um garoto comum. Quando tinha 11 anos, o colégio onde Frank estudava pegou fogo. Quinze de seus amigos morreram, incluindo Marlene, sua namoradinha – ele a homenageou em uma canção depois. Frank teve 50% de seu corpo queimado e passou meses no hospital, em recuperação. Ganhou um violão e começou a tocar. Ficou fã de Elvis Presley e foi visitar Graceland com a mãe, que fez uma foto dele com o ídolo. Nascia o desejo de ser músico profissional.

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o Rei e Frank

Dez anos depois do incidente na escola, atingindo a maioridade, Frank recebeu um cheque de mais de cem mil dólares (cerca de meio milhão em dinheiro de hoje) de indenização pelo incêndio – e decidiu se mandar para a Inglaterra. Usou o dinheiro para produzir seu primeiro e único disco por lá, com a ajuda de Simon. Não foi fácil gravar o disco, ele sofria de ansiedade e era muito tímido, tendo que se esconder atrás de biombos para poder cantar e nunca ficava satisfeito com o resultado final. Em um ano, todo o dinheiro tinha acabado e ele voltou para os EUA. O disco não aconteceu e ele entrou em depressão severa.

Nos EUA, casou com Elaine Sedgwick, prima de Edie, e teve dois filhos.Um deles morreu de fibrose cística, o casamento acabou, e ele ficou realmente desequilibrado, tendo que ser internado em uma instituição.

Como o melhor período de Frank havia sido na Inglaterra, ele achou que devia voltar para lá, mas nada era como antes. De volta aos EUA, sem dinheiro, virou morador de rua, tendo sido atendido em várias instituições. Um dia, sentado num banco de praça em Queens, uma bala perdida atingiu seu olho esquerdo. É mole?

Com a ajuda de parentes e amigos, viveu seus últimos dias tentando controlar a esquizofrenia, o trauma da infância, a frustração com a música, a insatisfação com os relacionamentos, a incompreensão dos pares e a depressão, a angústia, a obesidade e a cegueira. Morreu em 1999, esquecido, aos 56 anos.

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Agora, quem sabe, Jackson C. Frank esteja sendo resgatado do esquecimento.

Aqui, o trailer do documentário que está prestes a ser lançado.

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O Brasil em Nick Cave

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Nick & Viv.

No início de 1993 fui até a Santa Efigênia, em São Paulo, buscar uns equipamentos para a emissora de TV em que trabalhava. Estava com meu chefe Ginel Flores. Andando por ali, parei num camelô que vendia CDs e encontrei o “Henry´s Dream”, do Nick Cave – que eu não conhecia, só tinha ouvido falar. O camelô abriu um sorriso e disse:

– Eu tinha uma loja na Galeria do Rock e esse cara não sai de lá, ele mora aqui na Vila Mariana. Ele não fala português e o pessoal lá zoa ele, chama ele de Chitãozinho.

O apelido era por causa do cabelo do músico, parecido com o do sertanejo, repicado em cima e com mullets gigantes.

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– Nick Cave mora em Sampa?

Foi quando fiquei sabendo.

Levei o CD, que é um dos meus preferidos dele até hoje. Depois comprei tudo, li o que pude sobre ele, e fiquei atento.

Em meados de 1989 era impossível ficar incólume a Chitãozinho e Xororó. A dupla estava em todos os programas de TV, tocava incessantemente no rádio, podia ser vista em outdoors de propaganda de seus shows e, para quem vinha do exterior, parecia representar uma unanimidade nacional. Foi quando Nick Cave chegou ao país para morar com Viviane Carneiro, que tinha conhecido um ano antes, quando os Bad Seeds vieram tocar aqui. Ela estava grávida e Nick se desintoxicando de heroína – acharam que viver no Brasil seria bom para o processo. O jornalista Pedro Alexandre Sanches diz que o casal morou na Vila Madalena, mas um cara, numa fila de cinema em SP, me disse que foi vizinho de Nick em Vila Mariana, corroborando o camelô.

Era dezembro de 2000 e eu estava em SP visitando um amigo com minha filha Isabelle, então com oito anos. Fomos ver Fuga das Galinhas em um cinema de rua, não me lembro qual, tínhamos entrado em uma loja de discos antes, eu tinha comprado alguns, e na fila dos ingressos, tirei o “The Boatman´s Call” da sacolinha para dar uma olhada. Um cara, mais ou menos da minha idade, com um garoto de uns dez anos, olhou para o disco por cima dos meus ombros e disse:

– Fui vizinho dele, fomos pais mais ou menos na mesma época, vivíamos conversando sobre paternidade e tal…

Infelizmente, a fila andou rápido e não pude falar mais com o sujeito. Me lembro só de ele ter dito que Nick ficava muito em casa e gostava de entrar em igrejas para ver os cultos, às vezes Viviane ia junto, achava que era evangélica. “Meio doida, mas evangélica”.

Aparentemente, a rotina de Nick era discreta, alternando idas à Galeria do Rock, a pé, parando em botecos no caminho, onde apreciava os salgados e cervejas Antarctica – quando foi assaltado duas ou três vezes (não guarda ressentimentos); em casa escrevendo e cuidando do filho, Luke; e, eventualmente, indo a casas noturnas, como o Espaço Retrô.

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Nick usou alguns desses lugares que conheceu, assim como prostitutas, travestis e gente da noite paulistana no videoclipe de “Do You Love Me”, rodado aqui.

Ele gravou “The Good Son” no Cardan Studios, em São Paulo, em 1989, o disco foi lançado no ano seguinte. A faixa de abertura é “Foi na Cruz”, assim mesmo, em português, com trechos do clássico cristão de mesmo nome, de Luiz de Carvalho, gravado em 1958, no primeiro disco gospel brasileiro, muito tocada em cultos da Assembléia de Deus. Ouça:

“The Good Son” tem outras canções de inspiração “tradicional” ou folclórica. Há tempos Nick vinha reescrevendo coisas assim. “The Good Son”, a canção, por exemplo, é baseada num spiritual chamado “Another Man Gone Done” e “The Witness Song” tem base num gospel chamado “Who Will be a Witness”. No período que Nick passou no Brasil, ele escreveu muito material desse tipo, que seria gravado em discos seguintes. Por exemplo, “When I First Came to Town”, de “Henry´s Dream”, é decalcado da canção tradicional “Kathy Cruel”; “Stagger Lee”, “Henry Lee” e “Crown Jane”, de “Murder Ballads” são quase versões literais de canções tradicionais. Esse disco tem uma cover de Bob Dylan e algumas pessoas entendem que o disco anterior de Nick, “Let Love In”, foi quase todo inspirado em canções de Dylan – tese na qual acredito.

O fato é que Nick fez uma versão para “Fio de Cabelo”, de Chitãozinho & Xororó. Ele gostou da ideia da canção e a reescreveu, dando o nome de “Black Hair”, gravada no disco “The Boatman´s Call”.

“The Boatman´s Call” é um disco com muita homenagem, reescrita e chupação. Por exemplo, fã de Leonard Cohen e de Lou Reed”, Nick começa “There is a Kingdom” com a frase “Just like a bird” emulando Cohen em “Bird on the Wire” e com uma melodia simplesmente chupada de “Perfect Day”, de Reed. Interessante que Nick diz que esse disco o remete a Viviane Carneiro tanto quanto a PJ Harvey, com quem ele teve um namoro e de quem levou um PNB.

Muita gente acha que o disco seguinte, “No More Shall We Part”, é uma espécie de continuação de “The Boatman´s Call”, mas, na verdade, o disco marca uma guinada e aponta para uma nova fase da carreira de Nick, com letras mais elaboradas, distância das canções tradicionais, autenticidade, originalidade. “No More…” é o décimo-primeiro disco de Nick, gravado quatro anos depois do anterior.

Depois tudo ficou ainda mais interessante. images

Voltando um pouco, Nick ficou por aqui entre fins de 1989 e 1993, voltando duas ou três vezes e, depois, levando Viviane e o filho Luke para Londres. Separaram-se, Viviane é psicoterapeuta lá e Luke é casado com uma jornalista esportiva.

Em 1994, Nick deu uma entrevista para a Hypno Mag onde não falou exatamente bem do país. Deve ser por isso que demorou quase 30 anos para voltar.

Mesmo que as coisas não tenham mudado muito por aqui.

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Nick & Luke.

UPDATE: doc interessante com imagens de Nick em SP, indicado nos comentários por César 🙂

 

 

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